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A Antropologia econômica de Pierre Bourdieu. Sua contribuição para a análise da economia e da mudança.

A Antropologia econômica de Pierre Bourdieu. Sua contribuição para a análise da economia e da mudança. De Robert Boyer.

“L’anthropologie économique de Pierre Bourdieu”, en Actes de la recherche en sciences sociales, Vol. 150, diciembre, 2003, “Regards croisés sur l’anthropologie de Pierre Bourdieu”




A linguagem de Pierre Bourdieu parece tomar emprestadas muitas de suas noções básicas da economia e ele abordou esse campo disciplinar em um de seus trabalhos dedicados à análise das estruturas sociais da economia. O objetivo deste artigo é justamente examinar a antropologia econômica de Pierre Bourdieu, tentar desvelar os equívocos levantados a esse respeito, mas também fornecer uma série de argumentos a favor de uma tese que muitos de seus críticos julgariam paradoxal: distante de estar confinada à análise da reprodução, proporciona uma série de determinantes de mudanças, em particular o institucional. De passagem, aparecerão certas aproximações com os objetivos, senão é com os conceitos e métodos de pesquisa aplicados em economia, sobre os modos de regulação. 


A obra de Pierre Bourdieu e sua evolução provocaram inúmeros comentários e se opuseram quase ritualmente, por um lado, aos ardentes admiradores e discípulos que vêem nele o fundador de uma sociologia reflexiva com vocação científica e, por outro, aos detratores que relativizam ao mesmo tempo que negam qualquer contribuição para a compreensão das sociedades contemporâneas. Nesse debate, dois temas recorrentes perpassam a polêmica. Por um lado, Pierre Bourdieu teria permanecido em um economicismo que se distinguiria apenas marginalmente da teoria neoclássica, na medida em que é apresentado como discípulo de Gary Becker. Por outro lado, a ênfase colocada nos conceitos de habitus e campo não autorizaria apenas a análise da reprodução social e não a transformação das sociedades. 


Este artigo visa responder a essas duas críticas simétricas. Desde logo, mostra-se que os detratores de Pierre Bourdieu tomaram imediatamente como moeda corrente os títulos de suas obras que efetivamente sublinham a permanência da reprodução dos papéis sociais, ao passo que, para além das definições dessas noções básicas, o propósito é bem outro do que uma redução a uma lógica puramente econômica. Mas é importante, devo sublinhar imediatamente, que os defensores de Bourdieu não destacaram suficientemente o caráter profundamente dinâmico de quase todas as pesquisas realizadas desde Béarn a Cabila, até a análise do mercado imobiliário individual, incluindo os da universidade, da literatura, da arte ou mesmo da nobreza de Estado. 


Um uso descuidado de noções canônicas de economia? 


Tornou-se vulgar criticar Bourdieu como vítima da importação, consciente ou inconsciente, das categorias de análise da economia para as ciências sociais e em particular para a sociologia (2). Sua obra acabaria sendo definida como nada mais do que uma variante da economia neoclássica padrão. [Mas] uma análise mais atenta e fiel, tanto à letra quanto ao espírito, abre outras perspectivas. Com efeito, o campo da economia é apenas um dos domínios em relação aos quais se estruturam ações e conflitos, enquanto as próprias instituições econômicas apresentam uma construção nos moldes das obras de Norbert Elias. (3) 


Nas origens de um mal-entendido 


Na maioria dos livros e artigos de Pierre Bourdieu, abundam os termos que se referem à economia: interesse, lucro, (4) capital e até mercado, são muitas vezes mobilizados em outros campos que não a economia. É a recorrência do uso desses termos que suscitou as críticas frequentemente dirigidas a Pierre Bourdieu: enfim, para além de seu projeto explícito, ele teria estendido o raciocínio econômico a um conjunto de outros domínios (o meio artístico, o mundo acadêmico, práticas linguísticas, relações de gênero etc.), desnaturalizando a lógica desses campos. Esta interpretação dá testemunho, no entanto, de um mal-entendido do espírito e dos próprios textos. Esses termos emprestados da economia assumem um significado diferente em cada um dos campos e não são  mais do que o ponto de partida de análises que introduzem determinantes muito diferentes daqueles postulados pela teoria neoclássica padrão ou sua extensão à análise dos fatos sociais na corrente de Gary Becker (5) e daqueles por ele inspirados. (6) De fato, Pierre Bourdieu trabalha com uma sociologia do interesse em oposição a uma sociologia que seria geral. 

O que pode enganar é que, como os economistas neomarginalistas, coloco no início de toda conduta social uma forma específica de interesse, de investimento. Mas apenas as palavras são comuns. O interesse de que falo nada tem a ver com interesse próprio de Adam Smith, o interesse a-histórico, natural, universal, que na verdade nada mais é do que a universalização inconsciente do interesse que a economia capitalista engendra e supõe. (7)    


De fato, há tantas declinações dessas noções-chave tomadas de empréstimo da economia como há campos. Por “campo” devemos entender uma delimitação do mundo social que é regido por suas próprias leis e códigos, ainda que trate da universidade, do jornalismo, do mundo literário, artístico ou político e que formam muitos outros universos de conluio e jogos de papéis (jeux de rôle) . 


Em Bourdieu, cada campo é caracterizado por uma forma de interesse particular e diferente. Certamente, o interesse apreciado pelos economistas está presente no campo econômico, mas não é encontrado como estruturante de outros campos. Em certos casos, a ação aparentemente mais desinteressada ainda obedece à lógica do campo (acadêmico, artístico etc.). De fato, o interesse econômico não é o equivalente geral dos interesses que se desdobram nos diversos campos e esta é uma diferença fundamental com a pesquisa sociológica inspirada na problemática das decisões racionais. A aplicação da lógica do homo oeconomicus não conduz a contradições multiplicadoras na maioria dos campos? Para não dar mais exemplos, qual a relevância e abrangência da hipótese que tornaria o nobre vinculado à corte de Luís XIV com o equivalente do empresário capitalista maximizando sua ganância de lucro intertemporal? Ou ainda, pode-se descrever o cientista segundo a figura típica do empresário, para quem toda atividade prevê a maximização do lucro? 


Por sua vez, o uso da noção de lucro (profit) é mais metafórico do que tipicamente econômico. O termo designa de fato o resultado da ação que se declina de maneira específica em cada campo, de modo que o ganho pode ser simbólico, tanto ou até mais do que econômico. Tudo depende da natureza e organização do campo em que os indivíduos operam. Um termo mais preciso certamente seria distribuição de atributos (desiguais) ou mesmo ganhos no seio de um determinado campo. No campo acadêmico, por exemplo, os ganhos são eminentemente simbólicos: o reconhecimento pelos pares através da frequência das citações, as responsabilidades assumidas nas sociedades científicas (sociétés savantes) , etc. É somente em sociedades e pelas épocas onde predomina uma lógica econômica que, sobre o mercado acadêmico, esse reconhecimento tende a se converter em uma diferenciação de renda e vantagens monetárias e não monetárias. 


O mesmo acontece com a noção de capital, que não pode ser reduzida apenas ao capital econômico. De fato, outras formas coexistem e são dotados a priori de uma autonomia bastante radical, sejam eles características do capital cultural (diploma, conhecimento, boas maneiras) ou mesmo do capital social ligado à rede de relações que um agente mantém. É também uma lógica diferente da que opera para o capital simbólico: ela permite, com efeito, obter o equivalente do que revelam outras formas de capital, por exemplo, o capital econômico. Certamente, essas diferentes formas de capital podem eventualmente se converter umas nas outras, mas o processo não tem a automaticidade que a teoria do capital humano em sua variante beckeriana postula. Portanto, é inapropriado referir-se a uma categoria tão problemática da teoria neoclássica, ainda mais quando após a "controvérsia das duas Cambridges" ficou demonstrado que não há medida teoricamente fundamentada de capital econômico. O interesse dessa noção na construção bourdieusiana (construction bourdieusienne) é dar conta de uma acumulação diferencial de acordo com as posições ocupadas no campo considerado. Refere-se, portanto, a uma relação de dominação, assim como o capital econômico expressa a dominação do capital sobre o trabalho. Nesse sentido, Pierre Bourdieu rompe com a sociologia das escolhas racionais em que elas não interagem mais do que iguais, pelo menos em direito, senão de fato . 


Os limites da transposição são ainda mais evidentes no que diz respeito ao uso da noção de mercado, cujo significado é claro para o campo econômico. Mas, se a pesquisa em sociologia econômica sublinha que esse modo de coordenação é resultado de uma construção da qual participam determinados atores-chave (8) , o uso é mais metafórico na maioria dos outros campos. Pode-se falar verdadeiramente do mercado matrimonial a menos que se postule que a potência da lógica econômica vai dominar todos os outros campos a ponto de lhes constituírem em mercados, entendidos em sentido estrito? Pode-se supor que esse risco de confusão seja assumido por Pierre Bourdieu, que pratica assim o equivalente à arte do judoca: importar uma noção-chave na análise das sociedades contemporâneas para melhor evidenciar a lógica das interações dentro de um campo. Mesmo no mundo acadêmico, onde a lógica do desinteresse substitui a do interesse próprio na esfera econômica —lógicas invertidas que obedecem, portanto, a um modelo invariante a priori de acordo com os campos —. Mas ao fazer isso, Pierre Bourdieu se expõe a uma possível incompreensão: que uma leitura superficial pode dar a impressão de uma adesão a uma variante da teoria neoclássica padrão. 


Um antídoto para o uso extensivo da noção de racionalidade 


Os agentes econômicos, em suas decisões cotidianas, colocam em ação os mesmos mapas cognitivos que os economistas profissionais? Pode-se realmente resumir as relações econômicas à única relação mercantil entre indivíduos dotados dos mesmos poderes, capacidades e informações? A figura do homo oeconomicus , considerado como agente representativo, não dissimula a ausência de solução para a passagem micro-macro? Por que considerar que, em todos os lugares e sempre, o Estado desestabiliza o curso da atividade econômica? Por fim, as teorias do equilíbrio permitem pensar o tempo da história e as transformações que ela implica? Finalmente, é razoável postular leis econômicas invariantes no tempo e no espaço? 


Á todas estas questões Pierre Bourdieu aporta elementos de resposta, não somente graças a uma crítica epistemológica e metodológica dos pressupostos antropológicos da teoria das escolhas racionais, e mais ainda, através de uma conceitualização original de vários campos e da sua articulação. Essa construção pode ser aplicada à análise da atividade econômica. Muito generosamente, de fato, o teórico neoclássico atribui aos agentes econômicos concretos a mesma racionalidade que ele mesmo postula para dar conta de uma economia pura. Em uma percepção que, sob a análise, se pretenda positiva, se descobre o projeto normativo: se os dados de observação não condizem com os dados teóricos, algumas irracionalidades dos agentes ou falhas (incompletudes) dos mercados são tidas como certas. (9) Terá sido reconhecido o projeto do fundamentalismo neoclássico, mesmo que se oponha ao uso das hipóteses de racionalidade e equilíbrio de mercado como metodologia, deixando em aberto a questão da existência de um equilíbrio econômico e seu caráter mais ou menos satisfatório em relação a um ótimo paretiano. (10) 


Levar em conta o tempo também representa também um problema temível para quase todas as teorias econômicas. (11) Efetivamente, o tempo que o economista leva em conta é o do cálculo, da antecipação, da convergência para um equilíbrio: é um tempo cinemático, em grande parte virtual, pois é o simples suporte de um experimento mental (expérience de pensé) do teórico neoclássico. 


Ao contrário, a questão do tempo histórico está no centro da construção do agente econômico, como sublinha a própria definição de habitus em Bourdieu. Um segundo fator de mudança é introduzido através da evolução das regras do jogo que regem o funcionamento de um campo e, mais geralmente, pela transformação histórica das instituições econômicas. Assim, a sociologia econômica, que se interessa na gênese das categorias, instituições e mercados, fornece um ponto de partida para uma historicização* (12) da análise econômica. Ela constitui, portanto, uma alternativa à teoria neoclássica, cujas previsões são permanentemente contrariadas pela recorrência de inovações, ambas percebidas como radicais, mas de fato menores, ou vice-versa, devido a mudanças inicialmente marginais que levam a uma transformação do conjunto do modo de regulação como um todo. (13) 

*Nota do tradutor: a expressão original é historicisation, isto é, o ato de atribuir caráter histórico ao que normalmente apresenta-se como algo ahistórico, quer dizer, “que está à margem da história o de fluir do tempo”. No entanto se traduz como “historicización” (em inglês existe “historicization”), parece mais correta nossa tradução: dado que não se reconhece a expressão “historicización” e se aceita o verbo “historiar”, a expressão “historización” resulta mais adequada.


O papel do Estado e da política não deixa de criar um problema para a maioria das teorias econômicas. De fato, em uma análise que formaliza as interações entre os agentes econômicos racionais apenas por meio dos mercados, por sua própria construção, qualquer intervenção estatal é prejudicial. Se os ensinamentos da teoria neoclássica padrão forem tomados ao pé da letra, o economista não pode ser mais que o defensor e propagandista do mercado. Por outro lado, se recorre à história econômica, aparece uma notável complementaridade entre o Estado e o mercado. Em numerosos casos, e não apenas naqueles que, como a França, estão caracterizados pelo capitalismo de Estado, a ação dos poderes públicos torna possível a instituição do mercado. Uma teoria puramente econômica do mercado aparece como uma contradição em seus termos: o fundamento de uma economia de mercado é a instituição monetária, sendo também inseparável da soberania e da legitimidade que fundamenta o Estado. (14) Assim, o postulado de uma teoria pura sobre a possibilidade do fechamento do campo econômico sobre si mesmo (a saber, a explicação  da economia apenas por fatores econômicos) é dificilmente sustentável posto que supõe uma separabilidade que inúmeras evidências empíricas tendem a invalidar. Não o será, porque a instituição do mercado corresponde a um processo que mobiliza a estratégia de diversos agentes sociais e muitas vezes o poder de legitimação do Estado. 


Economia como campo e disciplina: outras construções 


Com raras exceções, tais como a economia industrial, a maioria das pesquisas em economia postulam a existência de um mercado e estudam suas propriedades sem nunca propor uma teoria geral. Com demasiada frequência, supõe-se que o interesse bem compreendido dos atores fará emergir a instituição do mercado, uma vez verificada sua superioridade em relação a uma economia em que as transações eram regidas pelo escambo. Esquece-se, como mostrou Alfred Marshall, que um mercado só toma forma se os intermediários puderem converter a informação sobre os fornecedores e os demandantes em fonte de lucro, graças justamente à organização de um mercado de que eles estão na origem. (15) Por sua vez, ao longo das últimas duas décadas, os próprios economistas mostraram os limites da coordenação pelo mercado a partir do fato da imperfeição e assimetria da informação, (16) o impacto das representações no funcionamento dos mercados (17) ou mesmo a natureza constitutiva de certas normas sociais. (18) Mesmo uma vez constituído, o mercado não tem garantia de ser auto equilibrado, posto que, em certas configurações de retornos de escala, de diferenciação de qualidade e de número e coordenação dos agentes, pode não oferecer uma solução para a coordenação de um série de ações descentralizadas. (19)

 

Por assim dizer, a maioria dos economistas considera que o mercado é a solução para os problemas de coordenação entre agentes interdependentes, enquanto, para as ciências sociais, a constituição do mercado é o problema que importa analisar. Função e funcionamento do mercado em um caso, emergência e construção no outro: as investigações econômicas postulam de fato um mecanismo central do qual não fornecem a teoria, muito menos a gênese, enquanto que os estudos de sociologia econômica fazem uma análise da gênese dos mercados. No mercado do setor estudado por Marie-France Garcia, (20) é a aliança de um funcionário da Câmara de Agricultura formado em teoria neoclássica e seus produtores locais, em conflito com os atacadistas, que faz emergir uma forma de mercado mais de acordo com a concorrência perfeita. É um mecanismo muito mais sutil que atua na constituição da imagem e dos mercados dos vinhos da Borgonha estudados por Gilles Laferté. (21) Enquanto no início da década de 1920 os comerciantes organizaram o mercado de acordo com seu lucro, relegando as denominações de origem e criando novas marcas, a irrupção de um pequeno número de novos atores, tais como Jules Lafon, iria permitir (re) inventar uma tradição e inclinar o modelo organizacional do mercado em benefício dos proprietários e das denominações de origem, construindo assim uma nova imagem dos vinhos da Borgonha. Esse exemplo de mercado, analisado como construção social, desmente a  concepção de um campo como um espaço de reprodução idêntica. Um terceiro exemplo encontra-se com toda segurança na análise de Pierre Bourdieu sobre a emergência do mercado de casas individuais: é o resultado de uma dupla construção social realizada tanto sob demanda - através da formação de preferências individuais e dos auxílios em termos de acesso a crédito e subsídios públicos – e sobre a oferta – por intermédio da ação sobre as próprias construtoras –. (22) Em ambos os casos, o Estado contribui para formar esses dois componentes do que aparecerá ex post como um mercado.          


A relação dominante/dominado estrutura vários campos 


Na maioria das teorias econômicas, o mercado é apresentado como a instância cardeal, mesmo exclusiva, de coordenação de um conjunto de comportamentos de agentes descentralizados. Esse mecanismo é percebido como uma relação horizontal entre agentes dotados do mesmo poder de influência sobre o mercado, poder que é nulo quando a concorrência é perfeita. O mercado é frequentemente apresentado não apenas como eficiente, mas também como justo na medida em que cada um contribui para a formação do preço na proporção de sua renda e/ou de sua riqueza. Neste ponto também a sociologia econômica de Pierre Bourdieu insiste em uma propriedade fundamental: qualquer que seja o campo, alguns têm mais poder do que outros, de modo que a competição não oferece a equalização de oportunidades, mas a reprodução de uma distribuição desigual do capital. Nesse sentido, todos os campos são trabalhados pela oposição entre dominante e dominado, que caracteriza tanto sua estrutura quanto sua dinâmica e transformação. A priori, essa oposição não deixa de lembrar a distinção de Marx entre relações de mercadoria e relações de produção, mas não se reduz a isso. De fato, uma divisão de dominação do trabalho prevalece dentro dos vários campos: cada uma delas é caracterizada por relações de poder específicas, fundadas na posse de uma ou outra forma de capital. Assim, a diferenciação dos capitais é uma garantia contra a imposição de uma hierarquia única que estaria fundada na concentração de todos os poderes. Nesse ponto, a teoria bourdieusiana se opõe àquelas concepções marxistas que fariam, por exemplo, do poder político a simples expressão da dominação do capital econômico. Para Pierre Bourdieu, se os diferentes campos se unem por uma certa solidariedade baseada na homologia de posições, também se opõem a relações de competição e conflitos relativos, por exemplo, ao estabelecimento da taxa de conversão entre os diferentes tipos de capitais que são constitutivos de vários ramos. (23) Da mesma forma, um indicador global de capital não pode ser construído independentemente do campo em que o agente opera. 

 

Assim, a heterogeneidade das posições sociais forma em grande parte habitus e estilos de vida. (24) Enquanto o economista tende a considerar exógena a heterogeneidade das preferências e competências dos indivíduos, a abordagem de Pierre Bourdieu interessa-se pelos fatores que determinam a distribuição das diversas formas de capital, bem como sua evolução ao longo do tempo. É um esclarecimento valioso do famoso e não resolvido dilema das relações entre a microanálise e a atualização das regularidades macroscópicas. De fato, Pierre Bourdieu ajuda o economista a compreender melhor as razões dos fracassos e das tentativas orientadas de produzir uma agregação perfeita, ou alternativamente em sua margem de erro, partindo de indivíduos serializados que não se distinguiam mas que pelo nível de renda (revenu). (25) São as relações dinâmicas entre agentes desiguais que definem as características de um campo, propriedade que também se aplica aos diversos mercados.        


Outro interesse da separação entre dominantes e dominados é introduzir imediatamente um aspecto dinâmico na análise. Cada campo é palco de lutas para preservar ou transformar a distribuição do capital, traço que vale também para os campos científicos. (26) Os dominantes estão em boa posição para implantar as estratégias que lhes permitam preservar sua posição e ampliar seu capital, mas os dominados, assim como os recém-chegados, têm interesse em desestabilizar as posições que adquiriram e, consequentemente, desenvolver inovações, desvalorizar o capital detido pelos detentores do poder estabelecido. É claro  que a desestabilização de um campo não é um fenômeno muito frequente, mas é errado concluir que cada um deles é o lugar de reprodução ad infinitum da mesma estrutura. É obrigatório se perguntar por que tantas críticas a Pierre Bourdieu o erigiram como um teórico da reprodução. Não se encontra repetido em quase todos os seus trabalhos que: "a análise da estrutura, a estática, e a análise da mudança, a dinâmica, são inseparáveis?". (27) Muitos leitores, assim, parecem confundir a afirmação de que leis invariantes regem o funcionamento de vários campos, com a impossibilidade de uma análise das dinâmicas históricas que operam dentro de cada campo. 


Sob o pretexto da reprodução, uma teoria da mudança 


Ficaríamos tentados a defender uma interpretação paradoxal da obra de Bourdieu: enquanto uma leitura superficial sugere uma fatalidade da reprodução social, na verdade todo o esforço de análise é orientado para a atualização dos fatores de mudança e transformação. Da mesma forma que os primeiros trabalhos sobre a Argélia tratam essencialmente da análise das transformações econômicas e sociais, (28) o tema das crises não deixará de ser retomado em outros terrenos. Além disso, o conceito de habitus e o campo convidam a uma abordagem histórica que visa discernir a gênese, a institucionalização, depois os fatores de transformação e, finalmente, a crise de um campo. 


O equívoco dos críticos diz respeito principalmente ao conceito de habitus: o habitus seria apenas o hábito, portanto a reprodução mecânica de invariantes levando ao desaparecimento da autonomia dos indivíduos, portanto a uma história imóvel marcada pela dominação permanente dos proprietários do capital sobre os dominados, (29) sem prestar atenção à própria letra dos textos de Bourdieu, segundo os quais o  habitus é “o que foi adquirido, mas está encarnado de forma durável no corpo na forma de disposições permanentes”. Isso constitui um princípio de invenção que, produzido pela história, é relativamente arrancado da história: as disposições são duráveis, o que acarreta todo tipo de efeitos de histerese (atraso, desencontro...). (30) 

 

A história é introduzida também pelo fato de que o investimento (l'investissement) em um campo resulta da interação entre um espaço de jogo que define os truques e um sistema de disposições ajustado a esse jogo. “Em outras palavras, o investimento é o efeito histórico do acordo entre duas realizações do social; nas coisas, pela instituição, e nos corpos, pela incorporação”. (31) Consequentemente, o ajuste de um ao outro não passa de um caso particular quando instituições e habitus foram engendrados pelo mesmo processo histórico. Embora os primeiros trabalhos de Pierre Bourdieu tratassem justamente dos desequilíbrios e falhas no bom funcionamento de um campo cuja lógica passa então despercebida. 


É, sem dúvida, do caso particular de habitus e estrutura, entendido como princípio de repetição e conservação, um conceito que, como o de habitus, ele me foi imposto como o único meio de dar conta dos desequilíbrios que se observam em uma economia como a da Argélia nos anos 1960 […] entre as estruturas objetivas e as estruturas incorporadas, entre as instituições econômicas importadas e aquelas impostas pela colonização (ou atualmente fornecida pelas demandas do mercado) e as disposições econômicas fornecidas por agentes diretamente saídos do mundo pré-capitalista. * (32) 


*Nota do tradutor: no artigo original se atribui erroneamente esta citação ao livro de Bourdieu titulado Choses dites, Paris: Minuit, 1987 [Trad. esp. Cosas dichas, Barcelona: Gedisa, 1993]. Em outros textos de Boyer esta mesma passagem aparece com a referência correta; veja-se por exemplo: Robert Boyer, “L’art du judoka. Une sociologie aux frontières de l’économie”, en: Encrevé y Lagrave, Travailler avec Bourdieu, París: Champs-Flammarion, pp. 267-279. [Trad. esp. P. Encrevé y R.-M. Lagrave, Trabajar con Bourdieu, Ed. Universidad Externado de Colombia, 2005]. 

Da mesma forma, contra a identificação do habitus a um princípio monolítico e imutável, o exemplo dos subproletários argelinos mostra “a existência de habitus cindidos, rasgados, que carregam sob a forma de tensões e de contradições a marca das condições contraditórias de formação de que são o produto”. (33) 


Assim, o habitus não está necessariamente adaptado nem é necessariamente coerente [...] pode acontecer que, segundo o paradigma de Dom Quixote, as disposições estejam em desacordo com o campo e com as “expectativas coletivas” que são constitutivas de sua normalidade. É o caso, em particular, quando um campo passa por uma profunda crise e vê suas regularidades (incluindo suas regras) profundamente perturbadas. (34) 


Essa perspectiva teórica está presente em todas as obras de Pierre Bourdieu, quer se trate do trabalho na Argélia, (35) da evolução da sociedade camponesa do Béarn, (36) da crise da universidade, (37) das estratégias de reconversão das elites francesas (38) ou mesmo da questão feminina. (39) Sem esquecer o problema simétrico, o da emergência de um novo campo, por exemplo o do setor da casa individual. (40) 


Não podemos deixar de ficar impressionados com uma certa analogia entre interpretações tendenciosas das teorias bourdieusianas e a recepção da teoria da regulação. O nível de análise é certamente diferente, bastante microeconômico para o habitus e o campo, macroeconômico para a abordagem regulacionista. Enquanto este encontra sua origem na tomada de consciência da crise progressiva, então aberta, do regime de crescimento posterior à Segunda Guerra Mundial, (41) os críticos não param de denunciar o caráter estático e o postulado de uma reprodução idêntica das instituições do capitalismo. Em grande medida, essa apreciação decorre das conotações associadas ao termo regulação (reprodução homeostática de um sistema) que tende a colocá-lo acima da definição precisa do que é um modo de regulação (42) concebido como um equilíbrio transitório de forças levando à desestabilização endógena de um regime de acumulação. (43) Em ambos os casos, as noções elaboradas para levar em conta a construção social de indivíduos e instituições pela história são interpretadas como defesa e ilustração de uma reprodução do idêntico, sem possibilidade de transformações, tanto marginais quanto radicais. Essa mesma crítica não deixou de ser dirigida a Bourdieu, embora sua finalidade fosse fornecer, graças a uma análise reflexiva, as ferramentas que eventualmente permitissem superar a aparente fatalidade das relações de dominação que se expressam em cada um dos campos. 


A gênese dos campos e dos mercados           


Assim, uma das ferramentas essenciais não é outra senão os recursos da história para caracterizar as configurações contemporâneas e prevenir qualquer tentativa de naturalização. Por exemplo, a análise da obra de Gustave Flaubert dá testemunho do processo de autonomização do campo literário no século XIX. (44) Da mesma forma, uma de suas contribuições para a economia consiste em fazer ressurgir as condições sociais de emergência dos mercados, a partir do exemplo, certamente particular, mas esclarecedor, da casa individual. (45) Os resultados acumulados por esses diversos trabalhos (tabela 1) traçam um caminho de pesquisa que a sociologia econômica explora, paradoxalmente, mais sistematicamente nos Estados Unidos (46) do que na França. 


Quadro 1

Gêneses dos campos e dos mercados: Alguns exemplos


Campos / Mercados

Referências

Fatores de emergência

Especialização /

Autonomização

Atores dominantes

Poder do Estado

Artístico

L’Amour de l’art, Bourdieu (1966)

*



mercado setorial

La Construction social d’un marché parfait, Garcia (1986)


*

*

literário

Les Règles de l’art, Bourdieu (1992)

*

*


meios de comunicação

Sur la télévision, Bourdieu (1996)

*

*


mercado de casa  individual

Les Structures sociales de

l’économie, Bourdieu (2000)

*


*

Vinhos de Borgonha

Folklore savant et folklore

commercial, Laferté (2002)


*

*


Os múltiplos fatores de mudança: uma taxonomia 


Uma vez constituído um campo, sua operação põe em movimento uma série de forças de mudança na origem do movimento histórico. Nesse sentido, só podemos lamentar que poucos economistas tenham lido a seção intitulada "Princípios de uma antropologia econômica" que encerra o trabalho sobre as estruturas sociais da economia. (47) Pelo menos cinco fatores contribuem para a mudança e essa tipologia ultrapassa o quadro estrito do mercado estudado.            


Um primeiro fator diz respeito ao fato de que os atores dominantes no campo têm certa capacidade de impor “o tempo das transformações […] e o uso de diferenciais de tempo é uma das principais formas de seu poder”. (48) É preciso, com efeito, lembrar que a reprodução das posições no campo supõe a recriação permanente da desigualdade de distribuição da forma de capital que é discriminante. A perpetuação da dominação não pode, portanto, basear-se na reprodução idêntica de estratégias, pois pressupõe também inovação. Nesse sentido, pode-se pensar que o campo artístico — ou mesmo o campo literário — é exemplar dessa pressão pela novidade que se torna uma característica maior. 


Por outro lado, a entrada de novos agentes provavelmente modificará a estrutura do campo. Este fator é certamente crucial na economia, pois a pressão pela inovação para liberar novas fontes de lucro leva, em certos períodos históricos, a uma transformação das estruturas produtivas. Essa dinâmica também é reforçada pelo fato de que a competição econômica vem de outras nações ou de outros setores. Esse fator de mudança é encontrado na maioria dos campos: a generalização do acesso à educação para novos estratos sociais altera o funcionamento do sistema, assim como a renovação do corpo docente na universidade não deixa de afetar a dinâmica. (49) 


Por sua vez, “as mudanças no interior do campo estão muitas vezes ligadas às mudanças no exterior do campo. À superação das fronteiras soma-se as redefinições das fronteiras entre os campos”. (50) Na economia, observa-se assim a constituição de novos setores por especialização: na indústria de computadores, por exemplo, a produção de programas (software) se autonomiza em relação à produção de material (hardware) a ponto de inverter a hierarquia dentro do setor; isso então testemunha a evolução da distribuição de lucros. Ao contrário, certas inovações radicais podem conduzir à criação de um novo setor pela fusão de setores antigos: o encontro de tecnologia da informação e telecomunicações, por exemplo, transformou os monopólios mais bem estabelecidos desde a década de 1960. Esse movimento de redefinição de fronteiras é especialmente identificado em economia, mas também caracteriza a maioria dos outros campos. Assim, o campo da mídia (da comunicação) afeta cada vez mais o campo acadêmico (51) e as relações comerciais penetram na atividade artística, e assim por diante. 


Entre as trocas de um campo com o exterior, Pierre Bourdieu destaca a importância das interações com o Estado. De fato, a competição pelo poder sobre o poder estatal introduz outro poderoso fator de mudança. Mais uma vez, esse fator é primordial no campo econômico, até porque mesmo as estratégias ditas liberais chamadas de retorno ao mercado são, na verdade, baseadas na realidade sobre o poder do Estado. Da mesma forma, a evolução contemporânea dos diversos campos é marcada pelas lutas em torno das intervenções públicas. (52) É sem dúvida esta tomada de consciência que explica a multiplicação das intervenções de Pierre Bourdieu na arena política, particularmente frequentes a partir de 1995. (53) Estas inscrevem-se numa permanência de reflexões sobre a significação das características da nobreza do Estado e sobre a oposição entre o público e o privado. (54) 

 

Por fim, a dessincronização entre habitus e campo, o fato de mudanças que afetam a estrutura da distribuição dos capitais nos diferentes campos, constitui fonte frequente de mudança, até mesmo de crise. É o caso, por exemplo, de transformações gerais que afetam a demografia, o estilo de vida ou relações de gênero, que são difratadas em todo o mundo social. (55) Ou também, simplesmente, uma mudança nas taxas de equivalência entre diferentes formas de capital pode repercutir em toda uma série de campos, o que desestabiliza a capacidade de reação do habitus formado em um contexto diferente. Em certos casos, a complexidade das interdependências entre os campos pode ser a origem de crises que afetam mais ou menos diretamente as condições e os fatores de dominação dentro deles. 


Assim, o quadro conceitual, que parece privilegiar a noção de reprodução, coloca permanentemente a questão da transformação do campo. Na terminologia de Pierre Bourdieu, o campo é dotado de uma certa plasticidade e se distingue nisso do conceito de aparato, pois "um campo se torna um aparato quando o dominante dispõe de meios para anular a resistência e as reações dos dominados". (56) Ou ainda, “a luta permanente dentro do campo é o motor do campo. Vê-se, aliás, que não há antinomia entre estrutura e história [...] A estrutura do campo [...] é também o princípio de sua dinâmica”. (57) 


A análise da mudança e das crises 


Se for adotado o ponto de vista que acabamos de apresentar, a obra de Pierre Bourdieu contém um paradoxo. Por um lado, ele não teve tempo para completar a teoria geral dos campos permanentemente anunciada, trabalhada e reelaborada através de vários trabalhos, mas nunca completamente formalizada. Por outro lado, sua construção teórica tem favorecido uma leitura superficial que tende a subestimar a contribuição para a compreensão da mudança e das crises, cuja característica é esclarecer os mecanismos ocultos de reprodução. 


A falta de sincronia entre um campo e um habitus é analisada em muitas investigações: a incapacidade dos primogênitos de se adaptar a um mercado matrimonial que não é mais local na sociedade bearnesa dos anos 1960, (58) o desenraizamento dos Cabilas diante da dominação colonial sobre a economia e da heteronomia da noção de trabalho, (59) a crise da instituição universitária sob o efeito da mudança da população estudantil e a crescente heterogeneidade do novo recrutamento de professores, (60) o mal-estar e a desilusão das diversas categorias de assalariados sob o efeito da mudança na natureza do trabalho em um período de crise econômica, (61) as dificuldades do feminismo diante da permanência das estruturas invisíveis que regem a relação entre o masculino e o feminino. (62) Esses exemplos exigem uma reavaliação de sua contribuição para a compreensão das sociedades contemporâneas e mostram que a construção teórica não perdeu sua capacidade de provocar um programa de pesquisa original (tabela 2). Da mesma forma, as múltiplas intervenções de Pierre Bourdieu na arena política podem ser interpretadas como um indicador complementar da importância atribuída à mudança, a atualização das leis gerais de reprodução, sendo uma das condições de uma ação coletiva verdadeiramente transformadora.


Uma certa homologia com as investigações econômicas institucionalistas 


As obras regulacionistas — críticas às hipóteses das teorias neoclássicas sobre a racionalidade, o tratamento do tempo e a noção de equilíbrio — (63) não deixaram de encontrar a sociologia de Pierre Bourdieu em suas investigações de uma lógica de ação compatível com uma abordagem histórica e institucional. Em particular, o conceito de habitus apareceu como referência consistente com a ênfase colocada na determinação da lógica dos agentes pelo contexto institucional, ou mais exatamente, os compromissos institucionalizados. O desenvolvimento do programa de pesquisa foi conduzido a encontrar outras contribuições de Pierre Bourdieu relacionadas com fatores de mudança, em particular sob o impacto da oposição entre dominantes e dominados, o político e o simbólico, sem esquecer o papel da escola na transmissão das desigualdades. 


Do habitus à racionalidade institucionalmente situada 


Desde a sua origem, os trabalhos com uma perspectiva principalmente macroeconômica (natureza e evolução dos regimes de acumulação e modos de regulação) experimentaram a necessidade de especificar qual seria a teoria de ação que lhes seria conveniente adotar. A rejeição do homo oeconomicus dotado de uma racionalidade substancial estendida, com capacidade de cálculo excepcional e de um poder de antecipação quase perfeito, levou a manter a concepção de habitus, entendido como matriz para a formação de comportamentos, fortemente marcados pela história. (64) De maneira mais implícita do que explicitamente, o desenvolvimento do programa de pesquisa regulacionista levou a especificar e redefinir essa contribuição. 


Em primeiro lugar, a noção de habitus supõe uma restrição da esfera em relação à qual a ação é definida. Enquanto a hipótese da racionalidade substancial afirma que cada agente conhece o conjunto do sistema de preços; de fato, como é dispendioso reunir as informações correspondentes, os agentes formam rotinas que lhes permitem relacionar-se com a esfera econômica em que eles costumam operar habitualmente. Assim, os assalariados e, mais ainda, as organizações coletivas que são os sindicatos, levam em conta um número restrito de variáveis ​​(os preços ao consumidor, desemprego, produtividade) (65) sem ser capazes, em geral, de internalizar as consequências indiretas que transitaram pelo impacto macroeconômico da conjunção de uma série de negociações descentralizadas. De alguma forma, os comportamentos são especificados em relação a cinco formas institucionais: regime monetário, relação salarial, formas de concorrência, relações Estado-economia e forma de inserção internacional. (66) 


Em segundo lugar, os preços não são os únicos indicadores retidos, uma vez que é essencial a internalização das regras do jogo e dos efeitos induzidos nos outros atores. Mais uma vez, o exemplo das negociações salariais é esclarecedor desse ponto de vista. Pode-se mostrar que, devido à mesma estruturação das preferências e objetivos dos assalariados por um lado, e dos empregadores por outro, o nível dos salários, e por extensão do emprego, depende dos modos de interação entre os atores. Quer os empregadores sejam organizados ou, inversamente, sejam os assalariados, ou mesmo que uma organização profissional negocie com um único sindicato, os resultados macroeconômicos serão radicalmente diferentes. (67) Os economistas, em sua maioria regulacionistas, estarão tentados a atribuir uma certa primazia às regras do jogo, mas que ao habitus, sem por ele negar a importância deste último para explicar a diferenciação social e a heterogeneidade. Com efeito, se o fato das transformações políticas, o contexto institucional mudar significativamente, é possível postular uma alteração nas regularidades macroeconômicas sem por ela postular uma mudança equivalente nos objetivos perseguidos pelos atores. (68) Um exemplo, entre outros: os camponeses franceses que deveriam ser emblemáticos malthusianos (no período entre guerras), tornam-se, nos anos 1960, produtivistas na origem da produção excedente e, finalmente, críticos dos ambientalistas. A teoria da regulação tende a privilegiar a mudança institucional, em oposição à incorporação individual da aprendizagem, e portanto a questão concernente à transformação das regularidades macroeconômicas.           

 

Essa concepção não impede o reconhecimento de que os objetivos e preferências dos agentes são moldados na e pela história, como afirma uma forte variante da teoria institucionalista. (69) Essa maleabilidade do habitus acrescenta um fator de evolução complementar em comparação com aquela  que impulsiona a mudança institucional sob o impulso do político. Mais uma vez, um exemplo ilustra essa dualidade: para interpretar a transformação do capitalismo francês na década de 1990, é sem dúvida necessário analisar o impacto da desregulamentação financeira e da abertura às normas internacionais de boa governança. Mas pode ser invocado também uma mudança nas concepções dos grandes grupos franceses e seus líderes e reviver a onipotência do impulso (conatus) do capital, (70) talvez sob o efeito de uma renovação das gerações de grandes funcionários do Estado e empresários. De qualquer forma, as mega-opes e OPAs ( mega-ofertas públicas de troca ou compra de ações) não poderiam ocorrer com tanta frequência sem a mudança do contexto institucional. Assim, as formas institucionais parecem preponderantes na gênese das regularidades macroeconômicas.


Quadro 2

A mudança no centro de análise dos campos

Campos / Mercados

Referências

Fatores de emergência

dessincronização-habitus/campo

Estratégias de Atores dominantes

Novos ingressos

deslocamento-endógeno-das fronteiras entre campos

competição pelo poder sobre o poder do Estado

Campesinos

bearneses

“Célibat et condition

paysanne”,

Bourdieu

(1962)

Le Bal des célibataires,

Bourdieu (2002)

 [El

baile de los solteros,

2004]

Incapacidade dos

primogénitos para adaptar se a um mercado matrimonial que já não é local



de

não-campesinos


do

avanço da economia

de mercado sobre o

acesso ao matrimônio


Cabilas

Esquisse d’une théorie

de la pratique, Bourdieu

(1972).


processo de socialização cabila envolve estranha noção de

trabalho


Imposição de normas colo-

niais




Consequência da

dominação colonial sobre a organização das relações


Universitários

Homo academicus,

Bourdieu (1984)

[Homo academicus,

2008]

abertura do

acesso aos estudantes universitários desestabiliza o campo



Heterogeneidade

crescente do

corpo docente

devido ao efeito de ampliação do recrutamento


a mudança da composição social da população estudantil afeta relacionamentos

universidade/economia




Campos / Mercados

Referências

Fatores de emergência

dessincronização habitus / campo

Estratégias de Atores dominantes

Novos ingressos

deslocamento endógeno das froneiras entre campos

competição pelo poder sobre o poder do Estado

Elites Econômicas

La Noblesse d’État,

Bourdieu (1989)

Transformação do regime econômico e impacto sobre o sistema educativo superior

Estratégia de

reconversão

dos filhos de familia burguesa

criação de novos cursos escolas de comércio

a internacionalização e deslocamento da fronteira do público


Assalariados

La Misère du monde,

Bourdieu (1993)

Divorcio entre as

expectativas engendradas por uma configuracão anterior do

campo e as construções associadas a um novo regime

económico




mudança das políticas econômicas para o liberalismo


 Sob a figura da invariância, duas análises da mudança histórica          


Tanto Pierre Bourdieu quanto os regulacionistas foram criticados por analisarem a reprodução de um campo ou de um sistema econômico, no qual os atores estariam sujeitos a um determinismo implacável, impedindo-os de mudar. Em ambos os casos, os críticos tomam literalmente a denominação de habitus por um lado e de regulação por outro. Mas isso é esquecer que, em ambos os casos, o projeto busca examinar em que condições a mudança é possível. [Isso] se vê quando Pierre Bourdieu escreve que não falar dos “sujeitos” da tradição das filosofias da consciência, não vem “aniquilar os agentes em benefício de uma estrutura hipostasiada, como fazem certos marxistas estruturalistas. E que mesmo que esses agentes sejam produto dessa estrutura e contribuam para perpetuá-la, sem excluir a possibilidade de que podem transformá-la mais ou menos radicalmente, mas sob condições estruturais bem definidas”. (71) Essa intenção também se encontra na obra fundadora da teoria da regulação: 


Falar da regulação de um modo de produção é procurar expressar a maneira pela qual a estrutura determinante de uma sociedade se reproduz em suas leis gerais [...] Uma teoria de regulação social é uma alternativa global à teoria do equilíbrio geral [...] O estudo da regulação do capitalismo não pode ser a busca de leis econômicas abstratas. É o estudo da transformação das relações sociais que criam novas formas ao mesmo tempo econômicas e não econômicas, formas organizadas em estruturas e que reproduzem uma estrutura determinante, o modo de produção. (72) 


Em certo sentido, desde o início, a pesquisa regulacionista não parou de detectar mudanças nas formas institucionais e de tentar diagnosticar regimes de acumulação e modos de regulação em gestação. (73) 


Essas semelhanças são encontradas novamente em um nível mais analítico. Já foi sublinhado por Pierre Bourdieu: “No campo há lutas, logo há história”, (74) enquanto para os regulacionistas é a arquitetura das formas institucionais que orienta e polariza os conflitos. Na maioria das vezes (tais formas institucionais) são a própria expressão do funcionamento da regulação, mas podem, em certos períodos históricos cruciais, tornar-se fatores determinantes em termos de constituição das próprias formas institucionais. Enquanto Pierre Bourdieu se interessa pelo deslocamento de fronteiras e relações entre campos sob o efeito de lutas internas, a teoria da regulação insiste na alteração no decorrer do tempo do modo de regulação, sob o próprio mesmo efeito da extensão de sua lógica e do sucesso de sua reprodução econômica. Essa diferença se deve à diferença de escala entre os dois programas de pesquisa: em grande parte meso/micro em um caso, essencialmente meso/macro no outro. 


Uma última convergência diz respeito ao papel atribuído ao Estado. Em ambos os casos, o poder estatal está no centro da mudança na maioria dos campos e formas institucionais, como no caso do campo econômico estudado por Pierre Bourdieu, ou nas análises regulacionistas do Estado como ponto de passagem quase obrigatório das transformações da relação salarial, (75) das formas de concorrência e da articulação com o regime internacional. (76) Esse papel é ainda mais evidente no que diz respeito aos compromissos institucionalizados que formam a cobertura social, o sistema fiscal e a natureza do gasto público. (77) Enquanto para muitos teóricos econômicos as intervenções públicas geralmente tiveram um papel perturbador, na realidade elas cumprem um papel constitutivo e constituinte. 


Estratificação social e regimes de crescimento emergentes 


Análises do papel do sistema educacional na reprodução social (78) não deixaram de ser retrabalhadas ao longo do tempo. (79) Destes trabalhos emerge uma ideia-força: a escola e, de forma mais geral, o sistema educativo são matrizes da reprodução das disposições e, por essa via, das posições ocupadas nos diversos campos. Mas essa invariante é compatível com variações notáveis ​​na organização da instituição escolar, da universidade ou das Grandes Escolas. No entanto, a hipótese central é que a heterogeneidade social que resulta da conjunção do pertencimento familiar e do ano escolar (ambos fatores já ligados) se expressa imediatamente na relação dominante/dominado nos diversos campos.           


O contraste com as obras regulacionistas fundadoras é notável, (80) posto que no regime de crescimento fordista, como em todos os precedentes históricos, é antes a empresa que é o núcleo da reprodução do assalariado e das diferenciações dentro dela. É por isso que numerosos trabalhos regulacionistas continuam dedicados à relação salarial.* (81) Mas a decomposição da relação salarial fordista a partir da década de 1970 aponta na direção de uma crescente diferenciação do vínculo salarial, (82) ou seja, do declínio da relação salarial segundo setores, indivíduos ou empresas. Então qual é o fator que explica a diferenciação das trajetórias salariais ao longo das décadas de 1980 e 1990? No caso francês, há pouca dúvida de que a formação escolar e universitária desempenha um papel determinante, o que levou à proposta de uma generalização da noção de rácio salarial a favor da ligação entre emprego e formação. (83) Por outro lado, então, a longa história da relação salarial pode ser interpretada como resultado da interação entre a dinâmica do sistema educacional (tanto em seus componentes de educação geral quanto de formação profissional) e a evolução da divisão do trabalho no negócio. (84)       

*Nota do tradutor: a escola regulacionista estabelece uma diferencia entre rapport salarial, que traduzimos como “relação salarial”, entendida como uma das cinco formas institucionais que podem levar a uma regulação, isto é, se refere a todo o conjunto de condições jurídicas e institucionais que regem o uso do trabalho. Enquanto que por relação salarial, que traduzimos como “vínculo salarial”, se entende a proteção do primeiro em categorias específicas.   


A leitura por um regulacionista das obras de Pierre Bourdieu até o início da década de 1990, faz surgir, por contraste, uma ausência notável: a relação salarial não é mencionada como estruturante dos diversos campos, inclusive o econômico, que não é surpreendente, desde que se saiba que Pierre Bourdieu é um leitor, certamente crítico, mas atento, de Marx. 


Mas, a partir da direção do trabalho sobre o sofrimento dos assalariados nos diversos setores da sociedade francesa, (85) imediatamente após o compromisso político contra os danos sociais e humanos dos programas políticos liberais e conservadores, (86) de fato, se não em teoria, a dominação contemporânea parece recair pesadamente sobre o assalariado. Pode-se ver aí o rastro das transformações da sociedade francesa sob o efeito da crise do fordismo, o que não surpreende, desde que se note que Pierre Bourdieu sempre insistiu no caráter historicamente situado das ciências sociais. 


Pode-se falar de um cruzamento de duas agendas de pesquisa. A primeira toma consciência da ação exercida em todos os campos pela crise econômica e se limita a incorporar o fato de que a relação salarial é o determinante essencial da situação individual dos trabalhadores. A segunda, como foi mostrado, é incitada a levar em conta as consequências da diferenciação de competências e do movimento de especialização nas saídas da crise. É obscurecida a insistência na referência a uma relação salarial canônica, aquela do contrato típico do assalariado das indústrias fordistas, em favor de reexaminar o papel da diversidade dos vínculos salariais na coerência e na reatividade do modo de regulação. Assim, a teoria da regulação redescobre as virtudes da flexibilização do vínculo salarial em setores como a construção (87) ou mesmo nos serviços. (88)           


O lugar do simbólico na regulação 


Nas primeiras obras regulacionistas que fazem parte de uma reavaliação crítica do legado marxista, as representações e ideologias dos atores certamente estão presentes no funcionamento cotidiano das formas institucionais, mas não são objeto de análise explícita. Em contrapartida, na obra de Pierre Bourdieu o capital simbólico é uma categoria essencial introduzida desde os primeiros trabalhos e que marca um aporte maior para as ciências sociais. (89) Os regulacionistas se concentraram no tratamento do capital econômico, muito mais do que gostariam, pelo menos originalmente, para explicar fenômenos essencialmente como a inflação, o crescimento, a produtividade ou mesmo a evolução da taxa de lucro no longo prazo. 


Mas o desenvolvimento de programas de pesquisa faz surgir certo crescimento de preocupações. Por um lado, ao longo de sua pesquisa, Pierre Bourdieu leva cada vez mais em conta o impacto da forma propriamente econômica do capital que penetra e se manifesta em cada um dos campos. Já foi assinalado: as referências à economia como disciplina, como objeto e como implicação no funcionamento de outros campos, multiplicam-se em Pierre Bourdieu a partir de meados dos anos 1990. Por outro lado, a investigação de fundamentos teóricos da regulação, tal como a observação da década de 1990, leva ao questionamento sobre noções que, de perto ou de longe, dizem respeito ao simbólico. É o caso quando se investigam os referenciais que legitimam o retorno forçado das ideias neoliberais. (90) A questão do poder simbólico é abordada diretamente quando se ouve o relato da inflexão, após a regressão completa, das políticas econômicas que caracterizaram os gloriosos anos trinta. (91) O próprio desenvolvimento das investigações que mostram a impossibilidade de uma base individualista para a moeda leva, em primeiro lugar, à questão da violência (92) e depois se prolonga numa interrogação, ainda mais geral, sobre legitimidade e soberania. (93) A análise da inovação tecnológica (tecnologias da informação e comunicação) e/ou da inovação organizacional (as novas gerações [les jeunes poussés]) e ainda mais do processo de avaliação de ativos financeiros em novos setores fazem ressurgir o papel determinante das crenças. (94) 


Assim, no próprio coração do campo supostamente emblemático da pura racionalidade econômica (mercados financeiros) se encontram a crença, o simbólico, enfim, representações largamente extra-económicas e que, no entanto, têm impacto no perfil de evolução dos mercados bolsistas, das taxas de câmbio e, consequentemente, nas próprias evoluções macroeconómicas. Noles volens, (95) a abordagem regulacionista se compromete em um dos programas de pesquisa mais difíceis da ciência social contemporânea. À luz das transformações observadas após duas décadas, muito particularmente no domínio da legitimação das políticas econômicas, fica evidente a importância determinante do simbólico. Isso vem de alguma forma a legitimar as mediações sociais e coroar o regime macroeconômico. Ao contrário, parece que as crises mais graves são, sem dúvida, aquelas que atingem a própria ordem simbólica em si mesma. 


Colocar em perspectiva a obra de Pierre Bourdieu autoriza uma reinterpretação, bem como a evidência de uma certa convergência com certas abordagens institucionalistas na economia. Mais precisamente, os desenvolvimentos anteriores sugerem quatro proposições principais: 


1. O recurso ao vocabulário da economia, com noções de interesse, de lucro, de capital de mercado, deu origem a uma interpretação reducionista da teoria de Pierre Bourdieu. O interesse se declina segundo modalidades que não são de todo a projeção da concepção utilitarista e economicista, o lucro designa simplesmente as retribuições que são específicas de cada campo e não sua conversão monetária. O capital designa a acumulação das competências que operam em um campo e não a totalização de capital fundamentalmente econômico. Finalmente, a preponderância conferida às relações entre dominantes e dominados está longe de sustentar a visão de superioridade do mercado desenvolvida pelas teorias que postulam uma igualdade, tanto de jure e de facto, dos agentes nesses mercados. A teoria de campo, progressivamente elaborada, constitui uma verdadeira construção original e pode servir de inspiração para pesquisas econômicas alternativas


2. É abusivo considerar que Pierre Bourdieu não pode pensar mais que na reprodução de posições invariantes em um campo. Com efeito, a mobilização através da análise histórica e do trabalho de campo de conceitos básicos revela, ao contrário, uma multiplicidade de fatores de evolução, mudança, inclusive de crise aberta. A maioria das obras e trabalhos convergem efetivamente na análise de uma crise que pode derivar das estratégias de inovação dos dominantes de um campo, da entrada de novos operadores dotados de habitus que foram formados em outros campos e contextos, da redefinição endógena das fronteiras entre campos pelo efeito das lutas que no seu interior tem lugar. Por outro lado, não devemos esquecer o papel essencial da competição pelo poder sobre o poder do Estado, ou seja, sua ação na constituição ou evolução de um campo. Por fim, a alteração do contexto geral pode causar uma dessincronização entre habitus e campo, configuração frequentemente observada nas sociedades contemporâneas .          


 3. Feito isso, a teoria de Pierre Bourdieu não passa despercebida por certos programas de pesquisa em economia, como os da teoria da regulação. De fato, originalmente, o conceito de habitus parece pertinente para dar conta, por um lado, da historicidade da formação do que as teorias microeconômicas qualificam como preferências e, por outro lado, de sua evolução à medida que muda o contexto institucional. O aprofundamento desta problemática levou posteriormente ao desenvolvimento de uma abordagem segundo a qual toda a racionalidade está situada em relação ao contexto, em particular o institucional. Ao longo de um longo período, verifica-se que a estruturação das formas institucionais têm um impacto determinante na dinâmica do habitus. Mas esta adaptação é sempre aproximada e limitada no tempo. 


4. É claro que a sociologia e a teoria da regulação de Pierre Bourdieu não têm os mesmos objetivos e não desenvolvem noções e conceitos idênticos. Importa, portanto, destacar uma convergência quanto à hipótese do papel central do político, como constitutivo da identidade social de um grupo que garante os compromissos institucionais que estão no núcleo dos modos de regulação e regimes de acumulação. Assim, é impossível operar um fechamento da disciplina sociológica (que pretende explicar o social pelo social), não mais do que da disciplina econômica (que continua querendo fundar a economia a partir da estrita racionalidade econômica). A articulação com a política é essencial, tanto para entender o funcionamento de um campo ou as características de um modo de regulação, quanto para analisar crises.


NOTAS DE RODAPÉ


(1) A versão original deste texto: Boyer, Robert, “L'anthropologie économique de Pierre Bourdieu”, en Actes de la recherche en sciences sociales, vol. 150, diciembre, 2003, “Regards croisés sur l'anthropologie de Pierre Bourdieu”, pp. 65-78. doi: 10.3406/arss.2003.2772. Agradecemos aos editores de Actes de la recherche en sciences sociales sua generosa autorização para a tradução e publicação deste texto. A tradução ao espanhol é de Sergio Lorenzo Sandoval Aragón.A revisão final do texto foi realizada por Jesús Ruiz Flores.

(2) Favereau, Olivier (2001), “L’économie du sociologue ou: penser (l’orthodoxie) à partir de Pierre Bourdieu”, en Bernard Lahire (bajo la dir.), Le Travail sociologique de Pierre Bourdieu: dettes et critiques, París: La Découverte/poche, pp. 255-314 [Trad. esp.: Olivier Fevereau, “La economía del sociólogo, o pensar (la ortodoxia) a partir de Pierre Bourdieu”, en: Lahire, Bernard (2005), El trabajo sociológico de Pierre Bourdieu: deudas y críticas, Buenos Aires: Siglo xxi Editores, pp. 297-368]; Caillé, Alain (1994), Don, intérêt et désintéressement, París: La Découverte, Col. “Recherches”. 

(3) Elias, Norbert (1974), La société de cour, París: Calmann-Lévy [Trad. esp.: Norbert Elias (1982), La sociedad cortesana, México: fce].

(4) O próprio Boyer sugeriu, a propósito da presente tradução, que um fim mais adequado para traduzir o francês “profit” seria o de lucro. Nesta edição respeitamos esta observação. 

(5) Becker, Gary (1996), Accounting for Tastes, Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press. 

(6) Cameron, Samuel (2002), The Economics of Sin. Rational Choice or No Choice at All?, Cheltenham, Reino Unido: Edward Elgar. 

(7) Bourdieu, Pierre (1980), Questions de sociologie, París: Minuit, p. 33 [Trad. esp.: Pierre Bourdieu (1990), Sociología y cultura, México: Grijalbo/Conaculta, p. 92. En la traducción de Enrique Martín Criado: Bourdieu, P. (1999), Cuestiones de sociología, Madrid: Ediciones Istmo, p. 35]. 

(8) Garcia, Marie-France (1986), “La construction social d’un marché parfait: le marché au cadran de Fontaines-en-Slogne”, Actes de la recherche en sciences sociales, núm. 65, novembro, pp. 2-13; Harrison, White (2002), From Network to Market, Princeton University Press. 

(9) Boyer, Robert (2003), “L’avenir de l’économie comme discipline”, Alternatives économiques, número especial “La science économique aujourd’hui”, núm. 57, tercer trimestre, pp. 60-63. 

(10) Amable, Bruno, Boyer, Robert & Lordon, Frédéric (1995), “L’ad hoc en économie: la paille et la poutre”, en A. d’Autume & J. Cartelier (eds.), L’Économie devient-elle une science dure?, París: Economica, pp. 267-290. 

(11) Sapir, Jacques (2000), Les Trous noirs de la science économique, París: Albin Michel. 

(12) Nota do tradutor: a expressão original é historicisation, isto é, o ato de atribuir caráter histórico ao que normalmente apresenta-se como algo ahistórico, quer dizer, “que está à margem da história o de fluir do tempo”. No entanto se traduz como “historicización” (en inglês existe “historicization”), parece mais correta nossa tradução: dado que não se reconhece a expressão “historicización” e se aceita o verbo “historiar”, a expressão “historización” resulta mais adequada. 

(13) Boyer, Robert (2001), “Les économistes face aux innovations qui font époque”, Revue économique, 52(5): 1065-1115. 

(14) Aglietta, Michel & Orléan, André (1998), La Monnaie souveraine, París; Odile, Jacob (2002), La Monnaie entre violence et confiance, París: Odile Jacob.

(15) Lesourne, Jacques (1991), Économie de l’ordre et du désordre, París: Économica. 

(16) Stiglitz, Joseph (1987), “The Causes and Consequences of the Dependence of Quality on Price”, Journal of Economic Literature, núm. 25, marzo, pp. 1-48. 

(17) Spence, Michael (1973), “Job Market Signaling”, The Quarterly Journal of Economics, agosto, pp. 353-374. 

(18) Akerlof, George (1990), “The Fair-Wage Hypothesis and Unemployment”, The Quarterly Journal of Economics, 105(2), mayo, pp. 255-283. 

(19) H. White, op. cit. 

(20) M.-F. Garcia, op. cit. 

(21) Laferté, Gilles (2002), Folklore savante et folklore comercial: reconstruire la qualité des vins de Bourgogne. Une sociologie économique de l’image régional dans l’entre-deux guerres, tesis de la ehess, diciembre. 

(22) Bourdieu, Pierre (2000), Les Structures sociales de l’économie, París: Seuil [Trad. esp. Las estructuras sociales de la economía, Buenos Aires: Manantial, 2001]. 

(23) Bourdieu, Pierre (1997), Méditations pascaliennes, París: Seuil, p. 124 [Trad. esp. Meditaciones pascalianas, Barcelona: Anagrama, 2000, pp. 137 y 138]. 

(24) Bourdieu, Pierre (1979), La distinction. Critique sociale du jugement, París: Minuit [Trad. esp. La distinción. Criterios y bases sociales del gusto, Madrid: Taurus, 1998]. 

(25) Hildenbrand, Werner (1997), “On the Empirical Evidence of Microeconomic Demand Theory”, en A. d’Autume & J. Cartelier (eds.), Is Economics becoming a Hard Science?, Cheltenham: Edward Elgar, 1997. 

(26) Bourdieu, Pierre (2001), Science de la science et réflexivité, París: Raisons d’agir, p. 69 [Trad. esp. El oficio de científico, Barcelona: Anagrama, 2003, p. 64]. 

(27) Ibíd., p. 121 [Trad. esp. El oficio de científico, op. cit., p. 110].  

(28) Bourdieu, Pierre (1958 [2002 8a ed.]), Sociologie de l’Algérie, París: puf, col. “Que sais-je” [Trad. esp. Antropología de Argelia, Madrid: Centro de Estudios Ramón Areces, 2007]. Nota do tradutor: pode consultar também: P. Bourdieu, Argelia 60: Estructuras económicas y estructuras temporales, Buenos Aires: Siglo xxi Editores, 2006]. 

(29) Caillé, A., op. cit.; Favereau, O., op. cit

(30) Bourdieu, Pierre, Questions de sociologie, op. cit., pp. 134 y 135 [Sociología y cultura, op. cit., pp. 155 y 156. Cuestiones de sociología, op. cit., p. 134]. 

(31) Ibíd., p. 35 [Sociología y cultura, op. cit., p. 93. Cuestiones de sociología, op. cit., p. 36]. 

(32) Bourdieu, Pierre, Méditations pascaliennes, op. cit. p. 189 [Trad. esp. Meditaciones pascalianas, op. cit., p. 209]. Nota do tradutor: no artigo original se atribui erroneamente esta citação ao livro de Bourdieu titulado Choses dites, Paris: Minuit, 1987 [Trad. esp. Cosas dichas, Barcelona: Gedisa, 1993]. Em outros textos de Boyer esta mesma passagem aparece com a referência correta; veja-se por exemplo: Robert Boyer, “L’art du judoka. Une sociologie aux frontières de l’économie”, en: Encrevé y Lagrave, Travailler avec Bourdieu, París: Champs-Flammarion, pp. 267-279. [Trad. esp. P. Encrevé y R.-M. Lagrave, Trabajar con Bourdieu, Ed. Universidad Externado de Colombia, 2005]. 

(33) Ibíd., p. 79 [Trad. esp. p. 89]. 

(34) Ibíd., p. 190 [Trad. esp. p. 210]. 

(35) Bourdieu, Pierre, Sociologie de l’Algérie, op. cit. [Trad. esp. Antropología de Argelia, op. cit.]. 

(36) Bourdieu, Pierre (1962), “Célibat et condition paysanne”, Études rurales, núm. 5-6, abril-septiembre, pp. 32-135; Le Bal des célibataires. Crise de la societé paysanne en Béarn, París: Seuil, 2002 [Trad. esp. El baile de los solteros, Barcelona: Anagrama, 2004]. 

(37) Bourdieu, Pierre (1984), Homo Academicus, París: Minuit [Trad. esp. Homo academicus, Buenos Aires: Siglo xxi Editores, 2008]. 

(38) Bourdieu, Pierre (1989 [1984]), La Noblesse d’État, París: Minuit [Trad. esp. La nobleza de Estado, Buenos Aires, Siglo xxi Editores, 2013]. 

(39) Bourdieu, Pierre (1998 [1984]), La Domination masculine, París: Seuil [Trad. esp. La dominación masculina, Barcelona: Anagrama, 2000]. 

(40) Bourdieu, Pierre, Les Structures sociales de l’économie, op. cit. [Trad. esp. Las estructuras sociales de la economía, op. cit.]. 

(41) Aglietta, M. (1976 [1982 2a ed.]), Régulation et crises du capitalisme, París: Calmann- Lévy.  

(42) Sin cursivas en el original. 

(43) Boyer, Robert & Saillard, Yves (dir.) (2002), Théorie de la régulation: l’état des savoirs, París: La Découverte [Trad. Esp. Teoría de la regulación: Estado de los conocimientos, Universidad de Buenos Aires, 1997]. 

(44) Bourdieu, P. (1992), Les Régles de l’art. Génese et structure du champ littéraire, París: Seuil [Las reglas del arte. Génesis y estructura del campo literario, Barcelona: Anagrama, 1995]. 

(45) Bourdieu, P., Les Structures sociales de l’économie, op. cit. [Trad. esp. Las estructuras sociales de la economía, op. cit.]. 

(46) Fligstein, Neil (2001), The Architecture of Markets. An Economic Sociology of Twenty-First Century Capitalist Societies, Princeton: Princeton University Press; H. White, op. cit. 

(47) Bourdieu, P., Les Structures sociales de l’économie, op. cit., pp. 233-270 [Trad. esp. Las estructuras sociales de la economía, op. cit. pp. 219-252. Nota del traductor: este texto no fue publicado en inglés sino cinco años después del francés: “Principles of an Economic Anthropology”, en Smelser y Swedberg (ed.), The Handbook of Economic Sociology, Nueva Jersey: Princeton University Press/Russell Sage Foundation, 2005, pp. 75-89]. 

(48) Ibíd., p. 248 [Las estructuras sociales de la economía, op. cit. p. 230. El pasaje íntegro es: “De manera general, las empresas hegemónicas tienen la capacidad de imponer el tempo de las transformaciones en los diferentes ámbitos: producción, marketing, investigación, etc., y el uso de los diferenciales de tiempo es uno de los principales medios de su poder.” N. del T.]. 

(49) Bourdieu, P., Homo Academicus, op. cit. 

(50) Bourdieu, P., Les Structures sociales de l’économie, op. cit. p. 249 [Trad. esp. Las estructuras sociales de la economía, op. cit. p. 231]. 

(51) Bourdieu, P. (1996), Sur la télévision, París: Raisons d’agir [Trad. esp. Sobre la televisión. Barcelona: Anagrama, 2005]. 

(52) Bourdieu, P., Méditations pascaliennes, op. cit. p. 209 [Trad. esp. Meditaciones pascalianas, op. cit., p. 231]. 

(53) Bourdieu, P. (2002), Interventions politiques (1961-2001). Science sociale et action poltique, Thierry Discepolo y Franck Poupeau (eds.), Marsella: Agone [Trad. esp. Intervenciones políticas: Un sociólogo en la barricada, Buenos Aires: Siglo xxi Editores, 2015]. 

(54) Bourdieu, P., La Noblesse d’État, op. cit. [Trad. esp. La nobleza de Estado, op. cit.]. 

(55) Bourdieu, P., Les Structures sociales de économie, op. cit., p. 251 [Trad. esp. Las estructuras sociales de la economía, op. cit. p. 232]. 

(56) Bourdieu, P., Questions de sociologie, op. cit., p. 136 [Trad. esp. Sociología y cultura, op. cit., p. 157. Cuestiones de sociología, op. cit., p. 135]. 

(57) Ibíd., p. 200 [Ibíd., p. 219]. 

(58) Bourdieu, P., Le Bal des célibataires. Crise de la societé paysanne en Béarn, op. cit. [Trad. esp. El baile de los solteros, op. cit.]. 

(59) Bourdieu, P. (1972), Esquisse d’une théorie de la pratique, Précédé de trois études d’ethnologie kabyle, Ginebra: Droz (en formato de bolsillo versión revisada y aumentada: París: Seuil, col. «Points», 2000). A falta de una traducción el español de esta obra en específico, se puede consultar: Bourdieu, P. (2007), El sentido práctico, Buenos Aires: Siglo xxi Editores]. 

(60) Bourdieu, P., Homo academicus, op. cit. 

(61) Bourdieu, P. (bajo la dir.) (1993), La Misère du monde, París: Seuil [Trad. esp. La miseria del mundo, Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1999]. 

(62) Bourdieu, P., La Domination masculine, op. cit. [Trad. esp. La dominación masculina, op. cit.]. 

(63) Aglietta, M., Régulations et crises du capitalisme, op. cit. 

(64) Boyer, Robert (1986), La Théorie de la régulation. Une analyse critique, París: La Découverte [Trad. esp. La teoría de la regulación. Un análisis crítico, Buenos Aires: Humanitas, 1989]. 

(65) Boyer, Robert (1978), “Les salaires en longue période”, Économie et Statistique, núm. 103, septiembre, pp. 27-57. 

(66) Boyer, R. & Saillard, Y., op. cit., p. 562 [Se remite al lector en particular a la versión española, La teoría de la regulación. Estado de los conocimientos, op. cit., vol. 1, parte II, pp. 77 y ss.]. 

(67) Bowles, Samuel & Boyer, Robert (1990), “Labour Market Flexibility and Decentralisation as Barriers to High Employment Notes on Employer Collusion Centralised Wage Bargaining and Aggregate Employment”, en R. Brunetta & С. Dell’Aringa (eds.), Labour Relations and Economic Performance, Londres: MacMillan, pp. 325-353. 

(68) Boyer, R. (1991), “Capital Labor Relation and Wages Formation: Continuities and Changes of National Trajectories Among oecd Countries”, en T. Mizoguchi (ed.), Making Economies More Efficient and More Equitable, Oxford: Oxford University Press/Tokio: Kinokunya, pp. 297-340. 

(69) Douglas, Mary (1989), Ainsi pensent les institutions, Usher: sogedim (edición original de 1986) [Trad. esp. Cómo piensan las instituciones, Madrid: Alianza, 1996]. 

(70) Lordon, Frédéric (2002), La Politique du capital, París: Odile Jacob. 

(71) Bourdieu, P. (1992), Réponses Pour une anthropologie reflexive. Entretien avec Loïc  Wacquant, París: Seuil, pp. 114 y 115 [Trad. esp. Respuestas. Por una antropología reflexiva, México: Grijalbo, 1995, p. 96. Existe otra versión en español: Una invitación a la sociología reflexiva, Argentina: Siglo xxi Editores, 2005, p. 204]. 

(72) Aglietta, M., Régulations et crises du capitalisme, op. cit. 

(73) Boyer, R. (bajo la dir.) (1986), La Flexibilité du travail en Europe, París: La Découverte; Petit, Pascal (1986), Slow Growth and the Service Economy, Londres: Frances Pinter, y “Formes structurelles et régimes de croissance” de l’après-fordisme”, Année de la régulation 1998, París: La Découverte, 1998, pp. 169-196; Aglietta, M. (1998), “Le capitalisme de demain”, Note de la fondation Saint-Simon, noviembre; Coriat, Benjamin (1991), Penser à envers Travail et organisation dans la firme, París: Bourgois; Taddei, Dominique & Coriat, Benjamin (1993), Made in France, París: Librairie générale française, “Le Livre de Poche; Boyer, R. (2000), “Is a Finance-led Growth Regime a Viable Alternative to Fordism. A PreliminaryAnalysis”, Economy and Society, núm. 291, febrero, pp. l11-145; Boyer, R. (2002), La Croissance début de siècle, París: Albin Michel. 

(74) Bourdieu, P., Réponses Pour une anthropologie reflexive, op. cit., p. 78 [Trad. esp. Respuestas. Por una antropología reflexiva, op. cit., p. 68; Una invitación a la sociología reflexiva, op. cit., p. 156]. 

(75) Boyer, Robert & Orléan, André (1991), “Les transformations des conventions salariales entre théorie et histoire”, Revue économique, núm. 2, marzo, pp. 233-272. 

(76) Chartres, Jacques-André, “Le changement de modes de régulation apports et limites limites de la formalisation”, en R. Boyer & Y. Saillard, op. cit., p. 273-284 [Trad. esp. La teoría de la regulación. Estado de los conocimientos, op. cit., pp. 83-91]. 

(77) Delorme, Robert & André, Christine (1983), État et économie, París: Seuil. 

(78) Bourdieu, Pierre & Passeron, Jean-Claude (1964), Les Héritiers. Les étudiants et la culture, París: Minuit [Trad. esp. Los herederos. Los estudiantes y la cultura, Argentina: Siglo xxi Editores, 2009]; La Reproduction. Éléments pour une théorie du système d’enseignement, París: Minuit, 1970 [Trad. esp. La reproducción: elementos para una teoría del sistema de enseñanza, México: Fontamara, 1995]. 

(79) Bourdieu, P., Homo academicus, op. cit.; La Noblesse État, op. cit. [La nobleza de Estado, op. cit.]; La Misère du monde, op. cit. [La miseria del mundo, op. cit.]. 

(80) Aglietta, M., “Régulations et crises du capitalisme”, op. cit.; Cepremap-Cordes, Approches de l’inflation: l’exemple français; Benassy, J-P., Boyer, R-M, Gelpi, A., Lipietz, J., Mistral, J. Munozet, C. & Ominami (1978), Rapport de la convention de recherche, 22/176, diciembre; Boyer, R., “Les salaires en longue période”, op. cit. 

(81) Boyer, R. & Saillard, Y., op. cit. [Nota del traductor: la escuela regulacionista establece una diferencia entre rapport salarial, que traduzimos como “relación salarial”, entendida como uma das cinco formas institucionais que podem levar a uma regulação, isto é, se refere a todo o conjunto de condições jurídicas e institucionais que regem o uso do trabalho. Enquanto que por relação salarial, que traduzimos como “vínculo salarial”, se entende a proteção do primeiro em categorias específicas]. 

(82) Aglietta, Michel & Brender, Anton (1983), Métamorphoses de la société salariale, París: Calmann-Lévy. 

(83) Boyer, Robert & Caroli, Eve (1993), “Changement de paradigme productif et rapport éducatif”, mimeografiado, París: Cepremap, octubre; “Production, Regimes, Education and Training Systems. From Complementarity to Mismatch”, mimeografiado, París: Cepremap, diciembre de 1993. 

(84) Caroli, Eve (1995), Formation, institutions et croissance économique, tesis doctoral, Fondation nationale des sciences politiques, París: Institut d’Études Politiques. 

(85) La Misère du monde, op. cit. [La miseria del mundo, op. cit.]. 

(86) Bourdieu, P., La Domination masculine, op. cit. [Trad. esp. La dominación masculina, op. cit.]; Interventions politiques 1961-2001 Science sociale et action politique, op. cit. [Trad. esp. Intervenciones políticas: Un sociólogo en la barricada, op. cit.]. 

(87) Campinos-Dubernet, Myriam (1984), “Emploi et gestion de la main-œuvre dans le btp”, Dossier du cereq, núm. 34,; Tertre, Christian du, “Une approche sectorielle du travail”, en R. Boyer y Y. Saillard, op. cit. 

(88) Petit, P. (1998), “Formes structurelles et régimes de croissance de l’après-fordisme”, L’Année de la régulation 1998, París: La Découverte, pp. 169-196. 

(89) Terray, Emmanuel (2002), “Réflexions sur la violence symbolique”, en Jean Lojkine  (ed.), Les Sociologies critiques du capitalisme, París: puf, pp. 11-23. 

(90) Théret, Bruno (1999), “La régulation politique le point de vue d’un économiste”, en Jacques Commaille & Bruno Jobert (eds.) (1999), Les Métamorphoses de la régulation, París: lgdj. 

(91) Lordon, Frédéric (1999), “Croyances économiques et pouvoir symbolique”, Année de la régulation 1999, núm. 3, París: La Découverte, pp. 169-210. 92. 

(92) Aglietta, M. & Orléan, A. (1982), La Violence de la monnaie, París: puf. 93. 

(93) Aglietta, M. & Orléan, A., La Monnaie souveraine, op. cit.; La Monnaie entre violence et confiance, op. cit. 

(94) Orléan, A. (2000), Le Pouvoir de la finance, París: Odile Jacob; Boyer, R., La Croissance début de siècle, op. cit. 

(95) Expresión latina: “se quiera o no”.