Pesquisar este blog

Possíveis exemplos de allodoxias no entendimmento da economia

0) Conceito:

Allodoxia é um termo cunhado por Bourdieu para designar as “verdades enviesadas” que resultam da apropriação equivocada de conceitos ou teorias de um campo intelectual por agentes de outro campo. A allodoxia ocorre quando há uma distância entre os campos, que impede o reconhecimento das diferenças de contexto, de lógica e de problemática entre eles. A allodoxia também pode ser produzida por interesses ou estratégias dos agentes, que buscam legitimar ou impor suas posições ou visões de mundo por meio de um discurso aparentemente científico ou autorizado. Vejamos exemplos.


1) MMT

A MMT é a sigla em inglês para Teoria Monetária Moderna, uma teoria macroeconômica heterodoxa que descreve a moeda como um monopólio público e o desemprego como uma evidência de que um monopolista da moeda está restringindo excessivamente a oferta de ativos financeiros necessários para o pagamento de impostos e satisfazer os desejos de poupança. Segundo a MMT, governos criam dinheiro usando a política fiscal e que o principal risco quando uma economia atinge pleno emprego é a inflação, sendo o aumento da carga tributária uma alternativa para reduzir a capacidade de gasto do setor privado. A MMT é uma alternativa à teoria econômica neoclássica, e seus defensores sugerem que ela pode descrever de modo mais eficaz a economia global nos anos seguintes à Grande Recessão.

A MMT também é uma teoria heterodoxa que defende que os governos que emitem sua própria moeda podem financiar seus gastos sem se preocupar com o endividamento, a inflação ou o déficit fiscal, desde que haja capacidade ociosa na economia. A MMT também propõe que o Banco Central mantenha os juros baixos e que a política fiscal seja usada para controlar a demanda agregada e a inflação.

Muitos críticos afirmam que a MMT é uma teoria ingênua e ilusória, que defende a possibilidade de se emitir moeda sem limites e sem consequências, e que ignora a relação entre o sistema monetário e o sistema produtivo. Outros também afirmam que o Estado não tem controle sobre a sua moeda, mas sim que está sujeito às condições impostas pelo mercado, pela concorrência internacional e pela confiança dos agentes. Com base nessas premissas afirmam que a MMT é baseada na ideia de que se pode emitir moeda sem que isso represente um problema monetário maior, inflação, e essa emissão pode aquecer a economia. Essa afirmação tende a ser uma distorção e uma simplificação da MMT, que não propõe a emissão de moeda sem critérios, mas sim reconhece o papel do Estado como emissor soberano da moeda, e propõe o uso da política fiscal para regular a demanda agregada e a inflação, levando em conta a capacidade ociosa da economia. A MMT também não ignora a relação entre o sistema monetário e o sistema produtivo, mas sim a analisa de forma mais ampla e dinâmica, considerando os aspectos institucionais, históricos e sociais que influenciam essa relação

Essas afirmações também tendem a distorcer e simplificar as teses da MMT e do papel do Estado. A MMT não é uma teoria que propõe a emissão de moeda sem critérios, mas sim uma teoria que reconhece o papel do Estado como emissor soberano da moeda, e que propõe o uso da política fiscal para regular a demanda agregada e a inflação, levando em conta a capacidade ociosa da economia. A MMT também não ignora a relação entre o sistema monetário e o sistema produtivo, mas sim a analisa de forma mais ampla e dinâmica, considerando os aspectos institucionais, históricos e sociais que influenciam essa relação.

Segundo a MMT, o Estado, por sua vez, não está submetido a uma restrição financeira, mas sim a uma restrição real, que é a disponibilidade de recursos produtivos e tecnológicos. O Estado não precisa levantar fundos para se financiar, pois ao efetuar pagamentos, cria moeda, e ao receber pagamentos, destrói moeda. O Estado também não está sujeito às condições impostas pelo mercado, pela concorrência internacional e pela confiança dos agentes, mas sim tem o poder de influenciar essas condições, através da fixação da taxa de juros, da regulação do sistema financeiro, da condução da política cambial e da participação na cooperação internacional.

É preciso analisar então em que medida os críticos da MMT não estão se baseando em uma teoria inadequada e equivocada, que os impedem de entender a realidade econômica e social do século XXI. 

Para André Lara Resende, alguns críticos não entendem o que é a MMT, e que eles confundem a MMT com o keynesianismo, o monetarismo e o fiscalismo, porque:

Alguns críticos não entendem que a MMT é uma teoria que descreve o funcionamento da moeda e do Estado em uma economia monetária de produção, onde o Estado é o emissor soberano da moeda. Certos críticos acham que a MMT é uma teoria que prescreve o que o Estado deve fazer com a moeda, e que a MMT defende que o Estado pode gastar sem limites e sem consequências.

Alguns críticos confundem a MMT com o keynesianismo, porque eles acham que a MMT é uma versão radicalizada do keynesianismo, que propõe uma intervenção estatal permanente e ilimitada na economia. Esses críticos ignoram que a MMT se diferencia do keynesianismo, ao reconhecer que o Estado não precisa se financiar por meio de impostos ou dívida, e que o Estado pode controlar a demanda efetiva e a inflação por meio da regulação da oferta e da qualidade dos gastos públicos.

Alguns críticos confundem a MMT com o monetarismo, porque eles acham que a MMT é uma teoria que dá primazia à moeda sobre o valor, e que a MMT nega a existência de uma crise estrutural do capitalismo. Esses críticos ignoram que a MMT não é uma teoria do valor, mas sim uma teoria da moeda, e que a MMT não nega a crise do capitalismo, mas sim a explica por meio de uma abordagem institucionalista e histórica.

Alguns críticos confundem a MMT com o fiscalismo, porque eles acham que a MMT é uma teoria que defende o aumento indiscriminado dos gastos públicos, sem levar em conta os efeitos sobre a distribuição de renda e a sustentabilidade ambiental. Esses críticos ignoram que a MMT não é uma teoria do gasto, mas sim uma teoria do Estado, e que a MMT propõe uma agenda de reformas estruturais, como a renda básica universal, o emprego garantido e a transição ecológica.

Esses são os principais motivos pelos quais André Lara Resende acusa certos críticos de desconhecerem os fundamentos da MMT e de fazer uma leitura superficial e distorcida de seus autores. 

Nesse caso, pode-se argumentar que há uma allodoxia quando ela é confundida com o keynesianismo, que é uma corrente teórica diferente, que tem origens, pressupostos e implicações distintas. A MMT não é uma versão radicalizada do keynesianismo, mas sim uma teoria que descreve o funcionamento da moeda e do Estado em uma economia monetária de produção, onde o Estado é o emissor soberano da moeda. A MMT se diferencia do keynesianismo ao reconhecer que o Estado não precisa se financiar por meio de impostos ou dívida, e que o Estado pode controlar a demanda efetiva e a inflação por meio da regulação da oferta e da qualidade dos gastos públicos. Ao confundir a MMT com o keynesianismo, pode-se incorrer em erros de interpretação, de aplicação e de crítica da teoria.


2) China e capitalismo de estado:

O modelo de socialismo chinês é uma forma de organização econômica e política que se baseia na liderança do Partido Comunista, no planejamento central, na propriedade pública de setores estratégicos, na distribuição de renda e na proteção social. O modelo de socialismo chinês busca combinar elementos de mercado e de Estado, de tradição e de modernidade, de abertura e de soberania, de crescimento e de sustentabilidade, de acordo com as características e as necessidades da sociedade chinesa.

O capitalismo de estado é uma forma de organização econômica e política que se baseia na intervenção e no controle do Estado sobre os meios de produção, em benefício das elites, da classe dominante, do mercado e do capital. O capitalismo de estado privilegia os interesses privados em detrimento dos interesses públicos, e gera desigualdade, exploração, alienação e degradação ambiental.

O keynesianismo é uma corrente teórica econômica que se baseia na intervenção e no estímulo do Estado sobre a demanda agregada, por meio de políticas fiscais e monetárias, para garantir o pleno emprego, a estabilidade de preços e o crescimento econômico. O keynesianismo defende a existência de um Estado de bem-estar social, que ofereça serviços públicos e proteção social aos cidadãos, mas que também respeite a propriedade privada e a livre iniciativa

Certas visões confundem esses modelos como uma coisa só. Algumas precauções aos que colocam o modelo de desenvolvimento chinês como um capitalismo de estado são que:

Essas visões podem tender a ignorar as características socialistas que persistem na economia chinesa, como o papel do Partido Comunista, o planejamento central, a propriedade pública de setores estratégicos, a distribuição de renda e a proteção social. Esses traços diferenciam a China de um capitalismo ocidental de mercado liberal, baseado na concorrência, na propriedade privada, na desregulação e na desigualdade.

Essas visões também podem tender a subestimar a capacidade de adaptação e inovação da China, que soube combinar elementos de mercado e de Estado, de tradição e de modernidade, de abertura e de soberania, de crescimento e de sustentabilidade. A China não se limitou a copiar ou a seguir o modelo ocidental, mas sim a criar o seu próprio caminho de desenvolvimento, com características chinesas.

Essas visões também podem tender a reproduzir uma perspectiva eurocêntrica e hegemônica, que tenta enquadrar a China em categorias pré-definidas e que não reconhece a diversidade e a complexidade das sociedades asiáticas. A China não é um caso isolado, mas sim parte de uma dinâmica regional e global, que envolve cooperação, conflito, intercâmbio e aprendizado.

Nesse sentido surge a hipótese de que tais críticos estão usando conceitos e categorias que não se aplicam à China, e que eles estão ignorando os dados e os argumentos que mostram que a China pode ser um país socialista em transição. Eles tendem a estar reproduzindo uma visão eurocêntrica e hegemônica, que tenta desqualificar e deslegitimar a experiência chinesa. Também tendem a ser dogmáticos e sectários, e muitas vezes não estão abertos ao diálogo e ao aprendizado.

Alguns fatos e dados que indicam que a China não é um capitalismo de estado, mas sim um socialismo com características chinesas, como:

A China tem o maior Partido Comunista do mundo, com mais de 95 milhões de membros, que lidera e orienta o desenvolvimento do país, de acordo com os princípios do marxismo-leninismo, do maoísmo, da teoria de Deng Xiaoping, da teoria do desenvolvimento científico e do pensamento de Xi Jinping.

A China tem um sistema de planejamento central, que define as metas e as prioridades do desenvolvimento nacional, de acordo com os planos quinquenais, os objetivos de longo prazo e as necessidades do povo. O planejamento central permite que a China coordene e integre os esforços dos diferentes setores, regiões e agentes, e que a China responda de forma eficaz aos desafios e às oportunidades que surgem no cenário interno e internacional.

A China tem uma propriedade pública predominante de setores estratégicos, como a energia, a indústria, a infraestrutura, a finança, a defesa, a educação e a saúde. As empresas estatais representam cerca de 40% do PIB, 50% do investimento fixo, 60% do lucro industrial e 70% dos ativos bancários da China. As empresas estatais são responsáveis por garantir a segurança nacional, a soberania econômica, a estabilidade social e o bem-estar público da China.

A China tem uma distribuição de renda relativamente equitativa, comparada com outros países em desenvolvimento e com os países capitalistas avançados. A China reduziu significativamente a pobreza, a desigualdade e a exclusão social nas últimas décadas, e elevou o padrão de vida e a qualidade de vida de centenas de milhões de pessoas. A China alcançou a meta de erradicar a pobreza extrema em 2020, e tem como objetivo construir uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos em 2021.

A China tem uma proteção social abrangente, que cobre as áreas de previdência, saúde, educação, habitação, emprego e assistência social. A China estabeleceu um sistema de seguridade social que beneficia mais de 1,4 bilhão de pessoas, e que oferece serviços públicos básicos e universais, como aposentadoria, seguro-saúde, seguro-desemprego, seguro-acidente de trabalho, seguro-maternidade, educação obrigatória, assistência médica rural, subsídio de subsistência e assistência de emergência.

Esses são alguns exemplos de como a China pode ser reconhecida como um país socialista em transição, que mantém o controle do Estado sobre os setores estratégicos da economia e que busca uma nova forma de desenvolvimento baseada na inovação tecnológica e na cooperação internacional. Esses exemplos mostram como a China se diferencia de um capitalismo de estado, que é uma forma de organização econômica e política que privilegia os interesses das elites, da classe dominante, do mercado e do capital, em detrimento dos interesses do povo, da classe trabalhadora, da sociedade e do meio ambiente. Esses exemplos também mostram como a China se diferencia de um capitalismo de mercado liberal, baseado na concorrência, na propriedade privada, na desregulação e na desigualdade.

Certos críticos da economia chinesa defendem que o crescimento chinês não tem relação com seu modelo regulação econômica. Essa afirmação tende a ser uma negação e uma desconsideração da projetamento econômico da China e sua política monetária soberana, que permite ao governo estimular a economia através da emissão de moeda e da expansão do crédito, sem gerar inflação ou desequilíbrios externos. A China também tem um banco central que mantém os juros baixos e que regula o sistema financeiro, de acordo com os objetivos do plano econômico. A China também tem um Estado forte e planejador, que regula o sistema financeiro, fixa a taxa de juros, conduz a política cambial, investe em infraestrutura, inovação, educação e saúde, e participa da cooperação internacional. A China, portanto, tem uma economia que depende de fatores internos, como a capacidade produtiva, a demanda doméstica, o desenvolvimento tecnológico e o bem-estar social, embora não seja alheia aos fatores externos, que utiliza de forma estratégica.

Outras críticas alegam ser incompatível haver socialismo na China porque dizem eles que a China impulsiona o capitalismo e um socialismo não pode impulsionar o capitalismo mas deve fazê-lo minguar. Uma hipótese é que essa crítica é baseada em uma visão dogmática e simplista do que é o socialismo e do que é o capitalismo, e que não leva em conta a realidade histórica e contemporânea da China. O socialismo na China parece ser interpretado não como um modelo único e imutável, mas sim um processo histórico e dialético, que se adapta às condições concretas de cada país e de cada época. O socialismo não é uma negação absoluta do capitalismo, mas sim uma superação crítica e criativa do capitalismo, que aproveita os seus aspectos positivos e elimina os seus aspectos negativos. O socialismo não é uma utopia estática e idealista, mas sim uma prática dinâmica e realista, que busca construir uma sociedade mais justa, democrática e sustentável.

Hugo Albuquerque diz no X que quando a China responde sobre seu sistema político-econômico, ela aponta para a construção do socialismo. Não é uma resposta taxonômica - somos isto ou aquilo -, mas dialética: nos movimentos para ali (1/3).Nesse sentido, o Ocidente, mesmo o marxismo ocidental, se move na necessidade taxonômica: em uma lógica, curiosamente anti-dialética; uma coisa ou é a A ou B. Nada contra, mas isso não é sequer dialético, imagine marxista (2/3).A questão do materialismo é: para e como isso se move? Qual é o movimento? O Ocidente, por definição, recai na identidade: quem somos? E o Ser, apenas por si, ou bem é o discurso do déspota ou o delírio de um diletante cínico (3/3). A China é um país socialista em transição, que mantém o controle do Estado sobre os setores estratégicos da economia e que busca uma nova forma de desenvolvimento baseada na inovação tecnológica e na cooperação internacional. A China não impulsiona o capitalismo, mas sim o regula e o subordina aos interesses do povo, da nação e da humanidade. A China não se limita a copiar ou a seguir o modelo ocidental, mas sim a criar o seu próprio caminho de desenvolvimento, com características chinesas.

No caso da China, pode-se argumentar que há uma allodoxia quando ela é colocada como um capitalismo de estado, que é uma categoria que ignora as características socialistas que persistem na economia chinesa, como o papel do Partido Comunista, o planejamento central, a propriedade pública de setores estratégicos, a distribuição de renda e a proteção social. A China não é um capitalismo de mercado liberal, mas sim um socialismo com características chinesas, que soube combinar elementos de mercado e de Estado, de tradição e de modernidade, de abertura e de soberania, de crescimento e de sustentabilidade. Ao colocar a China como um capitalismo de estado, pode-se perder de vista as especificidades, as contradições e as potencialidades da formação social chinesa.

https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ideias/article/view/8656198

https://revistaforum.com.br/opiniao/2021/9/1/politicas-de-desenvolvimento-econmico-da-china-caminho-ser-seguido-por-alessandro-golombiewski-102808.html

Pierre Bourdieu, Anselm Jappe e a análise do capitalismo: críticas e aproximações.

Na dinâmica do pensamento sociológico contemporâneo, destacam-se debates vigorosos que, vez ou outra, conduzem a refletir cientificamente sobre as complexidades da sociedade contemporânea. Em uma esquina desse debate, encontramos a crítica de Anselm Jappe à análise de Pierre Bourdieu, um dos mais influentes sociólogos do século XX. Essa crítica sugere que, sob a sombra do argumento da suposta simplificação da realidade por Marx, algumas teorias contemporâneas, incluindo a de Bourdieu, falham em compreender a profundidade da abordagem marxista, que não se limita à economia, mas abraça a totalidade social.

Jappe, em seu livro “As aventuras da mercadoria”, dedica muitos momentos para questionar a relevância e a eficácia da sociologia de Bourdieu em compreender e transformar a sociedade capitalista. Para esse empreendimento, ele se baseia principalmente em duas obras de Bourdieu: “Contra-Fogos” e “A Miséria do Mundo”. No entanto, será que essas obras são suficientes para representar o pensamento de Bourdieu em toda a sua complexidade e diversidade? Será que Jappe não está ignorando outros aspectos importantes da obra de Bourdieu que poderiam oferecer uma resposta mais adequada às suas críticas?

Para responder a essas questões, é preciso contextualizar as obras citadas por Jappe e situá-las no conjunto da obra de Bourdieu. “Contra-Fogos” é uma coletânea de textos de intervenções públicas de Bourdieu, onde ele se posiciona como um intelectual engajado em favor dos movimentos sindicais franceses da década de 1990. “A Miséria do Mundo” é uma obra coletiva que tinha a intenção de denunciar os efeitos deletérios da neoliberalização econômica em nível global. Essas obras não esgotam o pensamento de Bourdieu, que abrangeu uma ampla gama de tópicos e desenvolveu teorias sociológicas abrangentes.

A crítica de Jappe não é apenas uma discordância intelectual; ela é uma provocação para reexaminar a riqueza da obra de Bourdieu e a profundidade da análise de Marx, e, por conseguinte, explorar os fundamentos teóricos que sustentam a vida social em sua complexidade. Nesse cenário, as categorias sociológicas, as dimensões econômicas e culturais, e a forma como os seres humanos constroem significado e identidade em uma sociedade contemporânea interconectada, se tornam elementos cruciais de uma reflexão que transcende os limites do "economismo" e da redução simplista da vida social.

Assim, neste artigo, pretendo mostrar que Bourdieu oferece ferramentas teóricas e metodológicas valiosas para a sociologia e a crítica social, que permitem uma compreensão mais profunda e crítica da sociedade capitalista e suas contradições. No cerne dessa discussão, a teoria marxista é uma peça-chave. A crítica à economia política feita por Marx não se limita à análise das relações de produção, mas lança luz sobre a totalidade da sociedade. Marx descreve o funcionamento da produção capitalista não como um aspecto isolado da vida social, mas como uma "forma social total". 

A crítica de Jappe a Bourdieu nos leva a explorar mais a fundo a teoria marxista, o conceito de fetichismo da mercadoria, a noção de habitus, campos sociais e violência simbólica de Bourdieu, e como essas perspectivas podem ser complementares. É um convite para uma reflexão que transcende o mero debate acadêmico, indo direto ao cerne da compreensão da complexidade da sociedade moderna, suas categorias fundamentais e como a economia, a cultura e a política se entrelaçam na construção de nossa realidade social.

Este artigo se propõe a navegar por essa discussão, iluminando como o pensamento de Marx e Bourdieu, longe de serem mutuamente exclusivos, podem ser considerados como parte de uma abordagem mais ampla e integrativa da sociedade contemporânea. Ao fazê-lo, esperamos contribuir para a ampliação do debate intelectual sobre a complexidade da vida social moderna e as bases que sustentam nossa compreensão da realidade em sua totalidade.



1) Página 16: 

"Por outro lado, trataremos de colocar a crítica marxiana do valor em oposição não apenas com o marxismo tradicional, mas também com muitas teorias dos nossos dias que pretendem dizer verdades críticas sobre o mundo moderno desprezando as categorias de Marx. Esperamos, sobretudo, demonstrar que a teoria de Marx não é uma teoria «puramente económica» que reduza a vida social aos seus aspectos materiais sem levar em conta a complexidade da sociedade moderna. Quem lança a acusação de «economismo», tantas vezes levantada contra Marx, inclusivamente à «esquerda», admite a contragosto que Marx pode ter razão na sua análise do funcionamento da produção capitalista. Mas ao mesmo tempo, quem assim fala afirma que a produção material não é senão um aspecto da vida social na sua totalidade, enquanto Marx nada teria dito de válido no que toca aos restantes aspectos. Para defrontar este subterfúgio, caro a autores como Bourdieu e Habermas, demonstraremos que Marx desenvolveu uma teoria das categorias fundamentais que regulam a sociedade capitalista em todos os seus aspectos. Não se trata da distinção bem conhecida entre «base» e «superestrutura», mas sim do facto de o valor ser uma «forma social total» - para empregar uma formulação antropológica - que dá ela mesma à luz as diferentes esferas da sociedade burguesa. Não há, pois, necessidade de «completar» as ideias económicas de Marx sobre as «classes» com considerações relativas aos temas supostamente por ele negligenciados: a «raça», o gender, a democracia, a linguagem, o simbólico, etc. Importa antes por em relevo o facto de a crítica da economia política levada a cabo por Marx, centrada na crítica da mercadoria e do respectivo fetichismo, descrever a forma de base da sociedade moderna que existe antes de toda e qualquer distinção entre a economia, a política, a sociedade e a cultura. Marx é muitas vezes acusado de tudo reduzir á vida económica e de negligenciar o sujeito, o indivíduo, a imaginação ou os sentimentos. Na verdade, porém, o que Marx fez foi simplesmente fornecer uma descrição implacável da realidade capitalista. É a sociedade mercantil que constitui ela mesma o maior «reducionismo» alguma vez visto. Para sair deste «reducionismo» é preciso sair do capitalismo, não da crítica do capitalismo. Não é a teoria do valor concebida por Marx que se encontra ultrapassada, mas sim o próprio valor." 


1) Impressões:

Resumidamente Anselm Jappe parece criticar Pierre Bourdieu, entre outros, argumentando que essas teorias contemporâneas, incluindo a de Bourdieu, acusam Marx de "economismo" e assim desvalorizam suas categorias. Jappe sugere que Bourdieu e outros autores, ao alegarem que Marx negligenciou aspectos não econômicos da sociedade, estão, na verdade, errados em sua interpretação da análise marxista, que é abrangente e não limitada ao econômico. Portanto, a crítica de Jappe a Bourdieu parece ser centrada na percepção incorreta de que Marx reduziu a vida social a aspectos puramente econômicos e negligenciou outras dimensões da sociedade.

A) Aspectos da vida social: Bourdieu não pareceu argumentar que Marx não tinha nada válido a dizer sobre outros aspectos da vida social, mas sim que a tradição marxista frequentemente dedica menos atenção a certos aspectos em comparação com a atenção dedicada exclusivamente à economia e à produção material. Ele enfatizava que as lutas simbólicas, os campos culturais e os sistemas de classificação também desempenham um papel significativo na reprodução das desigualdades sociais e na manutenção das estruturas de poder econômico e simbólico. Nesse sentido, Bourdieu estava, de certa forma, chamando a atenção para a necessidade de uma abordagem mais sutil e integrativa para entender mais camadas da vida social, e que considerasse não apenas com exclusividade as relações de produção, mas também as dimensões simbólicas e culturais que moldam as práticas, as estruturas sociais e as próprias relações de produção. Dentro dessa perspectiva pode ser injusto afirmar que Bourdieu negligencia a teoria marxista, mas ele busca a renovar e a ampliá-la com o seu conceito de violência simbólica, que é a imposição de uma visão de mundo dominante naturalizada  que obtém sucesso em legitimar certa ordem social.

B) Crítica à Redução Econômica: Bourdieu critica o economicismo que reduz tudo à economia. No entanto, ele não nega a importância da economia ou lhe coloca como um aspecto isolado, mas argumenta que ela está interligada com as dimensões culturais, sociais e simbólicas da vida social. Por exemplo, ele explora como o capital cultural (conhecimento, educação, cultura e etc.) influencia as trajetórias sociais e econômicas das pessoas e das estruturas simbólicas. Ele também analisa as formas que se desdobram capitais (econômico, cultural, social e simbólico) que circulam e se convertem nos espaços sociais.

C) Fetichismo da Mercadoria: Bourdieu amplia a crítica de Marx ao fetichismo da mercadoria, incorporando elementos culturais e simbólicos. Bourdieu reconhece a importante influência de Marx na sua análise da sociedade, mas também busca superar algumas limitações de certos marxismos, como o economicismo e o determinismo histórico. Para Bourdieu, as mercadorias adquirem valor simbólico e cultural, além de valor de troca no mercado. Bourdieu desenvolve o conceito de capital simbólico, que é a capacidade de impor significados e valores às coisas e às pessoas, legitimando as relações de dominação. O capital simbólico pode se manifestar em diferentes formas, como o capital cultural, o capital social e o capital econômico. As mercadorias são portadoras de capital simbólico, pois expressam gostos, estilos, preferências e identidades dos seus consumidores. Ele argumenta que a sociedade moderna é um campo de forças sociais, onde as pessoas competem por recursos simbólicos, como prestígio, reconhecimento e capital cultural. Bourdieu desenvolve o conceito de campo social para designar um espaço social estruturado por relações de poder entre os agentes que nele atuam. Cada campo tem suas próprias regras, lógicas e interesses específicos, que orientam as práticas e as estratégias dos agentes. Os agentes disputam posições no campo, buscando acumular e converter os diferentes tipos de capital simbólico. Nesse contexto, as mercadorias também são símbolos que representam distinções sociais. Bourdieu se inspira na obra de Marcel Mauss, A dádiva, para analisar como as trocas de bens materiais e simbólicos são formas de estabelecer relações sociais e criar obrigações recíprocas. Bourdieu também se baseia na obra de Thorstein Veblen, A teoria da classe ociosa, para estudar como o consumo conspícuo e o desperdício ostentatório são formas de demonstrar riqueza e prestígio social. 

D) Ilusão Fetichista: Bourdieu não usa exatamente o termo fetichismo da mercadoria, mas sim ilusão fetichista ou ilusão carismática. Esses termos se referem à forma como os agentes sociais atribuem qualidades extraordinárias a certos objetos ou pessoas, ignorando as condições sociais que produzem essas qualidades. Bourdieu aplica esses conceitos para analisar fenômenos como a arte, a religião, a política e a ciência. Portanto, não se trata apenas de uma questão de consumo de mercadorias, mas de uma questão mais ampla de produção e reprodução do poder simbólico na sociedade. 

E) Distinção: Bourdieu não trata especificamente de fetichismo da mercadoria, mas propõe uma nova noção: a noção de distinção, que também é o título de um dos seus livros mais famosos, onde ele apresenta os resultados de uma pesquisa empírica sobre os hábitos culturais das classes sociais na França. Nesse livro, Bourdieu mostra como os gostos e as preferências dos indivíduos são determinados pelas suas origens sociais e pelo seu volume e composição de capital cultural. Bourdieu demonstra como os gostos funcionam como marcadores sociais, que servem para diferenciar e hierarquizar os grupos sociais, legitimando as desigualdades e as relações de dominação. Portanto, não se trata apenas de uma questão de consumo e posse de mercadorias, mas de uma questão mais complexa de construção e expressão de identidades sociais.

F) Complementaridade das Teorias: Em vez de considerar as teorias de Marx e Bourdieu como mutuamente exclusivas, é possível vê-las como complementares. Marx fornecendo uma análise econômica profunda, enquanto Bourdieu explora as dimensões sociais e culturais que moldam as relações de campos sociais e a reprodução. Bourdieu não se limita a reproduzir ou aplicar a teoria marxista, mas sim a renovar e a ampliar o seu potencial crítico e analítico. Bourdieu não é um economista nem um reducionista, mas sim um sociólogo que busca compreender as múltiplas dimensões simbólicas da realidade social em sua complexidade e dinâmica.

G) Obra para Consulta: Para uma visão mais aprofundada das ideias de Bourdieu nesse ponto, você pode consultar obras como "A Distinção: Crítica Social do Julgamento", "Esboço de uma Teoria da Prática" e "O Poder Simbólico". Essas obras abordam questões relacionadas à cultura, poder e desigualdade que podem ser relacionadas às críticas de Jappe.



2) Página 244: 

De entre as reações às «misérias do mundo» provocadas pelo capitalismo contemporâneo, a que prevaleceu até agora é a condenação dos políticos neoliberais que lhes contrapõe - explícita ou implicitamente - o regresso às receitas keynesianas e a um papel prevalecente do Estado. Este discurso não contesta a mercadoria enquanto tal, mas somente a sua acção sobre os diferentes aspectos da vida. O objectivo é então o de «voltar a enquadrar» a economia na sociedade por intermédio de reformas corajosas levadas a cabo por amplas coligações de homens de boa vontade. Como expressões típicas deste movimento, representado a nível mundial pelas cimeiras alternativas de Porto Alegre, podemos citar, em França, a associação Attac, que nasceu para exigir a aplicação de taxas sobre as transacções financeiras, o jornal Le Monde diplomatique, os escritos do sociólogo Pierre Bourdieu e as acções de José Bové, dirigentes da Confederação Camponesa. Este último fala da situação nos seguintes termos: «Se todas as atividades humanas passam a ser de ordem mercantil, o conflito dá-se entre duas concepções da sociedade. Uma, que deixa o mercado, com as suas próprias regras, organizar a sociedade, integrar todas as atividades humanas, a saúde, a cultura, a educação, etc., e que tem do seu lado a lei do dinheiro, sendo o seu estádio último [...] a mercantilização da vida. A outra, em que quem tem o poder de organizar a sociedade são os cidadãos, as instituições políticas, o espaço de vida e outras vertentes, como o ambiente e a cultura.». Pergunta-se: será que a crítica radical da mercadoria e do mercado desenvolvido pela via da crítica do valor encontra a sua realização prática num movimento baseado em tais princípios e que tem entre os seus textos fundadores um escrito intitulado "O mundo não é uma mercadoria?" Em primeiro lugar é preciso sublinhar que este movimento se propõe lutar contra o «flagelo neoliberal» e não contra o capitalismo em geral, e menos ainda contra a mercadoria, o dinheiro, o valor e o Estado. É verdade que os seus representantes proclamam que querem ultrapassar a mera descrição dos sintomas e as análises superficiais. Segundo Bourdieu, «é preciso evidentemente recuar até às verdadeiras determinações económicas e sociais» dos problemas, na perspectiva de «ajudar as vítimas da política neoliberal a descobrir os efeitos diversos de uma mesma causa em acontecimentos e experiências que à primeira vista são radicalmente diferentes». O que falta, porém, é precisamente uma crítica capaz de indicar a raiz comum dos diferentes problemas: o neoliberalismo constitui o único alvo dessa crítica redutora. Esta perspectiva pretende que a política e o Estado libertem o capitalismo dos seus «excessos» - antes de mais do poder da especulação financeira - para restabelecer um verdadeiro Estado-providência. Aliás, a lógica da mercadoria nem chega a ser aflorada. Este tipo de contestação propõe-se somente impedir que a educação, a saúde, a cultura, a arte, a agricultura e outros domínios específicos se tornem também mercadorias (pressupondo, evidentemente, que não o são já).


2.1) Impressões:

Resumidamente, Jappe critica Bourdieu por não aderir aos preceitos de uma crítica radical da sociedade capitalista para além do ponto de vista marxista tradicional. Uma interpretação possível trata de dizer que a crítica radical parte de uma reinterpretação da crítica do capitalismo de Marx, com ênfase nas suas categorias básicas como “valor”, "fetichismo, "crise", “mercadoria” e “trabalho”. Ela também resgata o conceito de “sujeito automático” esboçado por Marx em O Capital, para mostrar que o capitalismo é um sistema que se move por si mesmo, sem a intervenção consciente dos agentes sociais. Jappe acusa Bourdieu de ter uma visão limitada e reformista da política, que se concentra em combater o “neoliberalismo” como um desvio ou um excesso do capitalismo, mas não questiona as bases materiais e históricas da sua existência. Jappe também afirma que Bourdieu ignora a lógica da mercadoria, que transforma todas as esferas da vida social em objetos de troca e consumo. Jappe exemplifica sua crítica com a referência ao livro "O mundo não é uma mercadoria: camponeses contra a comida ruim", de José Bové e François Dufour, que foi apoiado por Bourdieu e que expressa uma posição contrária à globalização neoliberal, mas não à produção de mercadorias em geral.

A) Reformas como etapa necessária: Bourdieu criticava as reformas sociais como uma etapa inicial para melhorar a vida das pessoas. Ele as considerava como um instrumento de dominação simbólica, que buscava impor uma visão de mundo que beneficiava as classes dominantes. Suas análises frequentemente destacavam a necessidade de transformações estruturais para combater as desigualdades enraizadas, o que pode ser interpretado como uma abordagem que vai além de reformas superficiais.

B) Análise da Mercadoria e da Lógica Capitalista: Embora Jappe argumente que Bourdieu não aflora suficientemente a lógica da mercadoria, a obra de Bourdieu abrange várias dimensões das relações e violências simbólicas do capitalismo, incluindo avanços importantes na reflexão sobre a economia de trocas dádivas simbólicas, em seus estudos sobre os Cábilas argelinos ou da vida camponesa do interior da França. Ele abordou como a lógica capitalista permeia várias esferas da vida, e não apenas a economia. Bourdieu argumenta que a sociedade é estruturada também por uma economia simbólica, na qual os agentes trocam bens simbólicos, como prestígio, poder e conhecimento. Segundo essa abordagem a mercadoria também pode adquirir facetas de vários tipos de poder simbólico, dotados de um valor econômico. A característica principal do poder simbólico em Bourdieu é ocultar o caráter arbitrário da violência que lhe é inerente. Nesse sentido, a mercadoria opera também como força que oculta esse trabalho social, fazendo parecer que abrange um produto natural e necessário. Portanto, Bourdieu pode ter proporcionado uma análise mais ampla das influências do capitalismo em diferentes aspectos da sociedade.

C) Exemplos concretos: Bourdieu demonstra que a mercadoria opera como uma forma de poder simbólico, que dissimula as relações sociais que estão por trás da sua produção e do seu consumo: O caso do mercado de arte, em que Bourdieu mostra como os artistas, os críticos, os marchands, os museus e os colecionadores participam de um campo específico, que define as regras e os critérios de valorização das obras de arte. As obras de arte são bens simbólicos que possuem um valor econômico, mas também um valor cultural, que depende do reconhecimento e da consagração dos agentes do campo. Bourdieu revela que o mercado de arte não é regido pela lei da oferta e da demanda, mas sim pela lógica da distinção, que visa diferenciar e hierarquizar os gostos e os estilos. Assim, a mercadoria artística oculta as relações de poder e de dominação que estão envolvidas na sua produção e no seu consumo, fazendo parecer que se trata de uma expressão pura e desinteressada da criatividade. Você pode ler mais sobre esse tema no livro As regras da arte de Bourdieu. O caso do mercado editorial, em que Bourdieu analisa como os escritores, os editores, os críticos, os jornalistas e os leitores formam um campo literário, que determina as condições e as possibilidades de produção e de circulação dos livros. Os livros são bens simbólicos que possuem um valor econômico, mas também um valor literário, que depende da legitimidade e da autoridade dos agentes do campo. Bourdieu mostra que o mercado editorial não é guiado pela lógica do lucro, mas sim pela lógica do reconhecimento, que visa afirmar e defender uma posição no espaço literário. Assim, a mercadoria literária oculta as relações sociais e culturais que estão por trás da sua produção e do seu consumo, fazendo parecer que se trata de uma manifestação autônoma e original da escrita. Você pode ler mais sobre esse tema no livro As regras do jogo de Bourdieu. O caso do mercado educacional, em que Bourdieu examina como os professores, os alunos, os pais, os administradores e os políticos compõem um campo educacional, que estabelece as normas e os critérios de avaliação e de seleção dos estudantes. Os diplomas são bens simbólicos que possuem um valor econômico, mas também um valor educacional, que depende do prestígio e da credibilidade das instituições de ensino. Bourdieu demonstra que o mercado educacional não é regido pela lógica da meritocracia, mas sim pela lógica da reprodução, que visa perpetuar e legitimar as desigualdades de capital cultural entre as classes sociais. Assim, a mercadoria educacional oculta as relações de exclusão e de dominação que estão implicadas na sua produção e no seu consumo, fazendo parecer que se trata de uma garantia de competência e de sucesso. Você pode ler mais sobre esse tema no livro A reprodução de Bourdieu.

D) Bens simbólicos e campos sociais: Bourdieu analisa a produção e a circulação de bens simbólicos no campo econômico e em outros campos sociais, como o campo artístico, o campo religioso, o campo científico, o campo político, etc. Ele considera que cada campo possui uma lógica específica, uma estrutura de posições e relações, um conjunto de regras e normas, e um espaço de disputas e concorrências. Os agentes que atuam nesses campos buscam acumular e converter diferentes tipos de capital (econômico, cultural, social, simbólico), que são recursos escassos e desigualmente distribuídos. O capital simbólico é a forma reconhecida e legitimada de qualquer outro tipo de capital, que confere autoridade e prestígio aos seus detentores. Os bens simbólicos são produtos culturais ou religiosos que possuem um valor simbólico, que depende da crença dos agentes no campo e da posição que ocupam nele. Bourdieu problematiza as formas de dominação e de reconhecimento que se estabelecem nessas trocas, mostrando que elas não são neutras ou naturais, mas sim resultado de uma imposição de uma visão de mundo dominante, que mascara os interesses e as relações de poder envolvidos. Ele também mostra que as trocas simbólicas não seguem exclusivamente a lógica do mercado, mas sim a lógica da dádiva, que implica uma reciprocidade diferida e dissimulada, que gera obrigações e gratidão. Para entender melhor esses conceitos, você pode consultar os seguintes textos de Bourdieu: A economia dos bens simbólicos, O campo econômico, A produção da crença, A distinção e O poder simbólico.

E) lógica da mercadoria e poder simbólico: Bourdieu aborda essa questão de maneira mais específica e interconectada em seu trabalho. A lógica da mercadoria é uma das formas de poder simbólico na sociedade moderna, que se manifesta através de sistemas de classificação, representação e comunicação.  A força simbólica em Bourdieu é a capacidade de impor uma visão do mundo e legitimar uma ordem social através de sistemas de classificação, representação e comunicação. Bourdieu mostra que a forma mercadoria é uma forma histórica e social que varia de acordo com os diferentes campos e as diferentes espécies de capital. A forma mercadoria é tanto influenciada quanto influencia os indivíduos e os campos sociais, em uma interação dialética que envolve tanto a reprodução quanto a transformação das estruturas sociais. A forma mercadoria depende e afeta as condições históricas e sociais de produção, circulação e consumo dos bens, assim como as formas de reconhecimento, distinção e dominação entre os agentes sociais. Nessa dinâmica, a forma mercadoria pode ter um efeito de colonização e de homogeneização sobre os outros campos, mas também pode gerar efeitos contraditórios e paradoxais, que podem favorecer a autonomia e a criatividade dos agentes sociais. Bourdieu também aponta que os indivíduos podem ser condicionados, mas não determinados, a perceber o mundo em termos de valor de troca econômico, e que há formas de resistência e de crítica que podem surgir contra a lógica da mercadoria, por exemplo, quando ela pode levar à mercantilização da cultura, da educação e da política. Bourdieu não reduz a lógica social à lógica econômica porque propõe existirem outras formas de valorização e troca que não se baseiam no dinheiro, mas em outros tipos de capital, como o capital cultural, o capital social e o capital simbólico. Cada campo social tem sua própria lógica e seus próprios critérios de valor, que podem ser convertidos em outras formas de capital, mas não sem perda ou resistência. O capital simbólico, que é a forma reconhecida e legitimada de qualquer tipo de capital, tem um papel fundamental na reprodução e na transformação das relações de poder.

F) Desigualdade social: Bourdieu também argumenta que a lógica da mercadoria tende a contribuir para a desigualdade social quando ela favorece aqueles que concentram capital econômico, pois a lógica da mercadoria pode criar uma hierarquia entre os bens culturais, por exemplo, quando privilegia aqueles que são mais escassos, raros ou exclusivos, e como isso se reflete nas preferências e nos gostos dos agentes sociais, que são marcados pela sua posição na estrutura de classes. Lembrando que Bourdieu não considera os indivíduos como meros receptores passivos da lógica da mercadoria, mas como agentes ativos que podem resistir, contestar ou subverter essa lógica através de suas práticas e estratégias

G) Determinações: Bourdieu também argumenta que a lógica da mercadoria não é a única força que determina a vida social. Ele acredita que a vida social é produzida por uma interação complexa entre diferentes forças, incluindo a economia, a cultura, a linguagem e as relações simbólicas. Bourdieu analisa as relações entre os diferentes campos sociais, como o campo econômico, o campo cultural e o campo político, e como eles se influenciam mutuamente através de processos de conversão, transferência ou acumulação de capital. Ele estuda as formas de violência simbólica exercidas pelos grupos dominantes sobre os grupos dominados através dos mecanismos de imposição, inculcação ou reconhecimento das formas legítimas de expressão e comunicação. Nesse sentido a lógica da mercadoria não apenas transforma todas as esferas da vida social em objetos de troca e consumo, mas também molda as mentalidades, os valores e as práticas das pessoas de maneira mais profunda do que a simples "ação" da mercadoria. Em vez de se concentrar apenas na visão mais direta de como a mercadoria influencia diferentes aspectos da vida, Bourdieu busca desvelar como essa lógica se naturaliza de forma muito sutil nas estruturas e instituições sociais, afetando as escolhas e percepções das pessoas. Bourdieu desenvolveu sua abordagem usando conceitos como "campo" e "habitus". Os campos sociais, como o campo econômico, cultural e político, sendo também moldados pela lógica da mercadoria e suas relações de poder. Esses campos influenciam o "habitus" das pessoas, que é um conjunto de disposições incorporadas que orientam suas ações e percepções. Portanto, Bourdieu argumenta que a lógica da mercadoria não é apenas uma ação externa, mas uma força internalizada que molda as estruturas sociais, as relações de poder e as maneiras como as pessoas pensam e agem em uma variedade de contextos. Em vez de ignorar a lógica da mercadoria, Bourdieu a incorpora em seu quadro teórico para uma compreensão mais profunda e complexa das dinâmicas sociais.

H) Bourdieu e a crítica do valor: Bourdieu complementa a crítica do valor com seu trabalho sobre campos sociais, habitus e reprodução social. Ele fornece uma compreensão abrangente das estruturas e práticas que perpetuam o capitalismo e que podem ser enriquecidas pela análise da crítica do valor. Ele aborda indiretamente muitas das preocupações da crítica do valor ao examinar como as pessoas vivem e experimentam a sociedade capitalista em suas vidas diárias. Ele contribui para uma compreensão mais profunda das estruturas sociais que a crítica do valor pode se beneficiar. Para entender a sociedade moderna de forma completa, precisamos usar uma variedade de ferramentas teóricas. A crítica do valor é uma ferramenta importante, mas não é a única.

I) Papel do Estado e da Política: Bourdieu também reconhece que o Estado incorpora e reivindica várias funções fundamentais na reprodução das relações sociais, e ele não o compreende como um bloco monolítico ou homogêneo. Ele analisa o Estado como um campo burocrático dentro de um outro campo social de poder, que é atravessado por conflitos internos entre diferentes frações e correntes. Ele também destaca o papel do Estado na produção e na imposição simbólica de categorias de pensamento e de classificação social, que contribuem para a legitimação da ordem estabelecida ou para a contestação dela. Essas categorias são parte integrante das razões de estado, que ele define como “o conjunto das representações e das práticas que tendem a preservar ou a aumentar o capital de poder simbólico que o Estado detém em virtude do monopólio da violência física e simbólica

J) Bourdieu e a transformação: Bourdieu não exclui a possibilidade de transformação social e política radical. Sua abordagem ilumina as interações simbólicas entre agentes, estruturas e símbolos culturais que moldam as práticas políticas em uma sociedade. Ele enfatiza as estratégias dos agentes dentro das estruturas existentes, mas não nega a necessidade de mudanças radicais. Ele busca compreender como as estruturas de poder operam e como os atores políticos agem dentro delas. Entender as estratégias dentro das estruturas é fundamental para qualquer tentativa de mudança eficaz. Bourdieu revela como os agentes se movem dentro das estruturas de poder e fornece informações valiosas sobre as dinâmicas subjacentes da política. Ele identifica pontos de tensão, contradições, convergências e áreas onde a resistência e a mudança podem ser mais eficazes. Ele contribui para uma compreensão mais profunda das raízes da política e da necessidade de transformações sociais. 

K) Bourdieu e a origem da mercadoria: Bourdieu se interessa pelo significado simbólico e pelo valor das mercadorias nas interações sociais, mas não ignora a origem econômica das mercadorias em si. Bourdieu reconhece que a origem econômica das mercadorias é uma questão que já foi abordada por outras disciplinas, como a economia política e a história econômica, mas sua abordagem sociológica busca complementar essa análise, mostrando como as mercadorias são socialmente construídas e funcionam na vida cotidiana das pessoas. Bourdieu também incorpora as bases materiais e históricas das mercadorias em sua análise dos campos sociais, onde as mercadorias são objetos de disputa e de distinção entre os agentes dotados de diferentes formas de capital (econômico, cultural, social, simbólico, etc.). Portanto, Bourdieu não prioriza apenas o significado simbólico e o valor das mercadorias, mas também analisa as relações de poder e as estratégias que envolvem as mercadorias nos campos sociais.

L) O caráter histórico da mercadoria: Bourdieu sinaliza reconhecer que a mercadoria tem um caráter material, histórico, produto do trabalho humano, que é socialmente determinado. Da mesma forma Bourdieu também quer enfatizar as várias facetas em que a mercadoria deve ser entendida em muito mais do que uma mecânica material, mas também um objeto simbólico, que carrega significados e valores sociais. Em segundo lugar, Bourdieu poderia argumentar que sua análise do caráter simbólico da mercadoria é necessária para uma compreensão completa de sua função social. Ela também incorpora fatores da cultura e da sociedade, que desempenham um papel importante na reprodução das relações sociais. Ao se concentrar nos aspectos simbólicos da mercadoria, Bourdieu busca revelar também o papel ideológico que ela desempenha na sociedade.

M) Bourdieu e o capitalismo em geral: No contexto de seu livro "A Distinção", Bourdieu argumenta que o capitalismo é um sistema que perpetua as desigualdades sociais também por meio da educação. Ele afirma que o sistema educacional é dominado pela classe dominante, que usa a educação para perpetuar seus privilégios. Bourdieu argumenta que o capitalismo também é um sistema que gera desigualdades sociais por meio do consumo. Ele sinaliza que o capitalismo cria desejos artificiais que levam as pessoas a consumir mais do que precisam, o que gera desigualdades sociais. No contexto de seu livro "Sobre a televisão", Bourdieu argumenta que o capitalismo também é um sistema que usa a mídia para difundir sua ideologia. Ele afirma que a mídia é um instrumento de dominação que serve para legitimar a exploração do trabalho. 

N) Criticas de Bourdieu ao estado providência:  Bourdieu criticou o Estado de Bem-Estar Social por reproduzir e agravar as desigualdades sociais existentes, por ser usado como uma ferramenta de controle e dominação pelas elites políticas e econômicas, e por mercantilizar a educação e a cultura. Ele argumentou que as políticas públicas nem sempre levam em conta as diferentes formas de capital que as pessoas possuem, como o capital cultural, e que isso favorece aqueles que já têm mais recursos e oportunidades. Ele entendeu o Estado como uma instituição que, mesmo com políticas sociais progressistas, ainda estava sujeita a pressões e influências daqueles que detinham o poder econômico e simbólico. Um exemplo dessa circunstância ocorreu quando Bourdieu criticou a tendência do Estado de Bem-Estar Social de mercantilizar a educação e a cultura. Ele argumentou que a educação estava se tornando mais um campo de competição onde os indivíduos buscavam adquirir vantagens em vez de uma ferramenta para promover a igualdade de oportunidades. Ele também argumentou que a cultura estava sendo transformada em um bem de consumo que perdia seu valor crítico e emancipatório. Além disso ele também criticou o Estado de Bem-Estar Social por ser insuficiente e inadequado para combater a exclusão social, e que era necessário desenvolver novas formas de ação coletiva e de intervenção política que levassem em conta a diversidade e a complexidade das situações sociais.

O) Bourdieu e a raiz comum dos diferentes problemas: Para Bourdieu, a crítica capaz de indicar a raiz comum dos diferentes problemas também é a crítica que revela a lógica do capitalismo, baseada também na exploração do trabalho, na dominação da classe dominante e na reprodução das desigualdades sociais. Bourdieu argumenta que os diferentes problemas da sociedade, como a pobreza, a violência, a desigualdade e a degradação ambiental, também têm suas raízes na lógica do capitalismo. Ele afirma que esses problemas são, em última análise, causados pela exploração do trabalho, pela dominação da classe dominante e pela reprodução das desigualdades sociais. Outra crítica capaz de indicar a raiz comum dos diferentes problemas na sociedade capitalista está relacionada ao conceito de "violência simbólica" e à ideia de que as estruturas sociais e culturais desempenham um papel fundamental na reprodução das desigualdades e na manutenção do status quo. A "violência simbólica" refere-se à maneira pela qual as estruturas de poder, as instituições culturais e as normas sociais impõem uma ordem que beneficia determinados grupos enquanto marginaliza outros. Bourdieu argumenta que essa violência simbólica é internalizada pelos indivíduos, levando-os a aceitar e até mesmo a perpetuar sua própria opressão. Além de criticar o capitalismo e a violência simbólica, Bourdieu também propõe formas de resistir e de transformar a ordem social. Bourdieu defende a necessidade de desenvolver uma sociologia crítica e reflexiva, que possa desmascarar as formas de dominação e contribuir para a emancipação dos agentes. Bourdieu também defende a necessidade de desenvolver novas formas de ação coletiva e de intervenção política, que levassem em conta a diversidade e a complexidade das situações sociais, e que mobilizassem diferentes formas de capital (econômico, cultural, social, simbólico, etc.) para desafiar o poder dos dominantes.

P) Obras para consulta:  Para uma visão mais aprofundada das ideias de Bourdieu nesse ponto, você pode consultar obras como  "A Distinção: Crítica Social do Julgamento"; "Esboço de uma Teoria da Prática"; "Razões Práticas: Sobre a Teoria da Ação"; "As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário";  "O Poder Simbólico".  Estas são apenas algumas das obras de Bourdieu que exploram esses temas em maior detalhe. Cada uma delas oferece uma perspectiva única sobre as estruturas de poder, a análise multifacetada da sociedade, a necessidade de reformas e a crítica às lógicas capitalistas.



3) Página 245: 

Como é natural, podemos perguntar se é verdadeiramente desejável um tal regresso ao fordismo keynesiano. Em face das desgraças produzidas em cadeia pelo neoliberalismo, pode parecer compreensível que se alimente alguma nostalgia pelo «capitalismo social». Bourdieu insiste com frequência em problemas actuais (segregação social e étnica, etc.) decorrentes da política neoliberal de habitação iniciada nos anos setenta. Perguntar-se-á, porém, se eram agradáveis os HLM dos anos sessenta e se De Gaulle tinha começado a construir um verdadeiro Estado de justiça social. Mas é mais útil demonstrar que esse regresso é simplesmente impossível.


3.1) Impressões:

Resumidamente, nesse trecho, Anselm Jappe critica Pierre Bourdieu por sugerir a possibilidade de um retorno ao fordismo keynesiano como uma resposta à crise neoliberal. Jappe questiona se esse retorno é realmente desejável, dado que o fordismo também tinha suas desvantagens, como a segregação social e étnica, apontadas por Bourdieu. No entanto, ele argumenta que tal regresso é impossível de ser alcançado, insinuando que Bourdieu não apresenta uma solução realista para os problemas do capitalismo contemporâneo.

A) Bourdieu e HLM: Bourdieu sinaliza criticas as HLM (Habitações de Aluguel Moderado), que são conjuntos habitacionais subsidiados pelo governo francês, nos anos 1970 por várias razões, dentre elas: Padronização Arquitetônica: esses conjuntos habitacionais frequentemente careciam de diversidade arquitetônica e de design, resultando em ambientes monótonos e despersonalizados, contribuindo para a alienação dos moradores e a perda de identidade cultural. Estigmatização Social: o estigma associado à habitação em HLM tinha um impacto negativo nas oportunidades de vida das pessoas que viviam nessas áreas. Concentração de Pobreza: como um reflexo da segregação socioeconômica, a concentração de pessoas em situação de pobreza em determinadas áreas aprofundava ainda mais a desigualdade social. Distância das Oportunidades: muitos desses conjuntos habitacionais eram construídos em áreas afastadas dos centros urbanos, o que dificultava o acesso dos moradores a oportunidades educacionais, empregos e serviços públicos, o que perpetuava ciclos de desvantagem. Habitação como Mercadoria: o foco estava no lucro em vez das necessidades humanas. Isso contribuiria para uma abordagem mercadológica à habitação, o que poderia excluir aqueles que não podiam pagar moradias caras. Ele estava preocupado com o impacto social e econômico negativo que essas políticas habitacionais poderiam ter sobre as comunidades mais vulneráveis.  Ele também analisou como as HLM reproduziam as relações de poder e dominação entre as classes sociais, como elas afetavam a percepção e o gosto dos moradores, como elas criavam uma ilusão de igualdade e democracia, e como elas eram influenciadas por interesses políticos e econômicos.

B) A nostalgia do kheinesianismo: Bourdieu não é reconhecido por defender um retorno ao Estado de Bem-Estar Social, também conhecido como "Estado Providência". Sua abordagem à questão do Estado e das políticas sociais é mais sutil e crítica. Quando Bourdieu identifica o Estado como um campo social simbólico inserido em um campo social mais amplo de poder, ele parte da noção de que, assim como em qualquer campo social, dentro do Estado existem relações simbólicas de dominação incorporadas em que a violência tende a ser aceita como algo natural. Para o sociólogo essas relações precisam ser expostas e examinadas criticamente por meio de uma abordagem científica rigorosa. Nesse sentido Bourdieu examina as políticas estatais e o Estado de Bem-Estar Social dentro do contexto das relações simbólicas de poder e suas dinâmicas sociais, assim buscando revelar como que em certos momentos o Estado de Bem-Estar Social desempenha um papel reconhecidamente legítimo na proteção dos interesses da maioria e na promoção da justiça social, por outro lado, ele também busca desvelar como essas políticas tendem a ser sutilmente instrumentalizadas pelas elites para manter seu poder simbólico e legitimar as desigualdades existentes. Uma de suas principais preocupações visa descobrir a maneira como o Estado tende a ser usado para perpetuar as hierarquias sociais e econômicas. Portanto, para Bourdieu, a questão não parece ser simplesmente retornar ao Estado de Bem-Estar Social, mas sim questionar, à partir de seus preceitos de poder simbólico, como as políticas estatais são concebidas, implementadas, desenvolvidas e os esquemas de naturalização da violência simbólica são incorporados nesse processo. 

C) Aspectos do poder simbólico do Estado: No intuito de definir as características do poder simbólico do Estado, dentro dessa perspectiva, trata-se de um poder: real, porque permanece existente nas atitudes percebidas pelas pessoas, quando elas atuam na função de estruturar determinadas posições sociais (por exemplo, superior/subalterno dentro de uma empresa ou qualquer campo social) e distâncias sociais dentro de um espaço (abstrato) de relações sociais; legítimo, porque exercido através de uma pessoa socialmente respeitada/venerada/competente enquanto autorizada para exercê-lo; reconhecido, porque seu exercício e subordinação por uma pessoa, seja àquele que lhe impõe ou àquele que lhe está submetido, são pensadas como naturais, no sentido de que são ignorados enquanto dentro de uma relação artificial de arbitrariedade. Quanto melhor êxito o executor da ação consegue em aparentar ser natural sua dominação, nesse sentido escondendo a arbitrária gênese da sua condição, mais forte esse poder será. Contanto que, tal ação, consiga tornar o exercício desse poder aceitável por parte daqueles que à ele se subordinam; estruturado social, enquanto consequência dos conflitos históricos presentes em campos sociais simbólicos; estruturante social, enquanto instaurador de uma realidade e de uma ordem gnosiológica; unificador, enquanto instrumento de intermediação de comunicação e conhecimento; segregacionista, ainda enquanto instrumento de intermediação de comunicação e conhecimento, ele realiza o efeito de aceitação das distinções sociais, “compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à sua cultura dominante.”; conservador, porque o efeito de sua ação garante a dominação de um campo social em face de outros campos, através de seus mecanismos de reconhecimento e legitimação, que visam educar os campos sociais dominados a aceitarem o poder que lhe está sendo imposto; dissimulador, pois consegue se colocar como algo diferente de sua origem ou aquilo que o representa, e, assim camufla o entendimento do caráter arbitrário de sua gênese social; decorrente dos maquinismos sociais de comunicação e conhecimento que estabelecem imperativamente a maneira legítima de análise e compreensão do mundo.

D) Regresso impossível: Bourdieu não concebia sua análise como uma resposta definitiva aos problemas do capitalismo contemporâneo. Em vez disso, ele via sua abordagem como um ponto de partida para um processo mais amplo de reflexão crítica e ação transformadora. Ele sabia que a realidade era multifacetada, repleta de especificidades, e as soluções não poderiam ser simplificadas em uma fórmula única universalizante. Portanto, sua análise servia para destacar as nuances e as contradições inerentes ao sistema.  Ao examinar as estruturas de poder no campo social econômico, Bourdieu estava convidando os estudiosos e a sociedade em geral a analisar criticamente essas estruturas. Ele encorajava as pessoas a questionar as relações de poder, a naturalização das desigualdades e a lógica por trás das políticas econômicas. Bourdieu reconhecia que as soluções para os problemas sociais e econômicos precisam ser contextualizadas nas contingências sociológicas da época. Isso significa que as estratégias de transformação devem levar em consideração as condições e os desafios específicos que enfrentam em um determinado momento.

E) Obras para consulta: A crítica de Pierre Bourdieu às Habitações de Aluguel Moderado (HLM) e às políticas habitacionais pode ser encontrada em várias de suas obras, onde ele discute questões relacionadas à habitação, classe social e políticas públicas. Seguem algumas obras de Bourdieu onde ele aborda essas questões: "A Miséria do Mundo" (1993) - Nesta obra, Bourdieu e sua equipe de pesquisadores investigam uma série de questões sociais, incluindo a habitação e a segregação urbana. Eles realizam entrevistas e análises sobre as condições de vida de diferentes grupos sociais na França, e Bourdieu oferece sua visão crítica sobre as políticas habitacionais e seus efeitos. "A Distinção: Crítica Social do Julgamento" (1979) - Embora o foco principal deste livro seja a análise das formas de distinção cultural e hierarquias na sociedade, Bourdieu também discute questões relacionadas à habitação e como a cultura e a classe social afetam o acesso à moradia. "Os Herdeiros: Os Estudantes e a Cultura" (1964) - Coescrito com Jean-Claude Passeron, este livro examina a influência da origem social na educação e na cultura. Embora o foco principal seja a educação, as desigualdades sociais abordadas podem ter ramificações na questão habitacional. "Questões de Sociologia" (1980) - Nesta coletânea de ensaios, Bourdieu aborda uma variedade de tópicos, incluindo as políticas habitacionais e a segregação urbana na França. Seu artigo "As Tradições Classificatórias e as Políticas de Classe" discute essas questões.



4) Página 246: 

Essa ilusão baseia-se na convicção de que a mundialização neoliberal não é o resultado inevitável da lógica capitalista e ao mesmo tempo um sinal da sua extrema fraqueza, mas sim o resultado de uma espécie de conspiração preparada há muito tempo. Segundo esse discurso, com a mundialização, os detentores do poder económico e sobretudo do poder financeiro procuram anular todas as conquistas obtidas durante um século de lutas pela «democratização» e pelos «direitos sociais». Autores como Bourdieu não vêem a ambiguidade profunda de tais «conquistas», que, mesmo tendo sido arrancadas às classes burguesas contra sua vontade, nem por isso deixaram de ser úteis e inclusivamente indispensáveis ao desenvolvimento do capitalismo.


4.1) Impressões: 

Resumidamente, Anselm Jappe critica a visão de autores como Pierre Bourdieu, que acreditam que a globalização neoliberal é resultado de uma conspiração deliberada por parte dos detentores do poder econômico e financeiro para anular as conquistas sociais do século passado. Jappe argumenta que essa visão não reconhece a ambiguidade intrínseca dessas conquistas, que foram obtidas em parte para o benefício do desenvolvimento do próprio capitalismo, mesmo que tenham sido conquistadas contra a vontade das classes burguesas. Ele sugere que essa perspectiva simplifica demais a complexa dinâmica entre capitalismo e conquistas sociais.

A) Complexidade das Relações de Poder: Bourdieu destaca que a sociedade contemporânea é caracterizada por uma miríade de atores, interesses e instituições que interagem em um campo social econômico complexo que também é influenciado por outros campos sociais. Isso significa que, ao considerar as elites econômicas e a globalização, não se pode simplificar a situação como uma conspiração maquiavélica que abrange todos os aspectos da vida econômica. Segundo esse raciocínio as elites econômicas não controlam todos os fatores da globalização, resultado de múltiplos processos econômicos, políticos, sociais e culturais que envolvem uma variedade de atores, incluindo governos, empresas, organizações internacionais, grupos de pressão, movimentos sociais e outros. No entanto, as elites econômicas exercem uma dominação simbólica sobre os demais grupos sociais, impondo seus valores e interesses como universais e legítimos, e ocultando as estruturas e os mecanismos que produzem e reproduzem as desigualdades e as violências sociais. Bourdieu reconhece que as elites econômicas formam um grupo relativamente homogêneo e coeso, que compartilha um mesmo habitus e um mesmo capital econômico e cultural, e que enfrenta poucos desafios e competições internas, em comparação com a sua unidade e solidariedade de classe. Além disso, as políticas econômicas são frequentemente influenciadas por uma variedade de fatores, incluindo pressões políticas, movimentos sociais e dinâmicas globais imprevisíveis. Portanto, Bourdieu convida a considerar a especificidade das forças em jogo no campo social econômico e a evitar interpretações excessivamente simplistas. Isso não significa negar a influência das elites econômicas, mas sim denunciá-la como uma forma de violência simbólica, e buscar desvendar as estruturas e os mecanismos que a sustentam e a legitimam. Portanto, para abordar a questão de forma adequada, é necessário considerar as estruturas de classes e de campos, que definem as posições e as disposições dos agentes sociais, e que geram relações de poder e de luta entre eles.

B) As Conquistas democráticas: Dentro do contexto da dinâmica do campo social político, para Bourdieu a expansão de seus limites através das conquistas democráticas e sociais trouxe melhorias significativas para a qualidade de vida das pessoas. No entanto, essa expansão também criou novas formas de desigualdade e de dominação, que exigiam novas formas de luta e de transformação. Bourdieu via a precificação das interações sociais e da vida em sociedade como uma forma de dominação do campo social econômico que se exercia através da imposição de um mercado universal, que ignorava as especificidades dos diferentes campos sociais e que reduzia todas as formas de socialização ao único critério de valor econômico. Bourdieu também considerava que a violência simbólica se manifestava de forma mais sutil e dissimulada, através de mecanismos de legitimação, de reprodução e de distinção, que operavam no nível do habitus, das disposições e das práticas dos agentes sociais. Além disso, Bourdieu afirmava que as formas de desigualdade e exploração do sistema capitalista continuavam sendo objeto de crítica e resistência, mas que essas lutas se davam em um contexto de transformação social, que exigia novas formas de mobilização, de organização e de ação coletiva. Portanto, para Bourdieu as conquistas obtidas durante um século de lutas pela “democratização” e pelos “direitos sociais” tiveram um impacto contraditório sobre o capitalismo. Elas melhoraram a vida das pessoas, mas também criaram novos desafios e problemas sociais. Nesse sentido, Bourdieu não ignorava a ambiguidade dessas conquistas, mas sim a criticava como uma forma de ilusão, de alienação e de resignação, que impedia as pessoas de perceberem as verdadeiras causas e as verdadeiras soluções para os problemas sociais.

C) Análise da Lógica Capitalista e Ambiguidade das Conquistas: Em vez de priorizar entender a globalização neoliberal como uma mera conspiração premeditada, dentro da teoria dos campos sociais, habitus e violência simbólica de Bourdieu, faz mais sentido compreendê-la como uma manifestação da lógica intrínseca de domínio do campo social econômico, cujas balizam estão enraizadas no sistema capitalista, dentro das disputas do campo de poder. Bourdieu argumenta que esse campo social econômico busca a precificação de todos aspectos da vida para a acumulação ilimitada de capitais. Para seu projeto de poder, os dominantes desse campo social precisam se expandir constantemente para abranger novos mercados e recursos que podem pertencer a outros campos sociais. A mundialização é uma expressão desse projeto de expansão. Bourdieu não via a mundialização como impulsionada por um grupo de elites econômicas, mas sim como resultado de uma lógica estrutural do campo social econômico, que envolvia uma multiplicidade de agentes e de interesses, que disputavam recursos e posições em diferentes campos sociais. Bourdieu também não afirmava que as elites econômicas almejavam expandir seu poder simbólico, mas sim que elas exerciam uma dominação simbólica sobre os demais grupos sociais, impondo seus valores e interesses como universais e legítimos, e ocultando as estruturas e os mecanismos que produziam e reproduziam as desigualdades e as violências sociais. Bourdieu reconhecia que as elites econômicas exerciam controle sobre as principais instituições financeiras, econômicas e políticas em escala global, mas ele também criticava o papel das instituições de poder simbólico e soft power, como os meios de comunicação, as organizações internacionais, as universidades, entre outras, que eram instrumentos de dominação simbólica das elites econômicas, que impunham seus valores e interesses como universais e legítimos, e ocultavam as estruturas e os mecanismos que produziam e reproduziam as desigualdades e as violências sociais, tais como: Meios de Comunicação Internacionais, empresas de mídia globalmente reconhecidas, como BBC e Reuters, que têm a capacidade de moldar percepções e influenciar a opinião pública em escala internacional; Instituições de ensino superior de renome, como Harvard, Oxford, e a Sorbonne, têm um impacto duradouro na disseminação de conhecimento, cultura e valores de seus países de origem; Organizações Culturais e Artísticas: Entidades como o British Council  promovem a língua, cultura e arte de seus países, aumentando sua influência cultural global; Empresas Multinacionais: Grandes corporações globais, como a Disney, têm uma presença significativa em todo o mundo e frequentemente promovem a cultura e os valores de seus países de origem; ONGs e Fundações: Organizações não governamentais e fundações, como a Fundação Bill e Melinda Gates e a Fundação Open Society, têm uma influência considerável na promoção de agendas políticas e sociais globais; Agências de Ajuda e Desenvolvimento: Agências como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) desempenham um papel na prestação de assistência de políticas globais; Instituições Religiosas: Organizações religiosas, como a Igreja Católica e várias instituições protestantes, têm um poderoso impacto na disseminação de valores e princípios religiosos em todo o mundo; os Think tanks:  produzem relatórios, estudos e análises para ajudar a moldar políticas públicas, influenciar tomadores de decisão e contribuir para o debate público.  Bourdieu também criticava a ilusão de que essas instituições podiam ser reformadas ou democratizadas, e defendia a necessidade de uma ruptura radical com a lógica do campo social econômico, que exigia novas formas de luta e de transformação social.

D) Acomodação e Incorporação de Conquistas Sociais: Bourdieu aponta que, ao longo da sua história, o campo social econômico frequentemente estruturou e foi estruturado por elementos das conquistas sociais para atender às pressões que recaíam perante si, principalmente sobre estabilidade e legitimidade. No entanto, Bourdieu não argumentava que o capitalismo era capaz de se adaptar a essas mudanças e até mesmo incorporá-las em sua própria lógica, mas sim que ele as produzia e as reproduzia, gerando novas formas de desigualdade e de violência, que exigiam novas formas de luta e de transformação social. Bourdieu também não afirmava que o capitalismo sobrevivia às mudanças sociais, mas sim que ele as impunha através da dominação econômica, que se exercia através da imposição de um mercado universal, que ignorava as especificidades dos diferentes campos sociais e que reduzia todas as formas de capital a um único critério de valor. Por exemplo, as reformas trabalhistas que garantiam direitos aos trabalhadores não criavam um ambiente de trabalho mais estável, mas sim implicavam em uma perda de autonomia, de proteção e de garantias, que eram substituídas por uma lógica de flexibilização, de precarização e de individualização, que favorecia os interesses dos dominantes do campo social econômico, que buscavam reduzir os custos e aumentar os lucros, à custa da exploração e da alienação dos trabalhadores. Os sistemas de seguridade social, embora destinados a proteger os cidadãos, não criavam uma sensação de segurança que permitia que as pessoas se sentissem mais dispostas a consumir bens e serviços, mas sim garantiam a reprodução social, ou seja, a capacidade dos agentes sociais de manterem suas condições de existência e de participação nos diferentes campos sociais, especialmente em situações de crise, de desemprego, de doença, de velhice, entre outras. Bourdieu também criticava a tendência neoliberal de desmantelar os sistemas de seguridade social, que ele via como uma forma de desresponsabilização do Estado e de transferência dos riscos sociais para os indivíduos, que ficavam cada vez mais vulneráveis e dependentes do mercado.

E) Obras para consulta: Dentro do contexto das obras de Bourdieu, é crucial examinar suas obras-chave que abordam as relações entre o capitalismo e a reprodução das desigualdades sociais. Algumas obras relevantes para essa discussão incluem: "A Distinção: Crítica Social do Julgamento" (1979): Neste livro, Bourdieu explora como os gostos culturais e as escolhas de consumo estão intrinsecamente ligados às posições sociais e à reprodução de desigualdades. Ele analisa como o capital econômico e o capital cultural influenciam as preferências culturais das pessoas, perpetuando assim as diferenças de classe; "O Poder Simbólico" (1982): Nesta obra, Bourdieu aprofunda sua teoria do poder simbólico, que explora como os sistemas simbólicos (como a linguagem, a cultura e as representações) são utilizados para manter e reforçar relações de poder e desigualdade. Ele argumenta que o poder simbólico é uma ferramenta-chave para a dominação no capitalismo; "As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário" (1992): Este livro examina o campo literário, mas suas análises podem ser aplicadas a outros campos culturais e sociais. Bourdieu investiga como o capital cultural, as redes de relações sociais e as instituições culturais influenciam a produção e a consagração de obras de arte, revelando assim como o capitalismo molda a cultura e suas hierarquias; "Os Herdeiros: Os Estudantes e a Cultura" (1964): Neste trabalho seminal, Bourdieu e Passeron examinam como as instituições educacionais reproduzem as desigualdades sociais. Eles argumentam que o sistema educacional tende a favorecer os estudantes que já possuem capital cultural, contribuindo para a perpetuação da desigualdade de classe. Estas obras são fundamentais para compreender como Bourdieu abordou as complexas interações entre o capitalismo, o poder simbólico, a cultura e a reprodução das desigualdades sociais. Elas oferecem insights valiosos para análises críticas da sociedade contemporânea, especialmente em relação às questões de dominação e exploração que permeiam o sistema capitalista.



5) Página 246: 

Se Bourdieu escreve em dado momento que, «pelo facto de os dominadores deste jogo serem dominados pelas regras do jogo que dominam, a regra do lucro, este campo funciona como uma máquina infernal sem sujeito que impõe a sua lei aos Estados e às empresas», tal não representa mais do que uma afirmação isolada. No seu discurso, a evolução do capitalismo não é governada pelas respectivas contradições internas, a concorrência e o sujeito autómato. Cada melhoramento da condição dos «dominados» ficar-se-ia a dever a uma acção política e social, concebida como sendo o contrário do capitalismo, e não como parte integrante dele mesmo. Tudo se reduz então às relações de forças e à boa vontade ou má vontade dos atores. 


5.1) Impressões:

Resumidamente, Anselm Jappe critica a visão de Bourdieu de que o funcionamento do capitalismo é como uma "máquina infernal" que impõe sua lógica de lucro aos Estados e empresas sem um sujeito consciente. Jappe argumenta que essa afirmação é apenas uma observação isolada na obra de Bourdieu e que, em seu discurso geral, Bourdieu não considera as contradições internas do capitalismo, como a concorrência, como motores da evolução do sistema. Em vez disso, Bourdieu atribui melhorias na condição dos "dominados" a ações políticas e sociais que são concebidas como opostas ao capitalismo, em vez de integradas nele. Jappe sugere que, na visão de Bourdieu, tudo se resume às relações de poder e à vontade dos atores, sem uma análise aprofundada das dinâmicas internas do capitalismo.

A) Capitalismo como Sistema Social e Cultural: A ênfase de Bourdieu estava na compreensão das relações de poder simbólico e das estruturas de dominação que moldam a sociedade contemporânea. Ele argumentava que o capitalismo não era apenas um sistema econômico, mas também um sistema social e cultural, no qual as elites detinham também o capital cultural e simbólico que lhes conferia vantagens significativas.

B) Boa ou má vontade dos atores: Para Bourdieu essa "boa vontade" ou "má vontade" dos atores individuais era em grande parte condicionada por sua posição dentro das estruturas dos campos sociais sociais e pelas disposições internalizadas que adquiriram ao longo de suas vidas. Ele estava interessado em como as estruturas sociais moldam a percepção, os valores e as ações das pessoas, o que vai além de uma simples avaliação moral das intenções individuais. Bourdieu desenvolveu uma teoria sociológica abrangente que explorou a interação entre estrutura e agência, ou seja, como as estruturas sociais influenciam as ações individuais e coletivas e, ao mesmo tempo, como as ações individuais e coletivas podem transformar ou reproduzir essas estruturas. Ele argumentou que as práticas sociais são moldadas pelas estruturas de poder, mas também são o resultado das disposições e estratégias dos atores sociais. Suas teorias sobre campos sociais, capital simbólico e habitus são exemplos de como ele tentou capturar a complexidade das dinâmicas sociais. Portanto, em Bourdieu, não se trata apenas de relações de força brutais, mas de uma análise mais profunda das relações simbólicas de poder, como elas se manifestam nas diferentes esferas da vida social e como os atores sociais negociam, resistem ou reproduzem essas relações.

C) A Concorrência: Bourdieu introduz o conceito de campo social como espaços de competição por diferentes tipos de capital, que podem ser econômicos ou simbólicos. A concorrência é central no campo social econômico. Os agentes disputam recursos escassos, como capital financeiro, acesso a mercados, influência política e controle de instituições-chave. Essa competição não apenas molda estratégias individuais, mas também influencia estruturas políticas econômicas em níveis nacionais e globais. A competição nos campos não é apenas econômica, mas envolve a busca por prestígio, reconhecimento e poder cultural. Essa competição nos campos sociais é mais ampla do que a concorrência estritamente econômica destacada por certos marxismos. Ela inclui as dimensões simbólicas e culturais da busca por recursos.

D) Contradições internas: Bourdieu argumenta que esses campos sociais não são homogêneos, sendo marcados por contradições internas. Diferentes frações da classe dominante competem entre si por recursos e influência, gerando tensões e rivalidades internas que podem ser exploradas pelos dominantes para manter seu poder ou pelos dominados para subvertê-las. As contradições internas, conforme definidas por certos marxismos, priorizam a competição econômica, enquanto os conceitos de Bourdieu expandem essa visão para incluir os detalhes das competições nos campos sociais, que envolvem aspectos culturais e simbólicos.

E) habitus, sujeito automático, conformismos e regularidades: No contexto do capitalismo, o sujeito automático refere-se à ideia de que o valor de troca age independentemente, transformando-se de dinheiro em mercadorias e vice-versa, fluindo de uma forma para outra de maneira contínua, enquanto aumenta seu próprio valor. Marx desenvolveu essa concepção em sua obra "O Capital". Por outro lado, Bourdieu aborda a questão do habitus, destacando como os agentes sociais, em um contexto de campo social, podem agir de maneira previsível e conformista devido à internalização dessas estruturas e movimento. O habitus é um sistema de disposições duráveis que orienta as ações dos agentes de acordo com as lógicas do campo social em que estão inseridos. Essas ações muitas vezes parecem automáticas, pois os atores respondem às normas e estruturas sem a necessidade de uma reflexão consciente profunda em cada ação específica. Ambos os conceitos compartilham a ideia de ações que parecem automáticas ou independentes de uma reflexão consciente profunda. Além disso, tanto o sujeito automático quanto o habitus estão relacionados à noção de regularidade e coerência. No capitalismo, a transformação contínua do valor de troca mantém certa coerência do sistema, enquanto no contexto social, nessa dinâmica, o habitus gera regularidade e coerência das ações dos agentes e dos campos sociais. Em última análise, esses dois conceitos abordam dinâmicas nas quais as ações aparentemente automáticas ou sem a necessidade de uma reflexão consciente são essenciais para manter a funcionalidade do sistema, seja o sistema capitalista ou um campo social econômico. Isso ilustra a importância das estruturas e normas internalizadas na condução das ações dos agentes em ambos os contextos.

F) O Habitus e o sujeito automático, relações: A relação entre o sujeito automático do capitalismo e o habitus de Bourdieu está na compreensão de como as estruturas sociais e econômicas moldam as disposições e ações dos indivíduos. O sujeito automático do capitalismo pode ser compreendido como relacionado às estruturas econômicas, como a competição pelo lucro e as formas de acumulação de capital. Essas pressões econômicas moldam o comportamento dos indivíduos em relação ao sistema econômico. O habitus, por sua vez, também é moldado pelas experiências sociais e culturais dos indivíduos, incorporando não apenas aspectos econômicos, mas também simbólicos e culturais. O habitus influencia como os indivíduos percebem e respondem às pressões econômicas. O sujeito automático do capitalismo e o habitus de Bourdieu são dois conceitos que oferecem algumas perspectivas sobre como as estruturas sociais, econômicas e culturais influenciam o comportamento humano. No entanto, eles também apresentam algumas diferenças teóricas e metodológicas importantes, que devem ser consideradas na sua aplicação e comparação. Por exemplo, o sujeito automático do capitalismo tem um foco maior na lógica econômica do capitalismo, que determina as formas de produção e circulação de valor, enquanto o habitus de Bourdieu tem um foco maior nas influências sociais, simbólicas e culturais, que moldam as formas de percepção e ação dos indivíduos em diferentes campos sociais. Além disso, o sujeito automático do capitalismo tende a ser pensado como um conceito mais abstrato e universal, que pretende explicar o funcionamento geral do sistema capitalista, enquanto o habitus de Bourdieu é um conceito mais concreto e histórico, que pretende descrever as condições específicas de cada grupo social. Ambos podem reconhecer que as ações individuais não são independentes das estruturas mais amplas em que ocorrem, mas podem ser moldadas por essas estruturas.

G)  habitus, sujeito automático e determinismo: O habitus é um conceito sociológico que Bourdieu desenvolveu para explicar como as estruturas sociais influenciam as práticas e as representações dos agentes sociais, formado pelas condições materiais de existência dos indivíduos, mas não de forma absoluta, também é resultado da socialização, que ocorre em um contexto social específico, onde os indivíduos aprendem e incorporam as normas e os valores de um campo social. Ele também pode se adaptar às mudanças nas condições sociais, gerando novas práticas ou representações. O habitus, portanto, não é um conceito determinista, mas sim um conceito dialético, que reconhece a interação entre as estruturas sociais e as ações individuais. O sujeito automático é um conceito econômico e filosófico que Marx elaborou para explicar como o capital se torna um agente dominante e autônomo no sistema capitalista. Ele é o capital que se valoriza continuamente através da produção e da circulação de mercadorias, submetendo os indivíduos à sua lógica, aumentando a sua própria magnitude. O sujeito automático, portanto, não costuma ser considerado um conceito dialético, mas sim um conceito crítico, que denuncia a dominação do capital sobre os indivíduos. A relação entre o habitus e o sujeito automático é complexa e ambígua. Por um lado, o habitus pode ser visto como uma forma de resistência ou de contestação ao sujeito automático, pois ele permite aos indivíduos agir de forma criativa e superar as limitações impostas pelo capital. Por outro lado, o habitus pode ser visto como uma forma de reprodução ou de legitimação do sujeito automático, pois ele incorpora as pressões econômicas e as desigualdades sociais geradas pelo capital. 

H) O Habitus economico e o sujeito automático: A relação entre o habitus econômico e o sujeito automático está na influência das disposições e valores internalizados sobre o comportamento dos indivíduos dentro do contexto do sistema capitalista. Isso ocorre porque o habitus econômico abrange as disposições e valores que afetam como as pessoas percebem e respondem às pressões econômicas, como a busca de lucro, acumulação de capital, consumo, a poupança, o investimento, etc. Em outras palavras, o sujeito automático do capitalismo econômico pode contribuir para a formação do habitus econômico de Bourdieu, uma vez que influencia a maneira como as pessoas se comportam no contexto das estruturas econômicas capitalistas. Portanto, podemos entender o sujeito automático do capitalismo como um dos elementos subjacentes que moldam  o habitus econômico, influenciando suas atitudes e comportamentos em relação a questões econômicas. Ambos os conceitos podem reconhecer a importância das disposições internalizadas na compreensão das práticas e escolhas dos indivíduos em um contexto social e econômico específico. Por exemplo, como as crianças de uma pequena escola da Inglaterra que constituíram uma sociedade de seguros contra as punições escolares.

I) Diferenças entre o Habitus economico e o sujeito automático: O habitus econômico demonstra sua capacidade de adaptação às mudanças nas condições sociais. Por exemplo, uma criança  cresceu em uma família de baixa renda e, portanto, desenvolveu um habitus econômico que valoriza a e a contenção de gastos. Se esse indivíduo, posteriormente, ascende socialmente e passa a ter mais recursos financeiros, seu habitus econômico pode se adaptar às novas condições sociais e passar a valorizar outros aspectos, como o conforto e o lazer. Em última análise, o habitus econômico é um conceito que auxilia na compreensão da relação entre a estrutura social e a agência individual no âmbito econômico. Sua formação é influenciada pelas condições materiais de existência, mas sem caráter determinista. A socialização desempenha um papel fundamental na aquisição do habitus, ocorrendo em contextos sociais específicos. As disposições econômicas do habitus são internalizadas no corpo e na mente do indivíduo. No entanto, os indivíduos também mantêm a capacidade de agir de forma criativa, superando as limitações do habitus econômico. Em resumo, o habitus econômico é um conceito que se diferencia do sujeito automático do capitalismo, pois reconhece a autonomia e a criatividade dos indivíduos no domínio econômico.

J) Campo social econômico e o sujeito automático: uma semelhança entre o sujeito automático e o campo social econômico é que ambos reconhecem a importância das estruturas objetivas que influenciam as ações e as escolhas dos indivíduos no contexto do capitalismo. Tanto o sujeito automático quanto o campo social econômico são formas de incorporação da história, que refletem as condições sociais de existência dos indivíduos e dos grupos. Ambos os conceitos também apontam para a existência de uma esfera econômica com autônomia, que obedece a suas próprias leis, como a busca do lucro e da acumulação de capital

K) Obras para consulta: algumas obras-chave de Bourdieu que podem ser consultadas para compreender o papel do habitus na esfera econômica: "A Economia das Trocas Simbólicas" (1972) - Neste livro, Bourdieu explora as relações entre economia, cultura e poder, fornecendo insights sobre como o habitus influencia as práticas econômicas. "O Poder Simbólico" (1989) - Esta obra é fundamental para entender como o poder simbólico, uma das principais ideias de Bourdieu, influencia a esfera econômica e como o habitus desempenha um papel nesse processo. "O Capital Cultural: Jovens, Cultura e Educação" (1979) - Este livro aborda a relação entre o capital cultural (um dos tipos de capital mencionados por Bourdieu) e as oportunidades econômicas, explorando como o habitus cultural afeta as trajetórias econômicas dos indivíduos. "A Distinção: Crítica Social do Julgamento" (1979) - Nesta obra seminal, Bourdieu discute como o habitus, juntamente com o capital cultural e o capital social, influencia as escolhas de consumo e estilo de vida das pessoas, o que tem implicações econômicas. "Campo econômico" - Nesta obra, Pierre Bourdieu explora o conceito de campo econômico e suas relações com o habitus e as práticas sociais.



6) Página 247:  

"A mundialização económica não é um efeito mecânico das leis da técnica ou da economia, mas sim o produto de uma política posta em ação." "Tal política teria sido imposta pelo esforço constante dos think tanks neoliberais. Tratar-se-ia de um processo de involução, de uma verdadeira 'revolução conservadora'". "Começa-se assim a suspeitar de que a precariedade é produto não de uma fatalidade económica, identificada com a famosa 'mundialização', mas de uma vontade política." 

Com base nesses trechos retirados da obra de Bourdieu, Jappe molda a critica a Bourdieu que segue: 

Contudo, se a introdução do capitalismo não foi uma fatalidade, e se não somos obrigados a aceitar a sua existência como se fosse um destino, não se pode, por outro lado, desejar que o capitalismo seja diferente da sua própria natureza e que se mantenha mesmo nas suas épocas de crise um capitalismo simpático, 'de rosto humano'. A 'vontade política' mais não fez do que dar execução às leis que regem a derradeira fase do capitalismo, numa circunstância em que este esgotou já a sua vida natural e procura desesperadamente manter uma aparência de produção de valor. 

A mundialização neoliberal não é um 'retrocesso' contra o qual fosse necessário defender as aquisições da democracia social. A mundialização é antes o estágio que se segue logicamente ao Estado-providência. Não há abuso no facto de os neoliberais se apresentarem a si mesmos como os representantes do 'progresso' e das 'reformas': eles constituem a melhor expressão do que são o progresso e as reformas na sociedade capitalista.


6.1) Comentários:

Anselm Jappe contesta a visão de Bourdieu de que a mundialização econômica resulta de uma "vontade política" imposta por think tanks neoliberais. Jappe argumenta que essa visão de Bourdieu sugere que a precariedade pode ser evitada se houver uma vontade política diferente. Ele acredita que a mundialização neoliberal não é um retrocesso em relação às conquistas da democracia social, mas sim uma evolução lógica do capitalismo. Para Jappe, os neoliberais não representam um desvio do progresso e das reformas na sociedade capitalista, mas sim a expressão mais autêntica desses princípios dentro desse sistema. Portanto, a crítica de Jappe a Bourdieu é centrada na ideia de que a mundialização neoliberal não é uma questão de "vontade política", mas sim uma manifestação das leis inerentes à fase tardia do capitalismo.

A) A manutenção do capitalismo: Bourdieu não parece estar buscando uma volta de um capitalismo "simpático" ou "de rosto humano". Seu esforço concentra-se em buscar desvelar as complexas dinâmicas do capitalismo contemporâneo, incluindo a mundialização neoliberal. Sua abordagem visa compreender como o capitalismo opera em seus elementos mais naturalizados, seus impactos nas relações sociais e as estratégias das elites econômicas para consolidar seu poder. Bourdieu reconhece que o capitalismo é intrinsecamente desigual e muitas vezes brutal. Portanto, ele convida estudiosos e a sociedade a entender as complexidades das relações de poder subjacentes e a questionar as estruturas que perpetuam a desigualdade e a exploração. Bourdieu crê que qualquer esforço para transformar as violências sociais deve começar com uma compreensão profunda de suas dinâmicas internas. Ele enfatiza a importância de não subestimar a complexidade do sistema e de evitar ilusões sobre mudanças rápidas e completas sem um entendimento aprofundado das forças em jogo. Portanto, Bourdieu está centrado na análise crítica e na revelação das estruturas de poder, em vez de buscar uma humanização simplista do capitalismo.

B) Contexto Histórico: Essas seleções de texto Bourdieu escreveu em uma época em que o neoliberalismo estava ganhando força como uma ideologia econômica dominante, o capitalismo estava passando por mudanças significativas, e suas análises refletiram as impressões dessas mudanças. Sua análise pode ter sido uma resposta a essa realidade e não uma defesa de uma das faces do sistema capitalista. Portanto, é importante considerar o contexto em que suas ideias foram desenvolvidas.

C) Consideração das Críticas Internas: Enquanto Jappe pode ter enfatizado a inevitabilidade do desenvolvimento do capitalismo, sob outro aspecto Bourdieu pode ter buscado dissecar a dinâmica complexa entre estruturas sociais, agência política e as transformações do campo social econômico ao longo do tempo. Bourdieu também fez críticas substanciais às desigualdades e à exploração dentro do sistema capitalista, seja na sua forma fordista como na pós-fordista. Bourdieu não parece sinalizar o capitalismo como uma entidade monolítica, mas sim como um espectro campo de lutas em que diferentes grupos competem por recursos e influência. Nesse sentido, pode ser injusto reduzir sua análise a uma defesa do capitalismo.

D) Aspectos da crítica à Bourdieu: a reinterpretação de citações de Bourdieu, sem fornecer evidências substanciais que sustentem as acusações feitas, argumentos sólidos e exemplos concretos para fundamentar uma crítica significativa pode tender a desconsiderar aspectos importantes das contribuições, minimizar o valor das análises abrangentes que Bourdieu ofereceu sobre desigualdades, poder e estruturas sociais, reduzindo-as a uma visão simplista e unilateral.

E) Capitalismo como Sistema Adaptativo: Bourdieu não acreditava que o capitalismo tivesse uma “vida natural” que pudesse acabar, mas que ele fosse um sistema histórico e social, que mudava de acordo com as lutas e as estratégias dos agentes que o compunham. Ele também reconhecia que o capitalismo se adaptava às resistências e às contestações econômicas, políticas e sociais que ele provocava, mas que isso não implicava em mudanças estruturais que ameaçassem sua base, pois havia interesses e expectativas poderosos que se opunham a tais mudanças.

F) Ilusão naturalista: A perspectiva de Bourdieu em relação à proposta de Jappe de que o capitalismo esgotou sua vida natural pode ser compreendida à luz de sua crítica à "ilusão naturalista", que ele poderia considerar como uma forma de essencialismo, de determinismo ou de reducionismo, que ignora a complexidade e a diversidade das lutas sociais e das estratégias dos agentes. Bourdieu argumenta que as estruturas sociais, incluindo as econômicas, são moldadas por relações de poder, e muitas vezes essas estruturas são naturalizadas, ou seja, são percebidas como inerentes e inevitáveis, quando para Bourdieu são construções sociais, muitas manifestações humanas que nós consideramos naturais, na verdade, são socialmente adquiridas, mantidas e moldadas, ou, para falar como Bourdieu, socialmente construídas. Portanto, a ideia de que o capitalismo chegou ao fim de sua "vida natural" pode ser uma ilusão que obscurece a compreensão das complexidades das relações de poder que sustentam sua dinâmica. Portanto Bourdieu provavelmente enfatizaria a importância de não aceitar acriticamente essa visão de esgotamento "natural" do capitalismo, mas sim de buscar as entranhas as forças sociais e políticas que moldam sua continuidade e transformação, através de rigor epistemológico. Ele argumentaria que qualquer tentativa de compreender e transformar o capitalismo deve levar em consideração as entranhas das complexas relações de poder que permeiam o sistema e não cair na armadilha da naturalização das estruturas sociais. 

G) Necessidade de Análise Multifacetada: Bourdieu argumentaria que uma análise completa das dinâmicas sociais do capitalismo requer a consideração de múltiplos fatores, dentre esses o campo de poder, e todos os campos que estão conectados a ele como o campo social da política e o campo social da economia. Ele não parece reduzir as questões sociais a uma única causa, ainda que política ou econômica, mas sim buscaria compreender como diferentes elementos se entrelaçam e contribuem para a reprodução das estruturas sociais. Nesse sentido Bourdieu não parece chancelar que a mundialização neoliberal é apenas o estágio lógico seguinte ao Estado-providência, essa interpretação parece deixar de abordar determinados fatores. Ao mencionar os think-tanks neoliberais, o objetivo de Bourdieu parece querer desvelar os meandros de como determinadas políticas são promovidas e como elas podem influenciar em diversas as dinâmicas sociais, dentre elas as econômicas. Não parece endossar a visão de que os neoliberais são os únicos agentes de um progresso na sociedade capitalista, mas sim reconhecia a multiplicidade de atores e interesses envolvidos.

H) Entender a vontade política em Bourdieu: A interpretação da vontade política em Bourdieu é intrincada e fundamental para compreender seu pensamento sociológico. Bourdieu não trata a vontade política de maneira isolada, mas a incorpora em seu conceito mais amplo de campo social da política e nas interações entre os diferentes campos em que os agentes sociais estão envolvidos. Aqui estão algumas considerações sobre como interpretar a vontade política em Bourdieu. Campo Social e Lutas de Poder: Bourdieu concebe a sociedade como uma arena de campos sociais, cada um com suas próprias regras e hierarquias. A vontade política é moldada pela posição de um agente dentro desses campos e por seu desejo de acumular capital (seja ele econômico, cultural ou social) dentro desses campos. Portanto, a vontade política está inextricavelmente ligada às lutas de poder nos campos sociais. Capitais e Estratégias: Bourdieu introduz o conceito de "capitais" (como capital cultural, econômico, social e etc.) que os agentes buscam acumular para melhorar sua posição nos campos sociais. A vontade política muitas vezes está relacionada à busca por capital político, que pode ser usado para influenciar as relações de poder em diferentes campos. Habitus Político: Bourdieu argumenta que os agentes sociais internalizam as estruturas e as lógicas dos campos sociais por meio de um processo chamado habitus. O habitus político molda a maneira como os agentes percebem o mundo político, suas possibilidades de ação e suas estratégias políticas. Portanto, a vontade política é moldada pelo habitus político de um agente. Conflito e Estratégia: A vontade política, para Bourdieu, envolve estratégias que os agentes adotam para promover seus interesses dentro dos campos sociais. Essas estratégias podem incluir alianças políticas, ativismo, lobby e outras formas de ação política. A vontade política muitas vezes se manifesta em situações de conflito político nos quais os agentes buscam mudar as regras do jogo nos campos sociais. Reprodução e Mudança Social: Bourdieu também está preocupado com a maneira como as estruturas de poder são reproduzidas através da vontade política, mas também reconhece a possibilidade de mudança social. Através de estratégias políticas bem-sucedidas, os agentes podem alterar as distribuições de poder nos campos sociais e, assim, impactar a estrutura social. Portanto, interpretar a vontade política em Bourdieu requer uma análise cuidadosa das relações de poder, das estratégias dos agentes, da acumulação de capital político e de como o habitus político influencia as práticas políticas. É uma perspectiva sociológica que enfatiza a interconexão entre política, sociedade, economia e poder, e busca compreender como as ações individuais e coletivas moldam e são moldadas por essas dinâmicas.



7) página 247:

Aos olhos destes defensores do Estado social democrático, a «economia» não é a forma total da vida social moderna, mas sim um sector à parte contra cujo imperialismo se poderia mobilizar a arte, a ciência, etc., que pertenceriam a um outro mundo. Mas o que esta escola de pensamento pretende ressuscitar é sobretudo o Estado regulador da época keynesiana. Os escritos de Bourdieu testemunham-no à saciedade. Para ele, «o Estado é uma realidade ambígua. Não podemos contentar-nos em dizer que é um instrumento ao serviço dos dominantes, [...] ele tem uma autonomia tanto maior quanto mais antigo e mais forte for». Ora, isto concede evidentemente uma dignidade particular ao Estado francês, apesar de todas as proclamações em prol de um «novo internacionalismo» ou de um «Estado social europeu», concebido por seu turno como etapa para se alcançar um Estado mundial. Para Bourdieu, o Estado é algo que os dominados podem opor ao capital: «O Estado, em todos os países, é, por um lado, um sinal que as conquistas sociais deixam impresso na realidade,» 


7.1) Impressões:

Resumidamente Jappe critica Bourdieu e outros defensores do Estado social democrático por sua visão de que a "economia" é apenas um setor separado da vida social moderna, que poderia ser confrontado através da mobilização de setores como a arte e a ciência, que pertenceriam a um mundo diferente. Para Jappe, essa visão sugere que esses defensores veem a economia como algo isolado e não reconhecem sua influência sobre todos os aspectos da vida social. Portanto, ele argumenta que essa abordagem ignora a interconexão e a centralidade da economia na sociedade moderna, o que ele vê como uma falha na análise desses teóricos, incluindo Bourdieu. No que tange o Estado, Jappe critica Bourdieu por sua visão ambígua em relação ao Estado e à economia dentro do contexto do Estado social democrático. Ele argumenta que Bourdieu parece ressuscitar o Estado regulador da época keynesiana, que era central na intervenção estatal na economia para garantir o bem-estar social. Segundo Jappe, Bourdieu concede uma dignidade particular ao Estado francês e vê o Estado como algo que os dominados podem opor ao capital, como um meio de proteger as conquistas sociais. 

A) O Estado como campo de lutas: as ideias de Bourdieu sobre o Estado são complexas e multifacetadas. Ele não via o Estado como um fenômeno simples ou unidimensional. Ele acreditava que o Estado era um ator dinâmico e disputado, que era influenciado por uma variedade de fatores, incluindo as lutas sociais e poder simbólico, as conquistas populares e as dinâmicas de acumulação do valor do capitalismo. Nesse sentido o Estado segue como um campo de lutas e conflitos, no qual diferentes atores, incluindo elites econômicas e dominadas, competem por influência e recursos. Ele parecia acreditar que o Estado não era simplesmente um instrumento dos dominantes, mas sim um espaço dinâmico e disputado.

B) Estado e Keynesianismo: Bourdieu discutiu a natureza ambígua do Estado e reconheceu que ele poderia ter uma função conjuntural reguladora em certos aspectos da vida social, no entanto, não parecia estar defendendo uma restauração literal do Estado keynesiano. Ele estava mais interessado em explorar as complexidades da relação entre o Estado, o capital e as estruturas sociais em evolução. Nesse sentido, Bourdieu questionou, por exemplo, a noção de fronteira e a língua oficial como formas de imposição cultural, argumentando que essas construções sociais são usadas para naturalizar as desigualdades sociais econômicas e legitimar o poder das elites dominantes. Bourdieu acreditava que as fronteiras, sejam elas físicas ou simbólicas, são usadas para dividir as pessoas em grupos e hierarquizar esses grupos. Por exemplo, as fronteiras nacionais são usadas para dividir as pessoas em cidadãos e estrangeiros, e as fronteiras sociais são usadas para dividir as pessoas em ricos e pobres, educados e não educados, etc. Essas fronteiras são usadas para justificar a desigualdade, pois sugerem que os grupos dominantes são superiores aos grupos dominados. Bourdieu também argumentava que a língua oficial nacional é uma forma de imposição cultural. Ele acreditava que a língua oficial é usada para promover os valores e a ideologia das elites dominantes. Por exemplo, o francês é a língua oficial da França, e é uma língua que é frequentemente associada à riqueza, educação e poder. Isso significa que as pessoas que não falam francês ou que falam francês com um sotaque não francês são frequentemente vistas como inferiores. Bourdieu acreditava que essas formas de imposição cultural são importantes para entender as desigualdades sociais. Ele argumentava que essas construções sociais são usadas para naturalizar as desigualdades, fazendo com que pareçam inevitáveis ou naturais. Isso torna mais difícil desafiar o status quo e promover a mudança social. 

C) Estado e contexto: Bourdieu argumentava que o Estado é um produto de suas condições históricas e sociais específicas. Portanto, era importante analisar o Estado em seu contexto específico para entender sua função e seu impacto na sociedade. Isso significa que o Estado não é uma entidade imutável ao longo do tempo e do espaço. As características do Estado são moldadas por uma variedade de fatores, incluindo a história, a cultura, a economia e a sociedade de um determinado país ou região. Sem uma compreensão do contexto específico do Estado, é impossível entender por que ele age como age e qual é seu impacto na sociedade. 

D) O estado francês: Bourdieu fez críticas importantes ao Estado francês. Ele argumentava que o Estado francês era um instrumento de reprodução das desigualdades sociais e de manutenção do poder das elites dominantes. Uma das principais críticas de Bourdieu ao Estado francês é que ele é dominado pelas elites econômicas. Ele argumentava que as elites econômicas têm mais poder e recursos do que as classes dominadas, e que elas podem usar esse poder para influenciar as políticas públicas. Por exemplo, Bourdieu argumentava que as elites econômicas são responsáveis pela privatização de empresas públicas, pela redução dos gastos sociais e pela desregulamentação da economia. Outra crítica de Bourdieu ao Estado francês é que ele é usado para reprimir movimentos sociais que ameaçam o status quo. Ele argumentava que o Estado francês tem uma longa história de repressão de movimentos sociais, como os movimentos operários e os movimentos por direitos civis. Por exemplo, Bourdieu argumentava que o Estado francês usou a violência para reprimir protestos contra o regime colonial na Argélia. Bourdieu também criticava o Estado francês por ser um instrumento de dominação cultural. Ele argumentava que o Estado francês usa a educação, a cultura e a mídia para promover os valores e a ideologia das elites dominantes. Por exemplo, Bourdieu argumentava que o sistema educacional francês é elitista e favorece os alunos de famílias ricas. Ele argumentava que o Estado deveria ser mais transparente e responsável, e que deveria ser mais aberto ao controle popular. 

E) Defesa do Estado regulador: Jappe afirma que Bourdieu defende o Estado regulador da época keynesiana, para sustentar sua afirmação ele cita o trecho "O Estado é uma realidade ambígua. Não podemos contentar-nos em dizer que é um instrumento ao serviço dos dominantes, [...] ele tem uma autonomia tanto maior quanto mais antigo e mais forte for»". Jappe parece argumentar que Bourdieu está afirmando que o Estado pode ser usado para promover a igualdade social, mesmo que ele tenha sido criado e seja controlado pelas elites, e para promover o valor capitalista, lei que é exploratória. Bourdieu não parece afirmar explicitamente que o Estado regulador é a melhor forma de Estado. É possível interpretar o trecho citado de forma mais moderada. Bourdieu pode estar simplesmente afirmando que o Estado não é um instrumento totalmente determinista, e que ele pode estrategicamente ser usado para promover a igualdade social, dependendo da circunstância, mesmo que isso seja difícil. Em qualquer caso, é importante notar que Jappe não cita nenhum outro escrito de Bourdieu para sustentar sua afirmação de que o sociólogo defende o Estado regulador, embora tenha dito que os escritos de Bourdieu o comprovam à saciedade. É possível que Jappe tenha outras razões para acreditar nisso, mas ele não as expõe em seu livro. Nesse sentido o pensamento Bourdieu não parece defender o Estado regulador da época keynesiana. 

F) Contexto Histórico: É importante considerar o contexto histórico em que Bourdieu desenvolveu suas ideias. Ele estava escrevendo em uma época em que o Estado de bem-estar social e o modelo keynesiano de regulação econômica eram predominantes na Europa. Suas análises refletiam essa realidade, mas isso não significa que ele estava defendendo incondicionalmente o Estado como uma solução para todos os problemas sociais.

G) Influência da lógica econômica: Bourdieu reconheceu a influência da lógica econômica, especialmente a lógica das trocas simbólicas, em outros campos sociais. Bourdieu argumentava que a economia, juntamente com as trocas simbólicas e culturais, desempenha um papel significativo na estruturação de toda a vida social. Ele explorou a ideia de que o capital simbólico, que está relacionado à cultura, à educação e ao reconhecimento social, pode estar intimamente ligado ao capital econômico. Em outras palavras, Bourdieu via a economia, a cultura e outros campos sociais como interconectados e frequentemente influenciando uns aos outros. Ele reconheceu que a lógica econômica poderia invadir outros campos, influenciando as formas como as pessoas valorizam, produzem e trocam bens simbólicos, como arte, conhecimento e reconhecimento social. Portanto, enquanto Bourdieu enfatizava a importância de considerar uma variedade de campos sociais na análise da vida social moderna, ele também reconhecia que a economia desempenha um papel significativo na configuração desses campos e nas dinâmicas sociais em geral. Sua abordagem buscava compreender como diferentes formas de capital interagem e se relacionam em uma sociedade complexa.

H) Sobre a interdependência entre a economia e outras esferas da vida social: Bourdieu argumenta que a economia não é uma entidade separada, mas sim uma parte de um campo mais amplo de poder e dominação que estrutura e é estruturada pelas diversas relações sociais. A economia está interligada com outras esferas da vida social, como a política, a cultura e a educação. Bourdieu não parecer propor que a arte, a ciência, etc., fossem imunes às influências da economia. Pelo contrário, ele argumentava que essas esferas da vida social também são moldadas pelas forças do capitalismo. Aqui estão alguns exemplos concretos de como a economia e outras esferas da vida social estão interligadas: A economia influencia a política, por exemplo, por meio de financiamento de campanhas políticas e lobbying. A economia influencia a cultura, por exemplo, por meio da publicidade e da mídia. A economia influencia a educação, por exemplo, por meio da privatização de escolas e universidades. Em relação à arte e à ciência, Bourdieu argumentava que essas esferas da vida social também são influenciadas pelas forças do capitalismo. Por exemplo, ele argumentava que a arte pode ser usada para promover os valores do capitalismo, e que a ciência pode ser usada para gerar lucros para empresas privadas. 

I) Obras para consulta:  Para uma visão mais aprofundada das ideias de Bourdieu nesse ponto, você pode consultar obras como  "A Distinção: Crítica Social do Julgamento"; "Esboço de uma Teoria da Prática"; "Razões Práticas: Sobre a Teoria da Ação"; "As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário";  "O Poder Simbólico"; "A economia das trocas simbólicas"; "Sobre o Estado; "O Estado no mundo social"; "estruturas sociais da economia"; "O campo econômico".  Estas são apenas algumas das obras de Bourdieu que exploram esses temas em maior detalhe. Cada uma delas oferece uma perspectiva única sobre as estruturas de poder, a análise multifacetada da sociedade, a necessidade de reformas e a crítica às lógicas capitalistas.



8) página 247: 

A existência do Estado seria algo inaceitável por parte do capital. Segundo Bourdieu, os neoliberais não desejam nem Estados nacionais, que veem como obstáculos ao livre funcionamento da economia, nem um Estado supranacional. Portanto, Bourdieu argumenta que é necessário defender o Estado, que ele acredita ter sido traído pela "grande nobreza de Estado." Ele enfatiza que, na situação atual, as lutas críticas dos intelectuais, sindicatos e associações devem se voltar prioritariamente contra o declínio do Estado. Bourdieu acredita que os grupos dominados têm interesse em defender o Estado. Bourdieu lamenta o fato de que o Estado contemporâneo não exige mais dos cidadãos "devoção, entusiasmo." Ele atribui essa mudança aos socialistas, acusando-os de terem "levado até o fim a destruição da crença no Estado." No entanto, ele expressa o desejo de "descobrir uma verdadeira política," mesmo nos termos mais tradicionais, desde que essa política não faça concessões às ideias anti-institucionais. Bourdieu até mesmo expressa o desejo de ver o retorno de líderes carismáticos honestos, lamentando a escassez de "personalidades inspiradas" nos partidos e a raridade de "grandes tribunos" e políticos capazes de compreender e explicar as expectativas e reivindicações dos eleitores. 


8.1) Impressões

Resumidamente, Anselm Jappe critica Bourdieu por sua defesa do Estado, argumentando que Bourdieu está equivocado ao acreditar que o Estado pode ser usado para promover a igualdade social. Segundo Jappe, o Estado é intrinsecamente ligado ao capitalismo e sempre servirá para proteger os interesses das elites dominantes. Ele sustenta que o capitalismo é inerentemente desigual e que o Estado é uma ferramenta fundamental para garantir a propriedade privada, o lucro e a competição, elementos essenciais para a manutenção do sistema. Além disso, Jappe afirma que o Estado é usado para reprimir movimentos sociais que desafiam o capitalismo e controlar a classe trabalhadora. Portanto, ele conclui que a visão de Bourdieu sobre o Estado como um meio de promover a igualdade social é ilusória, uma vez que o Estado é fundamentalmente comprometido com a preservação do capitalismo e dos interesses das elites.

A) Estado e poder: Bourdieu argumenta que o estado, dentre outras características, é uma instituição que foi construída pelos detentores de poder para servir aos seus próprios interesses. Ele afirma que o estado é um instrumento de reprodução das desigualdades sociais, pois funciona para garantir que os privilégios da elite sejam mantidos e transmitidos para as gerações futuras. Bourdieu baseia sua análise na teoria do capital social. O capital social é um tipo de capital que deriva das relações sociais. Ele pode ser acumulado através de interações sociais, como amizades, networking e parentesco. O capital social pode ser usado para obter benefícios, como cargos, educação e acesso a recursos. Bourdieu argumenta que o estado é um campo social, ou seja, um espaço de lutas pelo poder. O campo social do estado é dominado pela elite, que detém o capital social necessário para ocupar posições de poder. A elite usa seu capital social para garantir que seus interesses sejam atendidos pelo estado. Bourdieu fornece vários exemplos de como o estado funciona para reproduzir as desigualdades sociais. Por exemplo, ele argumenta que o estado controla o sistema educacional, que é usado para perpetuar as desigualdades sociais. O sistema educacional é organizado de forma a favorecer os filhos da elite, que têm acesso a recursos e oportunidades que não estão disponíveis para a maioria das pessoas. Bourdieu também argumenta que o estado busca controlar a economia para certos tipos de interesse, que é outra fonte de desigualdades sociais. O estado usa suas políticas econômicas para favorecer os interesses da elite, como por exemplo, através de subsídios e incentivos fiscais. Bourdieu conclui que o estado é uma instituição que está em conflito com o interesse público. O estado funciona para garantir que os privilégios da elite sejam mantidos, mesmo que isso signifique que os interesses da maioria da população sejam prejudicados. A visão de Bourdieu sobre o estado é uma crítica importante da instituição. Ele argumenta que o estado não é uma instituição neutra, mas sim um instrumento de reprodução das desigualdades sociais.

B) Em Sobre o Estado: Em um livro de Pierre Bourdieu chamado “Sobre o Estado”, compilação de cursos ministrados por Bourdieu no Collège de France entre 1989 e 1992, é apresentada uma visão particular do Estado como reconhecido detentor do monopólio da violência física e simbólica, o “banco central dos capitais simbólicos”. O autor sustenta a tese da constituição progressiva de um conjunto de campos - jurídico, administrativo, intelectual, parlamentar -, cada um como espaço de lutas específicas, uns competindo com os outros. O Estado é um ator social complexo que não pode ser reduzido a uma instituição ou a um conjunto de instituições. O Estado sendo um conjunto de campos, cada um com suas próprias regras e interesses. Ele argumenta que o Estado é a fonte do capital simbólico, que é um tipo de poder que é baseado no reconhecimento e na legitimidade. O Estado concede capital simbólico a indivíduos e grupos, o que lhes dá poder e influência na sociedade.

C) Estado, devoção e entusiasmo: Bourdieu não parece estar simplesmente lamentando a falta de devoção e entusiasmo dos cidadãos em relação ao Estado, mas sim apontando uma mudança nas relações entre o Estado e a sociedade. Ele está analisando como as estruturas sociais, econômicas e políticas influenciam a relação entre os cidadãos e o Estado, chamando a atenção para a transformação das relações de poder e das estruturas sociais que levaram a uma descrença generalizada nas instituições. Quanto ao desejo de Bourdieu de "descobrir uma verdadeira política", é importante destacar que ele busca uma política que não se limite às formas institucionalizadas e burocráticas de ação política, mas que se baseie na mobilização e na participação dos agentes sociais, especialmente dos mais excluídos e dominados. Ele não parece estar se referindo a um retorno a líderes carismáticos no sentido tradicional, mas sim a uma compreensão mais profunda das expectativas e reivindicações dos eleitores, longe de uma visão simplista e populista da política.

D) A similaridade em outra obra: Jappe escreveu um livro chamado “Crédito à morte: a decomposição do capitalismo e suas críticas”, no qual ele critica a teoria de Bourdieu sobre o Estado nesses mesmos termos. No capítulo 4 desse livro, intitulado “A ilusão do Estado”, Jappe cita os trechos mencionados neste tópico, mas ele os atribui a diferentes fontes de Bourdieu. O trecho sobre a existência do Estado ser algo inaceitável por parte do capital é citado por Jappe como sendo de um artigo de Bourdieu chamado “A essência do neoliberalismo”, publicado em 1998 na revista Le Monde Diplomatique. Jappe cita esse trecho na página 131 de seu livro 1. O trecho sobre a grande nobreza de Estado é citado por Jappe como sendo de um livro de Bourdieu chamado “O poder simbólico”, publicado em 1989 pela editora Bertrand Brasil. Jappe cita esse trecho na página 132 de seu livro. O trecho sobre a destruição da crença no Estado é citado por Jappe como sendo de um livro de Bourdieu chamado “Contrafogos: táticas para enfrentar a invasão neoliberal” 4, publicado em 1998 pela editora Jorge Zahar. Jappe cita esse trecho na página 133 de seu livro. O trecho sobre as personalidades inspiradas é citado por Jappe como sendo de uma entrevista de Bourdieu chamada “A ilusão biográfica”, publicada em 1986 na revista Actes de la recherche en sciences sociales. Jappe cita esse trecho na página 134 de seu livro. Portanto, parece que Jappe usou diferentes fontes de Bourdieu para criticar sua teoria sobre o Estado, mas ele não indica ter citado com precisão em seu livro. Jappe parece ter usado as palavras de Bourdieu fora de contexto e sem indicar as fontes originais. Por exemplo, quando ele cita Bourdieu dizendo que os neoliberais não desejam nem Estados nacionais, nem um Estado supranacional, ele não menciona que Bourdieu estava se referindo especificamente à situação da União Europeia e à necessidade de uma política social comum. Ou quando ele cita Bourdieu dizendo que é necessário defender o Estado, ele não explica que Bourdieu estava abordando um Estado democrático e social para o contexto da década de 1990, que garantisse os direitos dos trabalhadores e dos cidadãos, em contraposição a um Estado autoritário ou neoliberal. Além disso, Jappe parece ter misturado citações de diferentes obras de Bourdieu, sem respeitar a ordem cronológica ou a coerência temática. Por exemplo, ele cita uma entrevista de 1986, onde Bourdieu fala sobre sua própria trajetória intelectual e sobre o papel dos intelectuais na sociedade, como se fosse uma fonte para criticar sua teoria sobre o Estado, que ele desenvolveu mais tarde em outros textos. Assim, Jappe pode ter criado uma imagem distorcida e simplista do pensamento de Bourdieu, ignorando sua complexidade e sua evolução.

E) Dinâmicas do Campo de Poder: Na disputa por reconhecimento dentro do dentro do campo social de poder, o Estado não se tornou apenas uma ferramenta das elites econômicas, mas também incorpora  espaços onde diferentes grupos e atores lutam por influência e poder. No entanto, essa luta não é equilibrada, pois as elites econômicas possuem mais capital e recursos do que os demais grupos e atores, e podem usar seu poder para influenciar as decisões e as ações do Estado em seu favor. Se a classe trabalhadora abandonasse a defesa do Estado sem outra estratégia baseada em experiências práticas, cuidados científicos, outra via bem organizada, isso poderia deixar o campo de poder ainda mais inclinado em direção às elites econômicas, uma vez que a oposição organizada poderia estar ainda mais enfraquecida. Portanto, a participação da classe trabalhadora na política estatal pode ser vista como uma estratégia circunstancial para influenciar as políticas públicas em seu benefício. Porém, essa estratégia não é suficiente para garantir a transformação das relações de poder e das estruturas sociais que sustentam o capitalismo. É preciso também desenvolver outras formas de ação política, que se baseiem na mobilização e na participação dos agentes sociais, especialmente dos mais excluídos e dominados, e que se orientem por um projeto coletivo e emancipatório, que promova a justiça social e a democracia participativa.

F) Naturalização e Habitus: as estruturas de poder muitas vezes são naturalizadas na sociedade, tornando-se parte do habitus das pessoas. Bourdieu parece sugerir que a luta pela transformação social requer não apenas a rejeição do Estado, mas também a desconstrução das crenças e práticas arraigadas que perpetuam a desigualdade. A simples eliminação do Estado sem uma transformação mais profunda das estruturas sociais pode não resultar nessa emancipação da classe trabalhadora. A luta pela emancipação da classe trabalhadora deve envolver uma conscientização e uma crítica das estruturas de poder e dominação presentes não apenas no Estado, mas em todas as esferas da sociedade. Nesse sentido, Bourdieu destaca a importância de movimentos sociais e coletivos que buscam a transformação social, não apenas como uma luta política, mas também como uma luta cultural. Essa transformação cultural envolve questionar as normas, valores e práticas que perpetuam a desigualdade, e construir alternativas que promovam a igualdade, a justiça e a emancipação. Portanto, Bourdieu sugere que a luta pela transformação social vai além da rejeição do Estado, e requer uma desconstrução das estruturas sociais arraigadas e uma transformação cultural que desafie as crenças e práticas que perpetuam a desigualdade. Somente através dessa abordagem mais ampla e abrangente é possível buscar uma verdadeira emancipação da classe trabalhadora e a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

G) Estado e fetiche político: Bourdieu argumenta que o Estado é reconhecido com o poder de organizar a vida social através da imposição de estruturas cognitivas e consensos sobre o sentido do mundo. Para Bourdieu, investigar a gênese do Estado é, na verdade, investigar a formação de um setor do campo de poder ou metacampo. Esse metacampo é chamado assim porque condiciona o funcionamento de outros campos e influencia a posição que cada um deles ocupa em relação aos outros. Nesse contexto, Bourdieu aborda a transição do Estado dinástico para o Estado moderno e destaca o papel dos juristas na formulação do desinteresse e da universalização, princípios e valores centrais associados ao Estado. Bourdieu utiliza uma série de recursos intelectuais e conceitos em sua análise, incluindo a reflexividade, a comparação, o uso da história, a construção de modelos analíticos e as noções de habitus, campo e dominação simbólica. Bourdieu considera o Estado como um fetiche político, uma representação coletiva que é essencial para sua existência. No entanto, ele também vê essa representação dominante do Estado como um de seus efeitos. O Estado, de acordo com Bourdieu, também é o produto de uma crença coletiva, influenciada por teorias políticas e jurídicas. Portanto, analisar como essa representação é produzida e fundamentada é uma parte fundamental da pesquisa de Bourdieu.



9) Página 248:

Bourdieu não reconhece na submissão da política à economia um resultado do fato - como já mencionado anteriormente - da estrutural falta de um meio autônomo de intervenção por parte do Estado. Ele a vê como uma consequência de uma cegueira ideológica. Indigna-se ao observar 'todos esses altos representantes do Estado que rebaixam sua dignidade estatutária, prodigalizando vénias diante dos patrões das multinacionais'. Ele assegura com frequência que a margem de manobra dos dirigentes é muito menos reduzida do que se pretende fazer crer.


9.1) Impressões:

Resumidamente, Jappe critica Bourdieu por não reconhecer que a submissão da política à economia é um resultado estrutural do capitalismo, que reduz o Estado a um instrumento das classes dominantes. Jappe argumenta que Bourdieu ignora a crise do valor e a tendência à decomposição do capitalismo, que tornam impossível qualquer intervenção estatal autônoma ou reformista. Jappe também acusa Bourdieu de ter uma visão idealista e moralista da política, que se indigna com a corrupção e a subserviência dos representantes do Estado, mas não questiona as bases materiais da sua existência. xxx 

A) Estrutura economica: Bourdieu não sinaliza negar a existência de uma estrutura econômica que condiciona a política, mas ele também não reduz a política a um mero reflexo da economia. Ao invés disso propõe uma análise contextualizada relacional e histórica das interações intra e extra campos sociais político e econômico, que são espaços de luta e de disputa por recursos escassos, como o poder, o prestígio e o reconhecimento. Ele enfatiza uma abordagem que cuide do fato de que os agentes sociais têm diferentes graus de capital (econômico, cultural, social ou simbólico) que lhes permitem ocupar posições distintas nos campos e exercer diferentes formas de dominação ou resistência. Ele argumentaria que as dinâmicas de poder podem variar significativamente de acordo com o contexto cultural, político e econômico.

B) Crise e globalização: Bourdieu não parece ignorar a crise do capitalismo nem a sua tendência à globalização, em suas análises das contingências sociais ele também não as impõe como processos necessariamente inevitáveis ou irreversíveis. Ele defende a necessidade de uma intervenção política coletiva e democrática, que possa construir uma contra-hegemonia cultural e simbólica capaz de desafiar os interesses das classes dominantes e das multinacionais. Ele propõe uma sociologia crítica e reflexiva, considera que a sociologia tem um papel de revelar as relações de poder, as formas de dominação e as estratégias dos agentes sociais. A sociologia não pode se confundir com a política, nem se tornar um instrumento de militância ou de propaganda. Ele defende a autonomia da sociologia como um campo científico, que deve se pautar pelos critérios de rigor, de objetividade e de honestidade intelectual 

C) Ênfase na Complexidade das Estruturas: Bourdieu realmente criticou a submissão da política à economia, argumentando que muitos altos representantes do Estado se curvavam aos interesses das multinacionais. O contexto da crítica sugere que Bourdieu também analisou as estruturas de poder que permitiam essa submissão, incluindo as relações de classe e vários mecanismos que favoreciam as elites econômicas. Parece que a relação entre política e economia em Bourdieu é muito mais complexa do que a perspectiva crítica apresentada sugere. Ele explorou como as estruturas de poder são moldadas não apenas pela ideologia, mas também por diversas outras variáveis, como a cultura, a educação, as práticas sociais e as estratégias de domínio dentro do campo de poder. Em sua visão, a submissão da política à economia não é apenas uma questão de "cegueira ideológica", mas uma interação complexa dessas forças sociais. Bourdieu também enfatizaria a importância das estruturas simbólicas na reprodução do poder. As elites econômicas não apenas exercem poder por meio de pressões diretas sobre os políticos, mas também influenciam as mentalidades e as representações simbólicas na sociedade. Isso pode incluir a construção de ideologias que obtém êxito em justificar a submissão da política à economia. Bourdieu introduz a noção de "capital" em sua análise social. Ele argumentaria que as elites econômicas detêm diferentes tipos de capital (econômico, cultural, social, jurídico, político, publicitário) que são usados para consolidar o poder. Portanto, a análise das relações de poder deve levar em consideração como diferentes formas de capital interagem e influenciam as decisões políticas.

D) Agência e Autonomia: Bourdieu reconhece que os agentes sociais, incluindo políticos, têm certa autonomia e margem de manobra dentro das estruturas de poder. Ele argumenta que a análise deve considerar como os atores individuais e coletivos tem espaço ou não e o quanto para resistir ou subverter as relações de poder dominantes. No entanto, ele também mostra como os dirigentes políticos tendem a estar submetidos às pressões e às imposições dos grupos econômicos dominantes, que possuem um capital econômico elevado e uma ideologia econômica dominante, que se apresenta como uma verdade científica e natural. Bourdieu não adota uma visão determinista e unidimensional da estrutura social. Ele reconhece a existência de classes sociais, mas ele as concebe como grupos construídos pela lógica dos campos e não como entidades pré-definidas e homogêneas. Ele também destaca a pluralidade e a diversidade das formas de dominação e de resistência, que não se limitam à dimensão econômica, mas envolvem também as dimensões cultural, simbólica e política. Bourdieu não propõe um projeto político específico, nem se alinha a uma corrente ideológica ou partidária. Ele se define como um intelectual crítico, que busca desvelar as formas de violência simbólica e de reprodução social, mas que não pretende oferecer soluções prontas ou utópicas. Ele defende a autonomia do campo científico e a necessidade de uma sociologia reflexiva, que questione os seus próprios pressupostos e interesses. Ele também se engaja em algumas causas sociais, como a defesa dos direitos dos imigrantes, dos trabalhadores precarizados e dos estudantes excluídos, mas ele não se coloca como um líder ou um porta-voz desses movimentos.

E) Ampliação de análise e crítica: a crítica boudieusiana poderia ser direcionada para ampliar a análise e considerar a complexidade das relações entre política e economia, enfatizando as estruturas simbólicas, os campos de poder, a agência dos atores sociais e a contextualização histórica. Isso ajudaria a fornecer uma compreensão mais completa das dinâmicas de poder na sociedade. Portanto, a crítica parece simplificar a posição de Bourdieu, enfocando apenas um aspecto de sua análise e não considerando o quadro completo. Bourdieu certamente argumentou que a margem de manobra dos dirigentes não era tão reduzida quanto se pretendia fazer crer, mas essa afirmação era parte de uma análise mais ampla das dinâmicas sociais e políticas. 

F) Crises: Bourdieu revela uma multiplicidade de fatores que podem levar à evolução, mudança e mesmo crises dentro de um campo. Ele analisa sociologicamente como a inovação estratégica dos dominantes em um campo, a entrada de novos agentes com habitus formados em contextos diferentes, e as lutas internas podem desencadear crises. As crises são momentos de ruptura e de redefinição das regras do jogo, que podem favorecer ou prejudicar certos agentes, dependendo de seu capital econômico, social e simbólico. No entanto, as crises não são homogêneas nem previsíveis, mas dependem das características e das consequências de cada crise. Em situações de crise, as regras do jogo podem mudar, alterando o valor e a distribuição dos diferentes tipos de capital. Isso pode gerar oportunidades ou ameaças para os agentes, dependendo de seu capital acumulado e de sua capacidade de adaptação às novas condições. Porém, isso também pode gerar conflitos ou resistências por parte dos agentes, dependendo de seu habitus e de sua posição no campo. Por exemplo, em uma crise financeira, os agentes com mais capital econômico podem aproveitar a queda dos preços para aumentar seus ativos, enquanto os agentes com menos capital econômico podem perder seus empregos ou suas poupanças. Mas, em uma crise financeira, os agentes com mais capital econômico também podem ser responsabilizados ou penalizados pelos seus atos, enquanto os agentes com menos capital econômico também podem se organizar ou se rebelar contra o sistema. Em uma crise política, os agentes com mais capital social podem mobilizar seus aliados para defender seus interesses, enquanto os agentes com menos capital social podem ficar isolados ou marginalizados. Mas, em uma crise política, os agentes com mais capital social também podem enfrentar a oposição ou a resistência de outros agentes, enquanto os agentes com menos capital social também podem buscar novas formas de participação ou de representação. Em uma crise cultural, os agentes com mais capital simbólico podem impor sua visão do mundo como legítima, enquanto os agentes com menos capital simbólico podem ser desqualificados ou ignorados. Mas, em uma crise cultural, os agentes com mais capital simbólico também podem ser contestados ou criticados por outros agentes, enquanto os agentes com menos capital simbólico também podem criar novas expressões ou significados. Portanto, as crises são momentos decisivos que afetam a estrutura e a dinâmica do campo econômico e que exigem dos agentes uma resposta estratégica adequada à sua situação. Mas, as crises também são momentos de incerteza e de indeterminação que desafiam a ordem e a lógica do campo econômico e que abrem espaço para a criatividade e a transformação dos agentes.

G) Gênese Estatal: Bourdieu se concentra na análise concreta de medidas e ações do Estado para compreender os fundamentos de sua autoridade e os mecanismos que promovem o reconhecimento dessa autoridade. Em vez de recorrer a formulações abstratas, Bourdieu analisa medidas e ações específicas do Estado. Ele usa o exemplo de uma comissão, que é uma invenção organizacional, para ilustrar o processo de gênese da lógica estatal. Estudar o funcionamento dessa comissão ajuda a elucidar como os agentes, atos e efeitos do Estado adquirem seu caráter oficial, público e universal. Bourdieu argumenta que a chave para decifrar a lógica de constituição do poder simbólico do Estado está na "crença organizada" e na "confiança organizada". Isso se assemelha às formulações de Marcel Mauss sobre a teoria da magia. Bourdieu explica que um ato de Estado é um "ato coletivo" realizado por indivíduos reconhecidos como oficiais. Eles têm a capacidade de utilizar um recurso simbólico universal que consiste em mobilizar algo que se supõe ser aceito por todo o grupo. Através da oficialização, agentes com legitimidade transformam um ponto de vista particular, como uma gramática, um calendário, uma manifestação cultural, um interesse, em regras que são impostas a toda a sociedade. Portanto, examinar os mecanismos que sustentam a oficialização é uma maneira de tornar compreensível como um ponto de vista particular é estabelecido como o ponto de vista legítimo. O efeito de universalização é, em essência, um efeito do Estado, e Bourdieu enfatiza como o Estado desempenha um papel fundamental na criação de consensos e normas que são percebidos como universais.



10) Página 248:

Naturalmente, Bourdieu tem reservas em relação ao Estado, tal como este se encontra hoje em dia. Contudo, é preciso recordar-lhe que não é suficiente dizer-se que «este movimento social deve apoiar-se no Estado, mas mudando o Estado»21: o problema não reside apenas nos conteúdos concretos do Estado, mas na própria forma Estado. 


10.1) Impressões:


A) Compreensão do Estado: A afirmação de que, para Pierre Bourdieu, "o movimento social deve apoiar-se no Estado, mas mudando o Estado" parece melhor compreendida quando relacionada à visão mais complexa e contextualizada de Bourdieu sobre o Estado, suas formas sociais e sua relação com a sociedade. Ele não compreende o Estado como uma entidade monolítica e que pode ser "desformatada" de maneira simples. Em vez disso, ele analisa as múltiplas dimensões das formas sociais do Estado e como ele está enraizado nas estruturas sociais, subjetivas, simbólicas, culturais e econômicas mais amplas. Para Bourdieu, a transformação efetiva do Estado e suas formas sociais requer uma compreensão profunda dessas complexidades. 

B) Características do Estado: Bourdieu reconhece a autonomia relativa do Estado em relação ao capital e às elites dominantes. Isso significa que o Estado não é apenas um instrumento das classes dominantes, mas precisa ser compreendido partindo de sua própria dinâmica, disputas, concorrências, alianças e capacidade de tomar decisões que não necessariamente se alinham estritamente com os interesses do capital. Portanto, a simples ideia de mudar o conteúdo do Estado tende a não levar em consideração a proposta de pensar sobre os espaços dessa autonomia relativa e a complexidade das forças que atuam sobre ele. Ele considera o Estado também como um produto histórico e social, que resulta de um longo processo de acumulação de capital simbólico e de monopolização da violência reconhecida como legítima. Para Bourdieu, o Estado é uma forma social de poder que se impõe como universal e neutro, mas que, através de seu método científico, fica claro seu caráter arbitrário e parcial, pois expressa os interesses da classe dominante. O Estado não é apenas um conjunto de instituições e agentes, mas também um campo de lutas pelo controle dos recursos escassos e pela definição da ordem legítima. O Estado é, portanto, uma construção social que depende da crença dos agentes na sua autoridade e na sua capacidade de regular a vida coletiva. Bourdieu propõe uma análise sociológica do Estado e suas formas sociais que busca desvendar os mecanismos de reprodução e transformação dessa forma de dominação simbólica

C) Preconceitos e Pré-Noções: Bourdieu enfatiza a importância de estar atento às pre-noções, preconceitos e à intelectualidade espontânea ao estudar o Estado. Ele reconhece que as estruturas de pensamento das quais dispomos são moldadas pela sociedade, incluindo o próprio Estado, e que isso pode criar viés em nossa análise. Bourdieu argumenta que o Estado é um objeto de estudo particularmente desafiador, e uma das razões para isso é que estamos imersos em suas estruturas e ideologias de forma naturalizada, sem perceber. Ele sugere que a facilidade com que as pessoas dizem coisas simplistas sobre o Estado se deve à sua presença constante em nossas vidas.

D) Definições Provisórias: Bourdieu ressalta que suas definições são provisórias e sujeitas a revisão à medida que seu trabalho progride. Ele reconhece a complexidade do estudo do Estado e a necessidade de uma compreensão mais aprofundada

E) As disputas dentro do campo social: Bourdieu destaca a necessidade de uma compreensão mais detalhada do papel das reconhecidas elites culturais, intelectuais e educacionais na reprodução das estruturas de poder, dentre elas as estatais. Essas reconhecidas elites desempenham um papel importante na legitimação do Estado e na produção de discursos que moldam as políticas públicas. Para Bourdieu, qualquer esforço para desformatar o Estado deve levar em consideração como essas elites são envolvidas nas práticas estatais e na manutenção das hierarquias sociais. Bourdieu também destaca a necessidade de uma compreensão mais detalhada dos grupos subalternos e como podem ou não resistir e contestar as estruturas de poder, inclusive estatais. Ele acredita que entender essas estratégias de resistência é fundamental para qualquer esforço de transformação social. Portanto, sua abordagem vai além de simplesmente "mudar o Estado" e inclui uma análise das táticas e estratégias usadas pelos grupos dominados.

F) Ênfase na exploração: Em relação à certas tradições marxistas, Bourdieu critica a redução da análise da função de coerção exercida pelo Estado em favor das classes dominantes e à acumulação do valor, quando agem em detrimento da reflexão sobre as condições de sua própria legitimidade social e estrutura simbólica. Ele mantém a ideia de que o Estado contribui para a reprodução das condições de acumulação de capital, mas ele atribui isso também ao poder do Estado de incorporar esquemas reconhecidamente lógicos de percepção e consensos sobre o sentido do mundo. Portanto, Bourdieu vê a submissão ao Estado como resultado não apenas da coerção física, mas também da crença em sua autoridade.

G) Incorporação de Relações de Poder: Bourdieu compreende o Estado como incorporando e refletindo relações de poder que são profundamente enraizadas na sociedade. Essas relações de poder não podem ser simplesmente desfeitas, pois são parte integrante da estrutura social. Transformar o Estado exigiria uma compreensão profunda dessas relações e como elas moldam o Estado. Nesse sentido o Estado incorpora valores, normas e ideologias que são amplamente aceitas na sociedade. Transformar o Estado significaria lidar com essas normas e valores enraizados.

H) Formas sociais e poder simbólico: há conexões entre as ideias expressas por Jappe sobre formas sociais nas sociedades capitalistas e os conceitos bourdieusianos de poder simbólico, campo social e a influência das estruturas sociais nas práticas sociais. Ambos exploram como as construções sociais afetam as interações humanas e moldam a realidade social. Pierre Bourdieu argumenta que o poder não é apenas exercido através de meios econômicos ou políticos, mas também por meio de símbolos, discursos, rituais e representações. Isso se relaciona com as formas sociais que influenciam as interações sociais. As formas sociais, como o valor de troca, o dinheiro e a mercadoria, são também construções sociais que moldam a maneira como os indivíduos percebem e se sujeitam ao mundo. Bourdieu também desenvolveu a ideia de campos sociais, que são espaços onde os agentes sociais competem pelo poder e recursos. As formas sociais, como a forma-mercadoria e a forma-valor, têm um papel fundamental na estruturação dos campos sociais. Por exemplo, no campo econômico, as relações sociais são influenciadas pela lógica da forma-mercadoria, onde tudo é tratado como uma mercadoria e, portanto, está sujeito a trocas e valorizações.

I) Forma Estado e poder simbólico: Tanto os estudos da forma Estado em Jappe quanto Bourdieu reconhecem a estreita ligação entre a forma econômica do capitalismo (como o valor e a mercadoria) e a forma política estatal. Porém, eles não negam que essas formas possam ser entendidas como uma derivação lógica ou uma correspondência puramente funcional entre instituições econômicas e políticas. Pelo contrário, eles afirmam que há uma relação de homologia ou isomorfismo entre essas formas, ou seja, uma correspondência estrutural entre as lógicas do capital e do Estado. Eles também não enfatizam que a relação é moldada exclusicamente por conflitos e contradições, mas sim que há uma tendência à harmonização e à integração entre essas formas, pois elas compartilham uma mesma lógica estrutural e histórica, que é a lógica do capital. Essa lógica determina os interesses e as demandas que o Estado deve atender e sua dependência do mercado, assim como as categorias de pensamento e de ação que o Estado produz e impõe aos agentes sociais. Portanto, Bourdieu vê a submissão ao Estado como resultado não apenas da coerção física, mas também da crença em sua autoridade.



11) Página 249:

Quando Bourdieu julga divisar a particularidade negativa da mundialização neoliberal no facto de esta, «diferentemente do que sucedeu com a que noutros tempos ocorreu na Europa ao nível do Estado nacional, ocorrer agora sem Estado»22, negligencia o que foi o papel do Estado durante séculos: obrigar as populações, a ferro e fogo, à «integração no mercado». Deveria ser suficiente recordar que o Estado continua a ser desde as infraestruturas até à repressão, o garante indispensável da valorização capitalista. Para além do mais, o reformista estatista não é sequer «realista»: a tentativa contraditória de planificar e regular por intermédio do Estado aquilo que nos seus próprios fundamentos é algo de cego e inconsciente - a economia mercantil - levou já à desarticulação do socialismo nos países de Leste. Se um governo nacional tomasse verdadeiramente medidas radicais contra o grande capital, seria punido pela retirada imediata dos capitais internacionais e por uma derrocada das Bolsas e dos investimentos. O que não seria necessariamente uma catástrofe, se se quiser gerir os recursos de maneira diferente. Mas seria efetivamente uma catástrofe no quadro da economia de mercado que estes reformistas não põem em causa.


11.1) Comentários:

A crítica de Jappe a Bourdieu, neste trecho, se concentra na percepção de Bourdieu de que a mundialização neoliberal estaria ocorrendo "sem Estado". Jappe argumenta que Bourdieu negligencia o papel histórico do Estado como um garante essencial da valorização capitalista. Ele destaca que, ao longo da história, o Estado desempenhou um papel fundamental na integração das populações no mercado, tanto através da construção de infraestruturas quanto da repressão. Jappe também critica o que ele chama de "reformismo estatista", que é a tentativa de usar o Estado para planejar e regular a economia mercantil, algo que ele vê como irrealista e contraditório, pois a economia mercantil é inerentemente cego e inconsciente em seus fundamentos. Ele argumenta que tentativas radicais de intervenção estatal contra o grande capital levariam à retirada imediata de capitais internacionais e a uma crise nos mercados financeiros.

A) Ênfase na análise empírica: Bourdieu valorizava uma abordagem empírica e baseada em evidências para entender as estruturas sociais e as formas de poder. Ele estava mais interessado em analisar como o poder e a dominação operam nas estruturas sociais do que em teorizar sobre uma ruptura radical afastada de uma prática objetiva. Bourdieu não é um teórico determinista ou fatalista, mas sim um crítico engajado que propõe uma sociologia reflexiva e prática, capaz de desvelar as ilusões e as estratégias dos agentes sociais, e de estimular a resistência e a transformação social.

B) Abordagem Economicista: A análise de Bourdieu sobre o Estado não se limita ao campo econômico. Ele também examina as relações entre o Estado e outros campos sociais, como o campo político, o campo jurídico, o campo educacional, o campo religioso, etc. Ele mostra como o Estado contribui para a produção e a reprodução das hierarquias sociais e das formas de dominação simbólica em diferentes domínios da vida social. Bourdieu aponta que quando alguma análise prioriza pensar o Estado exclusivamente como um garante do capital, surge uma tendência de desconsiderar aspectos da capilaridade de seu poder em nuances políticas, subjetivas, sociais e culturais que são igualmente importantes na sua compreensão. Ignorar a complexidade das motivações estatais pode levar a uma visão unidimensional do fenômeno. Os Estados e suas ações muitas vezes englobam uma variedade de forças, interesses e influências, incluindo pressões políticas, subjetivas, sociais, simbólicas e culturais. Quando assume que todos os Estados são iguais e que eles desempenham o mesmo papel na promoção do capitalismo, existe uma tendência de ignorar que existem muitas formas diferentes de Estado, com diferentes graus de autonomia do capital. A relação entre todos mecanismos abrangidos pelo Estado e o capitalismo varia significativamente ao longo do tempo e em diferentes contextos geográficos. Reduzir essa relação a uma fórmula simples tende a não levar em conta essas forças e variações. Nem todas as abordagens são iguais, e a eficácia da intervenção estatal pode variar dependendo de como é implementada e gerenciada. Ignorar essa diversidade tende a ser uma simplificação excessiva.

C) Reconhecimento da Coerção Estatal: Bourdieu não parece negar o papel do Estado na coerção e na integração das populações no mercado, também não nega a existência da violência econômica nesses processos de acumulação, mas sim procura revelar as formas sutis e invisíveis de violência simbólica que legitimam e reproduzem a dominação econômica. Ele critica a visão funcionalista do Estado como um integrador social e um garantidor da ordem pública, e também questiona a noção de mercado como uma esfera autônoma e racional. Então propõe uma abordagem relacional e histórica que leva em conta as lutas e os interesses dos agentes envolvidos na construção do campo econômico e do Estado. Bourdieu reconhece que o Estado é um agente histórico que garante a construção do campo econômico e das relações de poder entre os agentes sociais, incluindo sua dinâmica de acumulação. Para Bourdieu, o campo econômico é um espaço social estruturado por relações de força e de sentido, onde os agentes disputam recursos escassos e valorizados, como o capital econômico, cultural, social e simbólico. O Estado, nesse contexto, é um agente privilegiado que dispõe de um capital específico: o capital burocrático, que lhe confere o poder de regular e sancionar as práticas econômicas, de definir as regras do jogo, de impor as categorias de percepção e de avaliação do valor econômico, e de distribuir os recursos públicos. Assim, o Estado participa ativamente da produção e da reprodução do campo econômico, bem como das relações de dominação e de exploração que nele se estabelecem. Bourdieu ilustra esse papel do Estado com exemplos históricos e empíricos, como a formação do mercado nacional na França, a intervenção estatal na economia argelina pós-colonial, e a regulação estatal dos mercados financeiros globais. Portanto, Bourdieu não subestima a importância do Estado na integração do mercado, mas sim procura compreender as lógicas e as estratégias que orientam a ação estatal no campo econômico.

E) Estado e ortodoxia: Bourdieu afirma que o Estado é quase impensável e que é difícil falar sobre ele sem reduzi-lo às pré-noções e preconceitos que carregamos sobre ele. Bourdieu enfatiza o Estado no seio de um princípio de ortodoxia simbólica que sustenta tanto sua integração lógica quanto a integração subjetiva do mundo social. O Estado não apenas abrange órgãos burocráticos ou aparatos de poder, mas também desempenha um papel fundamental na legitimidade da construção do consenso simbólico e na definição dos terrenos de desacordo na sociedade. Bourdieu também destaca que o Estado não é um lugar neutro, como a tradição da teoria clássica poderia sugerir, mas também um ator que tende a moldar a realidade social e as relações de poder, com seus interesses e habilidades. Bourdieu reconhece o papel do Estado na economia de mercado, mas também vai além, examinando como o Estado contribui para a legitimidade da manutenção da ordem social e a configuração das relações de poder simbólico, nesses muitos contextos. Em vez de reduzir o Estado a um mero garante do capitalismo, Bourdieu oferece uma análise mais rica e complexa das interações entre o Estado, a economia e a sociedade.

F) Dificuldades práticas: Bourdieu aplicando seus métodos constata que a sociedade e os mecanismos abrangidos dentro do Estado são muito complexos e diversificados para ser transformados radicalmente de uma só vez. Ele argumentava que a sociedade consiste, dentre outas, em uma variedade de campos sociais (por exemplo, economia, política, cultura) com suas próprias lógicas, conexões, servidões, ambiguidades, contradições e estruturas, e que uma ruptura completa parece desconsiderar essa complexidade. As estruturas de poder são persistentes e têm a capacidade de se reproduzir mesmo após mudanças político econômicas significativas. Também constatava que, mesmo em um contexto de ruptura, as elites dominantes poderiam encontrar maneiras de manter seu poder e influência. Bourdieu reconhecia as dificuldades práticas e os desafios de implementar uma ruptura bem-sucedida. Ele preferia falar em “revolução simbólica”, que ele definia como “um processo de subversão das estruturas de percepção e de apreciação do mundo social que sustentam a dominação”. Bourdieu acreditava que a ruptura fosse uma ilusão simplista, que ignorava a complexidade e a diversidade da realidade social. Bourdieu defendia que a transformação social deveria ser um processo gradual, dialético e reflexivo, que levasse em conta as condições objetivas e subjetivas de cada campo social, e que fosse capaz de produzir novas formas de pensamento e de ação coletiva

G) Violência simbólica e acumulação econômica: a violência simbólica é uma forma de poder que se exerce sobre os corpos e as mentes dos agentes sociais, através da imposição de sistemas de classificação e de representação que favorecem os interesses dos dominantes. A violência simbólica se manifesta nas diversas esferas da vida social, como a cultura, a educação, a política, a religião e a mídia. A acumulação econômica não escapa dessa lógica: o valor econômico é uma construção social que depende da imposição de um sistema arbitrário de medidas e de equivalências que oculta as relações sociais subjacentes à produção e à circulação das mercadorias. Assim, Bourdieu não desconsidera a materialidade da economia, mas sim busca desnaturalizar e desmistificar as formas simbólicas que sustentam a ordem econômica.

H) questões nacionais ou regionais: Bourdieu enfrentou bloqueios referentes ao contexto em que certos pesquisadores frequentemente adotaram uma perspectiva universalista utópica e ingênua, que desconsiderava a importância das particularidades nacionais ou regionais. Essa perspectiva era, em sua visão, influenciada por uma tendência a um pensamento semelhante de um evolucionismo simplista.

I) Economia simbolismo e Estado: Bourdieu analisa a relação complexa entre economia, simbolismo e nacionalismo/regionalismo. Ele propõe superar o economicismo, que ele define como “a tendência a reduzir o universo social a um conjunto de relações econômicas, ou a explicar as outras formas de relações sociais a partir de relações econômicas”. Ele critica tanto o economicismo liberal, que legitima a ordem econômica dominante, quanto o economicismo marxista, que subestima o papel das formas simbólicas de dominação. Bourdieu defende uma abordagem relacional e histórica, que leva em conta as representações que os agentes têm da realidade, e como elas afetam a transformação da realidade. Ele também destaca que existe uma “economia do simbólico”, que não pode ser reduzida à economia no sentido restrito, e que as lutas simbólicas têm fundamentos e efeitos econômicos reais. Isso significa que as questões simbólicas, como identidade, cultura e representações coletivas, estão articuladas com as questões materiais, e que elas contribuem para a construção e a transformação das realidades sociais. Bourdieu aplica essa perspectiva ao estudo do regionalismo, que ele entende como uma forma de luta política, que envolve interesses materiais e simbólicos, e que se inscreve em um campo específico, o campo do poder estatal. Bourdieu mostra como os agentes regionais mobilizam diferentes formas de capital (econômico, cultural, social, simbólico) para se posicionar e se distinguir dos agentes centrais, e como eles buscam converter um tipo de capital em outro, de acordo com as oportunidades e as demandas de cada campo .

J) Leste Europeu: a declaração de Jappe pode estar tendendo a simplificar uma questão complexa e multifacetada, atribuindo a desarticulação do socialismo nos países do Leste Europeu principalmente à tentativa de planificação estatal, enquanto ignora ou distorce outros fatores e nuances envolvidos nesses eventos históricos. Jappe faz uma generalização ao afirmar que a tentativa de planificar e regular a economia por meio do Estado foi o que levou à desarticulação do socialismo em todos os países do Leste Europeu. Essa premissa parece ignorar as diferenças significativas entre esses países em termos de histórico, política e economia. Alguns países do Leste Europeu podem ter experimentado problemas de desarticulação, mas outros tiveram experiências diferentes. A premissa também simplifica a relação de causa e efeito entre a planificação estatal e a desarticulação do socialismo. Os problemas enfrentados pelos países do Leste Europeu foram influenciados por uma série de fatores, incluindo pressões externas, má gestão econômica e mudanças políticas. Atribuir tudo à tentativa de planificação estatal tende a ser uma simplificação excessiva.

K) A economia de mercado: Bourdieu não aceita a economia de mercado como uma realidade natural e imutável, mas sim como uma construção social e histórica, que é o resultado de um processo de autonomização e de diferenciação do campo econômico em relação aos outros campos sociais. Para Bourdieu, o valor econômico não é uma propriedade natural das mercadorias, mas sim uma representação social que depende da imposição de um sistema arbitrário de medidas e de equivalências, que oculta as relações sociais subjacentes à produção e à circulação das mercadorias. Para ele a economia de mercado não é uma ordem espontânea e auto-regulada, mas sim uma ordem construída e regulada também pelo Estado, que dispõe de um capital burocrático específico, que lhe permite muitas vezes definir as regras do jogo econômico, impor as categorias de percepção e de avaliação do valor econômico, e distribuir os recursos públicos. Assim, Bourdieu não toma a economia de mercado como um dado, mas sim como um problema, que requer uma análise sociológica das condições históricas e sociais de sua emergência e de seu funcionamento. Ele também argumenta que o mercado não é apenas determinado pela oferta e demanda, mas também pelas crenças, valores e interesses dos agentes que participam dele. Bourdieu propôs que o mercado é um campo de lutas, onde os agentes competem pelo reconhecimento e pela legitimidade de seus produtos e serviços, usando diferentes tipos de capital (econômico, cultural, social, simbólico)

L) A emancipação: Bourdieu não se resigna à reprodução da economia de mercado, mas sim que ele busca fomentar a mudança social. Para Bourdieu, os agentes sociais não são meros autômatos ou vítimas das estruturas sociais, mas sim atores dotados de capacidade criativa e crítica. No entanto, essa capacidade é limitada pelo habitus, que é um sistema de disposições incorporadas pelos agentes ao longo de sua trajetória social. O habitus orienta as percepções, as avaliações e as práticas dos agentes em cada campo social em que eles atuam, de acordo com as regras e as lógicas específicas de cada um. O habitus tende a reproduzir as estruturas sociais que o geraram, e a gerar uma ilusão de naturalidade e de necessidade, que dificulta a reflexão crítica e a contestação dos agentes. Bourdieu defende que a sociologia pode contribuir para a emancipação dos agentes, ao fornecer-lhes instrumentos de análise e de crítica das relações de dominação que os afetam.



1.12) Página 261:

Tal como Bourdieu, também Hardt e Negri negam, portanto, que o capital seja empurrado para diante pela sua dinâmica interna e pela concorrência; nestas novas formas vêem somente uma reacção contra a subjectividade dos explorados. E esta, como é evidente, não é minimamente tocada pela forma mercadoria.


1.12.1) Impressões:

Jappe parece acusar Bourdieu de postular que o capitalismo é impulsionado apenas por uma reação à subjetividade dos explorados, em vez de reconhecer a dinâmica interna e a concorrência como forças motrizes fundamentais, e não expressa nesse conflito a forma mercadoria

A) Dinâmica Interna do Capitalismo:  Bourdieu propõe reflexões sobre a importância da dinâmica interna e da concorrência no capitalismo, reconhecendo que o campo social econômico do capitalismo é caracterizado por uma competição feroz entre agentes e empresas em busca de recursos e posições dentro de todos os campos sociais, incluindo o econômico. Essa competição é compreendida por Bourdieu como parte integrante da dinâmica própria dos campos sociais e da reprodução das desigualdades. Ele argumentava que as estruturas econômicas não existem isoladamente, mas estão intrinsecamente ligadas a outras dimensões da vida social, como a cultura, a educação e o status. A dinâmica interna desse campo envolve uma série de elementos que influenciam a forma como os atores se posicionam e competem dentro dele. Dentro do campo econômico, existem diferentes posições e hierarquias que determinam o acesso aos recursos econômicos, simbólicos e ao poder. Algumas pessoas e instituições ocupam posições dominantes, enquanto outras estão em posições subalternas. Essas posições podem ser influenciadas por fatores como a quantidade de capital econômico, cultural e social que os agentes possuem. Aqueles que têm mais capital econômico geralmente têm uma vantagem na busca por recursos e oportunidades. Ter conexões com pessoas influentes e instituições dentro do campo econômico pode abrir portas e proporcionar oportunidades. As dinâmicas internas e a concorrência dentro do campo econômico em Bourdieu são moldadas por uma complexa interação de capital econômico, cultural e social, bem como pelas estratégias dos atores. Essa competição não se limita apenas à busca de recursos materiais, mas também envolve a busca por reconhecimento e prestígio, e frequentemente resulta na reprodução das desigualdades existentes na sociedade.

B) Lucro: Bourdieu propõe que o campo social econômico do capitalismo tem uma dinâmica interna impulsionada pela busca incessante de lucro e acumulação de capital. Ele não nega que existem reações e resistências por parte dos explorados, mas enfatiza que essas resistências ocorrem dentro do contexto das regras admitidas dentro do campo social econômico, que busca maximizar o lucro individual dos seus integrantes. 

C) Aspectos do campo econômico: De acordo com Bourdieu, os agentes, ou empresas, são responsáveis por moldar o campo social econômico. Esse campo só existe por causa dos agentes que habitam nele e que o influenciam ao seu redor, deformando-o, dando-lhe uma estrutura específica. É através da relação de concorrência entre as diferentes "fontes de campo", ou pessoas jurídicas, que o campo é gerado e as relações de força que o caracterizam são estabelecidas. São os agentes, definidos pelo volume e estrutura do capital específico que possuem, que determinam a estrutura do campo e, assim, o estado das forças que se exercem sobre o conjunto das empresas engajadas na produção de bens semelhantes "setor" ou "ramo" de atividade. As empresas exercem efeitos potenciais que variam em sua intensidade, lei de decréscimo e direção. Elas controlam uma parte do campo (fatia do mercado), tanto maior quanto seu capital for mais importante. Quanto aos consumidores, seu comportamento se reduziria inteiramente ao efeito do campo, se eles não tivessem uma certa interação com ele. O peso associado a um agente (empresa ou um consumidor) depende de todos os outros pontos e das relações entre todos os pontos, isto é, de todo o espaço compreendido como uma constelação relacional. Em resumo, o campo econômico é resultado das interações complexas entre os agentes, como as empresas e os consumidores, e suas relações de força dentro desse espaço delimitado. Embora se enfatize as constantes aqui, não se ignora que o capital, em suas diferentes formas, varia de acordo com a particularidade de cada subcampo, ou seja, de acordo com a história desse campo, o estado de desenvolvimento (e, em particular, o grau de concentração) da indústria considerada e a particularidade do produto. No final do extenso estudo que realizou sobre as práticas de fixação de preços de várias indústrias americanas, Hamilton relacionou o caráter idiossincrático dos diferentes ramos (ou campos) à particularidade das histórias de sua emergência, cada uma sendo caracterizada por seu próprio modo de funcionamento, suas tradições específicas e sua maneira particular de tomar decisões sobre a definição dos preços. 

D) A Importância da Forma Mercadoria: Bourdieu quando desdobra suas análises do campo social econômico sinaliza para várias faces da forma mercadoria como elementos fundamentais do funcionamento do capitalismo, por exemplo, na Mercadorização do conhecimento: Bourdieu discute como o campo acadêmico está sujeito à lógica da concorrência e como o conhecimento muitas vezes é tratado como uma mercadoria intelectual. Ele observa como as instituições de ensino superior, como universidades de prestígio, podem promover uma hierarquia de títulos e diplomas que funcionam de maneira semelhante a bens simbólicos no mercado, onde a credibilidade e o valor do conhecimento podem ser medidos; Mercantilização da cultura: Em seu trabalho sobre o campo cultural, Bourdieu analisa como as formas culturais, como a arte, a literatura e a música, são frequentemente mercantilizadas e transformadas em produtos culturais. Ele explora como a produção artística é influenciada pelas demandas do mercado e como a cultura muitas vezes é comodificada e comercializada; Campo midiático e economia das celebridades: Bourdieu também aborda a influência dos meios de comunicação e da indústria do entretenimento, observando como a exposição mediática, que muitas vezes é movida pelo lucro e pelos interesses comerciais, pode criar "celebridades" que se tornam figuras de destaque na sociedade; Capital cultural e desigualdade: Bourdieu desenvolve a ideia de "capital cultural", que se refere ao conhecimento, habilidades e educação que uma pessoa possui. Ele argumenta que o capital cultural é frequentemente convertido em vantagens econômicas e sociais, destacando assim a relação entre capital cultural e a economia. Ele não parece subestimar o impacto da mercadoria na vida social e econômica, dentre outras, argumentando que ela desempenha um papel central na estruturação das relações sociais e na reprodução das desigualdades. Portanto, embora Bourdieu não se concentre explicitamente na análise da forma mercadoria, sua obra oferece insights sobre como a lógica do mercado permeia vários aspectos da vida social, cultural e econômica.

E) Mercado: Para Bourdieu a lógica do mercado opera como “um espaço de jogos concorrenciais, regido por leis imanentes que se impõem a todos os que nele entram, e que é o lugar de uma concorrência generalizada, que opõe todos os agentes que nele estão engajados, seja qual for o campo particular em que exercem sua atividade”. Bourdieu se interessa pelo funcionamento do mercado, que ele considera como um campo social específico, onde os agentes e as organizações disputam diferentes formas de capital, que lhes conferem poder e prestígio. Bourdieu também se interessa pelas relações entre o mercado e os demais campos sociais, como o campo cultural, o campo acadêmico, o campo político, etc. Bourdieu mostra como o mercado influencia e é influenciado por esses campos, e como ele contribui para a produção e a reprodução das desigualdades sociais.

F)  Explorados e Capital: Bourdieu enfatiza também a complexidade das relações entre os explorados e o campo social econômico. Nesse sentido essas relações não podem ser reduzidas a uma simples luta contra a subjetividade dos explorados. Em vez disso, Bourdieu explora as maneiras pelas quais as estruturas de poder, as instituições e as ideologias moldam as relações entre o diversos campos sociais, destacando a importância das lutas simbólicas e culturais na reprodução das hierarquias sociais. A dominação não é apenas imposta de cima para baixo, mas também é internalizada pelos dominados, que incorporam as categorias e os valores dos dominantes, e que reproduzem as relações de poder e de hierarquia, sem questioná-las ou contestá-las. Ele chama isso de “violência simbólica”, que é mantida por meio de mecanismos como a naturalização da ordem social, a inculcação do habitus, a produção e a difusão de bens simbólicos, etc. Bourdieu argumenta que esses mecanismos são reforçados por instâncias como a educação, a cultura, a família, a religião, o Estado, etc, que são controladas pelos dominantes.

G) Ação Estratégica: Bourdieu enfatizaria a capacidade das elites econômicas de agir estrategicamente para manter e ampliar seu poder. Ele argumentaria que essas elites não são meramente reativas, mas muitas vezes moldam ativamente as estruturas políticas e econômicas para atender a seus interesses. Portanto, ele não parece compartilhar a visão de que o capitalismo é uma mera reação defensiva.



1.13) Página 267: 

Não é surpreendente, portanto, que para Bourdieu o marxismo seja «a mais economista das tradições», e que o marxismo e o neoliberalismo sejam por ele tratados como instâncias do mesmo «fatalismo económico» fundado na «fetichização das forças produtivas» (citado em Callinicos, La Théorie sociale, pág. 73). Bourdieu escreve: «E talvez não seja por acaso que tanta gente da minha geração passou sem problemas de um fatalismo marxista para um fatalismo neoliberal: nos dois casos o economismo desresponsabiliza e desmobiliza anulando a política e impondo toda uma série de fins não discutidos, crescimento máximo, competitividade, produtividade» (Bourdieu, Contrefeux, pág. 56). Como é natural, Bourdieu tem razão em relação a um certo marxismo tradicional, mas renuncia a priori a fazer uso da crítica marxiana da economia política. Com efeito, a crítica da economia política recordar-lhe-ia que na sociedade mercantil a tirania económica está inscrita nas estruturas do social, em vez de ser resultado de uma imposição exterior.


1.13.1) Impressões:

A crítica de Anselm Jappe argumenta que Bourdieu renuncia a priori ao uso da crítica marxiana da economia política.

A) Economicimo: Bourdieu acreditava que a ênfase da maioria das abordagens econômicas tendem a reduzir a complexidade das relações sociais e políticas, relativizando o foco das lutas simbólicas e culturais que desempenham um papel significativo na reprodução das desigualdades. No entanto, Bourdieu não estava negando a importância da economia ou a análise marxiana da exploração capitalista. Em vez disso, ele estava argumentando contra uma visão simplificada da sociedade, enfatizando que o poder simbólico, a cultura e a política desempenham papéis entrelaçados igualmente cruciais na reprodução das estruturas sociais. Para Bourdieu, a economia não é a única determinante independente das relações sociais, e a política desempenha um papel fundamental na configuração das estruturas econômicas e na distribuição desigual de recursos.

B) Capital: Bourdieu argumentava que o capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas também um sistema social e cultural. O capitalismo também é baseado em uma estrutura de poder que determina as oportunidades e os recursos disponíveis às pessoas. Essa estrutura de poder também é baseada em vários tipos de capital, dentre eles: capital econômico, capital cultural e capital social. O capital econômico é o acesso a recursos financeiros. O capital cultural é o acesso a conhecimento e educação. O capital social é o acesso a redes de relacionamentos. As pessoas com mais capital econômico, cultural e social têm mais oportunidades e recursos. Isso leva à desigualdade social, pois as pessoas com menos capital têm menos oportunidades de sucesso. Bourdieu também argumenta que o capitalismo é baseado na violência simbólica. A violência simbólica é um tipo de poder que é exercido através da linguagem, do discurso e de outros símbolos. Ela é uma forma de dominação que é naturalizada e internalizada pelos dominados. A violência simbólica é usada pelo capitalismo para legitimar o seu poder e para reproduzir as desigualdades sociais.

C) Reprodução das Desigualdades Sociais: Tanto Marx quanto Bourdieu estão preocupados com a reprodução das desigualdades sociais. Enquanto Marx se concentra nas relações de classe e na exploração econômica como fatores-chave na reprodução das desigualdades, Bourdieu amplia essa visão para incluir o papel das estruturas simbólicas, como o capital cultural, social e simbólico, na manutenção das hierarquias sociais. Ambos os autores abordam o conceito de capital, embora de maneiras diferentes. Marx se concentra principalmente no capital econômico (valor e propriedade), enquanto Bourdieu introduz os conceitos de capital cultural (conhecimento e educação), capital social (redes sociais) e capital simbólico (prestígio e reconhecimento). Ambos reconhecem que o acesso ao capital confere poder na sociedade.

D) Conflito e Dominação: Tanto Marx quanto Bourdieu vêem a sociedade como um campo de luta e conflito. Marx argumenta que a luta de classes é o motor da mudança social, enquanto Bourdieu enfatiza as lutas simbólicas dentro de campos sociais, nos quais os agentes competem por recursos e prestígio. Ambos reconhecem que a dominação e o poder desempenham papéis significativos na organização social. Bourdieu desenvolveu a ideia de que as estruturas sociais e as hierarquias são reproduzidas através das práticas cotidianas das pessoas e das instituições. Isso se assemelha à preocupação marxista com a reprodução das relações de classe na sociedade capitalista. Embora ele não se concentre na exploração econômica no sentido estrito de Marx, Bourdieu examina como as relações de poder e dominação são perpetuadas.

D) Teoria das Classes Sociais: Bourdieu não adota a concepção tradicional de classes sociais de Marx, baseada principalmente em relações de produção e propriedade dos meios de produção. Em vez disso, ele introduz o conceito de "espaço social", que descreve a distribuição das pessoas em diferentes posições sociais com base no acesso a diferentes tipos de capitais (econômico, cultural, social, etc.). Essa abordagem pode ser vista como uma tentativa de compreender as hierarquias sociais de uma maneira mais complexa do que a estrutura de classe tradicional, mas ainda tem afinidades com a preocupação marxista sobre a estratificação e desigualdade.

E) Capital Cultural: Bourdieu argumenta que o capital cultural desempenha um papel fundamental na reprodução das desigualdades sociais.  Isso pode ser visto como uma crítica e um aprofundamento das análises marxistas sobre como o capital e as relações de produção moldam a estrutura de classe. Bourdieu enfatiza como o conhecimento, a educação e o acesso à cultura afetam o status e as oportunidades de uma pessoa na sociedade. Para Bourdieu, a tirania econômica está intrinsecamente ligada às estruturas do social, mas a análise deve ser enriquecida considerando-se as dimensões simbólicas e políticas das relações de poder.

F) Estado e Poder: Enquanto Bourdieu não se concentra na análise do Estado da mesma forma que os teóricos marxistas, ele reconhece o papel do Estado na regulamentação e legitimação das estruturas sociais. Ele investiga como as instituições estatais podem influenciar a distribuição de recursos e, por extensão, as posições sociais.

G) Renuncia ao marxismo: Bourdieu não parece renunciar a priori a fazer uso da crítica marxiana da economia política, mas sim que ele a utiliza de forma cuidadosa e crítica, buscando superar suas limitações e impasses. Para Bourdieu, o marxismo é uma fonte importante de inspiração teórica e política, mas também um objeto de reflexão epistemológica e sociológica. Bourdieu reconhece o valor da análise marxista da produção e da circulação das mercadorias, da exploração e da luta de classes, da ideologia e da alienação, mas também aponta as insuficiências e as lacunas do marxismo em relação à compreensão das práticas sociais, das formas de dominação simbólica, das estratégias dos agentes, e das dinâmicas dos campos sociais. Bourdieu não se contenta em repetir ou atualizar os conceitos e as categorias do marxismo, mas sim procura construir novos instrumentos de análise e de crítica, que levem em conta a complexidade e a diversidade da realidade social. Bourdieu se inspira em autores como Weber, Durkheim, Mauss, Elias, Cassirer, Wittgenstein, entre outros, para elaborar uma teoria sociológica que articula os conceitos de habitus, campo, capital e violência simbólica. Esses conceitos permitem a Bourdieu abordar fenômenos sociais que tendem a escapar ou ser negligenciados pelo marxismo, como a cultura, a educação, a religião, a arte, o esporte, o gosto, o estilo de vida, etc. Bourdieu também se interessa pelos debates internos e pelas correntes do marxismo, como o estruturalismo de Althusser, o humanismo de Lukács, a teoria crítica da Escola de Frankfurt, o marxismo analítico de Elster e Roemer, etc. Bourdieu dialoga com esses autores, reconhecendo seus méritos e apontando seus limites. Assim, Bourdieu não renega o marxismo, mas sim o submete a uma leitura crítica e criativa, que visa ampliar seu alcance e sua relevância para a compreensão e a transformação da sociedade contemporânea.


faça a checagem da veracidade das informações contidas nesse paragrafo, dizendo explicitamente se a informação é verdadeira ou não: 




refaça o item a corrigindo as informações falsas por informações verdadeiras sobre o mesmo assunto