Nesse texto, está sendo discutido como duas correntes filosóficas, a psicologia sartriana e a abordagem de Pierre Bourdieu, enxergam a presença da "não-consciência" no ser humano.
A psicologia sartriana, inspirada nas ideias do filósofo Jean-Paul Sartre, acredita que o ser humano é composto apenas de "fins intencionais". Isso significa que tudo o que fazemos é conscientemente planejado e orientado para alcançar um objetivo específico. Nessa visão, não há espaço para ações ou comportamentos inconscientes.
Por outro lado, Bourdieu critica essa visão e argumenta que existem também "potencialidades objetivas" presentes nas pessoas. Essas potencialidades são como habilidades ou disposições que podemos usar e atualizar (colocar em ação) dependendo da situação. Nossas ações sociais são definidas, em parte, por essas potencialidades.
Bourdieu defende que há coisas que fazemos ou deixamos de fazer, coisas que dizemos ou não dizemos, e tudo isso é influenciado por uma urgência e imediatismo das situações que enfrentamos. Ou seja, nem todas as nossas ações são totalmente planejadas conscientemente. Às vezes, respondemos de forma mais automática, sem deliberar conscientemente sobre cada passo.
Essa diferença de perspectiva mostra como essas duas abordagens filosóficas veem a consciência e a não-consciência nas ações humanas. Enquanto a psicologia sartriana destaca o papel central da consciência e do planejamento consciente, Bourdieu ressalta que também somos influenciados por aspectos mais automáticos e disposições que emergem em diferentes contextos.
O existencialismo de Sartre reflete sobre a relação entre a consciência (o "ser para si") e o mundo objetivo (o "ser em si"). Para os existencialistas, essa relação se dá em uma unidade, onde a consciência está conectada ao mundo.
Os existencialistas, como Sartre, acreditam que a consciência é a base dessa relação. Ela é entendida como uma pura espontaneidade, um vazio ontológico, ou seja, é algo que não tem uma determinação prévia e é indeterminável. Isso significa que a consciência não é pré-programada para agir de uma maneira específica, mas tem a liberdade de escolher como interagir com o mundo.
Nesse sentido, para Sartre, o conceito de "habitus" de Bourdieu não é aceitável. O "habitus" de Bourdieu refere-se a disposições duradouras que são moldadas pela observação contínua das relações sociais e que, posteriormente, geram comportamentos automáticos, dispensando a necessidade de um projeto consciente. No entanto, para Sartre, isso não é aceitável, pois ele acredita que o ser humano age com consciência e estrategicamente, ou seja, com objetivos e escolhas deliberadas.
Em resumo, o texto destaca que para o existencialismo, a consciência é o ponto central na relação entre o ser humano e o mundo, e a ideia de comportamentos automáticos e pré-programados, como o "habitus" de Bourdieu, não se encaixa na visão existencialista do agir humano.
No livro "O Ser e o Nada" de Jean-Paul Sartre, fica claro que liberdade não significa apenas não ter impedimentos externos ou internos para alcançar o que queremos. Liberdade é sobre poder escolher o que queremos, definir nossos objetivos de forma autônoma, mesmo que não consigamos alcançá-los. Em outras palavras, a liberdade não está vinculada ao sucesso do que planejamos.
Sartre defende que a liberdade não é determinada por fatores externos, como a sociedade em que vivemos ou nossa educação. Para ele, a liberdade é inerente a nós, algo com que nascemos. Não escolhemos ser livres, somos lançados na liberdade desde o início. Se não fosse assim, poderíamos escolher tudo em nossas vidas, incluindo nossa própria existência e as condições materiais em que vivemos. Isso nos levaria a uma liberdade indeterminada e descontrolada, o que Sartre considera uma ilusão.
Enquanto Bourdieu destaca que a ilusão está em acreditar que somos totalmente determinados por nossas experiências passadas e contextos sociais, Sartre alerta sobre a ilusão oposta: acreditar que somos completamente livres de qualquer determinação e que podemos controlar tudo. Para Sartre, a verdadeira liberdade é encontrar o equilíbrio entre a nossa espontaneidade e as influências do mundo à nossa volta, sem cair em extremos ilusórios.
Segundo Bourdieu, Sartre propõe uma teoria da ação baseada em uma liberdade permanente de escolha, onde a pessoa faz um "cálculo propriamente racional" considerando a situação em que se encontra. Essa liberdade de ação discorda da visão comum que propõe existir determinismos, ignorando a falta de fundamentos dos valores que guiam nossas ações. Sartre chama essa visão comum de "falsificação existencial". Ele argumenta que essa visão que se leva a sério do mundo toma os valores como dados e não questiona suas origens, o que, para Sartre, é uma má-fé. Ele propõe que a verdadeira consciência de liberdade está além dessa visão séria do mundo e só pode ser alcançada através de uma reflexão que revela a liberdade como um "nada de fundamentos", ou seja, algo que não tem um ponto de apoio sólido.
Sartre relativiza as condições materiais que cercam nossas ações e nega a existência de um fundamento absoluto para nossas escolhas. Ele destaca que a liberdade está na escolha incondicionada, ou seja, em fazer escolhas sem ser determinado por fatores externos. Em resumo, Sartre enfatiza que a verdadeira liberdade está na capacidade de escolher de forma autônoma, além das influências do mundo e sem fundamentos absolutos. Ele defende a importância de refletir sobre nossas ações e valores para encontrar a liberdade genuína.
Segundo Sartre, o homem está completamente só, sem justificativas ou desculpas, e sua liberdade é algo que ele carrega de forma moralmente pesada. Não há determinismos que definam suas ações, o que lhe dá a constante possibilidade de agir de forma diferente. Ele tem a capacidade de dar sentido ao mundo de acordo com sua própria interpretação.
Sartre rejeita a ideia de buscar dentro de si mesmo, ou em disposições pré-existentes, um saber prático que guie suas ações. Ele acredita que um saber prático pressupõe um repertório de ações predefinidas, o que tiraria a possibilidade do ser humano se definir de forma permanente.
A filosofia de Sartre é centrada na subjetividade, com a consciência como o elemento que dá sentido ao mundo. A consciência transcende a realidade, e essa transcendência gera a ambiguidade. O ser humano vive a tensão entre a facticidade (o que é dado no mundo) e a transcendência (o que está além de sua existência atual). Essa ambiguidade cria a possibilidade de má-fé, que é a negação ou a evitação da liberdade para assumir responsabilidade pelas próprias escolhas.
A filosofia existencialista de Sartre encoraja o distanciamento dos hábitos de pensamento e a constante dúvida sobre o passado. Isso conduz à liberdade e ao autodomínio do indivíduo. Em suma, a essência da existência humana, para Sartre, é a liberdade, e o indivíduo é responsável por criar seu próprio significado e identidade ao longo da vida.
Sartre, inspirado pelo filósofo Descartes, entende a liberdade como a capacidade absoluta de criar e agir de forma autônoma. Para ele, a liberdade envolve a criação de novos atos e a possibilidade de decidir sobre a veracidade das coisas. Essa liberdade é uma produção original e está no âmago da liberdade humana.
Por outro lado, Bourdieu apresenta uma abordagem diferente, rompendo com a filosofia cartesiana da consciência. Sua noção de "habitus" permite evitar a dicotomia entre determinismo causal e determinação racional. O conceito de "habitus" refere-se a disposições incorporadas que influenciam as ações de uma pessoa sem a necessidade de um projeto original consciente.
Assim, Sartre e Bourdieu possuem diferentes níveis de consciência que se opõem ao saber prático de Bourdieu. Sartre destaca três níveis de consciência: a consciência de um projeto original (agir para o futuro), a consciência de um engajamento universal da ação e a consciência de um agir de má-fé (quando alguém nega sua própria liberdade e responsabilidade).
Em resumo, Sartre enfatiza a liberdade como a capacidade criativa e autônoma de agir, enquanto Bourdieu introduz o conceito de "habitus" para explicar como nossas ações são influenciadas por disposições incorporadas e práticas sociais sem a necessidade de um projeto consciente. As concepções de liberdade e consciência entre Sartre e Bourdieu são distintas e abordam diferentes aspectos da experiência humana.
Segundo o existencialismo sartriano, a ação é livre e orientada por um cálculo de custo e benefício, visando a um objetivo futuro, que também é livremente escolhido. O homem é visto como alguém que se projeta em direção ao futuro, sendo consciente de suas ações (custo) e buscando alcançar o benefício desejado no futuro.
Para o existencialismo sartriano, apenas o efeito da ação, que é projetado livremente para o futuro, pode legitimá-la. Ou seja, a ação é justificável no momento em que é projetada ou executada, porque se espera que tenha um efeito benéfico futuro. O fundamento da ação está na expectativa instantânea de um resultado futuro desejado.
Essa questão da relação entre o tempo e o fundamento da ação também é um tema central na reflexão sobre o conceito de "habitus". O "habitus" é definido em função da história individual e das experiências sociais singulares de cada indivíduo. Ele reflete o conjunto de posições e relações experimentadas nos contextos sociais aos quais o indivíduo pertenceu.
Em resumo, tanto para Sartre como para a noção de "habitus", a ação humana é orientada para o futuro, e o fundamento dessa ação está relacionado à liberdade de escolha e à expectativa de um resultado benéfico futuro. A visão existencialista valoriza a liberdade e a responsabilidade individual na construção do sentido da ação humana.
Bourdieu critica as ideias subjetivistas baseadas no pensamento de Sartre, observando que elas ignoram a importância da história individual e coletiva dos agentes sociais. Ele apresenta o conceito de "habitus" como um sistema de disposições moldadas pelas experiências passadas dos indivíduos, que estão em constante interação com as estruturas objetivas que as produzem e que tendem a reproduzi-las. Diferentemente do que muitas interpretações sugerem, o "habitus" não é um destino fixo e imutável, mas um conjunto de disposições aberto, que está sempre sujeito a novas experiências e afetado por elas. Os agentes sociais, quando possuem um "habitus", são como indivíduos coletivos, pois suas ações são influenciadas pelas disposições incorporadas ao longo do tempo.
Para Bourdieu, a relevância do passado nas ações do presente se manifesta inicialmente na forma como os agentes sociais percebem o mundo. Eles tendem a classificar a realidade com base nas disposições que foram moldadas por suas experiências sensoriais anteriores. Assim, as ações sociais são classificadas de acordo com um repertório de comportamentos e valores construído por observações passadas, seja em clubes, escola, religião, viagens, cursos. Em resumo, Bourdieu destaca a importância do "habitus" como um sistema de disposições que moldam a maneira como os agentes sociais percebem e agem no mundo. Esse conceito leva em conta a história individual e coletiva dos indivíduos e mostra como as experiências passadas influenciam as ações e percepções no presente.
Para Bourdieu, o "habitus", que é formado a partir da história social e das experiências passadas do indivíduo, é o fundamento contemporâneo da ação. Não se trata mais de um projeto futuro e suas expectativas, como no existencialismo de Sartre, mas sim da atualização das disposições adquiridas ao longo da trajetória do indivíduo na sociedade, ou seja, no passado.
O "habitus" não congela uma visão de mundo já estruturada no indivíduo, nem permite uma revolução constante de representações e critérios de classificação. Ele é atualizado pelas novas experiências que o agente social vivencia, mas dentro dos limites definidos pelo saber prático já constituído.
Sartre, por outro lado, enfatiza a liberdade do projeto original, no qual o agente se projeta em direção ao futuro, isolando-se em relação ao passado. Ele questiona como algo que não tem existência material, como o passado, pode ter tanta força para influenciar as ações concretas no presente.
Enquanto para Bourdieu a singularidade do agente social se objetiva na combinação entre trajetória e posição num universo social específico, para Sartre, a singularidade reside na liberdade do projeto original, que não se deixa determinar pelo passado. Em resumo, Bourdieu vê o "habitus" como um fundamento contemporâneo da ação, resultante das experiências passadas, enquanto Sartre enfatiza a liberdade do projeto original, que se projeta em direção ao futuro sem se deixar determinar pelo passado. Suas visões sobre a influência do passado nas ações presentes diferem, e essa é uma das principais divergências entre as abordagens de ambos os filósofos.
Quando Sartre indaga "o que sou eu?" ou reflete sobre o tempo, ele observa que a noção do começo sempre escapa, e o tempo chega lentamente à existência, tornando-se uma percepção imediata apenas quando já está presente há muito tempo. Para Sartre, a percepção do tempo ocorre no instante de sua atualidade.
No entanto, Bourdieu apresenta uma visão diferente sobre a consciência temporal do agir. Para ele, essa consciência surge apenas na eventualidade de um cálculo necessário, quando não há uma solução pronta para a ação. Bourdieu enfatiza que a ação é influenciada pelo "habitus", ou seja, pelas disposições incorporadas ao longo da história passada do indivíduo, e pelo contexto social em que ele se encontra.
Sartre enfatiza a liberdade do projeto original, em que a ação é livre e não determinada pelo passado, o que torna os personagens de suas obras frequentemente sujeitos a reviravoltas e não determinados por disposições duráveis. Ele mostra como a liberdade permite a refutação do passado e a mudança de rumo das ações dos personagens.
Os exemplos citados, como o personagem Garcin em "Huis clos" e Erostrate, ilustram a ambiguidade da liberdade e a capacidade de mudança e escolha do indivíduo diante das situações. Eles mostram como a liberdade de decisão pode levar a ações imprevisíveis e como os personagens podem reagir de maneiras inesperadas diante das circunstâncias.
Em suma, o texto destaca as diferentes abordagens de Sartre e Bourdieu em relação ao tempo, à liberdade e à influência do passado nas ações humanas. Enquanto Sartre enfatiza a liberdade e a possibilidade de refutar o passado no projeto original, Bourdieu destaca a influência do "habitus" e do contexto social na ação do indivíduo.
Para Sartre, a liberdade é direcionada para o futuro, e a importância do passado só é descoberta em função de um projeto. Ele rejeita a noção de hábito, destacada por outros filósofos contemporâneos, enfatizando o futuro como o ponto central para a liberdade.
Para que a liberdade seja efetiva e rompa com as determinações do passado, ela deve criar uma fissura entre passado e presente, entre as condições determinantes dos comportamentos humanos e os próprios comportamentos. Essas fissuras não podem ser constituídas pelo ser, pois o ser está inserido na cadeia da causalidade universal. A liberdade, ao trazer o "nada" ao núcleo do ser, é a única que pode criar uma ruptura verdadeira com o passado.
Essa ruptura, no entanto, tem um preço: a responsabilidade de engajar toda a humanidade num projeto através das escolhas conscientes e racionais do projeto original. Sartre defende que a liberdade permite ao indivíduo escolher e conferir sentido ao passado, de modo que ele seja iluminado pela projeção de um sentido que ainda não possui. Assim, a liberdade se manifesta como a capacidade de criar e transformar a própria realidade a partir de escolhas conscientes e projetos pessoais.
Para Sartre, ao agir e fazer escolhas, o indivíduo não está apenas realizando seu projeto pessoal, mas está também definindo e moldando o sentido da humanidade como um todo. Ao escolher, ele escolhe também para todos os homens, pois sua ação se torna um modelo de comportamento que é válido para toda a sociedade.
Sartre utiliza o exemplo da monogamia para ilustrar essa ideia. A decisão pessoal de casar-se e ter filhos, embora seja um ato individual, engaja toda a humanidade na prática da monogamia. A responsabilidade individual se amplia para uma dimensão universal, pois a ação de um indivíduo influencia a forma como a sociedade se organiza e estabelece padrões de comportamento.
Sartre ressalta que o existencialismo enfatiza essa ligação entre a liberdade de engajamento individual e o caráter relativo das escolhas culturais que podem resultar dessas ações. Isso significa que, embora a ação individual seja absoluta e livre, sua manifestação cultural pode variar em diferentes épocas e contextos sociais.
Dessa forma, Sartre não dá muita importância às explicações sociológicas mecanicistas, como a teoria do reflexo ou dos campos de Bourdieu, pois ele destaca a singularidade e a universalidade da responsabilidade individual, que se expressa no engajamento pessoal e na definição dos valores e comportamentos humanos.
O conceito de má-fé é fundamental na filosofia de Sartre está relacionado à responsabilidade do indivíduo em assumir a liberdade de suas escolhas e ações. A má-fé acontece quando alguém se recusa a reconhecer sua própria liberdade e escolhe se comportar como se fosse determinado por fatores externos ou pelo meio social.
Ao escolher a má-fé, o indivíduo evita a responsabilidade total de suas ações e se coloca como vítima das circunstâncias, negando assim sua liberdade de escolha. Em vez de reconhecer-se como agente livre, ele se ilude acreditando que suas ações são determinadas por forças externas, sociais ou estruturais, e que não possui controle sobre elas.
Essa atitude de má-fé para Sartre é uma forma de fugir da angústia e da responsabilidade que advêm do exercício da liberdade, mas, ao mesmo tempo, é uma negação da própria essência humana, que é ser livre para escolher e criar seu próprio caminho na vida.
Portanto, enquanto Sartre enfatiza a importância da liberdade individual e da responsabilidade que cada pessoa tem em suas ações, Bourdieu destaca a influência das estruturas sociais e das condições materiais sobre o comportamento humano. Ambas as perspectivas são complementares e contribuem para uma compreensão mais abrangente da ação e do ser humano na sociedade.
É interessante observar como as concepções filosóficas de Sartre e a teoria sociológica de Bourdieu diferem em relação a vários aspectos fundamentais, como a noção de liberdade, a relação com o passado, o papel da consciência na ação e a responsabilidade do indivíduo em suas escolhas.
Enquanto Sartre enfatiza a liberdade do sujeito individual e o papel da consciência na construção de sua própria identidade e sentido para a vida, Bourdieu coloca maior ênfase nas estruturas sociais, nas condições materiais e nas experiências passadas que moldam o agir humano de maneira mais determinista.
Além disso, a concepção de má-fé em Sartre ressalta a responsabilidade individual do sujeito em suas ações, enquanto em Bourdieu, a noção de habitus aponta para a influência das disposições adquiridas ao longo da trajetória do indivíduo na sociedade.
Essas diferenças filosóficas e sociológicas são fundamentais para entender como cada teoria aborda a questão do livre-arbítrio, da responsabilidade e da liberdade individual dentro do contexto social. A comparação e contraste entre essas perspectivas enriquecem nossa compreensão da complexidade humana e das várias dimensões que influenciam o comportamento e as escolhas das pessoas.
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