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INICIAÇÃO À BOURDIEU. – PARTE 5 (FINAL) – 8) O fundamento do belo. 8.1) A Arte na Grécia antiga. 8.2) A Arte nas idades média e moderna. 8.3) A proposta de Bourdieu.





Iniciação à Bourdieu. – Parte 5 (final) – 8) O fundamento do belo. 8.1) A Arte na Grécia antiga.
 8.2) A Arte nas idades média e moderna. 8.3) A proposta de Bourdieu.



8) O fundamento do belo.



A obra de Bourdieu mais polêmica dentro das ciências sociais tem como título “As regras da Arte”, foi nela onde o autor mais conseguiu provocar de maneira positiva, estimulando seus adeptos a continuar pesquisando, e provocar todos aqueles que, de certa maneira, são herdeiros de uma forma “espontânea” de pensar, entendendo espontaneidade enquanto idiotice de pensar, porque o autor ao invés de ofender as pessoas diz que são dotados de um pensamento espontâneo, isto é, pouco adestrado pelos rigores do pensamento científico.

Essa obra tem por objeto a arte, a beleza, a estética, com ênfase na literatura. Em seu bojo Bourdieu demonstra-se absolutamente convencido que os campos de produção cultural são extremamente ricos para o estudo do sociólogo porque são aqueles que melhor conseguem esconder e travestir as verdadeiras molas propulsoras de seu funcionamento, em outras palavras, esses campos são aqueles onde o pesquisador deve escavar mais profundamente para encontrar os verdadeiros interesses daqueles que ali atuam, se manifestam, para só assim encontrar os verdadeiros troféus e estratégias de conservação e dominação próprias daquele espaço. Falando de outro modo, comparando o campo literário com o político, é possível dizer que qualquer pessoa percebe que os profissionais deste segundo campo mentem quando dizem agir em nome da humanidade ou pelo bem de sua nação, aqui é mais evidente afirmar os agentes agirem em nome de seus próprios interesses, e a estrutura deste espaço é facilmente percebida e perceptível por qualquer indivíduo. Por outro lado, o campo da literatura é diferente, afinal existe na manifestação cultural do escritor um distanciamento bastante significativo daquilo que realmente pretende com aquilo, não é automático, fácil ou imediatamente perceptível o que de fato estrutura e organiza o funcionamento deste espaço. Assim um profissional da política estaria muito mais propenso a admitir só pensar nele mesmo e em sua libido política do que o profissional literário. É até possível dizer que o profissional da literatura é muito mais cheio de illusio sobre a natureza nobre de seu fazer do que o profissional da política, daí o interesse particular por esse tipo de campo.

Para chegar à arte em Bourdieu é preciso situá-la em um espectro mais amplo, fazendo uma varredura, para tentar entender onde esse autor se encaixa, pois trazê-lo de paraquedas do nada seria blasfemar contra a história das ideias, o que significa negar sua origem e de onde elas vêm propriamente, afinal o pensamento de Bourdieu não foi tirado do nada, e se ele conseguiu expressar tudo que disse, tal fato ocorreu, em grande medida, por ser leitor, crítico, aliado, inimigo de muita gente, portanto toda investigação de contexto das ideias é sempre profícua para entender o posicionamento deste ou daquele autor.

Existe um senso comum sobre a arte que permite as pessoas irem à Bienal e saírem de lá dizendo que um carro vermelho cheio de pães franceses em seu interior é ou não uma obra artística. Na vida em sociedade, paraíso do pensamento espontâneo, as ideias do senso comum circulam com muita fluência. Nesse contexto as pessoas costumam dizer que arte ou gosto artístico não se discute, no entanto, é só sobre gosto que cuida uma discussão, em outras palavras, no senso comum é bem possível ser encontrado debates acalorados sobre a qualidade do filme que acabaram de assistir, mas não será encontrado, por exemplo, debates acalorados sobre a pertinência do princípio de Arquimedes à luz do olhar de Einstein. Assim toda vez que a sociedade diz que algum fato não se discute, como política, religião e futebol, por exemplo, significa dizer que é exatamente sobre esses assuntos o objeto da discussão. Toda negação é uma denegação, pois visa ocultar uma afirmação e, portanto, são tais fatos que aqueles os discutidos. Os agentes sociais podem dizer que seus gostos incompatíveis são o que são, indiscutíveis, mas o que se quer dizer ali é exatamente o contrário, ou seja, aquele gosto é um espetáculo ou carece de classe.

Dentro dessa perspectiva a história do pensamento caminha soberana fazendo pouco caso das manifestações do senso comum. Só quem se interessa pelo senso comum é o cientista social. Como o objeto das ciências sociais cuida do estudo do que hoje é o passado, a história do pensamento social caminhou soberana, tornando difícil compreender o que as pessoas achavam no senso comum das ruas sobre o que arte queria dizer.

8.1) A Arte na Grécia antiga.

Para os gregos a arte é um microcosmo, o que quer dizer, uma representação, tradução, materialização em um pequeno pedaço de matéria do cosmos inteiro (macrocosmos), em outras palavras, a obra de arte é arte na medida em que coloca palpável, visível, perceptível para qualquer um o cosmos grande, diferentemente perceptível por quem quer que seja. Existe na arte, como já ensina Aristóteles, uma ideia de representação, de “estar no lugar de” (simbologia), mas não se trata de estar no lugar de qualquer coisa, mas sim de estar no lugar do universo ordenado, da harmonia cósmica, portanto, a arte, para os gregos, era tida como a harmonia cósmica, traduzida em miniatura, para que as pessoas que não são capazes de enxergar o cosmos como um todo, possam ter uma ideia de como ele é, em tradução menores, mais restritas, e assim por diante.

Sendo assim, é possível concluir que o critério da obra de arte, da artisticidade da manifestação humana, cuida ser um critério objetivo cujo fundamento está no macrocosmo, na objetividade do universo. Assim uma obra de arte é arte independentemente de o receptor tê-la gostado, sentido ou comprado, porque o que importa nela é a representatividade, no tamanho pequeno, do que é o cosmos, no tamanho grande.

Se a arte é transformar o grande no pequeno, e o critério é objetivo, o que uma obra de arte tem que ter trata de escala, proporção, simetria, critérios típicos da matemática. A beleza da obra de arte está na sua capacidade de registrar certa proporcionalidade que, sem ela, seria difícil de perceber. A obra de arte, portanto, tem certa condição de registrar a harmonia universal que sem ela seria difícil de perceber.

O critério, portanto, é estritamente objetivo, para deixar claro, perceba, do lado do receptor não importa se ele gostou ou não, do lado do artista não importa quem ele é. Tanto é assim que, na produção artística tradicional, o nome do artista não tem muita importância. Em sociedades tradicionais as obras de arte são arte por ter critérios objetivos de artisticidade, portanto quem a assina não tem a menor importância. Aqui a subjetividade, singularidade e especificidade do artista não tem a menor importância, porque o critério da obra de arte não está em que faz, mas em como é feito, no que é feito e qual é o propósito daquilo feito. O propósito da obra de arte no pensamento grego é claramente pedagógico, instrutivo, através da proporcionalidade do pequeno em relação ao grande que é através do pequeno que se entende como o grande funciona.

Existe uma objetividade da beleza. Tanto a beleza quanto a arte são uma questão de imitação do universo, portanto, não interessa muito quem fez ou quem contempla, existe uma objetividade do critério artístico, da beleza, ela independe de variáveis subjetivas no pensamento grego, nada tem a ver com gostar ou desgostar, assim como nada tem a ver com quem gosta ou deixa de gostar.

8.2) A Arte nas idades média e moderna.

Nesse período ocorreram dez séculos de arte religiosa. Antes dele arte era a materialização em um pedaço de matéria de uma realidade ideal que o homem considera importante e preza. Normal que a arte seja uma tradução do cosmos. Depois que surge um deus transcendente, sendo ele o que importa, cria, faz, razão de ser de tudo e todos, claro que a arte, ao invés de ser a materialização do macro em um espaço pequeno de matéria, advém a ser a materialização em um espaço pequeno de matéria desse deus transcendente.

Na modernidade o homem toma rasteiras que lhe complicam a existência de todas as formas. Quando era perguntado ao grego sobre o justo, a resposta que surgia relacionava-lhe com o belo, porque justo era o ajuste da conduta no todo cósmico, e  belo, idem, um ajuste da conduta no todo cósmico. A justiça e a beleza são a mesma coisa. Na modernidade o homem perde o cosmos com a revolução científica, assim o universo deixa de ser considerado ordenado, como consequência surge outras perdas, sendo elas: primeiro, da realidade a ser conhecida, segundo, do fundamento da justiça da ação, terceiro, do fundamento da beleza dos corpos. Perdendo o cosmos, o homem ficou sem o conhecimento moral e a beleza com uma tacada só. Para os gregos o cosmos era ordenado, daí se depreende que a conduta justa, o conhecimento e a verdade têm relação com a harmonia cósmica, sem um cosmos os três são perdidos também, em outras palavras, não mais é sabido como conhecer, o que se conhece ou desconhece, é justo ou injusto, belo ou feio. Nesse momento histórico não há mais nenhuma ideia do que é belo ou obra de arte, porque sendo ela, antes, a tradução em pequeno da ordem macro, agora não existindo o macro, será traduzido em micro o que?

Do ponto de vista religioso a reforma não ajudou, porque no mesmo momento em que Copérnico, Galileu, Newton colocam em questão a cosmicidade do universo, as reformas colocam em questão o monopólio da exegese legítima do além, o que deixa a humanidade sem referência. Assim a pintura holandesa, pela primeira vez, coloca o homem enquanto objeto de arte, no lugar de ordens cósmicas e figuras divinas surgem pessoas ordinárias, mulheres obesas, homens contemplando peitos, mulheres lendo romance, não a bíblia e etc., elemento libertador, pela primeira vez o cotidiano era retratado na obra de arte.

Todas essas transformações não vieram por acaso. O homem, ao se dar conta que precisava entrar em um acordo, tanto para decidir o certo e o errado da vida, bem como o conhecimento sobre as coisas usando métodos legítimos e ilegítimos, ele usará dessa mesma perspectiva para refletir sobre o belo, assim existe um processo de subjetivação da arte e beleza que é absolutamente fundado pelo pensamento cartesiano. Cabe ao homem decidir sobre o conhecimento, a moral e a estética, porque o fundamento da beleza que lhes transcende ruiu. No que tange ao conhecimento, o método grego consistia na contemplação. Nesse sentido a verdade já estava imanente às coisas do mundo, bastava ao homem olhar para que ela saltasse de dentro do universo, porque para o grego o universo é ordenado (theion), sendo assim é lógico (logos), portanto divino (cosmos), na ideia de alinhamento. Quando o homem moderno descobre que o universo não é ordenado, lógico, nem divino, começa a se indagar como conhecer o mundo, nesse sentido delibera ele mesmo como construir o conhecimento estabelecendo o nexo de efeito. Se o conhecimento e a moral são deliberações humanas, da mesma forma essa regra se aplica à beleza.

A palavra estética surge dessa concepção, na ideia de sensibilidade. Embora seja uma palavra grega, a beleza só passa a ser uma questão de sensibilidade a partir do século XVIII, pois para os gregos a beleza era uma questão cósmica, não dos sentidos. Assim a partir de agora a beleza cuida daquilo que agrada aos sentidos do homem, sua subjetividade, e a obra de arte será arte exatamente na medida de critérios que serão doravante subjetivos. Exemplo: em uma exposição imaginemos ali presente um carro vermelho com muitos pães dentro dele. Na Grécia antiga, para alguém ter razão dizendo que pães e carro não é arte deveria argumentar do porque eles não teriam relação com a ordem cósmica. A partir de Copérnico, Newton e Galileu o que se define enquanto arte ou não trata daquilo que o homem concorda.

Em relação aos gregos, na modernidade podemos assistir a dois tipos de revolução: a do receptor e do emissor. No caso da obra de arte a revolução quanto ao emissor se refere ao artista; quanto ao receptor se refere ao expectador da obra de arte. No que diz respeito ao receptor, o estudo da beleza se traduz na teoria, tipicamente moderna, do gosto. No que respeito ao artista, a produção artística do emissor se traduz na teoria, tipicamente moderna, do gênio.  

O artista moderno não trata daquele sujeito anônimo que fazia micro aquilo que é macro, contentando-se em explicar a ordem universal em um pedaço de matéria. A primeira ideia moderna surge colocando o artista como alguém cuja sua identidade importa na arte, em outras palavras, na hora de discutir o que é arte e beleza a pessoa que fez a obra de arte começa a importar e muito! Na idade média era plenamente possível ouvir músicas sem saber os artistas que lhes produziram, pois ele não importava propriamente. Dependendo da sociedade, a figura do artista é tranquilamente anônima ou então a pessoa do artista passa a importar. É importante perceber que a modernidade não é um estágio da civilização que surgiu de uma só vez em todo o mundo, pois existem sociedades primitivas até hoje, e o que lhes caracteriza é o fato do artista não ter importância, a passagem para a idade moderna caracteriza o fato da pessoa do artista começar a importar. Com o giro antropocênico a comicidade do universo terminou e Deus foi avacalhado pelos exegetas de plantão, então é claro, passa a valer o homem, daí em diante quem o artista é passa a ser relevante, sendo esse o primeiro passo da teoria do gênio.

Nas sociedades primitivas tradicionais a obra de arte tinha como método oficial a imitação, a nêmeses, o plagio perfeito em identidade, coincidência e semelhança entre as obras de arte, em outras palavras, era valorizada a conservação, produzir o mesmo do mesmo, igual a quem já produziu, sendo a identidade do artista que a produziu irrelevante. Na modernidade surge uma inversão radical dos processos, em outras palavras, o artista passa a importar, ser valorizado, mas não pela sua capacidade de imitar, mas sim pela sua capacidade de inovar, fazer diferente, ser inédito, produzir o que ninguém tinha feito; o nunca antes imaginado, a contrário senso, em sociedades primitivas inovar era tido como subversão, objeto de punição e até morte, nas sociedades contemporâneas o plágio não é aceito e a inovação é o fundamento da arte propriamente, trata não só de inovar em relação aos outros como em relação a si mesmo, presente por uma obsessão de fazer diferente. Inclusive tal obsessão saiu do mundo da arte e contaminou o mundo da técnica. Assim essa perspectiva da inovação passa a ser critério fundante do pensamento artístico moderno.

Immanuel Kant tem uma definição de gênio enquanto aquele que não segue escola alguma, mas que funda uma escola própria; aquele que não é herdeiro de ninguém, mas deixa herança; aquele que não tira o seu dos outros, mas fornece para todo mundo; aquele que rompe e depois mantém continuidade; aquele que não segue, mas faz doutrina, não segue estilo, mas fabrica jeitos de fazer, consolida estilos. Essa ideia está impregnada no senso comum, não é à toa que Kant é o pai do senso comum, estava ele convencido ser um gênio, aquele que faz diferente e todo mundo imita. Nessa ideia o fundamento da genialidade está em atributos pessoais do artista que, de certa maneira, estão em ruptura com eventuais causalidades materiais que lhe tivessem determinado. A definição do gênio kantiana trata da própria definição do idealismo, pois se alguém afirma suas obras enquanto decorrentes de seus professores, ele acabou de dizer que não é gênio, mas um subproduto do azar escolar que foi submetido, por outro lado, se esse alguém afirma nunca ter tido professores bons, nem ninguém que se prestasse a lhe ser modelo ou ajudá-lo, mas, apesar de tudo, eis ali perfeito, maravilhoso, é um milagre, assim gênio é um subproduto de uma ruptura milagrosa encantada entre as causas materiais do mundo e o resultado espantoso daquele fulano.

Entender isso é importante, afinal quando Bourdieu faz sua sociologia ele odeia essa ideia de gênio, produzindo um texto completamente antikantiano. Esse autor não se colocou enquanto um gênio, mas estabeleceu sua sociologia enquanto a única que poderia ser, afinal se fosse outro que ali estivesse em seu lugar faria a mesma coisa que ele fez, a resistência popular a esse pensamento reside na ideia de que é bem mais bacana acreditar que existem pessoas que conseguem ir além da mais estrita materialidade, somos assim bestas, acreditando que é possível transcender.

Aqui temos um primeiro lado da revolução: o artista deixa de ser um anônimo, imitador, plagiador e reprodutor de coisas transcendentes e passa a ser o cara! O inovador, o revolucionário, o impressionante, porque ele, por ser gênio, consegue ser o que nenhuma causa material poderia explicar. Na obra de Bourdieu a palavra genialidade aparece muitas vezes em tom de chacota.

Por seu lado o receptor, no pensamento grego, não tinha a menor relevância, ou seja, o expectador da obra de arte poderia até não existir, ele é tão irrelevante que, estando ou não presente, sua opinião nada conta, afinal o fundamento da arte não está nele, mas sim no cosmos. Com o fim da hecatombe cósmica e o giro antropocênico surge o receptor levantando seu braço, passa a ser levado em conta. Sendo o monopólio daquilo que é belo estabelecido por deliberação humana não há dúvida que, a partir daí, a arte passa a ser alguma coisa que depende da aprovação do outro. Da mesma forma que Descartes precisou combinar conosco a existência de certo eixo X, sob uma forma, e certo eixo Y, sob outra, estando eles em torno de um ponto P, sob pena desse ponto estar à deriva no infinito silencioso, surge que, no momento da definição de arte, tal entendimento conosco também se tornou relevante. Mas o que significa esse entendimento? O artista faz e o destinatário aprecia. Como trata ser um entendimento, a opinião deste segundo é relevante.

A partir daí surge um problema: os critérios subjetivos do belo e do artístico. Porque afinal de contas se o receptor importa nessa definição conjunta daquilo que é bonito e artístico, tal acerto parte de onde? Para responder essa pergunta surgem 4 soluções, que classifico assim: o classicismo racional 100% francês; a estética empirista sensorialista inglesa, que encontra na França a expressão “estetic de la delicatese”; a de Kant e a sociológica. Claro que no interior de cada uma delas existem classificações, mas a maneira de pensar é comum.

A)      No classicismo racional: o belo é a tradução, em um pedaço de matéria, de uma ideia, entendida pelo homem, como verdadeira. Nessa ideia a maneira mais nobre para traduzir o belo em um pedaço de matéria se dá pelas figuras geométricas. A figura geométrica sempre foi entendida pelo homem como a forma mais perfeita de representação da verdade. Aqui só o verdadeiro é belo, amável e artístico. Mas porque razão só o verdadeiro agrada e as pessoas concordam tanto com o que é belo? Da mesma forma que Descartes afirmava a razão sendo mais ou menos distribuída entre todos, por isso estando eles capazes de entender o que é o verdadeiro, também serão capazes de gostar daquilo que representa tal verdade, como é o caso do Jardim de Versalhes, exemplo de produção artística da solução estética classicista propriamente, cuja ideia é de haver, através da tentativa de tradução de uma ideia verdadeira, a condição da beleza e da obra de arte. Também é possível encontrar uma teoria clássica do belo na música, desde que se tenha a pretensão de fazer música para traduzir por meio de ondas sonoras uma ideia considerada verdadeira, a forma típica desse jeito de pensar surge por um sujeito de nome Ramon. A pretensão de Ramon era fazer uma música matemática, que traduzisse a verdade, porque só ela que poderia conseguir aquilo que é o desejo de todo artista: a universalização de uma ideia de beleza por ele materializada e traduzida.

B)       Na estética empirista sensorialista inglesa: No lugar de agradar o destinatário da obra por ser verdadeiro, racional, lógico, fazer sentido e lhe convenceu, essa segunda solução agrada seus sentidos corporais, inclinações, apetites, excitações, dinamismo. A estética sensorialista inglesa, portanto, agrada o destinatário, mas não por via da verdade, mas sim pela via do prazer, alegria do corporal. É bom e bonito aquilo que alegra. Tanto a moral como a estética é uma questão de alegria do receptor. Nessa ideia é belo aquilo que produz um alegramento junto ao receptor. Quando diz não ter gostado de algo, certo receptor abriu a possibilidade de outro ter gostado. Nessa solução surge uma dificuldade: se os homens têm corpos tão diferentes, sendo o belo uma questão de fazê-los experimentar sensações agradáveis, considerando tudo enquanto uma questão de alegria, como justificar tantas coincidências, hegemonia, proximidade e unanimidade de gostos? Para os gregos responderem a essa questão não haveria problemas, afirmariam que a beleza está naquilo que melhor representa a harmonia cósmica em face de outro objeto que não representaria tão bem tal símbolo, nesse sentido todo mundo coincidiria em sua opinião por ser um dado objetivo da realidade. David Hume apresenta uma solução em resposta, afirma que, embora os homens sejam diferentes, para poderem experimentar o mundo todos usam dois olhos, nariz com duas fossas, boca, dedos, assim contam com os mesmos instrumentos, razão pela qual é normal que concordem sobre a beleza das coisas, nesse sentido a origem da concordância está justamente na pouca diferença da competência sensorial de cada receptor da obra de arte. A natureza dos homens é igualmente limitante da observação do mundo, por isso que são concordantes na hora de decidir sobre o que é belo. Também afirma Hume a existência de dois ou três homens excepcionais que são particularmente mais talentosos para sentir coisas do mundo, são pessoas especiais, naturalmente talentosos para ter sensações, por isso que, no concreto, a maioria das pessoas termina sentindo as mesmas coisas enquanto belo. A origem da padronização estética está na padronização da bifocalidade ocular.

C)       A proposta de Kant: o belo não é nem o verdadeiro nem o aprazível, mas a reunião furtiva e inesperada de ambos. Kant quis dizer existir beleza toda vez que a realidade na sua crueza real parecer fazer sentido e for aprazível para quem a observa. Exemplo: No momento de uma contemplação do céu surge uma nuvem que o sujeito percebe parecer com a forma do coelho, ninguém fez a nuvem ter tal forma, representa ela uma crueza do real, a nuvem é o que é, mas, em sua percepção, o sujeito percebe ali um sentido, claro que não é verdade, mas para ele parece fazer sentido. Quando a realidade parece fazer sentido, e o sujeito se encanta com essa aparência, está ele diante de um objeto belo. A beleza é uma combinação do estético, sensível, e do racional, significativo, em outras palavras, não é qualquer prazer que tem origem na beleza, mas é o prazer decorrente de um sentido ou significado que atribuímos às coisas do mundo. Exemplo: quando é lido um romance, sendo-lhe atribuído algum sentido que encanta, será uma obra de arte, belo. Existe na perspectiva da beleza kantiana uma componente racional de sentido e significado de uma componente empírica sensorial que é a alegria que significado proporciona. Como sempre Kant tenta conciliar o racionalismo, no caso da estética do classicismo, e o empirismo, no caso da estética do sensorialismo. Não há como ter beleza se não houver juízo racional, isto é, atribuição de sentido, e alegria com ela. Não pode a beleza ser apenas uma questão de verdade, razão, ou prazer sensorial, é preciso que haja os dois.

D)       A proposta sociológica: O fundamento do belo está no homem social, enquanto exercício de poder. Proposta melhor analisada no tópico seguinte.

8.3) A proposta de Bourdieu.

A definição do que é arte não é nem uma questão de verdade, nem de sensibilidade, nem de sentido ou cósmica, mas tal definição é um fato social, portanto, dependendo da sociedade em que o pesquisador se insere o belo e o feio serão resultado de enfrentamentos, lutas de agentes mais ou menos autorizados a participar dessa definição.

O campo artístico, de uma maneira geral, é constituído de vários subcampos, portanto, a definição da arte legítima, ou seja, daquilo a ser considerado de bom gosto ou genial, não tem muita relação com os atributos objetivos desse ou daquele agente social, mas sim está relacionado com as condições sociais onde tal agente se encontra para apresentar suas manifestações e, paulatinamente, conseguir um capital que é propriamente artístico. Também está relacionado com o reconhecimento dos seus pares e daqueles que estão autorizados a reconhecer uma obra artística legítima, razão pela qual não se consegue propriamente discutir o que é uma obra de arte legítima, por exemplo, uma pintura, como sendo um grande quadro, se não for levado em consideração:
- a posição social ocupada no campo social pelo agente social que pintou o quadro.
- o reconhecimento dessa posição social ocupada por pelo agente que pintou o quadro, e, portanto, por tabela, da manifestação daquele pintor, naquele momento histórico.

Claro está que o campo social não é um espaço de conservação absoluta, assim contendo estratégias de subversão que, na arte, costuma ganhar nomes diferentes, dependendo de onde o pesquisador está observando. Quando surgem maneiras de fazer arte que não são as dominantes em um determinado momento, elas sim se enquadram em uma lógica de campo social como subversivas e, evidentemente, enquanto tais, assim poderão pouco a pouco ganhar capital social, tornando-se cada vez mais legítimas, dessa maneira aquilo que antes era considerado subversivo tornar-se-á conservador. Assim quando Bourdieu estuda a alta costura, como uma forma particular e privilegiada de manifestação artística própria dos franceses, vai nos mostrar as múltiplas estratégias que só são compreensíveis dentro de uma lógica de campo social, em outras palavras, a roupa que a modelo está vestindo no SPFW não tem por razão explicativa a genialidade do costureiro, mas as necessidades sociais que levaram ele, seja a conservar como todo dominante sabe fazer, ou seja a subverter como é o que resta a quem não tem legitimidade e capital social naquele campo. O valor social da moda só é compreensível dentro de um jogo, em um espaço de relações complexas entre os agentes sociais, sempre mutável, cambiante, à mercê de mutações e modificações que obedecem a uma lógica que poucos são que dela participam. Para a maioria das pessoas que assiste a um desfile de moda, ali parece haver a amostra de roupas inusáveis, normal, seus palpites de nada valem naquele campo social, portanto, o que acham do desfile é socialmente desprezível, pelo fato de não serem agentes sociais qualificados a participar da definição, sempre provisória, da arte legítima, nobre, de bom gosto, produzida por artistas geniais, de primeiro time, dominantes do campo social.

Dentro dessa perspectiva, somente através de uma análise das disputas poderosas de poder entre os artistas que se torna possível o entendimento da verdadeira razão da produção artística. Existe uma tendência dos intelectuais a estudarem a obra de arte por ela mesma, o que trata de ignorar sua natureza social e desconhecer o único fundamento possível para encontrar valor àquela obra de arte, já que: (1) o cosmo não é mais levado em consideração; (2) a pretensão de dizer que o belo é aquilo que é verdadeiro esbarra em um problema enorme, o fato do homem nunca ter encontrado o verdadeiro, portanto, ter a beleza atrelada à verdade é tê-la atrelada ao nada; (3) a pretensão de dizer que a beleza agrada, faz sentido, desde que se entenda o dito belo na sociedade, não enquanto agradável a qualquer um, porque qualquer um é irrelevante, pois o belo deverá agradar a quem tiver que agradar, por isso, por exemplo, na situação onde um chefe de cozinha vai receber a visita de alguém possuidor de legitimidade social para julgar a sua obra culinária, ali existe toda uma conservação no restaurante, por outro lado, quando esse chefe não recebe alguém legítimo socialmente para julgar sua obra não importa quem vai degustá-la, pois se trata de um desautorizado ilegítimo. Perceba então a existência de um senso prático do jogo, deixando claro, para os artistas, que o valor de sua obra depende do ponto de vista de agentes autorizados, legítimos, portanto, competentes para definir um valor social para sua criação, assim não é a sociedade como um todo que possui tal legitimidade social, mas sim aquele que manda no campo social e detém o poder daquele espaço, em outras palavras, o valor social da arte tem a ver com certo exercício de poder para definir qual é a arte legítima em um determinado momento e lugar, falando de outro modo, a qualidade da obra de arte nada tem a ver com a sua substância, com aquilo que é feito, aliás, esse aspecto a história deixa claro, o que é belo no passado pode ser medonho hoje e vice-versa, nesse sentido, hoje a sociedade brasileira rejeita Tiririca, tal rejeição é apenas o resultado de um certo aprendizado social, histórico, político a que foi submetida, fosse outra sociedade, momentos históricos e situação, esse mesmo Tiririca, que não passa de um trovador, como Paio Soares de Taveirós, seria literatura legítima do mais alto gabardine em 1480, quando este segundo cantou a cantiga da Ribeirinha, e que hoje em dia os estudantes da USP tiveram que aprender para passar no vestibular.

Diante da arrogância do agente social em se considerar autorizado para dizer qual o filme ou o quadro que é ou não arte, perceba que ele só está reproduzindo uma doxa, um entendimento legítimo, não passa de um lacaio do senso comum, uma espécie de capacho dos juízos autorizados do ponto de vista dos legítimos sociais. Exemplo: Sergio Rizzo é um escritor autorizado pela Folha de S. Paulo para julgar um filme, pois quando ele escreve as pessoas leem, portanto existem condições institucionais, sociais e materiais para ele dizer o que pensa, mas seu pensamento não vale mais do que o de outra pessoa, a única diferença é que a sociedade assim o consagrou. Estamos submetidos a uma luta pela definição daquilo que podemos opinar. Quando alguém olhar para o espelho perguntando no que seu ponto de vista importa, e constatar não haver nenhum seguimento em que ele mereça ser considerado, saberá ser ele um indivíduo desqualificado pela sociedade para ser conhecido em sua opinião, mas isso não significa possuir QI baixo, porque os jogos de consagração social de legitimidade transcendem tua força de vontade. Se o Sergio Rizzo, como colunista da folha, estivesse na Escola de Comunicações e Artes da USP e quisesse falar de cinema com os professores dessa instituição, receberia a resposta de que ele não passa de um jornalista presente em um espaço social onde sua opinião de nada vale, pois ali cinema é discutido em outro patamar. Por seu lado, Ismail Xavier, um dos professores da ECA/USP, ministra aula sobre cinema inclusive em Hollywood, indivíduo com renome internacional, fala sobre cinema em um patamar diferenciado, seu reconhecimento surge de sua trajetória acadêmica de mais de 20 anos, ele não conversa com qualquer um sobre cinema. Sergio Rizzo, sabendo disso, fez mestrado e doutorado com Ismail Xavier e agora da aula de cinema na USP, agora sim, Sergio Rizzo se apropriou de outro tipo capital social, portanto não se trata de um simples agente social do campo jornalístico, daqueles críticos de cinema nervosos que batalham entre si, mas ele se dispôs a jogar outro jogo, o do cinema na academia, curiosamente o objeto é o mesmo, mas o jogo é outro. Então perceba que, embora o objeto seja o cinema, é capaz de haver diferentes esferas de consagração de atores e agentes de campo social, para falar em diferentes espaços sobre o mesmo assunto.

Pouco a pouco vamos nos familiarizando na ideia de arte enquanto uma questão social, cujo seu conteúdo não tem valor intrínseco, mas sim político. Exemplo: Adoniran Barbosa, quando pertencia ao grupo “Originais do Samba”, era tido como um músico brega, portanto ocupava a mesma posição no campo da música popular que ocupa os grupos Raça Negra, Netinho, fundo de quintal, Katinguelê. Daí Elis Regina cantou música de Adoniran Barbosa, surgiu que sua música ganhou outro valor, continuou a mesma, mas seu status social mudou, porque Elis Regina contaminou de legitimidade aquela música, fazendo Adoniran Barbosa sair do brega onde ele estava, tornando-se cult, de tal maneira que suas composições não são mais música de empregada doméstica, porque agora se escuta sua música na voz de Elis Regina nas casas mais instruídas do país. Perceba, a música, a letra, continuou a mesma, o que mudou foi o valor social da obra, por conta de uma nova interprete que é legítima e autorizada pelas esferas dominantes. Exemplo 2: Dalto do chacrinha, trata de um cantor do Parque Ibirapuera no período vespertino, de repente suas músicas foram gravadas por Marina Lima, e, de repente, o valor social de Dalto mudou, fazendo-o sumir como Dalto, mas essa música de sua autoria, cantada por Marina Lima, está na memória da história da música nacional, aquilo que ninguém ouviria, isso porque seu valor foi redefinido pela Marina Lima.

Basta mudar algum aspecto social que a mesma produção artística se serve de outro tipo de valor social. Poderia aqui mostrar até o processo inverso: quando a música popular erudita transforma-se em cultura de massa. A rede Globo tentou algumas vezes materializar esse processo como, por exemplo, no caso do boi bumbá ou do boi barrica, folclore brasileiro, cultura de pessoas com alto capital cultural, de tese da USP. Quando a Rede Globo usa o folclore, cultura de especialista, fazendo dele cultura de massa, retira-lhe do culto e entrega-lhe ao popular, massifica o erudito, muda completamente o valor da obra de arte, bastando para tal uma deliberação política de marketing editorial, realizado por duas ou três articulações burocráticas. Nesse sentido o valor da arte dependente do lugar onde ela se encontra e quem está por detrás de suas deliberações, ou seja, dos espaços sociais, agentes responsáveis e assim por diante, em outras palavras, é lindo aquilo que os agentes sociais legítimos consideram lindo, o belo é uma questão de identificação daquele que está autorizado a definir a beleza em um determinado espaço social.

Karl Marx já tinha dito que a questão do belo trata ser uma questão de classe, mas ele está para Bourdieu como a roda está para o carro. A classe social está relacionada com a beleza sim, mas dentro da classe dominante existem fissuras, Bourdieu dirá que, afinal de contas, muito mais importante que burguês e proletariado, trata de perceber dentro das classes dominantes e dominadas determinados espaços muito autônomos de definição do bonito e feio, justo e injusto, certo e errado e etc. Nesse sentido Bourdieu divide os capitais em culturais e econômicos, podendo um grupo social ter muito capital econômico e pouco capital cultural e vice-versa, assim se o pesquisador colocar a classe dominante dentro desses tipos de capitais, ele conseguirá estabelecer um mapeamento de comportamento que deixa claro que uma lógica de classe tem um limite pesado na hora de explicar o comportamento das pessoas. Exemplo: O comerciante de uma loja de carros importados na Mooca, contendo alto capital econômico e baixo capital cultural, ele vai votar na direita, PSDB, por seu lado, o historiador livre docente, contendo alto capital cultural e baixo capital econômico, ele vai votar na esquerda, PT, nunca no Paulo Maluf, não é tendencial, da mesma forma nenhum daqueles comerciantes vão votar no PT. Presente está uma regra social determinista poderosa. No Brasil os políticos não sabem ser escrotos, daí acabam passando a imagem de bizarros quando se posicionam enquanto conservadores contando piada, mas na França existe um político de nome Jean Marie Le Pen, racista de direita, defensor do exílio de todos aidéticos em uma ilha. Nessa discriminação de direita esquerda, por exemplo, em um domingo à tarde, o indivíduo com alto capital cultural e baixo capital econômico  prefere visitar museus, por seu lado, o indivíduo com alto capital econômico e baixo capital cultural prefere jogar futebol e assim por diante.

Os eixos capital econômico capital cultural, relacionados com um reconhecimento de saber e reconhecimento econômico, pouco relacionados com um saber efetivo, melhor relacionados com aquilo que os agentes sociais julgam possuir, são eixos poderosíssimos no momento em que o sociólogo vai estudar os campos sociais. Bourdieu, em sua obra “A distinção, crítica social do julgamento”, realiza muitas perguntas, concluindo que o indivíduo com alto capital cultural e baixo capital econômico tende a comer massa fresca no domingo, enquanto que o indivíduo com alto capital econômico e baixo capital cultural tende a comer pizza.

O Pensamento de Bourdieu é inovador, pois denuncia aquilo que os pensadores espontâneos costumam achar de uma obviedade sem a menor razão de explicar, auxiliando a entender aquilo que é julgado indiscutível por tal obviedade. Nesse sentido Bourdieu prova não só a falta de tal obviedade, como demonstra uma lógica bastante interessante que explica certas situações para o qual nunca ninguém havia prestado atenção: a complexidade da sociedade onde se vive e a maneira como ela trabalha seus agentes sociais. Na festa da democracia, local aonde os agentes sociais livremente manifestam sua vontade no exercício do voto, não passarão eles de um subproduto da socialização que foi a sua própria, porque afinal, seja quem vota à direita ou à esquerda está vinculado a variáveis próprias que não são as suas, é claro, na hora de votar será deliberado tudo, menos o que se queria, pois somos o resultado de nossos próprios processos de socialização.

Dentro dessa perspectiva que é a nossa, na hora de definir as regras da arte, não serão encontradas regras exatamente de como segurar um pincel, tirar fotografia ou pintar um quadro, mas serão encontradas regras que permitem ter sucesso na luta social pelo pertencimento, dominação, subversão no campo artístico e de disposição de capital suficiente para ter voz e legitimidade social para participar da definição do belo em um determinado espaço. Quanto aos espectadores do belo, esses, esperando que os autorizados definam quanto certa obra artística vale, permanecerão do lado de fora, esperando tal definição, para daí conhecerem qual fila vão aderir no cinema, de qualquer forma o valor do filme já está dado, cabe assistir e gostar, afinal de contas, demonstrado gostar, o agente social aparentará socialmente manter bom gosto, inteligência, sensibilidade e mérito de ocupante das posições que pleiteiam se ocupar. Pode também assistir filmes iranianos, assim o agente social se insere no meio de outros agentes que assistem tais filmes, sendo reconhecido por possuir grande capital cultural. Embora todos detestem completamente os filmes que assistem, eles percebem que aquilo é condição de discriminação, distinção, para se definir, e assim viver na sociedade, sendo reconhecido e identificado. Quando o agente social afirma odiar funk, não trata bem de odiá-lo, mas sim de odiar ser reconhecido como funkeiro, porque busca de fato ser reconhecido enquanto alguém sofisticado, fino, melhor gostar dos obetos dessas pessoas que já são reconhecidas, gostam, e dizem que os outros devem gostar também, assim não precisa se preocupar, porque, pouco a pouco, por habitus, vai acabar sendo acostumado a tal prazer de ser um fantoche daquilo que os dominantes decidirem como sendo legítimo para si.

Assim Bourdieu faleceu em 2002, um dos homens que talvez tenham tido a maior lucidez sobre a explicação da vida humana na sociedade sem precisar mergulhar muito na psique nem nos encontros conscientes, bem como nas entranhas, imaginários, estudando apenas relações de poder, sendo o suficiente para elucidar tantos objetos. Se um dia foste ler as obras desse autor vais sentir a dificuldade em assimilar o conteúdo, mas na hora que começares a entendê-las passará a compreender certas circunstâncias do mundo com uma fertilidade grande, afinal seus estudos não se esgotam nos universos que estudou, mas Bourdieu, com sua generosidade, permitiu que seus adeptos se servissem de seus instrumentos para estudar realidades as quais ele não poderia ter estudado por já não mais estar entre os mortais. Assim o conceito de campo social ajuda-nos a entender o campo jurídico brasileiro, a luta do CNJ com o STF, sem que Bourdieu nunca tivesse visitado o Brasil, eis aí a riqueza de seu trabalho, não trata exatamente daquilo que ele concluiu da sociedade francesa, mas sim pelos recursos epistemológicos deixados em legado para algum pesquisador fazer o mesmo que ele fez, e assim descobrir fatos sobre o qual ele não se debruçou.

INICIAÇÃO À BOURDIEU. – PARTE 4 – 7) A LIBIDO NA SOCIOLOGIA DE BOURDIEU. 7.1) A LIBIDO DENTRO DOS CAMPOS SOCIAIS. 7.2) OS RITMOS VITAIS. 7.3) BOURDIEU VERSUS ARISTÓTELES. 7.4 ) EROS E A PHILIA NA ESPECIFICIDADE DOS CAMPOS..



Iniciação à Bourdieu. – Parte 4 – 7) A Libido na sociologia de Bourdieu. 7.1) A libido dentro dos campos sociais. 7.2) Os Ritmos vitais. 7.3) Bourdieu versus Aristóteles. 7.4 ) Eros e a philia na especificidade dos campos.




7) A Libido na sociologia de Bourdieu.




Existe na noção de interesse certa complexidade, sendo ela explicada por Bourdieu a partir de um resgate às concepções filosóficas mais conhecidas, portanto, aqui é necessário um diálogo com elas.

Uma palavra que é muito comum na sociologia de Bourdieu é “eros”. Esse eros encontra seu subsídio mais significativo na obra “O Banquete” de Platão. A primeira situação destacável nessa obra é o discurso de Sócrates, ali eros é apresentado enquanto sendo desejo pelo que falta.

Aqui é importante destacar que não tem como entender a sociologia de Bourdieu senão entendê-la como uma sociologia de agentes sociais erotizados, não é por acaso que eros está sempre presente, em outras palavras, no campo social de Bourdieu existe em circulação uma enorme carga erótica que, de certa maneira,  vai ser chamada por Bourdieu de libido, o fato é que existe ali certa energia erótica disponibilizada pelos agentes sociais para perseguir os troféus do campo social, as metas autorizadas por aquele grupo social.

Na obra “O Banquete” quando Platão, através de Sócrates, apresenta sua definição de amor como sendo o amor erótico, e o eros como sendo um desejo pelo que falta. É muito interessante observar que esse ser desejante, de certa forma, é apresentado como um indivíduo que Bourdieu chama de naturalizado, trata de alguém que não foi submetido em algum momento a certa história e processo de socialização específica dentro desse ou daquele universo. Dentro dessa perspectiva o desejo é entendido como sendo um atributo do homem, mas esse que deseja é um agente genérico, quer dizer, ele não se confunde com nenhum outro homem particular, pois não teve a particularidade de uma trajetória no mundo, de uma história ou vivência. Tal homem genérico é um ser desejante.

Aqui Bourdieu observa que homens genéricos não são passíveis de ser objeto da sua investigação, pois o corpus da pesquisa deste pensador elucubra homens de carne e osso que não são genéricos, embora sejam desejantes. Assim, de certa maneira, no pensamento de Bourdieu, cabe ao investigador mostrar esse homem de carne e osso desejante, mas não como alguém genérico ou natural, e sim um ente socializado, cujo desejo resulta de um corpo sovado pela sua história, seus encontros, sua socialização, sua inscrição no mundo. Nesse sentido, adjetivar o homem como ser desejante é falar de um alguém genérico, não existente no mundo, porém explicar que esse eros tem condições materiais e sociais de emergência, decantação e propulsão do homem em busca dessa ou daquela meta ou objetivo é um pouco mais útil.

Eros, desejo, falta e homem desejante, são noções absoltamente transcendentes à imanência do mundo da vida, nesse que o homem não é só desejante, mas o é de alguma coisa, sendo tal desejo resultante de sua especificidade, particularidade, história, trajetória e assim por diante. Curiosamente quando se estuda o amor, fora do personagem Sócrates de Platão, já é encontrada uma investigação mais apetecível ao olhar sociológico de Bourdieu.

Tal investigação nos propõe que o amor continua sendo desejo pelo que falta. Platão dirá que existem, digamos, vários tipos de eros, o primeiro é aquele de segunda classe, de gente mixa, influenciado pela parte inferior da alma propriamente, pelos apetites, sejam eles pela boca não beijada ou pela comida não degustada e etc.; o outro é aquele de segunda classe, Platão também explica que existe a parte superior da alma, sendo ela também erotizada, mas ela assim é, de certa maneira, não por beijos ou desgustações, mas por ideias puras, por conhecimento, pela capacidade de pensar melhor, encontrar verdades ainda não conhecidas e etc. Nesse raciocínio prossegue o filósofo e propõe que pessoas possuidoras de eros de primeira ou segunda classe acabam convivendo mais com outras pessoas possuidoras do mesmo tipo de eros que o seu, assim, de certa forma, essa convivência patrocina e reforça essas inclinações iniciais, portanto, quando uma pessoa, digamos, tem inclinação para buscar um desenvolvimento intelectual, tal situação se deve a uma predisposição inata ao desenvolvimento de suas faculdades intelectivas, por seu lado, quando a pessoa busca e possui apetite por objetos do baixo ventre tal situação também é inatamente determinada, daí, ou o indivíduo  nasce com as partes superiores a desenvolver ou com as partes inferiores desse modo, mas é claro que a vida em sociedade reforça essa tendência porque o indivíduo acaba sendo obrigado a conviver com gente que tem disposições de vida semelhantes.

Dentro dessa perspectiva de eros bastará desconsiderar o conceito de predisposição inata para uma aproximação ao pensamento de Bourdieu, quando revela que: tenderá a buscar o desenvolvimento intelectivo aquele que tiver vivido em condições favoráveis a desenvolver esse tipo de atividade intelectiva, e tenderá a buscar a satisfação do baixo ventre aqueles que tiverem esse tipo inclinação, em outras palavras, o eros superior ou o inferior, enquanto busca desse ou daquele tipo de troféu, nada mais é que o resultado de certo tipo de pertencimento social, socialização e história no mundo social.

Claro, sempre haverá alguém refutando essa perspectiva, daí citando o indivíduo que nasceu em certo ambiente degradante, cuja a mãe era prostituta, a irmã usuária de drogas, e, mesmo assim, conseguiu se tornar doutor em teologia na Universidade de Roma, primeiro aspecto, o pensamento Bourdieu enquanto sociológico, fala sobre grandes tendências e inclinações, não de indivíduos absolutamente extemporâneos, excêntricos, que, por conta de alguma destreza, acabou onde não poderia ter chegado, segundo aspecto, o estudo da sociedade sobre o comportamento de uma pessoa não deve estar limitado aos universos que ela frequenta, mas sim, de certa forma, deve descer às minúcias da trajetória concreta dela no espaço social, afinal não é porque duas pessoas pertencem ao mesmo campo social que elas reagirão da mesma maneira, muito pelo contrário, não é essa conclusão que a sociologia afirma, então existe uma sequência de trajetória dentro de um determinado espaço. De qualquer forma sempre haverá os apologistas do determinismo biológico para contar a história de irmãos gêmeos com a mesma socialização e afirmar que um seguiu o caminho correto e o outro o errado, trata de um argumento fraco, pois, para sustentar seu raciocínio, há uma tendência desse apologista em defender teses de que os méritos de uma vida considerada meritória são aqueles próprios dele mesmo, além do mais, duas pessoas, ainda que com os mesmos processos de socialização, elas não têm os mesmos encontros com as circunstâncias do mundo, tendo assim experiências diferentes. Nesse sentido é preciso ser mais sutil para entender a complexidade da influencia do coletivo sobre os comportamentos individuais.

Aqui a perspectiva do eros é interessante. O corpo é buscador daquilo que lhe falta, porém, aquele que deseja, busca e tem libido não é um corpo qualquer, mas sim aquele corpo que foi trabalhado pela sociedade. Nessa ideia segue um exemplo da estética: um homem fica excitado ao observar uma mulher nua, essa situação transmite a impressão de que é a natureza masculina desse homem se manifestando, tal impressão esconde aquilo que está por detrás dessa situação, ou seja, aquilo que supostamente desperta excitação não é um excitador imanente, mas sim o resultado de uma socialização, esse trata ser o elemento escondido por detrás daquela excitação. Para ficar mais claro, o fato do homem colocar sua mão na panturrilha da mulher costuma ser interpretado como um exame de distensão muscular, porém, essa mesma mão colocada nas nádegas dela costuma ser interpretada enquanto ato libidinoso, pois bem, a diferença das mãos nas nádegas à panturrilha não está na objetividade muscular, na textura de seus músculos ou na disposição do encaixe tátil, mas sim no fato de ter sido ensinado, ao longo de uma trajetória ininterrupta de exposição ao mundo, que colocar a mão na panturrilha não significa nada, enquanto, nas nádegas, essas mesmas mãos causam excitação, de tal maneira, haverá tanto êxito no convencimento corporal do homem que ele, ao passar sua mão em uma nádega feminina, sente excitação, tal causa é socialmente construída, isso Bourdieu chama de excitação pelos símbolos sociais, por outro lado, em outras épocas históricas, uma visualização de  canela feminina deixava o homem excitado, hoje ele pode nem se dar conta disso. Tanto é assim que é bem possível hoje a sociedade rotular o homem, que se excita ao olhar para o pé da mulher, enquanto uma pessoa com desvios patológicos: excitar-se por aquilo que não é convencionado como sendo excitável.

Portanto, aqui há de se perceber o quanto a sociedade faz parte do corpo dos seus agentes sociais nas suas manifestações mais viscerais. Daí a excitação libidinal depende do momento e o local da sociedade em que o indivíduo está inserido. A Obra “A moreninha” de Joaquim Macedo Manuel de Macedo revela que houve um tempo histórico onde o vislumbre de um tornozelo faziam homens excitarem-se, hoje lhes causa pouco efeito. Nesse raciocínio, o interesse pela nádega feminina está no fato dela ter sido consagrada e convencionalizada como sendo algo excitante a ser mostrado, assim o interesse pela nádega feminina ocorre porque sempre convenceram o espectador que ela tem de ser apreciada. Caso fosse criada outra sociedade onde todo mundo tivesse que ter tesão pela barriga, eles consagrariam a barriga enquanto instrumento excitante, daí as pessoas mostrar-lhes-ia em enfoques especiais e pouco-a-pouco esse processo de socialização levaria os homens a apreciarem barrigas na rua, tudo apenas enquanto uma questão de convenção. Esses exemplos chacoteiam do imanentismo das regras morais das práticas eróticas.

7.1) A libido dentro dos campos sociais.

Na obra “O Banquete” há o discurso de Pausânias, esse que Bourdieu fala com grande simpatia, isso porque Pausânias diz o que Bourdieu gostaria que Platão tivesse dito através de Sócrates. A proposta de Pausânias afirma existir um eros vulgar e outro nobre. O eros vulgar e o nobre são resultados de interesses sociais em conflito, em outras palavras, as cidades definem, de forma particular, aquilo que é digno e indigno desejar. O que Pausânias propõe é uma sociologia do amor, entendendo que as cidades são espaços de definição do amor a ser sentido (amor legítimo, nobre) e do amor a não ser sentido (amor ilegítimo, vulgar). Enquanto um personagem criado por Platão, Pausânias estabelece que o amor vulgar será o sexo, porque tudo que é inferior para Platão está no corporal, por outro lado o amor nobre será imediatamente relacionado à intelecção, em outras palavras, existe nobreza no amor quando existir ganho intelectivo na relação entre os amantes. Mas o importante surge quando Pausânias destaca que, por exemplo, quando alguém tem excitação de desejo por outrem, tal desejo, próprio do corpo de quem ama, ele terá um valor social definido na e pela cidade, assim, caso seja outra cidade a observada, o valor social desse amor será outro também. Nesse sentido esse personagem até arrisca uma tabela ao falar do homossexualismo, demonstrando que em certas cidades ele é tolerado, em outras é aplaudido ou insuportável, dependendo da sociedade a excitação por um corpo do mesmo sexo terá um valor social diferente.

Daqui são possíveis algumas conclusões, primeira, como toda verdade relativa, essa é uma perspectiva execrável em Platão, pois para ele toda verdade transcende as particularidades sociais, segunda, a perspectiva de Pausânias leva a perceber desde a muito cedo a impressão de existirem desejos certos e errados de sentir, quer dizer, existem coisas legitimas e ilegítima a desejar, cabendo à cidade, sociedade ou civilização certa educação do desejo, para tal educação é necessário agir sobre o corpo desejante para que ele possa gostar do que pode ser gostado, desejar o possível de ser desejado, amar o que é amável, tudo segundo um entendimento particular daquela sociedade específica. A perspectiva de amor em Pausânias vai ser usada por Bourdieu de maneira muito eloquente e clara quando esse autor busca mostrar que existe uma investigação necessária sobre a influência da sociedade sobre as paixões.

O que o sociólogo deve investigar? A investigação da influência da sociedade sobre o que os agentes sociais pensam é muito menos necessária, pela sua própria obviedade. Ao Sociólogo, mais relevante, é a investigação da influência da sociedade sobre o que tais agentes sentem, pelo fato dessa influência estar presente de maneira muito menos óbvia, afinal ela se confunde com a naturalidade de um corpo que desejaria naturalmente. Existe na sociologia a necessidade da investigação da participação da sociedade na definição dos objetos legítimos de desejo e, digamos, na socialização de entidades desejantes para tal desejo, em outras palavras, o trabalho legítimo de civilização cuida de um trabalho de direcionamento do eros para o que for legítimo desejar, nessa ideia quando é encontrado um agente social que deseja objetos ilegítimos está se presente a um erro civilizatório, um desvio, e como não é possível colocar na cadeia a sociedade, então vítima do desvio será a entidade desejante, aquela que sofre as consequências. Exemplo: Um adolescente inclinado a manipular tatilmente as mamas das colegas e professoras de uma escola, em um primeiro momento de vida existe a autorização da manipulação mamária pela criança, isso demonstra, de certa forma, um alinhamento entre o que a sociedade autoriza e o que o instinto natural recomenda, tal situação segue até certa idade, em um segundo momento alguém alerta essa criança que não lhe é mais autorizada tal manipulação, a resistência em obedecer a esse comando é o desdobramento da ineficácia do processo civilizatório sobre ela, possuidora de um desejo inadmissível, embora no passado admitido. Existindo socialmente uma classificação etária dos desejos legítimos, alguém fracassou no momento de produzir-lhe uma tristeza necessária para que evitasse de buscar esse tipo de satisfação do toque mamário.

Bourdieu explica que na tensão entre o princípio de prazer e o princípio de realidade, de certa maneira, a realidade é a sociedade organizada para fazer triunfar a sua condição de sobrevivência em relação às pulsões dos agentes que dela fazem parte. Quando a sociedade fracassa em fazer triunfar essa condição de sobrevivência sobre as pulsões de seus agentes existe ali um desvio social e civilizatório, como consequência o indivíduo pode não temer, tanto o quanto necessário, tomar atitudes socialmente censuradas para satisfação de seus desejos, e embora trate ser um problema social, quem sofre as consequências dessa carência sócio-educativa é o próprio carecedor, ou seja, aquele que foi vítima de uma sociedade claudicante nos seus processos de civilização. Nessa perspectiva Bourdieu vai, a partir de Pausânias, proporcionar uma reflexão sobre um eros de campo.

Haverá tantas libidos quantos forem os campos sociais em questão, em outras palavras, cada campo apresenta certa forma particular de organizar a libido de seus agentes sociais. Todos os homens possuem uma energia vital pulsional que não pode ficar como ela nasceu, desorganizada, quem lhe organiza então é aquele determinado universo social onde cada homem está inserido, também chamado de civilização. A civilização é o espaço social legítimo de organização da libido, energia vital, com vistas à proteção da sociedade, e, de certa maneira, à inclusão do homem no seu interior. Nesse âmbito o homem vai aprendendo como satisfazer aquele desejo que é sempre o seu próprio, afinal de contas tão ininterrupta quanto a sua pulsão em busca de prazer também é a civilização em impedir sua satisfação de maneira desorganizada.  

Na obra “Eros e Civilização”, o filósofo Herbert Marcuse assevera que, para a energia vital humana não permanecer desorganizada, em particular a sociedade capitalista redireciona a inclinação libidinosa de seus agentes sociais para o trabalho. Nessa ideia quanto maior o dispêndio de tempo e energia por parte do agente para seu trabalho, maior também será o aumento de seu poder aquisitivo para bens consumíveis, sendo esse consumo o responsável pela satisfação momentânea daqueles seus desejos vitais. Assim, por exemplo, o trabalhador aceita trocar uma noite de amor com sua esposa por duas horas extras diárias no seu emprego.

Bourdieu parte dessas noções para esculpir seu pensamento. Ocorre que certa referência à “sociedade capitalista” reflete uma conjuntura muito ampla, daí imprecisa, dentro desse grande universo social existem especificidades, assim Bourdieu divide essa sociedade em campos sociais e consegue um resultado infinitamente mais peculiar, pois estuda o mecanismo de organização das energias libidinosas dentro de certos espaços sociais, digamos, de maior especificidade nesse resultado organizador, daí a perspectiva desse pensador relata libido acadêmica, econômica, política, jurídica, jornalística e assim por diante. Portanto aceitando que os espaços específicos de pertencimento social eles, de forma relativamente autônoma, organizam mecanismos organizadores da energia vital, e, de certa maneira, garantem um resultado apaziguador, de estabilidade, específico daquele espaço social, fica impossível simplesmente estabelecer certa referência à sociedade capitalista, afinal cada microuniverso social consegue esse resultado de maneira diferente.

7.2) Os Ritmos vitais.

Nessa organização das forças vitais dentro dos campos sociais, Bourdieu vai introduzir o elemento da temporalidade existencial. Bourdieu estava convencido de que uma das formas privilegiadas da sociedade sovar o indivíduo para torná-lo dócil ao pertencimento social se desdobra através da organização de seu ritmo de vida propriamente, em outras palavras, o ritmo de vida é um elemento constitutivo do habitus de cada um, constituído dentro de um espaço específico de relações sociais, sendo fortemente determinante da organização da energia naquele espaço.

Ao ser inserido na sociedade, o indivíduo não pode ter sua energia vital à solta na busca pelos seus desejos, daí imprescindível a existência de mecanismos sociais para segurar sua onda. A pergunta de Bourdieu surge sobre qual sociedade especificamente é aquela que segura essa onda? Quais os elementos daquela sociedade que mais diretamente agem sobre o indivíduo? Bourdieu relata que no seu caso, por exemplo, a responsabilidade de organizar sua energia vital no sentido de não convertê-lo em um homem perigoso para a sociedade é aquela do campo acadêmico, sendo esse o espaço que se responsabilizará por lhe fazer disponibilizar energia de certa maneira socialmente legítima, autorizada, reconhecida, e porque não dizer até nobre. Assim se o indivíduo é um funcionário da bolsa de valores, jornalista ou advogado, ele organizaria sua energia vital diferentemente, porque o espaço responsável por esse resultado é outro, portanto existe aí uma especificidade a ser investigada.

Como Bourdieu investiga essa especificidade? Através dos ritmos existenciais, ou seja, através da maior ou menor rapidez sejam dos encontros, relações ou afetos dentro do campo social. Nessa perspectiva a sociedade é um mosaico de orbitais e os átomos dentro desses orbitais circulam em velocidades diferentes. Exemplo: a cadência acadêmica da USP costuma ser aquela do professor renomado que chega cedo à universidade e se dirige à lanchonete para lentamente tomar café, ali relaxa, analisa as notícias do dia, faz breves fichamentos dos livros novos, para daí iniciar sua única aula ministrada uma vez por semana, e, como uma aula por semana lhe custa muito cansaço, então entrega sua presidência ao assistente; ao ser questionado sobre sua estática cadência de vida, na mente desse professor despontam respostas na ponta da língua, alegando que, para pensar o que pensa, seu ritmo de vida não pode se desdobrar na mesma velocidade como um empresário compra ações, pois o pensamento requer tempo, por outro lado, para um empresário é normal que lhe acompanhe um ritmo de vida rápido, mas a profundidade do pensar exige a lenta maturação das ideias. Assim o ambiente acadêmico é um espaço de lentidão legítima, e será nele que a sociedade vai organizar as atividades dos agentes sociais acadêmicos. Na hipótese de alguns dos agentes sociais tentarem acelerar a lentidão desse ritmo de vida, surge que começarão a girar sozinho, isso porque existe uma cadência rítmica de deslocamento que faz com que os encontros sejam organizados em função de ritmos específicos daquele espaço. Além da USP, existe na França uma expressão chamada “passos de senador”, cuida dos passos daqueles homens que não parecem querer chegar ao seu destino, perceba, o homem não foi eleito senador por andar devagar, mas ele passa a andar devagar porque é entendido que naquele universo não adianta andar rápido, pois ninguém lhe acompanhará, daí andará sozinho, em outras palavras, existe um ritmo social que contamina e respinga certa cadência individual.

Muitas vezes existem conflitos de socialização. Bourdieu vai falar de um habitus primário enquanto disposições de agir que o homem adquire na infância e adolescência, vitimados por um pertencimento familiar e escolar, é o caso daquele indivíduo que, enquanto jovem, é tido por muito ansioso, e, chegando à sua vida adulta, ingressa em um ambiente universitário ou laboral incompatível com aquele tipo de habitus primário, assim deverá ele passar por um realinhamento das suas disposições práticas. De certa maneira, podemos ter certeza que os especialistas em Recursos Humanos das empresas são pessoas com faro para identificar esse tipo de alinhamento, a única coisa que eles desconhecem é que tais são esses alinhamentos decorrentes de processos de socialização, e não de genética, disposições inatas ou competências intelectuais, daí quando afirmam certo interessado na vaga de emprego enquanto enquadrado de acordo com o perfil procurado ou não, isso ocorre pela constatação de existência um alinhamento ou não de socializações e espaços diferentes.

Essas cadências vitais são socialmente definidas, tal assertiva nos leva a imaginar que o tipo de ritmo de vida de certo homem é o exemplo maior de um atributo de habitus, porque tal cadência de vida é o tipo da ocorrência que o agente social não presta atenção, na verdade só lhe prestará atenção quando dela sente excesso ou falta, assim, existindo certa cadência normal de vida, cuida ser ela uma circunstância natural para os sentidos do agente social. Lembrando que habitus não é natural, mas trata daquilo que foi socialmente disposto enquanto aprendizado social. Enquanto a única atitude onde o indivíduo não precisa parar e pensar sua melhor maneira de atuar, o habitus abrange aquilo que é normal para ele, de tal maneira que termina por sentir-se bem em um lugar onde seu próprio “jeito de ser” coincide com o “jeito de ser” das pessoas, assim o agente social sente que já conhecia tais pessoas a tempos, na verdade essa sensação resulta de uma certa coincidência entre o que já acontecia antes e o que acontecia naquele espaço. Exemplo: há alguns anos atrás, no cartório, o funcionário local apanhava um livro gigantesco e escrevia de forma típica e grotesca, de maneira que algum sujeito desconhecedor lhe estranha, mas para quem vive ali tal atitude é o que é. O dominante desse campo é aquele que tem a inicial do nome maior. Essa é uma forma de materializar certo tipo de convivência que vai se naturalizando no dia-a-dia.

O agente social só percebe possível viver diferentemente de seu modo de ser quando transgride, escapa, encontra algo oposto, sendo obrigado a conviver com outras circunstancias que não estão de acordo com aquele seu habitus, é por isso que as pessoas evitam mudar seu ritmo de vida. Naturalmente o homem encontra explicação de todos os tipos, mas não aceita que na verdade aquele prazer, seja de chegar todo dia às 8 da manhã, comer no mesmo lugar, encontrar as mesmas pessoas e fazer todo dia a mesma coisa, nada mais é que um processo de socialização onde, não só é agradável quando se está alinhado com o esperado do comportamento, como também impede a ocorrência de encontros desagradáveis, isto é, encontros em que as expectativas em relação ao seu comportamento sejam agressivas em relação às tuas disposições de agir.

7.3) Bourdieu versus Aristóteles.

É aqui que Bourdieu zomba da eudaimonia aristotélica. O universo aristotélico trata de um todo organizado onde existe um alinhamento entre cosmos, logos e theion, ou seja, pelo fato do universo ser ordenado, ele também é lógico, compreensivo e belo. Tal beleza e maravilha da ordem universal o homem aceita que não foi ele que fez, portanto, lhe transcende a existência, daí seu aspecto divino. Tal concepção surge da mitologia, onde Zeus organizou o universo e assim abrigou os entes em um lugar natural para que pudessem cumprir suas finalidades. Aristóteles relata um lugar natural, o que quer dizer, quando o vento venta, ele não o faz em qualquer lugar, portanto o vento possui certo lugar natural para ventar entre diferentes pontos de pressão atmosférica, da mesma forma a maré, os vegetais e os animais. Por seu lado, os homens, enquanto parte da natureza, também possuem para si consagrado certo lugar natural, sendo esse o espaço onde melhor ele pode atualizar seus talentos, ou seja, melhor pode traduzir em ato a potência de seus talentos. Os entes, nos seus respectivos lugares naturais, permanecem em harmonia com a natureza do cosmos, o que faz com que vivam bem. Esse viver bem recebe o nome de eudaimonia, bem supremo. Para que se viva bem, com felicidade, é preciso estar posicionado em seu lugar natural e atualizar com excelência a particularidade de seus talentos. A expressão é “Lugar natural”, sendo a natureza aquela que dispõe dos lugares em função da particularidade natural dos talentos de cada ente. A vivência eudaimonica para Aristóteles ocorre quando o ente vive em seu lugar natural, fazendo aquilo que corresponde às próprias inclinações naturais de seus talentos na ordem cósmica.

Quando se compra a ideia aristotélica afirmando que o lugar de cada homem já está pré-estabelecido, daí fica fácil justificar o motivo do por que um manda e o outro obedece: por força de talentos naturais distribuídos por Zeus. Toda vez que alguém atribui à natureza certa responsabilidade da divisão do trabalho social assim o faz para justificar qualquer situação de seu interesse, por mais injusta que seja, nesse sentido, a natureza é uma instância legitimadora dos exercícios de poder na sociedade, daí é possível de entender o motivo de Aristóteles gostar de existir escravidão, afinal ela se encaixa perfeitamente com a ideia de que tem homens superiores a outros, por conta de seus talentos naturais e capacidade de atualizá-los na natureza.

Aristóteles afirma que a vida feliz ocorre quando há um alinhamento entre:
(1) a natureza;
(2) o lugar onde o ente vive;
(3) a atualização do talento natural deste ente;
(4) e aquilo que o universo espera dele.

Para Bourdieu a ideia de lugar natural não se sustenta, afinal para o ente possuir certo lugar que lhe seja natural é preciso conseguir posicioná-lo em determinado lugar exclusivo, e, para tal posicionamento, é necessário pressupor que o cosmos seja finito. Havendo infinitude no cosmos, determinado posicionamento só é possível de ocorrer por meio de convenção social. Então o lugar natural de Aristóteles, Bourdieu substituirá pelo lugar social ou posição social. Tal proposta afirma que a felicidade requer mesmo um alinhamento, mas, ao contrário de Aristóteles, para Bourdieu o universo é infinito e desordenado, daí não pode ser referência para nada. Assim, enquanto referência, só resta uma sociedade dividida em campos sociais, no interior onde surgem os troféus sociais disputados por agentes sociais e as competências necessárias para que aqueles agentes alcancem tais troféus. Essas competências são definidas e forjadas em espaços próprios para formação de competências.

Quando ocorre o alinhamento entre competência e formação dos agentes sociais, o que a sociedade espera deles e o troféu a ser buscado, daí haverá felicidade, ou seja, o agente social tenderá a ser feliz quando, de certa maneira, ele deseja algo;  possua competência, formação, capital, condições para alcançá-lo; e a sociedade aceite seu desejo enquanto probo e espere que seja alcançado. Nesse sentido também existe um alinhamento possível em Bourdieu, ocorre que tal alinhamento não decorre da natureza com o cosmo, mas sim de certa educação do agente social de acordo com aquilo que a sociedade espera ele conseguir em um determinado espaço. Aqui ainda é possível colocar mais um elemento suplementar: quase toda energia que o ator social disponibiliza para alcançar o desejo pretendido para tal alinhamento social está situado na esfera o óbvio, não percebido, inconsciente.

Em suma, a condição de felicidade do ator social requer:
(1) a inclusão em um espaço social organizado;
(2) pertencimento a esse espaço: condições de disputar os troféus desse jogo;
(3) acumulo progressivo de capital específico no campo;
(4) competência, sempre relativa, para alcançar os troféus do campo;
(5) desejo óbvio de alcançar os troféus do campo;
(6) Uma sociedade que espera que esse ator social alcance os troféus do campo;
Assim existe um alinhamento que vai desde o indivíduo até a sociedade, cuja fronteira é difusa.

Os antropólogos estão incluídos em uma categoria que, de certa maneira, Bourdieu contribuiu para borrar, quando estabelecem a fronteira entre o natural e o cultural, daí afirmando que a natureza cuida do natural e cultural cuida daquilo resolvido pelo homem. Bourdieu mostra que tal diferença não existe, porque a natureza é aculturada e cultura também será naturalizada, em outras palavras, quando a cultura apresenta materialidade ela será natural, portanto, a natureza humana é culturalizada, não há natureza humana sem essa, e não há cultura que seja materializada em uma natureza, portanto natureza e cultura é a mesma coisa. A separação dessas duas noções tem como objetivo estabelecer a ideia de um indivíduo puro de um lado e a cultura de outro, como se houvesse uma espécie de fase estanque, sem perceber que o indivíduo, ainda dentro do útero materno, já sofre influência das situações sociais, não havendo natureza que não comece a ser sovada pela cultura em um momento original, daí a fronteira antropológica ser tida como fictícia, tipicamente intelectual, que não corresponde a nada na realidade.

7.4 ) Eros e a philia.

Nessa investigação sobre a ideia de interesse, Bourdieu dirá que o interesse não é só eros, pois, nesse sentido, o interesse seria sempre por desejar o que não se possui. Para esse pensador é perfeitamente possível desejar o que já se possui. O agente social deseja aquilo que já possui quando ele está muito satisfeito em ocupar a posição que ocupa.

Nesse sentido Bourdieu dirá que interesse, além  de eros, também é philia. Philia é alegria, disposição a continuar tendo o que se possui. Interesse também é sustentabilidade, a sustentabilidade também é interessada. Aquele indivíduo que está bem sucedido na vida almeja continuar dispondo daquilo que está em seu poder. Claro, a maioria dos atores sociais olha para cima, desejando ter aquilo que não possuem, porém, antes de tudo, também existem os dominantes que precisam continuar possuindo aquilo que já possuem daí são interessados. Assim existe um interesse em ter o que não tem por parte dos subvsersivos do campo social (eros); e também de ter o que já possui por parte dos dominantes (philia).

Existe também uma concepção de falta na perspectiva da conservação de uma posição de dominação, porque claro, o interesse é de continuar possuindo amanhã aquilo que é possuído hoje, o indivíduo se alegra possuindo hoje, mas deseja continuar, no amanhã, alegrado com aquilo de hoje.   

Essa ideia de interesse enquanto um hibrido de eros e philia, ou seja, a busca de troféus ainda não alcançados e a preservação daqueles já alcançados, nos permite entender certo aspecto muito importante na filosofia de Bourdieu: tudo tende ao monopólio e nada alcança o monopólio, em outras palavras, todo competidor busca o acúmulo de capital específico no campo social com vistas a obtenção dos troféus desse espaço. A tendência segue em sentido a um acúmulo indiscriminado de capital, reconhecimento, glória, prestígio, satisfação, aplauso do outro etc, em suma, a um monopólio. Ocorre que esse monopólio jamais é conquistado porque sempre haverá enfrentamento com outros competidores que buscam os mesmos troféus, interesses contraditórios e assim por diante. Embora em seu interior exista uma tendência monopolista, o campo social é um espaço invariavelmente de distribuição e redistribuição permanente dos bens que estão em circulação no seu espaço, em outras palavras, a tendência do monopólio ocorre sempre a partir do olhar do jogador, mas quem olha o campo social por cima percebe que o campo social é o espaço que redefine a distribuição de seu capital social, portanto, esse monopólio é sempre desejado, mas jamais alcançado.

Os campos sociais se materializam em um espaço de jogo que nunca termina, porque em um jogo quando alguém ganha todas suas disputas internas o que se faz é começar a jogar de novo, na sociedade isso nunca acontece porque os troféus estão sempre em disputa, em outras palavras, o campo social é o espaço de disputa permanente onde nenhum jogador terá condições de monopolizar os recursos dentro do espaço, por mais invencível que ele seja, pois o campo social sempre será um local de vitórias parciais provisórias, divisões provisórias de capital, portanto, de redefinição permanente da posição de seus jogadores. Pode ali haver os ministros do STF, situados no topo do campo jurídico, mas esse campo será sempre muito maior do que o capital de qualquer um deles, de tal maneira, poderia dizer, o campo social será tão mais estruturado quanto mais as posições sociais que lhe constituem independerem das características particulares dos seus ocupantes provisórios. Embora o ocupante seja transitório, passageiro, as posições sociais que ele ocupa são espaços de capital social, transitoriamente ocupadas, que devem subsistir à passagem de seus ocupantes provisórios. Exemplo: O troféu maior do campo político simbolicamente é a presidência da república, assim esse campo social será tanto mais estruturado quanto a posição maior do presidente república tiver o seu prestígio independentemente de quem é o presidente. Nunca haverá uma domínio absoluto da estrutura do campo social em relação a particularidade de seus ocupantes.

É claro que o capital da posição social ocupada dentro do campo social não se confunde formalmente com o capital de seus agentes, porém, de certa maneira, as características pessoais do ocupante acabam contaminando o capital de sua posição social ocupada, daí respingando sobre ela o seu próprio capital social pessoal, portanto nunca haverá uma predominância absoluta de um capital sobre outro. Tudo em Bourdieu é de certa forma tendencial, mas nunca é absoluto, é claro, por conta disso, a sociologia Bourdieu sempre clama por uma investigação material da situação histórica concreta dos ocupantes das posições do campo social.

Os espaços sociais são locais de acúmulo de capital social, portanto é possível utilizar dois tipos de capitais em circulação. O capital social particular dos agentes que investem no espaço e o capital social que circula no espaço e que, de certa maneira, é um capital do espaço. Exemplo: a instituição de ensino onde, internamente, um de seus professores tem certo capital específico, é o reconhecimento desse agente social enquanto acadêmico, esse capital social está em transformação permanente a cada gesto que ele faz nas suas aulas e no campo acadêmico. Esse professor quando diz que a instituição onde leciona é a USP, vai se apropriar de um capital social que não é próprio seu, mas sim acumulado pela instituição ao longo de décadas, sendo, naquele instante, apropriado pelo professor por se apresentar enquanto representante daquele espaço.

Razão pela qual o interesse pelo pertencimento ao campo social é o interesse da possibilidade da apropriação de recursos próprios daquele espaço. O interesse do professor em dizer que leciona na USP surge pela importância que a sociedade estabelece em caracterizar determinado sujeito e edificar sua identidade, nesse caso reflete primeiro o prestígio de pertencer a uma instituição, segundo que nenhuma instituição tem tanto capital equivalente acumulado como o da USP, daí quando se diz pertencer a uma instituição com tanto capital acumulado, óbvio, o ganho social é maior de quando é dito pertencer a outro espaço com capital acanhado.

Assim o professor adere o nome da instituição que trabalha junto ao seu quando lhe interessa, ou seja, quando ganha com isso, por outro lado, quando o professor não vai ganhar em lhe aderir tal nome, daí ele omite. Óbvia a existência de um capital pessoal intransferível que está ligado com a própria performance, a particularidade da existência social do agente social, por outro lado, também existe um capital coletivo do qual ele dispõe pelo pertencimento a tal coletivo. Assim quando é perguntado o porquê professores brigam para ingressar no corpo docente da USP,  não sendo tal instituição a melhor remuneradora econômica, para a resposta são insuficientes explicações naturalísticas do tipo “pelo próprio dever de educador”, sendo imprescindível a análise do interesse em questão. Nesse sentido, apesar de não haver uma boa remuneração hora/aula para seu corpo docente, o que já leva a ser observado o interesse simbólico em questão, pertencendo a esse espaço os professores podem se servir de um capital simbólico enorme, que está à disposição deles quando afirmam socialmente ali lecionar, por isso se estapeiam nos concursos, mesmo não valendo pouco sua remuneração econômica. Também pode existir a situação inversa, quando o capital social do agente no campo supera o capital da instituição, nessa situação é o capital social do agente que empresta legitimidade à instituição. Assim as instituições são espaços sociais como bancos, onde alguns agentes e outras instituições sociais emprestam, sangram capitais sociais, enquanto aqueles que não emprestam, desse espaço lhe retiram capital para seu ganho pessoal, sendo esse o local que assegura a transferência de capital simbólico de uns para outros. Daí muitos agentes e instituições participam desse espaço por habitus, ou seja, eles comparecem, mas nem menos sabem por que fazem isso.

Assim o processo de transferência de capital pode ser bastante sofisticado, dinâmico, dependente da história e particularidade da inscrição naquele lugar da instituição social. Sendo assim, para definir interesse, sempre deve se considerar três tipos de variáveis:
(1) O capital a receber.
(2) O capital que se pleiteia com o gasto da energia.
(3) O investimento realizado no espaço.
É preciso, portanto, identificar que tipo de ganho o agente social aspira ao investir tempo e dinheiro em certo espaço de inclusão social.

A perspectiva de ganho de capital simbólico ela é relativamente autônoma à existência orgânica dos corpos. O interesse social transcende e muito o apetite orgânico dos corpos. O capital social ele transcende a vida orgânica dos corpos supostamente detentores desse capital porque a vida social transcende muito mais a vida orgânica. Exemplo: quando no Brasil se fala de Ulysses Guimarães, ele mantém uma existência social que não corresponde a nenhuma existência física.

Bourdieu dirá que a existência social do indivíduo ainda não nascido, já está permeada de capital específico, visibilidade, honra, notoriedade, glória, respeito, tudo por força de certa estrutura civilizatória da relação social que lhe inseriu ao mundo, essa não é uma questão natural, resultante do útero que lhe gerou, aqui está se falando da situação onde, embora não houve fecundação, a posição social já existe, e apenas aguarda o corpo se apresentar para ocupá-la.

Também é possível vislumbrar a situação inversa, o corpo orgânico do agente cessa a existência, mas sua vida social continua com toda a notoriedade, reputação, prestígio, reconhecimento, glória e assim por diante. Nesse caso, o agente social, embora já tenha falecido, continua sendo um jogador terrível dentro do campo social, e a posição que ele sempre ocupou em sua existência orgânica será a mesma que continuará ocupando socialmente por décadas depois de sua morte, e de certa maneira, dependendo de quem é, continuará estruturando o espaço social em que ele vivia. Assim existe um descolamento entre o capital simbólico identitário do jogador e a sua existência física orgânica, em outras palavras, se houver condição de eternidade, tal condição está nos recursos sociais e simbólicos de que dispõem para existir em sociedade, esta sim sobrevive à carne. Sabendo que os filósofos usam o termo transcendência, Bourdieu brincava, e dizia que a sociedade é a referencia transcendente para os recursos vitais, porque, de certa maneira, o indivíduo, mesmo perdendo sua vida orgânica, continua produzindo, incomodando, atrapalhando, e de certa forma, organizando a vida social à sua volta mesmo não estando mais lá, só com o reconhecimento da própria existência pretérita.

Essa frase vale demais para Bourdieu. Afinal, mesmo falecendo em 2002, basta entrar na sala de aula desses professores pós-modernos para perceber que o ódio por Bourdieu continua o mesmo como se ele ainda estivesse ali, e essa é uma vingança suprema, porque o reconhecimento, isto é, aquilo que os outros pensam de alguém, continua entristecendo, mesmo ele estando ausente, não precisa de alma transcendente, basta capital social para estar incomodado por alguém que já morreu. O capital simbólico faz às vezes da alma penada, pois sobrevive à vida e participa diretamente do mundo dos viventes já na forma de cadáver.