A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 4 – 10) A dor e a excitação. 11) Spinoza e Hume: A Harpa dos afetos. 12) A admiração e o desprezo. 13) A atração e a aversão. 14) A Adoração e o escárnio.
10) A dor e a excitação
Observa Spinoza que o nosso corpo
é complexo, ele mesmo é constituído de partes, elas mesmas constituídas de
sub-partes, partes do nosso corpo que estão em relação, que lutam pela sua própria
potência e se esforçam por perseverar no ser.
Essas nossas partes, tanto quanto
nós que somos parte do todo, também se esforçam, e, de alguma maneira, se
alegram e se entristecem, e é por isso que muitas vezes temos tristezas
setorizadas, quedas de potência particulares, específicas, localizadas no nosso
corpo. Essas quedas de potências que não atingem todo nosso corpo, mas só uma
parte dele receberá o nome de dor. A dor é queda de potência local.
Aqui ainda poderíamos dividir a
dor em dois tipos: tristeza local e tristeza generalizada. A tristeza
generalizada também ganha um nome: melancolia, tristeza pelo corpo inteiro,
porta aberta para o suicídio. Naturalmente se a dor é localizada, na matemática
dos afetos de Spinoza, também tem que ter a alegria setorizada, ganho de
potência local, é a excitação, pois se pode alegrar por todas as partes, mais
algumas se excitam mais, ganho de potência local.
11) Spinoza e Hume: A Harpa
dos afetos
A Harpa dos afetos vai tendo
seqüência, este é o momento para comentar aquilo que Spinoza tanto insiste: a
idéia de que os afetos duram além da sua causa.
Essa reflexão permite entender
que, para Spinoza, todo afeto é candidato a amor e a ódio, essas são as
referencias de todo os afetos, são tudo que eles queriam ser, porque o amor e o
ódio conseguiram o que os outros nem sempre conseguem: uma estimativa de
duração.
É nesse sentido que Spinoza
concorda em gênero, número e grau com David Hume, apesar de ter vivido um século
antes, este segundo autor que vai traduzir essa situação em uma alegoria: os
afetos Lembram mais uma harpa do que uma corneta, lembram mais um instrumento
de corda do que um instrumento de sopro, porque em um instrumento de corda,
ela vibra para além do dedilhar que lhe deu causa, no instrumento de sopro a
corneta cessa tão logo o sopro se interrompa.
Assim somos mais harpa do que
corneta, porque o encontro com o mundo determina em nosso corpo vibrações que
duram mais do que o instante do encontro. Somos todos candidatos a amantes,
porque, no final das contas, sempre haverá em toda a alegria uma candidatura a
amor. É como se toda a alegria pedisse pelo amor de Deus para virar amor,
clamasse para que tivéssemos uma idéia da tua causa e, com isso, fizesse com
que ela durasse um pouco mais. Tudo isso faz parte do esforço terrível que
fazemos para perseverar no ser. Faça dessa alegria um amor, perceba a idéia da
sua causa, e com isso estique um pouco mais esse instante.
Quando se leva para casa a idéia
do amor que sentiu no momento, consegue-se fazer com que, na Harpa dos nossos
afetos, a alegria dure para além do instante vivido, dando razão a Spinoza e a
Hume, não nos contentaremos com a alegria do dedilhar, mas conservaremos, na
própria corda, a vibração afetiva que tanto nos ajudará a resistir.
12) A admiração e o desprezo
As definições vão se complicando,
mas todas elas têm por eixo ganho ou perda de potência de agir. Admiração é
a imaginação de alguma coisa a qual a mente se mantém fixada, justamente pela
particularidade dessa imaginação singular em questão não ter qualquer conexão
com as demais outras imaginações realizadas.
Fazendo um parêntese, existem
amores de conexão imediata, Spinoza deixa isso claro, afinal de contas, como
somos uma resistência em nome da alegria, nós nos apegamos a tudo que nos possa
alegrar, por ex., em um momento passado que estivemos perto de uma pessoa
atraente que usa sistematicamente um perfume específico, no momento presente que
sentimos o cheiro desse perfume, fazemos a analogia com a pessoa que o utilizou
naquele passado, curioso quando ainda hoje sentimos esse perfume a imagem da
jovem mecanicamente atravessa a nossa mente, esforço pela alegria, resgate na memória
de instantes alegres, afetos contíguos e correlatos.
Também tendemos a amar coisas
semelhantes àquilo que nos alegrou, como também tendemos a odiar coisas semelhantes
aquilo que nos entristeceu. Também às vezes, sem saber o motivo, não vamos com
a cara de alguém, pois não conseguimos nos dar conta das semelhanças com algo
que nos entristeceu em algum momento. O nosso corpo supera a nossa alma, a
nossa consciência nem sempre dá conta de tudo aquilo que nos afeta, e, muitas
vezes, simplesmente não vamos com a cara, ou então, vamos com a cara demais
até, e raramente entendemos completamente o motivo, seja porque tal coisa
lembra tal lugar, e nele fomos felizes, então é possível que aquilo nos
mantenha alegre também, então vamos apostar.
Como é comum alguém se apaixonar
em uma viagem de férias na praia, o amor se dá pelas férias na praia, mas nesse
caso acreditamos amar a pessoa que estava nas férias da praia, e o que é incrível
é que aquilo que não é a causa do nosso amor passa a ser referencia, daí
encontramos alguém parecido com aquilo que era a causa errada do nosso amor e nos
apaixonamos pela semelhança da causa errada do nosso amor, só que essa
semelhança da causa errada do nosso amor não está na praia em Miami, mas está
em um projeto social do bairro do Capão Redondo, como conseqüência dessa situação
é que ficamos com aqueles afetos híbridos, sensações esquisitas, alegrias e
tristezas que se entrecruzam. Os amores têm grande contigüidade, nós que não
entendemos muito bem porque sentimos as coisas que sentimos, tudo é muito mais
complexo do que podemos articular.
Mas admiração não é isso, ela é
um tipo de alegria determinada por uma causa que julgamos isolada de qualquer
outra, nela não conseguimos estabelecer nenhuma conexão daquilo que nos alegra
com qualquer outra coisa que já tenha nos alegrado. Eu posso gostar de uma
mulher e dizer que gosto dela pelo teu sorriso ser semelhante ao da Cléo Pires,
isso não é admiração, mas trata-se de amor por associação. Posso dizer que
gosto de uma mulher pelo fato dela gostar do que eu não gosto, isso também não
é admiração, trata de amor por complementaridade. Mas posso dizer que gosto de
uma mulher, por me alegrar, mas isso não tem nada a ver com nada que eu possa
discernir como me tendo alegrado, isso sim é admiração.
Na admiração existe uma alegria
desconectada, pelo menos para nós. Tanto quanto o desprezo é tristeza
desconectada para nós. Olho para uma pessoa e digo que me entristeces, e ela tenta perguntar o que recorda
pra me entristecer, e respondo que não recorda nada, pelo fato dessa tristeza
que sinto ser algo puro, virgem, cristalino, tristeza mesmo, não vejo nenhuma
conexão com nada mais, assim ela é entristecedora na medula! Já admiração é
imaginação que alegra genuinamente, o desprezo é tristeza que entristece
genuinamente. Fantástico Spinoza em sua geometria gangorra dos afetos.
13) A atração e a aversão
A atração é uma alegria
acompanhada da idéia de alguma coisa que por acidente é causa de alegria. A
aversão é uma tristeza acompanhada da idéia de alguma coisa que por acidente é
causa de tristeza. Isso é tão parecido com amor e ódio de fato, só tem um
acidente de diferente, segundo Spinoza, e o que o autor quis dizer com
acidente? O que difere a atração do amor e a aversão do ódio?
O que difere a atração do amor é
a continuidade presumida. No amor presume-se uma relação em que tu levas a
idéia da causa da alegria para a sua mente, e ao retornar para o momento alegre
vivido vais alegrar-te de novo, tendo, de certa maneira, uma confirmação da
alegria vivida outrora, com uma alegria renovada, é o reforço da idéia da causa
daquela alegria, uma nova alegria, assim no amor se tem uma grande expectativa
de continuidade.
Já a atração não, ela é surpreendente,
escapa a essa presunção de continuidade e de longevidade na relação, a atração
é de supetão. Continua explicando Spinoza que de uma atração é bem possível que
tenhamos um amor, claro, que todo amor teve em algum momento um afeto de
atração, claro também, que ódio não é aversão, pois ódio nós nutrimos em uma
expectativa de longevidade, já a aversão surge para nós de supetão, por
acidente, veio do nada e foi para o nada, e, lógico, quando dizemos isso nos
referimos somente a nós mesmos, porque se pudéssemos olhar tudo de cima observaríamos
que amores e ódio, aversões e atrações são afetos que só poderiam ser o que
são.
14) A adoração e o escárnio
Adoração é amor que tem como
princípio uma admiração, perceba que já estamos com três conceitos na mesma
definição. (1) O amor é alegria acompanhada da idéia de sua causa. (2) Admiração
é um tipo de alegria determinada por uma imagem e desconectada de todo o resto.
(3) A adoração é um amor que começa com admiração, em outras palavras, é uma
admiração que vira amor, é alguma coisa que surge do nada, termina em alegria e
se converte em amor pela suposição da idéia de sua causa.
Na cultura vigente vivemos em uma
sociedade em que amar e adorar tratam apenas de sinais de fragilidade. Somos
adestrados a não admitir muito os afetos que sentimos, de certa maneira somos
adestrados a não admitir até mesmo para nós esses afetos, nada como trabalhar
na bolsa para não ter tempo de perceber as próprias sensações. A aceleração do
mundo, a aproximação dos corpos, a redução das distancias, fez com que de fato
as condições temporais de análise dos próprios afetos fossem dramaticamente
perturbadas.
Nos estudos da cyber cultura
analisam-se como são os novos afetos, os novos amores, as novas admirações, em
um mundo onde não se espera três semanas para ler uma carta, mas trocam-se
cartas em tempo real, a noite inteira. É claro que quem esperava três semanas
para ler uma carta tinha mais tempo para se dar conta do que acontecia consigo
mesmo, nós temos na verdade novos afetos para novos mundos, e, nesses novos
afetos, a aceleração torna cada vez menos provável a consciência tranqüila das
nossas oscilações.
De certa maneira o mundo contemporâneo
nos obriga a sentir sem se dar conta, nos obriga a oscilar a potencia de agir,
porque isso sempre acontecerá, porém sem ter tempo de maturação, a tal ponto
que somos obrigados a pagar uma hora de psicanálise para abrir na nossa rotina
um tempo e um espaço de auto-avaliação do que sentimos, e o analista pouco
falará, trata-se apenas da oportunidade que tu se concedes, no meio do
turbilhão de afetos que está imerso, para analisar alguns deles, trazê-los para
a consciência, formular um discurso a respeito, fórmula maiúscula de
conscientização dos afetos, através da enunciação de discursos a respeito.
Nossa! Como as condições
materiais de vida mudaram, como os afetos mudaram. Não faz muito tempo
vislumbrar a imagem de um corpo nu era alteração com preparação de semanas,
hoje graças a internet pornográfica podemos flagrar coitos e ejaculações em
espaço de segundos, milhares de corpos aparecem na nossa frente, de todos os
tipos, formas, tamanhos, disposições, é claro que não tem como entender os
afetos do mundo da vida sem entender o mundo que estamos inseridos, e Spinoza
seria o primeiro a se interessar por tudo isso se não tivesse vivido no ano de
1600.
Ninguém aqui fala de afetos em
tese, mas falamos de afetos vividos na vida, em mundos que são os nossos, de
carne e osso. E é evidente que alegria, em Spinoza, é ganho em potência de
agir, e hoje em dia continua sendo esse ganho, mas o mundo que alegra, esse
mudou completamente, a freqüência dos encontros com o mundo mudou completamente,
e a competência para processar as oscilações afetivas também devem mudar de
alguma forma.
Estamos, na verdade, submetidos a
novos processos de socialização, subjetivação, e afetivação que nos surpreendem
a cada segundo, fazendo-nos, cada vez mais, expectadores perplexos das nossas
próprias oscilações, das próprias transformações, sem condição material de
processá-las, de incorporá-las em algum tipo de consciência que nos permitiria
talvez amar mais, tendo idéias claras a respeito daquilo que nos alegra e nos
entristece.
A conseqüência imediata da
aceleração do mundo, quem ensina isso são os estudantes de Spinoza
contemporâneos como Antonio Negri, é a dificuldade de amar. Estarmos confinados
as cenóides das alegrias e das tristezas sem poder amar, porque na hora em que
se vai formular uma tese sobre qual será a causa daquela alegria, tu já alegrou
e entristeceu-se milhares de vezes, e aí na hora em que se conseguiu propor
algum raciocínio já se trata de amor caduco e vencido, de ontem. Assim nos
apaixonamos muito mais que três vezes ao dia, é tudo muito rápido e acelerado
naturalmente, ante a essa aceleração e a impossibilidade de identificar causas
das alegrias, vamos nos alegrando e entristecendo sem poder amar, isso nos
aproxima da animalidade dramaticamente.
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