Pesquisar este blog

A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 4 – 10) a dor e a excitação. 11) Spinoza e Hume: A Harpa dos afetos. 12) A admiração e o desprezo. 13) A atração e a aversão. 14) Adoração e o escárnio.


A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 4 – 10) A dor e a excitação. 11) Spinoza e Hume: A Harpa dos afetos. 12) A admiração e o desprezo. 13) A atração e a aversão. 14) A Adoração e o escárnio.



10) A dor e a excitação


Observa Spinoza que o nosso corpo é complexo, ele mesmo é constituído de partes, elas mesmas constituídas de sub-partes, partes do nosso corpo que estão em relação, que lutam pela sua própria potência e se esforçam por perseverar no ser.
Essas nossas partes, tanto quanto nós que somos parte do todo, também se esforçam, e, de alguma maneira, se alegram e se entristecem, e é por isso que muitas vezes temos tristezas setorizadas, quedas de potência particulares, específicas, localizadas no nosso corpo. Essas quedas de potências que não atingem todo nosso corpo, mas só uma parte dele receberá o nome de dor. A dor é queda de potência local.
Aqui ainda poderíamos dividir a dor em dois tipos: tristeza local e tristeza generalizada. A tristeza generalizada também ganha um nome: melancolia, tristeza pelo corpo inteiro, porta aberta para o suicídio. Naturalmente se a dor é localizada, na matemática dos afetos de Spinoza, também tem que ter a alegria setorizada, ganho de potência local, é a excitação, pois se pode alegrar por todas as partes, mais algumas se excitam mais, ganho de potência local.


11) Spinoza e Hume: A Harpa dos afetos


A Harpa dos afetos vai tendo seqüência, este é o momento para comentar aquilo que Spinoza tanto insiste: a idéia de que os afetos duram além da sua causa.
Essa reflexão permite entender que, para Spinoza, todo afeto é candidato a amor e a ódio, essas são as referencias de todo os afetos, são tudo que eles queriam ser, porque o amor e o ódio conseguiram o que os outros nem sempre conseguem: uma estimativa de duração.

É nesse sentido que Spinoza concorda em gênero, número e grau com David Hume, apesar de ter vivido um século antes, este segundo autor que vai traduzir essa situação em uma alegoria: os afetos Lembram mais uma harpa do que uma corneta, lembram mais um instrumento de corda do que um instrumento de sopro, porque em um instrumento de corda, ela vibra para além do dedilhar que lhe deu causa, no instrumento de sopro a corneta cessa tão logo o sopro se interrompa.
Assim somos mais harpa do que corneta, porque o encontro com o mundo determina em nosso corpo vibrações que duram mais do que o instante do encontro. Somos todos candidatos a amantes, porque, no final das contas, sempre haverá em toda a alegria uma candidatura a amor. É como se toda a alegria pedisse pelo amor de Deus para virar amor, clamasse para que tivéssemos uma idéia da tua causa e, com isso, fizesse com que ela durasse um pouco mais. Tudo isso faz parte do esforço terrível que fazemos para perseverar no ser. Faça dessa alegria um amor, perceba a idéia da sua causa, e com isso estique um pouco mais esse instante.

Quando se leva para casa a idéia do amor que sentiu no momento, consegue-se fazer com que, na Harpa dos nossos afetos, a alegria dure para além do instante vivido, dando razão a Spinoza e a Hume, não nos contentaremos com a alegria do dedilhar, mas conservaremos, na própria corda, a vibração afetiva que tanto nos ajudará a resistir.


12) A admiração e o desprezo


As definições vão se complicando, mas todas elas têm por eixo ganho ou perda de potência de agir. Admiração é a imaginação de alguma coisa a qual a mente se mantém fixada, justamente pela particularidade dessa imaginação singular em questão não ter qualquer conexão com as demais outras imaginações realizadas.

Fazendo um parêntese, existem amores de conexão imediata, Spinoza deixa isso claro, afinal de contas, como somos uma resistência em nome da alegria, nós nos apegamos a tudo que nos possa alegrar, por ex., em um momento passado que estivemos perto de uma pessoa atraente que usa sistematicamente um perfume específico, no momento presente que sentimos o cheiro desse perfume, fazemos a analogia com a pessoa que o utilizou naquele passado, curioso quando ainda hoje sentimos esse perfume a imagem da jovem mecanicamente atravessa a nossa mente, esforço pela alegria, resgate na memória de instantes alegres, afetos contíguos e correlatos.
Também tendemos a amar coisas semelhantes àquilo que nos alegrou, como também tendemos a odiar coisas semelhantes aquilo que nos entristeceu. Também às vezes, sem saber o motivo, não vamos com a cara de alguém, pois não conseguimos nos dar conta das semelhanças com algo que nos entristeceu em algum momento. O nosso corpo supera a nossa alma, a nossa consciência nem sempre dá conta de tudo aquilo que nos afeta, e, muitas vezes, simplesmente não vamos com a cara, ou então, vamos com a cara demais até, e raramente entendemos completamente o motivo, seja porque tal coisa lembra tal lugar, e nele fomos felizes, então é possível que aquilo nos mantenha alegre também, então vamos apostar.
Como é comum alguém se apaixonar em uma viagem de férias na praia, o amor se dá pelas férias na praia, mas nesse caso acreditamos amar a pessoa que estava nas férias da praia, e o que é incrível é que aquilo que não é a causa do nosso amor passa a ser referencia, daí encontramos alguém parecido com aquilo que era a causa errada do nosso amor e nos apaixonamos pela semelhança da causa errada do nosso amor, só que essa semelhança da causa errada do nosso amor não está na praia em Miami, mas está em um projeto social do bairro do Capão Redondo, como conseqüência dessa situação é que ficamos com aqueles afetos híbridos, sensações esquisitas, alegrias e tristezas que se entrecruzam. Os amores têm grande contigüidade, nós que não entendemos muito bem porque sentimos as coisas que sentimos, tudo é muito mais complexo do que podemos articular.

Mas admiração não é isso, ela é um tipo de alegria determinada por uma causa que julgamos isolada de qualquer outra, nela não conseguimos estabelecer nenhuma conexão daquilo que nos alegra com qualquer outra coisa que já tenha nos alegrado. Eu posso gostar de uma mulher e dizer que gosto dela pelo teu sorriso ser semelhante ao da Cléo Pires, isso não é admiração, mas trata-se de amor por associação. Posso dizer que gosto de uma mulher pelo fato dela gostar do que eu não gosto, isso também não é admiração, trata de amor por complementaridade. Mas posso dizer que gosto de uma mulher, por me alegrar, mas isso não tem nada a ver com nada que eu possa discernir como me tendo alegrado, isso sim é admiração.

Na admiração existe uma alegria desconectada, pelo menos para nós. Tanto quanto o desprezo é tristeza desconectada para nós. Olho para uma pessoa e digo que  me entristeces, e ela tenta perguntar o que recorda pra me entristecer, e respondo que não recorda nada, pelo fato dessa tristeza que sinto ser algo puro, virgem, cristalino, tristeza mesmo, não vejo nenhuma conexão com nada mais, assim ela é entristecedora na medula! Já admiração é imaginação que alegra genuinamente, o desprezo é tristeza que entristece genuinamente. Fantástico Spinoza em sua geometria gangorra dos afetos.


13) A atração e a aversão


A atração é uma alegria acompanhada da idéia de alguma coisa que por acidente é causa de alegria. A aversão é uma tristeza acompanhada da idéia de alguma coisa que por acidente é causa de tristeza. Isso é tão parecido com amor e ódio de fato, só tem um acidente de diferente, segundo Spinoza, e o que o autor quis dizer com acidente? O que difere a atração do amor e a aversão do ódio?

O que difere a atração do amor é a continuidade presumida. No amor presume-se uma relação em que tu levas a idéia da causa da alegria para a sua mente, e ao retornar para o momento alegre vivido vais alegrar-te de novo, tendo, de certa maneira, uma confirmação da alegria vivida outrora, com uma alegria renovada, é o reforço da idéia da causa daquela alegria, uma nova alegria, assim no amor se tem uma grande expectativa de continuidade.
Já a atração não, ela é surpreendente, escapa a essa presunção de continuidade e de longevidade na relação, a atração é de supetão. Continua explicando Spinoza que de uma atração é bem possível que tenhamos um amor, claro, que todo amor teve em algum momento um afeto de atração, claro também, que ódio não é aversão, pois ódio nós nutrimos em uma expectativa de longevidade, já a aversão surge para nós de supetão, por acidente, veio do nada e foi para o nada, e, lógico, quando dizemos isso nos referimos somente a nós mesmos, porque se pudéssemos olhar tudo de cima observaríamos que amores e ódio, aversões e atrações são afetos que só poderiam ser o que são.


14) A adoração e o escárnio


Adoração é amor que tem como princípio uma admiração, perceba que já estamos com três conceitos na mesma definição. (1) O amor é alegria acompanhada da idéia de sua causa. (2) Admiração é um tipo de alegria determinada por uma imagem e desconectada de todo o resto. (3) A adoração é um amor que começa com admiração, em outras palavras, é uma admiração que vira amor, é alguma coisa que surge do nada, termina em alegria e se converte em amor pela suposição da idéia de sua causa.

Na cultura vigente vivemos em uma sociedade em que amar e adorar tratam apenas de sinais de fragilidade. Somos adestrados a não admitir muito os afetos que sentimos, de certa maneira somos adestrados a não admitir até mesmo para nós esses afetos, nada como trabalhar na bolsa para não ter tempo de perceber as próprias sensações. A aceleração do mundo, a aproximação dos corpos, a redução das distancias, fez com que de fato as condições temporais de análise dos próprios afetos fossem dramaticamente perturbadas.
Nos estudos da cyber cultura analisam-se como são os novos afetos, os novos amores, as novas admirações, em um mundo onde não se espera três semanas para ler uma carta, mas trocam-se cartas em tempo real, a noite inteira. É claro que quem esperava três semanas para ler uma carta tinha mais tempo para se dar conta do que acontecia consigo mesmo, nós temos na verdade novos afetos para novos mundos, e, nesses novos afetos, a aceleração torna cada vez menos provável a consciência tranqüila das nossas oscilações.
De certa maneira o mundo contemporâneo nos obriga a sentir sem se dar conta, nos obriga a oscilar a potencia de agir, porque isso sempre acontecerá, porém sem ter tempo de maturação, a tal ponto que somos obrigados a pagar uma hora de psicanálise para abrir na nossa rotina um tempo e um espaço de auto-avaliação do que sentimos, e o analista pouco falará, trata-se apenas da oportunidade que tu se concedes, no meio do turbilhão de afetos que está imerso, para analisar alguns deles, trazê-los para a consciência, formular um discurso a respeito, fórmula maiúscula de conscientização dos afetos, através da enunciação de discursos a respeito.
Nossa! Como as condições materiais de vida mudaram, como os afetos mudaram. Não faz muito tempo vislumbrar a imagem de um corpo nu era alteração com preparação de semanas, hoje graças a internet pornográfica podemos flagrar coitos e ejaculações em espaço de segundos, milhares de corpos aparecem na nossa frente, de todos os tipos, formas, tamanhos, disposições, é claro que não tem como entender os afetos do mundo da vida sem entender o mundo que estamos inseridos, e Spinoza seria o primeiro a se interessar por tudo isso se não tivesse vivido no ano de 1600.
Ninguém aqui fala de afetos em tese, mas falamos de afetos vividos na vida, em mundos que são os nossos, de carne e osso. E é evidente que alegria, em Spinoza, é ganho em potência de agir, e hoje em dia continua sendo esse ganho, mas o mundo que alegra, esse mudou completamente, a freqüência dos encontros com o mundo mudou completamente, e a competência para processar as oscilações afetivas também devem mudar de alguma forma.

Estamos, na verdade, submetidos a novos processos de socialização, subjetivação, e afetivação que nos surpreendem a cada segundo, fazendo-nos, cada vez mais, expectadores perplexos das nossas próprias oscilações, das próprias transformações, sem condição material de processá-las, de incorporá-las em algum tipo de consciência que nos permitiria talvez amar mais, tendo idéias claras a respeito daquilo que nos alegra e nos entristece.

A conseqüência imediata da aceleração do mundo, quem ensina isso são os estudantes de Spinoza contemporâneos como Antonio Negri, é a dificuldade de amar. Estarmos confinados as cenóides das alegrias e das tristezas sem poder amar, porque na hora em que se vai formular uma tese sobre qual será a causa daquela alegria, tu já alegrou e entristeceu-se milhares de vezes, e aí na hora em que se conseguiu propor algum raciocínio já se trata de amor caduco e vencido, de ontem. Assim nos apaixonamos muito mais que três vezes ao dia, é tudo muito rápido e acelerado naturalmente, ante a essa aceleração e a impossibilidade de identificar causas das alegrias, vamos nos alegrando e entristecendo sem poder amar, isso nos aproxima da animalidade dramaticamente.

A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 3 – 6) A vida e a morte. 7) O amor e o ódio. 8) Consciência e afetos possíveis de amar / odiar. 9) Esperança e o temor, dois lados de uma mesma moeda.


A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 3 – 6) A vida e a morte. 7) O amor e o ódio. 8) Consciência e afetos possíveis de amar / odiar. 9) Esperança e o temor, dois lados de uma mesma moeda.



6) A vida e a morte.
  

Na filosofia de Spinoza a idéia da potência de agir é muito importante, o resto é apenas sintoma disso. Potência de agir é a essência, o esforço, isto porque não está nada fácil o homem ser homem com tantos mundos prejudicando-lhe.
Alegria é afeto onde a potência de agir aumenta. Tristeza é afeto onde a potência de agir diminui. Por isso que alegria é no sentido da perfeição e da vida, tristeza é no sentido da imperfeição e da morte. Faz sentido então a frase clássica de Spinoza: “Só morremos de tristeza”, em outras palavras, a própria idéia de morte em Spinoza não é apenas o desaparecimento da potência de agir por completo, tal como a entendemos nos velórios, não, mas sim é todo instante em que, na vida, a potência de agir cai, pois, nesse caso, somos menos de nós em nós mesmos, perdemos essência, e aquele que é menos de si em si mesmo é porque morreu um pouco.

A idéia de morte tal como se entende no senso comum definitivamente não serve para nada. Agora trazer a morte para dentro da vida parece altamente fecundo, afinal de contas, no momento que associamos tristeza à morte, temos um entusiasmo maior para cuidar direito da nossa vida e zelar por ela, não aceitar tão passivamente a tristeza, resistir melhor, não tolerar tão facilmente encontros que podemos vislumbrar como entristecedores.
No momento que cada tristeza é entendida como um pouco de nós que morre, percebemos o quão preciso é o instante em que a vida vive.
Insisto nisso porque a vida em sociedade nos adestra a tolerar a tristeza, aceitá-la como normal. Tanto é assim que quando tu lutas de verdade por um instante alegre é muito comum que a sociedade se organize para te dissuadir, é o Zaratustra do Nietzsche que melhor diz isso, se te apetecer repousar, repousa, se te apetecer esforçar, esforça, se te apetecer fugir, fuja, se te apetecer enfrentar, enfrente, mas veja bem o que te apetece e não recue diante de nenhum pretexto, porque o mundo se organizará para te dissuadir. Em Spinoza encontramos a mesma idéia, em Deleuze na “Máquina Desejante” idem. Toda vez que tu defines o que te alegra, é muito possível que as pessoas em tua volta afirmem que tu não és ninguém, então é normal que, para não enfrentar uma sociedade truculenta, nos habituemos a uma rotina de tristeza mascarada, é por isso que happy hour ocorre sempre nas sextas feiras às 18h30min, e o mais bacana, é a tranqüilidade e facilidade que aceitamos essas convenções, até lá é serviço, enquanto o trabalho dura não pode haver felicidade.

Naturalmente percebe-se o quanto a leitura de Spinoza é libertadora sem livre-arbítrio, porque a liberdade agora não se trata de escolher entre a dieta carnívora ou vegetariana, mas sim de perceber a inexorabilidade da existência e as condições ideais de luta pela própria potência.
Não se trata do livre arbítrio tolo de uma escolha irrisória e ilusória, mas sim de uma liberdade de outro padrão, a liberdade do sábio, daquele que sabe o que acontece é só o que poderia acontecer, porque tudo não é outra coisa senão apenas uma luta, a única que poderia ser por perseverar no próprio ser. O sábio que sabe que tudo é só como poderia ser, ele, sabendo tudo, sabe, assim se frustrará menos, trata de alguém que vive o mundo no mundo. O sábio tem um pouco de super-homem, simplesmente por suportar a vida na vida, sem recorrer a piruetas metafísicas, a grandes parafernálias lógicas transcendentais, deuses criadores, sociedade sem classe, democracias perfeitas, Atlântida, direitos humanos, que o homem inventa para escapar do encontro do real como ele é.


7) O amor e o ódio.


Naturalmente que depois da alegria e da tristeza poderíamos propor o amor, e, como tudo é geométrico e simétrico, junto com ele o ódio. O amor, sendo uma alegria, e o ódio, uma tristeza, mas é claro que o amor é uma alegria particular, senão seriam sinônimos. Também amor não é alegria, porque há alegrias que não são amorosas.

Quando que alegria é amor?
Alegria é amor quando vem acompanhado da idéia da sua causa, porque podemos nos alegrar e não ter a menor idéia do porque estamos alegres. Isso acontece muito freqüentemente, p. ex., naquela situação onde estamos bem, mas existem muitas outras situações que podem nos melhorar ainda mais, daí podemos nos alegrar e supor qual é a causa de nossa alegria. Aquilo que se supõe ser a causa dessa alegria é o objeto do nosso amor, quando p. ex., tu encontras alguém e diz: “a tua presença me afeta de alegria, e suponho com convicção conhecer a causa: você”. Trata de uma maneira de dizer eu te amo à moda de Spinoza. Claro que se poderia substituir a expressão alegria por passagem para um estado mais perfeito e potente do ser, isso torna a definição ainda mais charmosa: o encontro contigo, determinou em meu corpo, uma passagem para um estado mais perfeito e potente do ser, com causa suposta clara, você. Trata-se de dizer eu te amo para os eruditos leitores de Spinoza.

Existem outras particularidades que podemos trazer com o fio dessa definição: Spinoza não está dizendo que o amor é pela causa da alegria, mas que o amor é pela idéia da causa, ou seja, o que tu achas que causou a alegria, pode bem não ser a causa dela, é por isso que o amor de Spinoza, assim como qualquer outro, pode ser bem equivocado. Assim julgamos saber o que nos alegra, mas erramos, com isso insistimos que o amor é aquilo que definimos sê-lo, e, como nós ignoramos quase tudo, o amor é sempre uma suposição, e o objeto do amor uma idéia que nós mesmos fazemos das causas da nossa alegria.

Amor é ganho de potência, quando p. ex., um marido diz que ama sua esposa, mas ela o abarrota de tristeza, o pobre rapaz tem uma idéia de amor como um estado de princípio, assim: A ama B, mais ou menos como o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos, ou seja, é o que é e ponto.
De fato o amor é afeto, sendo assim, está no mundo da vida, portanto, não transcende ao trânsito da existência, mas está inscrito nela. Não se trata de “aconteça o que acontecer, mesmo que tu me destruas a existência, eu te amo”, mas sim que tu te relacionas com uma pessoa, e (1) em certos momentos ela alegra-te, tu percebe que ela te alegrou, assim tu a amas; (2) já em outros momentos ela alegra-te, mas tu não percebes que ela te alegrou, assim tu não a amas, e pensa estar nesse estado por outro motivo que não ela; e (3) tem outros momentos que ela entristece-te, tu achas que foi ela que te entristeceu, assim tu a odeias.
No matrimônio amores e ódios que oscilam ao sabor das alegrias e das tristezas, assim funciona, e para sempre. Diz um adágio: a tristeza mora do lado, esperar do matrimônio alegria e amor para sempre é desconsiderar a oscilação inexorável da potência de agir, portanto, em um matrimônio, tu amarás e odiarás na seqüência, e se esperar mais do que isso, é claro, está esperando do mundo mais do que ele pode oferecer.

Essa é a grande lição do pensamento de Spinoza, trata da desesperança, nos termos escritos pelo filósofo André Comte-Sponville, em sua obra “Felicidade Desesperançadamente”. Espere menos do mundo do que ele pode afetar-te, porque se tu esperas menos é possível que tu te frustres menos, assim, p. ex., querer exigir do cônjuge alegria atrás de alegria não tem possibilidade. Por outro lado na hora que tu aceitas o amor e o ódio na oscilação das alegrias e das tristezas, a vantagem é que o ódio chama mais a atenção, dele tu tens melhores condições de análise de que o outro te entristeceu, tu sabes que foi ele, e tu o odeias naquele instante.
A palavra ódio foi estigmatizada pelos monoteísmos como ruim, mas nada mais é que afeto, afinal se tu te entristeceste, e, sabendo qual mundo te deixou assim, só pode odiá-lo legitimamente, pois somos do tipo que odiamos quem nos contraria, e amamos quem é a nosso favor. Ser em nosso favor é proporcionar-nos alegrias, já quem entristece é contra a nós, só resta odiá-lo.


8) Consciência e afetos possíveis de amar / odiar


Por outro lado todo amor implica em algum tipo de consciência, porque, sendo seu objeto a idéia da causa, daí todos os afetos alegrados que não ingressam no espaço da consciência são impossíveis de amar. Talvez agora entenda a utilidade de incluir na consciência os afetos que antes ficavam na periferia, pois, puxa vida, se o amor é sensação boa de sentir, quanto mais tu tiveres noção daquilo que te alegra, mas tu tens condições de amar, tenderá a viver melhor. Para dar-se conta das alegrias do mundo é fundamental dar-se conta das relações que mantemos ininterruptamente com o mundo. As coisas do mundo que nos alegram são amáveis, devemos agradecê-las internamente, mas na nossa soberba, na nossa arrogância de auto-suficientes filhos de deus acreditamos que tanto a alegria como a tristeza são responsabilidade e méritos nossos, esquecemos de nos agradecer pelos mundos e pessoas que nos alegram, truculentos que somos, sem entender que a vida é a composição nossa com todo o resto, amor é alegria acompanhada da idéia da sua causa.
Talvez tu concluas que essa idéia te alegrou, e talvez tu suponhas que tenha sido a mesma idéia que tenhas te alegrado, portanto, tu carregas a idéia de Spinoza, ela é o objeto de teu amor, e ela ajudar-te-á muito, porque, já que o amor tem como causa a idéia de Spinoza, é possível alegrar-te mesmo que não leia esse texto, daí tu percebes que, com o amor, vencemos aquela sensação de leveza insuportável da seqüência dos afetos, de que alegria morre no instante mesmo que nasce.
Com o amor vencemos um pouco aquela sensação do transito inescapável dos instantes; levamos para a nossa vida o objeto, a idéia da causa da alegria vivida; puxamos o freio de mão; o tempo do mundo descola um pouco do tempo da alma; o tempo da alma se afasta do tempo do mundo; podemos esticar um pouco mais, o quanto possível, aquilo que nos alegrou, porque a idéia, essa levamos conosco, não precisa estar presente. Leve para tua vida a idéia do amor de Spinoza, objeto de teu amor, lembre dela, fala dela, alegre-se com ela, e aí tu perceberá com tranqüilidade o quanto podemos resistir e vencer essa montanha russa dos afetos, onde as tristezas teimam em aparecer arrebentando com nossas alegrias instantâneas, o amor nos permite, graças a idéia que temos do mundo, conservar  e segurar um pouco a alegria, ainda que seja ilusão, tão importante para uma vida menos dramática.


9) Esperança e o temor, dois lados de uma mesma moeda.


Relembrando: a alegria é algo que tu sentes quando ganha potência, o amor é algo que tu sentes quando ganha potência + supõe qual é a causa.
A esperança também trata de um ganho de potência determinado por uma idéia de mundo, porém aqui, determinado por uma suposição particular, de um real que tu não sabes se será real, determinado por um mundo apenas cogitado, mas não verificado, não concretizado, não acontecido, que apenas passa pela cabeça, mas que não tens a menor certeza que aconteceu.
Nesses termos, claro, é possível ter esperança de coisas que tu não sabes se vão acontecer, não só as futuras, mas as ignoradas, p. ex., um avião cai e um parente teu encontra-se a bordo, se resistiu ou se morreu, tu permaneces na ignorância, a esperança de que tenha sobrevivido permanece viva. Trata de um real cogitado que jamais tenha se confirmado, ganho de potência com reais apenas imaginados, eis a esperança.
A campanha da televisão Criança Esperança não dá lugar à criança a alegria, nem no seu slogan temos a amoral de resolver os problemas, porque Criança Esperança trata de criança que se alegra com mundos que não existem ainda, seria melhor se fosse Criança Alegria, Escolaridade, Saúde, Discernimento, Vida Boa, Concretude. Esperança é um afeto determinado por elucubrações de mundos delirantes, esperança não basta.

Alguém poderia perguntar: Se na esperança ganhamos potência, então, nesse caso, a esperança não é boa?
Essa não é a perspectiva de Spinoza, porque como a esperança é determinada por uma idéia de mundo que não se confirma, é claro que o contrário do mundo cogitado também pode aparecer na mente, é por isso que toda a esperança é inseparável do seu contrário, o temor, que é a queda de potência determinado por um mundo cogitado, suposto, mas não verificado.

Como os mundos são incertos, tanto o da esperança como o do temor, toda a esperança vem acompanhada de temor, pois se pode ter esperança p. ex, que meu time ganhe, ela é inseparável da esperança que ele perca de novo. A esperança que algo aconteça é inseparável do temor que ele não aconteça.
É diferente da alegria e da tristeza, pois nessas duas o mundo está ali diante de ti, já aconteceu, alegrou ou entristeceu.
No caso do temor e da esperança tratam de dois lados da mesma moeda, são inseparados, viver esperançosamente é viver em temor, de forma amedrontada, portanto, não é o que se pretende.
Na verdade, enquanto imaginamos mundos, o real, de carne e osso, desfila na nossa frente. Assim, toda a esperança acaba fazendo curto circuito com uma alegria, porque claro que no lugar do mundo que cogitamos tem outro, bem diante de nossos olhos, e ele poderia estar nos alegrando.

Aquele que vive entre o demônio e a esperança acaba perdendo a oportunidade de viver uma alegria plena e tristeza plena.
O temor e a esperança é um escape determinado por um receio enorme que temos que o mundo nos entristeça, mas aquele que vive pirado pelas próprias idéias, enfeitiçado pelas próprias cogitações, a mercê das próprias divagações, acaba se impedindo de encontrar o mundo como ele é, amá-lo como se apresenta diante de si.
Assim damo-nos conta de que uma alegria plena pressupõe certa desesperança, pressupõe estarmos 100% galvanizados, absorvidos pelo mundo da vida, porque se tivermos com a mente voltada à outros mundos, estaremos metade em cada um deles, fracos, desarmados, despotencializados, cada caco em um canto. Alegria plena pressupõe corpo e alma voltados para o mundo tal como ele se apresenta diante de nós.

É sempre aquela velha lição clássica retomada dos estóicos por Sponville: lamentar um pouco menos, esperar um pouco menos e amar um pouco mais, amar o mundo como ele é, deixar-se alegrar pelo mundo como ele se apresenta, eis aí um grande desafio.
No amor de Platão, Eros, o desejo é pelo que falta, e o que falta trata-se de algo de nossa cabeça, porque ao mundo não falta nada, ensina Spinoza, o real é o que é, toda falta é só um entendimento equivocado do mundo. Quando vemos lacunas no real, trata de um desalinhamento entre o que esperamos do mundo e o que ele realmente é, porque o mundo não pode estar errado, ele só é, erro é atributo de pensamento, de expectativa, de quem pensa sobre o modo. O mundo segue impávido conosco a sua trajetória, somos nós que vemos nele faltas, lacunas, injustiças, imperfeições, assim, claro, esse problema é nosso.
Conseguir amar o mundo como ele é, trata-se de um grande desafio. Apaixonar-se pelo que falta, trata de apaixonar-se por desejos, aquilo que não se tem e gostaria de possuí-lo, é tão mais fácil e simplório, nível zero de espiritualidade é amor pelo que falta.
Já a alegria pelo que não falta, o amor philia em Aristóteles, ou, o amor de Spinoza, diferentemente, aqui sendo aquele acompanhado da idéia de sua causa, esse já requer um pouco mais de sofisticação, elevação espiritual. Não é a mesma coisa, estar, p. ex., apaixonado por uma mulher que nunca agarrou e alegrar-se por outra com quem convive.
É preciso apreço pelos detalhes para amar o mundo tal como ele se apresenta, esse não é para qualquer um, daí por isso que a definição de amor em Spinoza tanto encanta. Quando se ama alguém à moda de Platão constrange o outro, pois, como deseja, e o faz na falta, e o desejo busca a presença, é preciso submeter. Por outro lado amar alguém à moda de Spinoza, trata de agradecer por existir, por patrocinar uma idéia que tanto alegra, e o máximo que o amado dirá é que fica feliz por se alegrar com a déia de que ele existe.
Assim a esperança não é tão boa quanto parece, é o que Spinoza, entre outros, chama de paixão triste, pois apesar de haver ganho de potência, ela é triste, pois tem causa cogitada, descolada do real. É por isso que a boa atitude é a vida na desesperança, amor ao mundo como ele é, coisa para sábios.