O Ocidente busca em vão uma forma de agonia digna de seu passado.
O Oriente se interessou pelas flores e pela renúncia. Nós lhe opomos as máquinas e o esforço, e esta melancolia galopante — último sobressalto do Ocidente.
As verdades do humanismo, a confiança no homem e o resto, só possuem ainda um vigor de ficções, uma prosperidade de sombras. O Ocidente era essas verdades; agora é apenas essas ficções, essas sombras. Tão miserável como elas, não pode vivificá-las; as arrasta, as expõe, mas não as impõe mais; deixaram de ser ameaçadoras. Da mesma forma, os que se agarram ao humanismo se servem de um vocábulo extenuado, sem suporte afetivo, de um vocábulo espectral.
Em todo caso, talvez este continente ainda não tenha jogado sua última cartada. E se se dedicasse a desmoralizar o resto do mundo, a propagar a sua pestilência? Seria uma maneira de conversar o seu prestígio, de exercer ainda a sua influência.
No futuro, se a humanidade tiver começar de novo, o fará com sua ralé, com os mongóis de toda parte, com a escória dos continentes; se delineará uma civilização caricatural, à qual aqueles que produziram a verdadeira assistirão impotentes, humilhados, prostrados, para refugiar-se ao final na idiotia, onde esquecerão o esplendor de seus desastres.
Mais que uma reação de defesa, a timidez é uma técnica, aperfeiçoada sem cessar pela megalomania dos incompreendidos.
Quando se aprende a beber nas fontes do Vazio, deixa-se de temer o futuro. O Tédio opera prodígios: converte a vacuidade em substância; é ele próprio vazio nutritivo.
Busquei em mim mesmo meu próprio modelo. Para imitá-lo, dediquei-me à dialética da indolência. É tão mais agradável fracassar na vida...
Quando se é jovem, pratica-se a filosofia menos para buscar nela uma visão que um estimulante; perseguem-se as idéias, adivinha-se o delírio que as produziu, sonha-se em imitá-lo e exagerá-lo. A adolescência se compraz no malabarismo das alturas; em um pensador ama o saltimbanco; em Nietzsche amávamos Zaratustra, suas poses, suas palhaçadas místicas, verdadeira feira de cumes... Sua idolatria da força é menos um sinal de esnobismo evolucionista que uma tensão interior projetada para fora, uma embriaguez que interpreta e aceita o devir. Disso tinha que resultar uma imagem falsa da vida e da história. Mas era necessário passar por aí, pela orgia filosófica, pelo culto da vitalidade. Os que se negaram a isso jamais conhecerão suas conseqüências, o reverso e as caretas desse culto; nunca compreenderão as raízes da decepção. Como Nietzsche, acreditávamos na perenidade de nossos transes; graças à maturidade de nosso cinismo, fomos ainda mais longe que ele. A idéia do super-homem nos parece, hoje, uma mera elucubração; naquela época nos parecia tão exata como um
dado experimental. Assim se eclipsou o ídolo de nossa juventude. Mas qual deles — se fossem vários — permanece ainda? É o perito em decadências, o psicólogo agressivo, não somente observador como os moralistas, que escruta como inimigo e se cria inimigos; mas seus inimigos ele os extrai de si mesmo, como os vícios que denuncia. Combate furiosamente os fracos?, pratica a introspecção; e quando ataca a decadência,
descreve seu próprio estado. Todo seu ódio se dirige indiretamente contra si mesmo. Proclama suas fraquezas e as erige em ideal; se se detesta, o cristianismo ou o socialismo sofrem as conseqüências. Seu diagnóstico do niilismo é irrefutável: porque ele mesmo é niilista e o confessa. Panfletário apaixonado por seus adversários, não teria conseguido suportar-se se não tivesse combatido contra si mesmo, se não tivesse colocado suas misérias em outro lugar, nos outros: vingou-se neles do que ele era. Tendo praticado a psicologia como herói, propõe aos apaixonados pelo Inextricável uma diversidade de impasses. Medimos sua fecundidade pelas possibilidades que nos oferece de renegá-lo continuamente sem esgotá-lo. Espírito nômade, é um especialista em variar seus
desequilíbrios. Sustentou sempre o pró e o contra de tudo: é o procedimento dos que se dedicam à especulação por não haver podido escrever tragédias ou dispersar-se em múltiplos destinos. O certo é que Nietzsche, expondo suas histerias, nos desembaraçou do pudor das nossas; suas misérias nos foram salutares. Ele inaugurou a era dos “complexos”.
Com um pouco mais de ardor no niilismo, me seria possível — negando tudo — sacudir minhas dúvidas e triunfar sobre elas. Mas só tenho o gosto da negação, não seu dom.
Aprofundar uma idéia é atentar contra ela: roubar-lhe o encanto e até a vida...
Que haja ou não uma solução para os problemas, isso só preocupa uma minoria; que os sentimentos não tenham nenhuma saída, que não venham dar em nada, que se percam neles mesmos, eis o drama inconsciente de todos, o insolúvel afetivo que cada um sofre sem pensar nele.
Neste universo provisório, nossos axiomas só tem um valor de notícias do dia.
Dever da lucidez: alcançar um desespero correto, uma ferocidade apolínea.
A morte se espalha tanto, ocupa tanto lugar, que não sei mais onde morrer.
Somos todos farsantes: sobrevivemos a nossos problemas.
Todo pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso.
Obrigando-nos a sorrir, sucessivamente, para as idéias daqueles a quem mendigamos, a Miséria converte nosso ceticismo em ganha-pão
O que faz o sábio? Resigna-se a ver, a comer etc..., aceita a despeito de si mesmo essa “chaga de nove aberturas” que é o corpo segundo o Bhagavad-Gita. A sabedoria? Sofrer dignamente a humilhação que nos infligem nossos buracos.
"Esgotados os modos de expressão, a arte se orienta para o sem-sentido, para um
universo privado e incomunicável. Todo estremecimento inteligível, tanto em pintura
como em música ou em poesia, nos parece, com razão, antiquado ou vulgar. O público
desaparecerá em breve; a arte o seguirá de perto.
Uma civilização que começou com as catedrais tinha que acabar no hermetismo da esquizofrenia.""
O espírito é o grande favorecido com as derrotas da carne. Enriquece-se à sua custa, a saqueia, regozija-se com suas misérias; vive do banditismo. A civilização deve seu êxito às proezas de um bandido.
Obrigando-nos a sorrir, sucessivamente, para as idéias daqueles a quem mendigamos, a Miséria converte nosso ceticismo em ganha-pão
Todo pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso.
Somos todos farsantes: sobrevivemos a nossos problemas.
A morte se espalha tanto, ocupa tanto lugar, que não sei mais onde morrer.
Dever da lucidez: alcançar um desespero correto, uma ferocidade apolínea.
A filosofia serve de antídoto contra a tristeza. E há quem ainda acredite na profundidade da filosofia.
Neste universo provisório, nossos axiomas só tem um valor de notícias do dia.
Afastei-me da filosofia no momento em que se tornou impossível para mim descobrir em Kant alguma fraqueza humana, algum acento de verdadeira tristeza”
Que haja ou não uma solução para os problemas, isso só preocupa uma minoria; que os sentimentos não tenham nenhuma saída, que não venham dar em nada, que se percam neles mesmos, eis o drama inconsciente de todos, o insolúvel afetivo que cada um sofre sem pensar nele.
Quando tudo se torna insípido à nossa volta, que tônico a curiosidade de saber de que maneira perderemos a razão!
Busquei em mim mesmo meu próprio modelo. Para imitá-lo, dediquei-me à dialética da indolência. É tão mais agradável fracassar na vida...
Premissa dos indolentes, esses metafísicos natos: o Vazio é a certeza que descobrem, ao final de sua carreira e como recompensa a suas decepções, as pessoas honestas e os filósofos profissionais.
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