Iniciação à Bourdieu. – Parte 4 – 7) A Libido na sociologia de Bourdieu. 7.1) A libido dentro dos campos
sociais. 7.2) Os Ritmos vitais. 7.3) Bourdieu versus Aristóteles. 7.4 ) Eros e
a philia na especificidade dos campos.
7) A Libido na sociologia de
Bourdieu.
Existe na noção de interesse
certa complexidade, sendo ela explicada por Bourdieu a partir de um resgate às
concepções filosóficas mais conhecidas, portanto, aqui é necessário um diálogo
com elas.
Uma palavra que é muito comum na
sociologia de Bourdieu é “eros”. Esse eros encontra seu subsídio mais
significativo na obra “O Banquete” de Platão. A primeira situação destacável
nessa obra é o discurso de Sócrates, ali eros é apresentado enquanto sendo
desejo pelo que falta.
Aqui é importante destacar que não
tem como entender a sociologia de Bourdieu senão entendê-la como uma sociologia
de agentes sociais erotizados, não é por acaso que eros está sempre presente,
em outras palavras, no campo social de Bourdieu existe em circulação uma enorme
carga erótica que, de certa maneira, vai
ser chamada por Bourdieu de libido, o fato é que existe ali certa energia
erótica disponibilizada pelos agentes sociais para perseguir os troféus do
campo social, as metas autorizadas por aquele grupo social.
Na obra “O Banquete” quando
Platão, através de Sócrates, apresenta sua definição de amor como sendo o amor
erótico, e o eros como sendo um desejo pelo que falta. É muito interessante observar
que esse ser desejante, de certa forma, é apresentado como um indivíduo que
Bourdieu chama de naturalizado, trata de alguém que não foi submetido em algum
momento a certa história e processo de socialização específica dentro desse ou
daquele universo. Dentro dessa perspectiva o desejo é entendido como sendo um
atributo do homem, mas esse que deseja é um agente genérico, quer dizer, ele
não se confunde com nenhum outro homem particular, pois não teve a
particularidade de uma trajetória no mundo, de uma história ou vivência. Tal
homem genérico é um ser desejante.
Aqui Bourdieu observa que homens
genéricos não são passíveis de ser objeto da sua investigação, pois o corpus da
pesquisa deste pensador elucubra homens de carne e osso que não são genéricos,
embora sejam desejantes. Assim, de certa maneira, no pensamento de Bourdieu,
cabe ao investigador mostrar esse homem de carne e osso desejante, mas não como
alguém genérico ou natural, e sim um ente socializado, cujo desejo resulta de
um corpo sovado pela sua história, seus encontros, sua socialização, sua
inscrição no mundo. Nesse sentido, adjetivar o homem como ser desejante é falar
de um alguém genérico, não existente no mundo, porém explicar que esse eros tem
condições materiais e sociais de emergência, decantação e propulsão do homem em
busca dessa ou daquela meta ou objetivo é um pouco mais útil.
Eros, desejo, falta e homem
desejante, são noções absoltamente transcendentes à imanência do mundo da vida,
nesse que o homem não é só desejante, mas o é de alguma coisa, sendo tal desejo
resultante de sua especificidade, particularidade, história, trajetória e assim
por diante. Curiosamente quando se estuda o amor, fora do personagem Sócrates de
Platão, já é encontrada uma investigação mais apetecível ao olhar sociológico
de Bourdieu.
Tal investigação nos propõe que o
amor continua sendo desejo pelo que falta. Platão dirá que existem, digamos,
vários tipos de eros, o primeiro é aquele de segunda classe, de gente mixa, influenciado
pela parte inferior da alma propriamente, pelos apetites, sejam eles pela boca
não beijada ou pela comida não degustada e etc.; o outro é aquele de segunda classe,
Platão também explica que existe a parte superior da alma, sendo ela também
erotizada, mas ela assim é, de certa maneira, não por beijos ou desgustações,
mas por ideias puras, por conhecimento, pela capacidade de pensar melhor,
encontrar verdades ainda não conhecidas e etc. Nesse raciocínio prossegue o
filósofo e propõe que pessoas possuidoras de eros de primeira ou segunda classe
acabam convivendo mais com outras pessoas possuidoras do mesmo tipo de eros que
o seu, assim, de certa forma, essa convivência patrocina e reforça essas
inclinações iniciais, portanto, quando uma pessoa, digamos, tem inclinação para
buscar um desenvolvimento intelectual, tal situação se deve a uma predisposição
inata ao desenvolvimento de suas faculdades intelectivas, por seu lado, quando
a pessoa busca e possui apetite por objetos do baixo ventre tal situação também
é inatamente determinada, daí, ou o indivíduo
nasce com as partes superiores a desenvolver ou com as partes inferiores
desse modo, mas é claro que a vida em sociedade reforça essa tendência porque o
indivíduo acaba sendo obrigado a conviver com gente que tem disposições de vida
semelhantes.
Dentro dessa perspectiva de eros
bastará desconsiderar o conceito de predisposição inata para uma aproximação ao
pensamento de Bourdieu, quando revela que: tenderá a buscar o desenvolvimento
intelectivo aquele que tiver vivido em condições favoráveis a desenvolver esse
tipo de atividade intelectiva, e tenderá a buscar a satisfação do baixo ventre
aqueles que tiverem esse tipo inclinação, em outras palavras, o eros superior
ou o inferior, enquanto busca desse ou daquele tipo de troféu, nada mais é que
o resultado de certo tipo de pertencimento social, socialização e história no
mundo social.
Claro, sempre haverá alguém
refutando essa perspectiva, daí citando o indivíduo que nasceu em certo
ambiente degradante, cuja a mãe era prostituta, a irmã usuária de drogas, e, mesmo
assim, conseguiu se tornar doutor em teologia na Universidade de Roma, primeiro
aspecto, o pensamento Bourdieu enquanto sociológico, fala sobre grandes
tendências e inclinações, não de indivíduos absolutamente extemporâneos,
excêntricos, que, por conta de alguma destreza, acabou onde não poderia ter
chegado, segundo aspecto, o estudo da sociedade sobre o comportamento de uma
pessoa não deve estar limitado aos universos que ela frequenta, mas sim, de
certa forma, deve descer às minúcias da trajetória concreta dela no espaço
social, afinal não é porque duas pessoas pertencem ao mesmo campo social que
elas reagirão da mesma maneira, muito pelo contrário, não é essa conclusão que
a sociologia afirma, então existe uma sequência de trajetória dentro de um
determinado espaço. De qualquer forma sempre haverá os apologistas do
determinismo biológico para contar a história de irmãos gêmeos com a mesma
socialização e afirmar que um seguiu o caminho correto e o outro o errado, trata
de um argumento fraco, pois, para sustentar seu raciocínio, há uma tendência desse
apologista em defender teses de que os méritos de uma vida considerada
meritória são aqueles próprios dele mesmo, além do mais, duas pessoas, ainda
que com os mesmos processos de socialização, elas não têm os mesmos encontros
com as circunstâncias do mundo, tendo assim experiências diferentes. Nesse
sentido é preciso ser mais sutil para entender a complexidade da influencia do
coletivo sobre os comportamentos individuais.
Aqui a perspectiva do eros é
interessante. O corpo é buscador daquilo que lhe falta, porém, aquele que deseja,
busca e tem libido não é um corpo qualquer, mas sim aquele corpo que foi
trabalhado pela sociedade. Nessa ideia segue um exemplo da estética: um homem
fica excitado ao observar uma mulher nua, essa situação transmite a impressão
de que é a natureza masculina desse homem se manifestando, tal impressão
esconde aquilo que está por detrás dessa situação, ou seja, aquilo que
supostamente desperta excitação não é um excitador imanente, mas sim o
resultado de uma socialização, esse trata ser o elemento escondido por detrás daquela
excitação. Para ficar mais claro, o fato do homem colocar sua mão na panturrilha
da mulher costuma ser interpretado como um exame de distensão muscular, porém,
essa mesma mão colocada nas nádegas dela costuma ser interpretada enquanto ato libidinoso,
pois bem, a diferença das mãos nas nádegas à panturrilha não está na
objetividade muscular, na textura de seus músculos ou na disposição do encaixe
tátil, mas sim no fato de ter sido ensinado, ao longo de uma trajetória
ininterrupta de exposição ao mundo, que colocar a mão na panturrilha não
significa nada, enquanto, nas nádegas, essas mesmas mãos causam excitação, de
tal maneira, haverá tanto êxito no convencimento corporal do homem que ele, ao passar
sua mão em uma nádega feminina, sente excitação, tal causa é socialmente
construída, isso Bourdieu chama de excitação pelos símbolos sociais, por outro
lado, em outras épocas históricas, uma visualização de canela feminina deixava o homem excitado,
hoje ele pode nem se dar conta disso. Tanto é assim que é bem possível hoje a
sociedade rotular o homem, que se excita ao olhar para o pé da mulher, enquanto
uma pessoa com desvios patológicos: excitar-se por aquilo que não é
convencionado como sendo excitável.
Portanto, aqui há de se perceber
o quanto a sociedade faz parte do corpo dos seus agentes sociais nas suas
manifestações mais viscerais. Daí a excitação libidinal depende do momento e o
local da sociedade em que o indivíduo está inserido. A Obra “A moreninha” de
Joaquim Macedo Manuel de Macedo revela que houve um tempo histórico onde o
vislumbre de um tornozelo faziam homens excitarem-se, hoje lhes causa pouco
efeito. Nesse raciocínio, o interesse pela nádega feminina está no fato dela
ter sido consagrada e convencionalizada como sendo algo excitante a ser mostrado,
assim o interesse pela nádega feminina ocorre porque sempre convenceram o
espectador que ela tem de ser apreciada. Caso fosse criada outra sociedade onde
todo mundo tivesse que ter tesão pela barriga, eles consagrariam a barriga
enquanto instrumento excitante, daí as pessoas mostrar-lhes-ia em enfoques
especiais e pouco-a-pouco esse processo de socialização levaria os homens a
apreciarem barrigas na rua, tudo apenas enquanto uma questão de convenção.
Esses exemplos chacoteiam do imanentismo das regras morais das práticas
eróticas.
7.1) A libido dentro dos
campos sociais.
Na obra “O Banquete” há o
discurso de Pausânias, esse que Bourdieu fala com grande simpatia, isso porque Pausânias
diz o que Bourdieu gostaria que Platão tivesse dito através de Sócrates. A
proposta de Pausânias afirma existir um eros vulgar e outro nobre. O eros
vulgar e o nobre são resultados de interesses sociais em conflito, em outras
palavras, as cidades definem, de forma particular, aquilo que é digno e indigno
desejar. O que Pausânias propõe é uma sociologia do amor, entendendo que as
cidades são espaços de definição do amor a ser sentido (amor legítimo, nobre) e
do amor a não ser sentido (amor ilegítimo, vulgar). Enquanto um personagem
criado por Platão, Pausânias estabelece que o amor vulgar será o sexo, porque
tudo que é inferior para Platão está no corporal, por outro lado o amor nobre
será imediatamente relacionado à intelecção, em outras palavras, existe nobreza
no amor quando existir ganho intelectivo na relação entre os amantes. Mas o
importante surge quando Pausânias destaca que, por exemplo, quando alguém tem
excitação de desejo por outrem, tal desejo, próprio do corpo de quem ama, ele
terá um valor social definido na e pela cidade, assim, caso seja outra cidade a
observada, o valor social desse amor será outro também. Nesse sentido esse
personagem até arrisca uma tabela ao falar do homossexualismo, demonstrando que
em certas cidades ele é tolerado, em outras é aplaudido ou insuportável,
dependendo da sociedade a excitação por um corpo do mesmo sexo terá um valor
social diferente.
Daqui são possíveis algumas
conclusões, primeira, como toda verdade relativa, essa é uma perspectiva execrável
em Platão, pois para ele toda verdade transcende as particularidades sociais,
segunda, a perspectiva de Pausânias leva a perceber desde a muito cedo a
impressão de existirem desejos certos e errados de sentir, quer dizer, existem
coisas legitimas e ilegítima a desejar, cabendo à cidade, sociedade ou
civilização certa educação do desejo, para tal educação é necessário agir sobre
o corpo desejante para que ele possa gostar do que pode ser gostado, desejar o
possível de ser desejado, amar o que é amável, tudo segundo um entendimento
particular daquela sociedade específica. A perspectiva de amor em Pausânias vai
ser usada por Bourdieu de maneira muito eloquente e clara quando esse autor
busca mostrar que existe uma investigação necessária sobre a influência da
sociedade sobre as paixões.
O que o sociólogo deve
investigar? A investigação da influência da sociedade sobre o que os agentes
sociais pensam é muito menos necessária, pela sua própria obviedade. Ao
Sociólogo, mais relevante, é a investigação da influência da sociedade sobre o
que tais agentes sentem, pelo fato dessa influência estar presente de maneira
muito menos óbvia, afinal ela se confunde com a naturalidade de um corpo que
desejaria naturalmente. Existe na sociologia a necessidade da investigação da
participação da sociedade na definição dos objetos legítimos de desejo e,
digamos, na socialização de entidades desejantes para tal desejo, em outras
palavras, o trabalho legítimo de civilização cuida de um trabalho de
direcionamento do eros para o que for legítimo desejar, nessa ideia quando é
encontrado um agente social que deseja objetos ilegítimos está se presente a um
erro civilizatório, um desvio, e como não é possível colocar na cadeia a
sociedade, então vítima do desvio será a entidade desejante, aquela que sofre
as consequências. Exemplo: Um adolescente inclinado a manipular tatilmente as
mamas das colegas e professoras de uma escola, em um primeiro momento de vida
existe a autorização da manipulação mamária pela criança, isso demonstra, de
certa forma, um alinhamento entre o que a sociedade autoriza e o que o instinto
natural recomenda, tal situação segue até certa idade, em um segundo momento
alguém alerta essa criança que não lhe é mais autorizada tal manipulação, a
resistência em obedecer a esse comando é o desdobramento da ineficácia do
processo civilizatório sobre ela, possuidora de um desejo inadmissível, embora
no passado admitido. Existindo socialmente uma classificação etária dos desejos
legítimos, alguém fracassou no momento de produzir-lhe uma tristeza necessária
para que evitasse de buscar esse tipo de satisfação do toque mamário.
Bourdieu explica que na tensão
entre o princípio de prazer e o princípio de realidade, de certa maneira, a
realidade é a sociedade organizada para fazer triunfar a sua condição de
sobrevivência em relação às pulsões dos agentes que dela fazem parte. Quando a
sociedade fracassa em fazer triunfar essa condição de sobrevivência sobre as
pulsões de seus agentes existe ali um desvio social e civilizatório, como
consequência o indivíduo pode não temer, tanto o quanto necessário, tomar atitudes
socialmente censuradas para satisfação de seus desejos, e embora trate ser um
problema social, quem sofre as consequências dessa carência sócio-educativa é o
próprio carecedor, ou seja, aquele que foi vítima de uma sociedade claudicante
nos seus processos de civilização. Nessa perspectiva Bourdieu vai, a partir de
Pausânias, proporcionar uma reflexão sobre um eros de campo.
Haverá tantas libidos quantos
forem os campos sociais em questão, em outras palavras, cada campo apresenta certa
forma particular de organizar a libido de seus agentes sociais. Todos os homens
possuem uma energia vital pulsional que não pode ficar como ela nasceu, desorganizada,
quem lhe organiza então é aquele determinado universo social onde cada homem está
inserido, também chamado de civilização. A civilização é o espaço social
legítimo de organização da libido, energia vital, com vistas à proteção da
sociedade, e, de certa maneira, à inclusão do homem no seu interior. Nesse
âmbito o homem vai aprendendo como satisfazer aquele desejo que é sempre o seu
próprio, afinal de contas tão ininterrupta quanto a sua pulsão em busca de
prazer também é a civilização em impedir sua satisfação de maneira
desorganizada.
Na obra “Eros e Civilização”, o
filósofo Herbert Marcuse assevera que, para a energia vital humana não permanecer
desorganizada, em particular a sociedade capitalista redireciona a inclinação libidinosa
de seus agentes sociais para o trabalho. Nessa ideia quanto maior o dispêndio
de tempo e energia por parte do agente para seu trabalho, maior também será o aumento
de seu poder aquisitivo para bens consumíveis, sendo esse consumo o responsável
pela satisfação momentânea daqueles seus desejos vitais. Assim, por exemplo, o
trabalhador aceita trocar uma noite de amor com sua esposa por duas horas
extras diárias no seu emprego.
Bourdieu parte dessas noções para
esculpir seu pensamento. Ocorre que certa referência à “sociedade capitalista”
reflete uma conjuntura muito ampla, daí imprecisa, dentro desse grande universo
social existem especificidades, assim Bourdieu divide essa sociedade em campos
sociais e consegue um resultado infinitamente mais peculiar, pois estuda o
mecanismo de organização das energias libidinosas dentro de certos espaços
sociais, digamos, de maior especificidade nesse resultado organizador, daí a
perspectiva desse pensador relata libido acadêmica, econômica, política,
jurídica, jornalística e assim por diante. Portanto aceitando que os espaços
específicos de pertencimento social eles, de forma relativamente autônoma,
organizam mecanismos organizadores da energia vital, e, de certa maneira,
garantem um resultado apaziguador, de estabilidade, específico daquele espaço
social, fica impossível simplesmente estabelecer certa referência à sociedade
capitalista, afinal cada microuniverso social consegue esse resultado de
maneira diferente.
7.2) Os Ritmos vitais.
Nessa organização das forças
vitais dentro dos campos sociais, Bourdieu vai introduzir o elemento da
temporalidade existencial. Bourdieu estava convencido de que uma das formas
privilegiadas da sociedade sovar o indivíduo para torná-lo dócil ao
pertencimento social se desdobra através da organização de seu ritmo de vida
propriamente, em outras palavras, o ritmo de vida é um elemento constitutivo do
habitus de cada um, constituído dentro de um espaço específico de relações
sociais, sendo fortemente determinante da organização da energia naquele
espaço.
Ao ser inserido na sociedade, o
indivíduo não pode ter sua energia vital à solta na busca pelos seus desejos, daí
imprescindível a existência de mecanismos sociais para segurar sua onda. A
pergunta de Bourdieu surge sobre qual sociedade especificamente é aquela que
segura essa onda? Quais os elementos daquela sociedade que mais diretamente
agem sobre o indivíduo? Bourdieu relata que no seu caso, por exemplo, a
responsabilidade de organizar sua energia vital no sentido de não convertê-lo
em um homem perigoso para a sociedade é aquela do campo acadêmico, sendo esse o
espaço que se responsabilizará por lhe fazer disponibilizar energia de certa
maneira socialmente legítima, autorizada, reconhecida, e porque não dizer até
nobre. Assim se o indivíduo é um funcionário da bolsa de valores, jornalista ou
advogado, ele organizaria sua energia vital diferentemente, porque o espaço responsável
por esse resultado é outro, portanto existe aí uma especificidade a ser
investigada.
Como Bourdieu investiga essa
especificidade? Através dos ritmos existenciais, ou seja, através da maior ou
menor rapidez sejam dos encontros, relações ou afetos dentro do campo social.
Nessa perspectiva a sociedade é um mosaico de orbitais e os átomos dentro
desses orbitais circulam em velocidades diferentes. Exemplo: a cadência acadêmica
da USP costuma ser aquela do professor renomado que chega cedo à universidade e
se dirige à lanchonete para lentamente tomar café, ali relaxa, analisa as
notícias do dia, faz breves fichamentos dos livros novos, para daí iniciar sua
única aula ministrada uma vez por semana, e, como uma aula por semana lhe custa
muito cansaço, então entrega sua presidência ao assistente; ao ser questionado
sobre sua estática cadência de vida, na mente desse professor despontam
respostas na ponta da língua, alegando que, para pensar o que pensa, seu ritmo
de vida não pode se desdobrar na mesma velocidade como um empresário compra
ações, pois o pensamento requer tempo, por outro lado, para um empresário é
normal que lhe acompanhe um ritmo de vida rápido, mas a profundidade do pensar
exige a lenta maturação das ideias. Assim o ambiente acadêmico é um espaço de
lentidão legítima, e será nele que a sociedade vai organizar as atividades dos
agentes sociais acadêmicos. Na hipótese de alguns dos agentes sociais tentarem
acelerar a lentidão desse ritmo de vida, surge que começarão a girar sozinho,
isso porque existe uma cadência rítmica de deslocamento que faz com que os
encontros sejam organizados em função de ritmos específicos daquele espaço.
Além da USP, existe na França uma expressão chamada “passos de senador”, cuida
dos passos daqueles homens que não parecem querer chegar ao seu destino,
perceba, o homem não foi eleito senador por andar devagar, mas ele passa a
andar devagar porque é entendido que naquele universo não adianta andar rápido,
pois ninguém lhe acompanhará, daí andará sozinho, em outras palavras, existe um
ritmo social que contamina e respinga certa cadência individual.
Muitas vezes existem conflitos de
socialização. Bourdieu vai falar de um habitus primário enquanto disposições de
agir que o homem adquire na infância e adolescência, vitimados por um
pertencimento familiar e escolar, é o caso daquele indivíduo que, enquanto jovem,
é tido por muito ansioso, e, chegando à sua vida adulta, ingressa em um
ambiente universitário ou laboral incompatível com aquele tipo de habitus
primário, assim deverá ele passar por um realinhamento das suas disposições
práticas. De certa maneira, podemos ter certeza que os especialistas em Recursos
Humanos das empresas são pessoas com faro para identificar esse tipo de alinhamento,
a única coisa que eles desconhecem é que tais são esses alinhamentos
decorrentes de processos de socialização, e não de genética, disposições inatas
ou competências intelectuais, daí quando afirmam certo interessado na vaga de
emprego enquanto enquadrado de acordo com o perfil procurado ou não, isso
ocorre pela constatação de existência um alinhamento ou não de socializações e
espaços diferentes.
Essas cadências vitais são
socialmente definidas, tal assertiva nos leva a imaginar que o tipo de ritmo de
vida de certo homem é o exemplo maior de um atributo de habitus, porque tal
cadência de vida é o tipo da ocorrência que o agente social não presta atenção,
na verdade só lhe prestará atenção quando dela sente excesso ou falta, assim, existindo
certa cadência normal de vida, cuida ser ela uma circunstância natural para os
sentidos do agente social. Lembrando que habitus não é natural, mas trata
daquilo que foi socialmente disposto enquanto aprendizado social. Enquanto a
única atitude onde o indivíduo não precisa parar e pensar sua melhor maneira de
atuar, o habitus abrange aquilo que é normal para ele, de tal maneira que termina
por sentir-se bem em um lugar onde seu próprio “jeito de ser” coincide com o “jeito
de ser” das pessoas, assim o agente social sente que já conhecia tais pessoas a
tempos, na verdade essa sensação resulta de uma certa coincidência entre o que
já acontecia antes e o que acontecia naquele espaço. Exemplo: há alguns anos
atrás, no cartório, o funcionário local apanhava um livro gigantesco e escrevia
de forma típica e grotesca, de maneira que algum sujeito desconhecedor lhe
estranha, mas para quem vive ali tal atitude é o que é. O dominante desse campo
é aquele que tem a inicial do nome maior. Essa é uma forma de materializar certo
tipo de convivência que vai se naturalizando no dia-a-dia.
O agente social só percebe
possível viver diferentemente de seu modo de ser quando transgride, escapa,
encontra algo oposto, sendo obrigado a conviver com outras circunstancias que
não estão de acordo com aquele seu habitus, é por isso que as pessoas evitam
mudar seu ritmo de vida. Naturalmente o homem encontra explicação de todos os
tipos, mas não aceita que na verdade aquele prazer, seja de chegar todo dia às
8 da manhã, comer no mesmo lugar, encontrar as mesmas pessoas e fazer todo dia
a mesma coisa, nada mais é que um processo de socialização onde, não só é
agradável quando se está alinhado com o esperado do comportamento, como também
impede a ocorrência de encontros desagradáveis, isto é, encontros em que as
expectativas em relação ao seu comportamento sejam agressivas em relação às
tuas disposições de agir.
7.3) Bourdieu versus
Aristóteles.
É aqui que Bourdieu zomba da eudaimonia
aristotélica. O universo aristotélico trata de um todo organizado onde existe
um alinhamento entre cosmos, logos e theion, ou seja, pelo fato do universo ser
ordenado, ele também é lógico, compreensivo e belo. Tal beleza e maravilha da
ordem universal o homem aceita que não foi ele que fez, portanto, lhe transcende
a existência, daí seu aspecto divino. Tal concepção surge da mitologia, onde
Zeus organizou o universo e assim abrigou os entes em um lugar natural para que
pudessem cumprir suas finalidades. Aristóteles relata um lugar natural, o que
quer dizer, quando o vento venta, ele não o faz em qualquer lugar, portanto o
vento possui certo lugar natural para ventar entre diferentes pontos de pressão
atmosférica, da mesma forma a maré, os vegetais e os animais. Por seu lado, os
homens, enquanto parte da natureza, também possuem para si consagrado certo
lugar natural, sendo esse o espaço onde melhor ele pode atualizar seus talentos,
ou seja, melhor pode traduzir em ato a potência de seus talentos. Os entes, nos
seus respectivos lugares naturais, permanecem em harmonia com a natureza do
cosmos, o que faz com que vivam bem. Esse viver bem recebe o nome de
eudaimonia, bem supremo. Para que se viva bem, com felicidade, é preciso estar
posicionado em seu lugar natural e atualizar com excelência a particularidade
de seus talentos. A expressão é “Lugar natural”, sendo a natureza aquela que
dispõe dos lugares em função da particularidade natural dos talentos de cada
ente. A vivência eudaimonica para Aristóteles ocorre quando o ente vive em seu
lugar natural, fazendo aquilo que corresponde às próprias inclinações naturais
de seus talentos na ordem cósmica.
Quando se compra a ideia
aristotélica afirmando que o lugar de cada homem já está pré-estabelecido, daí fica
fácil justificar o motivo do por que um manda e o outro obedece: por força de
talentos naturais distribuídos por Zeus. Toda vez que alguém atribui à natureza
certa responsabilidade da divisão do trabalho social assim o faz para justificar
qualquer situação de seu interesse, por mais injusta que seja, nesse sentido, a
natureza é uma instância legitimadora dos exercícios de poder na sociedade, daí
é possível de entender o motivo de Aristóteles gostar de existir escravidão,
afinal ela se encaixa perfeitamente com a ideia de que tem homens superiores a
outros, por conta de seus talentos naturais e capacidade de atualizá-los na
natureza.
Aristóteles afirma que a vida
feliz ocorre quando há um alinhamento entre:
(1) a natureza;
(2) o lugar onde o ente vive;
(3) a atualização do talento
natural deste ente;
(4) e aquilo que o universo
espera dele.
Para Bourdieu a ideia de lugar
natural não se sustenta, afinal para o ente possuir certo lugar que lhe seja
natural é preciso conseguir posicioná-lo em determinado lugar exclusivo, e,
para tal posicionamento, é necessário pressupor que o cosmos seja finito. Havendo
infinitude no cosmos, determinado posicionamento só é possível de ocorrer por
meio de convenção social. Então o lugar natural de Aristóteles, Bourdieu
substituirá pelo lugar social ou posição social. Tal proposta afirma que a
felicidade requer mesmo um alinhamento, mas, ao contrário de Aristóteles, para
Bourdieu o universo é infinito e desordenado, daí não pode ser referência para
nada. Assim, enquanto referência, só resta uma sociedade dividida em campos
sociais, no interior onde surgem os troféus sociais disputados por agentes
sociais e as competências necessárias para que aqueles agentes alcancem tais
troféus. Essas competências são definidas e forjadas em espaços próprios para
formação de competências.
Quando ocorre o alinhamento entre
competência e formação dos agentes sociais, o que a sociedade espera deles e o
troféu a ser buscado, daí haverá felicidade, ou seja, o agente social tenderá a
ser feliz quando, de certa maneira, ele deseja algo; possua competência, formação, capital,
condições para alcançá-lo; e a sociedade aceite seu desejo enquanto probo e
espere que seja alcançado. Nesse sentido também existe um alinhamento possível
em Bourdieu, ocorre que tal alinhamento não decorre da natureza com o cosmo,
mas sim de certa educação do agente social de acordo com aquilo que a sociedade
espera ele conseguir em um determinado espaço. Aqui ainda é possível colocar
mais um elemento suplementar: quase toda energia que o ator social
disponibiliza para alcançar o desejo pretendido para tal alinhamento social
está situado na esfera o óbvio, não percebido, inconsciente.
Em suma, a condição de felicidade
do ator social requer:
(1) a inclusão em um espaço
social organizado;
(2) pertencimento a esse espaço:
condições de disputar os troféus desse jogo;
(3) acumulo progressivo de
capital específico no campo;
(4) competência, sempre relativa,
para alcançar os troféus do campo;
(5) desejo óbvio de alcançar os
troféus do campo;
(6) Uma sociedade que espera que
esse ator social alcance os troféus do campo;
Assim existe um alinhamento que
vai desde o indivíduo até a sociedade, cuja fronteira é difusa.
Os antropólogos estão incluídos
em uma categoria que, de certa maneira, Bourdieu contribuiu para borrar, quando
estabelecem a fronteira entre o natural e o cultural, daí afirmando que a natureza
cuida do natural e cultural cuida daquilo resolvido pelo homem. Bourdieu mostra
que tal diferença não existe, porque a natureza é aculturada e cultura também
será naturalizada, em outras palavras, quando a cultura apresenta materialidade
ela será natural, portanto, a natureza humana é culturalizada, não há natureza
humana sem essa, e não há cultura que seja materializada em uma natureza,
portanto natureza e cultura é a mesma coisa. A separação dessas duas noções tem
como objetivo estabelecer a ideia de um indivíduo puro de um lado e a cultura
de outro, como se houvesse uma espécie de fase estanque, sem perceber que o
indivíduo, ainda dentro do útero materno, já sofre influência das situações
sociais, não havendo natureza que não comece a ser sovada pela cultura em um
momento original, daí a fronteira antropológica ser tida como fictícia,
tipicamente intelectual, que não corresponde a nada na realidade.
7.4 ) Eros e a philia.
Nessa investigação sobre a ideia
de interesse, Bourdieu dirá que o interesse não é só eros, pois, nesse sentido,
o interesse seria sempre por desejar o que não se possui. Para esse pensador é
perfeitamente possível desejar o que já se possui. O agente social deseja
aquilo que já possui quando ele está muito satisfeito em ocupar a posição que
ocupa.
Nesse sentido Bourdieu dirá que
interesse, além de eros, também é
philia. Philia é alegria, disposição a continuar tendo o que se possui.
Interesse também é sustentabilidade, a sustentabilidade também é interessada.
Aquele indivíduo que está bem sucedido na vida almeja continuar dispondo
daquilo que está em seu poder. Claro, a maioria dos atores sociais olha para
cima, desejando ter aquilo que não possuem, porém, antes de tudo, também
existem os dominantes que precisam continuar possuindo aquilo que já possuem
daí são interessados. Assim existe um interesse em ter o que não tem por parte
dos subvsersivos do campo social (eros); e também de ter o que já possui por
parte dos dominantes (philia).
Existe também uma concepção de
falta na perspectiva da conservação de uma posição de dominação, porque claro,
o interesse é de continuar possuindo amanhã aquilo que é possuído hoje, o
indivíduo se alegra possuindo hoje, mas deseja continuar, no amanhã, alegrado
com aquilo de hoje.
Essa ideia de interesse enquanto
um hibrido de eros e philia, ou seja, a busca de troféus ainda não alcançados e
a preservação daqueles já alcançados, nos permite entender certo aspecto muito
importante na filosofia de Bourdieu: tudo tende ao monopólio e nada alcança o
monopólio, em outras palavras, todo competidor busca o acúmulo de capital
específico no campo social com vistas a obtenção dos troféus desse espaço. A
tendência segue em sentido a um acúmulo indiscriminado de capital,
reconhecimento, glória, prestígio, satisfação, aplauso do outro etc, em suma, a
um monopólio. Ocorre que esse monopólio jamais é conquistado porque sempre
haverá enfrentamento com outros competidores que buscam os mesmos troféus,
interesses contraditórios e assim por diante. Embora em seu interior exista uma
tendência monopolista, o campo social é um espaço invariavelmente de
distribuição e redistribuição permanente dos bens que estão em circulação no
seu espaço, em outras palavras, a tendência do monopólio ocorre sempre a partir
do olhar do jogador, mas quem olha o campo social por cima percebe que o campo social
é o espaço que redefine a distribuição de seu capital social, portanto, esse
monopólio é sempre desejado, mas jamais alcançado.
Os campos sociais se materializam
em um espaço de jogo que nunca termina, porque em um jogo quando alguém ganha
todas suas disputas internas o que se faz é começar a jogar de novo, na
sociedade isso nunca acontece porque os troféus estão sempre em disputa, em
outras palavras, o campo social é o espaço de disputa permanente onde nenhum
jogador terá condições de monopolizar os recursos dentro do espaço, por mais
invencível que ele seja, pois o campo social sempre será um local de vitórias
parciais provisórias, divisões provisórias de capital, portanto, de redefinição
permanente da posição de seus jogadores. Pode ali haver os ministros do STF,
situados no topo do campo jurídico, mas esse campo será sempre muito maior do
que o capital de qualquer um deles, de tal maneira, poderia dizer, o campo social
será tão mais estruturado quanto mais as posições sociais que lhe constituem
independerem das características particulares dos seus ocupantes provisórios. Embora
o ocupante seja transitório, passageiro, as posições sociais que ele ocupa são
espaços de capital social, transitoriamente ocupadas, que devem subsistir à
passagem de seus ocupantes provisórios. Exemplo: O troféu maior do campo
político simbolicamente é a presidência da república, assim esse campo social
será tanto mais estruturado quanto a posição maior do presidente república
tiver o seu prestígio independentemente de quem é o presidente. Nunca haverá
uma domínio absoluto da estrutura do campo social em relação a particularidade
de seus ocupantes.
É claro que o capital da posição social
ocupada dentro do campo social não se confunde formalmente com o capital de
seus agentes, porém, de certa maneira, as características pessoais do ocupante
acabam contaminando o capital de sua posição social ocupada, daí respingando
sobre ela o seu próprio capital social pessoal, portanto nunca haverá uma predominância
absoluta de um capital sobre outro. Tudo em Bourdieu é de certa forma
tendencial, mas nunca é absoluto, é claro, por conta disso, a sociologia
Bourdieu sempre clama por uma investigação material da situação histórica
concreta dos ocupantes das posições do campo social.
Os espaços sociais são locais de
acúmulo de capital social, portanto é possível utilizar dois tipos de capitais
em circulação. O capital social particular dos agentes que investem no espaço e
o capital social que circula no espaço e que, de certa maneira, é um capital do
espaço. Exemplo: a instituição de ensino onde, internamente, um de seus
professores tem certo capital específico, é o reconhecimento desse agente
social enquanto acadêmico, esse capital social está em transformação permanente
a cada gesto que ele faz nas suas aulas e no campo acadêmico. Esse professor quando
diz que a instituição onde leciona é a USP, vai se apropriar de um capital social
que não é próprio seu, mas sim acumulado pela instituição ao longo de décadas,
sendo, naquele instante, apropriado pelo professor por se apresentar enquanto
representante daquele espaço.
Razão pela qual o interesse pelo
pertencimento ao campo social é o interesse da possibilidade da apropriação de
recursos próprios daquele espaço. O interesse do professor em dizer que leciona
na USP surge pela importância que a sociedade estabelece em caracterizar determinado
sujeito e edificar sua identidade, nesse caso reflete primeiro o prestígio de
pertencer a uma instituição, segundo que nenhuma instituição tem tanto capital
equivalente acumulado como o da USP, daí quando se diz pertencer a uma
instituição com tanto capital acumulado, óbvio, o ganho social é maior de
quando é dito pertencer a outro espaço com capital acanhado.
Assim o professor adere o nome da
instituição que trabalha junto ao seu quando lhe interessa, ou seja, quando
ganha com isso, por outro lado, quando o professor não vai ganhar em lhe aderir
tal nome, daí ele omite. Óbvia a existência de um capital pessoal intransferível
que está ligado com a própria performance, a particularidade da existência
social do agente social, por outro lado, também existe um capital coletivo do
qual ele dispõe pelo pertencimento a tal coletivo. Assim quando é perguntado o porquê
professores brigam para ingressar no corpo docente da USP, não sendo tal instituição a melhor remuneradora
econômica, para a resposta são insuficientes explicações naturalísticas do tipo
“pelo próprio dever de educador”, sendo imprescindível a análise do interesse
em questão. Nesse sentido, apesar de não haver uma boa remuneração hora/aula
para seu corpo docente, o que já leva a ser observado o interesse simbólico em
questão, pertencendo a esse espaço os professores podem se servir de um capital
simbólico enorme, que está à disposição deles quando afirmam socialmente ali lecionar,
por isso se estapeiam nos concursos, mesmo não valendo pouco sua remuneração econômica.
Também pode existir a situação inversa, quando o capital social do agente no
campo supera o capital da instituição, nessa situação é o capital social do
agente que empresta legitimidade à instituição. Assim as instituições são espaços
sociais como bancos, onde alguns agentes e outras instituições sociais
emprestam, sangram capitais sociais, enquanto aqueles que não emprestam, desse
espaço lhe retiram capital para seu ganho pessoal, sendo esse o local que
assegura a transferência de capital simbólico de uns para outros. Daí muitos
agentes e instituições participam desse espaço por habitus, ou seja, eles
comparecem, mas nem menos sabem por que fazem isso.
Assim o processo de transferência
de capital pode ser bastante sofisticado, dinâmico, dependente da história e
particularidade da inscrição naquele lugar da instituição social. Sendo assim, para
definir interesse, sempre deve se considerar três tipos de variáveis:
(1) O capital a receber.
(2) O capital que se pleiteia com
o gasto da energia.
(3) O investimento realizado no
espaço.
É preciso, portanto, identificar
que tipo de ganho o agente social aspira ao investir tempo e dinheiro em certo
espaço de inclusão social.
A perspectiva de ganho de capital
simbólico ela é relativamente autônoma à existência orgânica dos corpos. O interesse
social transcende e muito o apetite orgânico dos corpos. O capital social ele
transcende a vida orgânica dos corpos supostamente detentores desse capital
porque a vida social transcende muito mais a vida orgânica. Exemplo: quando no
Brasil se fala de Ulysses Guimarães, ele mantém uma existência social que não
corresponde a nenhuma existência física.
Bourdieu dirá que a existência
social do indivíduo ainda não nascido, já está permeada de capital específico,
visibilidade, honra, notoriedade, glória, respeito, tudo por força de certa
estrutura civilizatória da relação social que lhe inseriu ao mundo, essa não é
uma questão natural, resultante do útero que lhe gerou, aqui está se falando da
situação onde, embora não houve fecundação, a posição social já existe, e
apenas aguarda o corpo se apresentar para ocupá-la.
Também é possível vislumbrar a
situação inversa, o corpo orgânico do agente cessa a existência, mas sua vida
social continua com toda a notoriedade, reputação, prestígio, reconhecimento,
glória e assim por diante. Nesse caso, o agente social, embora já tenha falecido,
continua sendo um jogador terrível dentro do campo social, e a posição que ele sempre
ocupou em sua existência orgânica será a mesma que continuará ocupando
socialmente por décadas depois de sua morte, e de certa maneira, dependendo de
quem é, continuará estruturando o espaço social em que ele vivia. Assim existe
um descolamento entre o capital simbólico identitário do jogador e a sua
existência física orgânica, em outras palavras, se houver condição de
eternidade, tal condição está nos recursos sociais e simbólicos de que dispõem
para existir em sociedade, esta sim sobrevive à carne. Sabendo que os filósofos
usam o termo transcendência, Bourdieu brincava, e dizia que a sociedade é a
referencia transcendente para os recursos vitais, porque, de certa maneira, o
indivíduo, mesmo perdendo sua vida orgânica, continua produzindo, incomodando,
atrapalhando, e de certa forma, organizando a vida social à sua volta mesmo não
estando mais lá, só com o reconhecimento da própria existência pretérita.
Essa frase vale demais para
Bourdieu. Afinal, mesmo falecendo em 2002, basta entrar na sala de aula desses
professores pós-modernos para perceber que o ódio por Bourdieu continua o mesmo
como se ele ainda estivesse ali, e essa é uma vingança suprema, porque o
reconhecimento, isto é, aquilo que os outros pensam de alguém, continua entristecendo,
mesmo ele estando ausente, não precisa de alma transcendente, basta capital
social para estar incomodado por alguém que já morreu. O capital simbólico faz às
vezes da alma penada, pois sobrevive à vida e participa diretamente do mundo
dos viventes já na forma de cadáver.