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A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 5 (final) - 16) Segurança e o desespero ou insegurança, diferente da esperança. 17) Afetos, o corpo humano e a sociedade. 18) O Gaudio e a decepção. 19) Os afetos, a flutuação da alma e o conceito de angústia. 20) O reconhecimento e a indignação, nós e o outro.


A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 5 (final) - 16) Segurança e o desespero ou insegurança, diferente da esperança. 17) Afetos, o corpo humano e a sociedade. 18) O Gaudio e a decepção. 19) Os afetos, a flutuação da alma e o conceito de angústia. 20) O reconhecimento e a indignação, nós e o outro.



16) Segurança e o desespero ou insegurança, diferente da esperança.



Spinoza define segurança como uma alegria surgida da idéia de uma coisa futura ou passada da qual foi afastada qualquer causa de dúvida. A segurança é uma alegria a respeito de mundos absolutamente seguros. Alegria determinada por mundos passados ou mundos futuros. Situação da nossa cabeça, porque o mundo, nele mesmo, nunca se encontra nem no passado nem no futuro. Segurança é alegria determinada por coisas que já vivemos ou vamos viver, das quais isolamos qualquer possibilidade de dúvida de não ocorrência.

A segurança não é esperança. A esperança é alegria determinada por cogitações de mundos incertos, sob os quais pairam muita dúvida, o medo também, porém a segurança não! Ela é a eliminação radical de dúvida, o fato aconteceu ou vai acontecer mesmo, e, no entanto, nos sentimos seguros.
Alguém poderia perguntar como uma pessoa pode ter certeza de que alguma coisa vai acontecer? Isso não importa, trata de algo de cada um, aqui estamos falando de afeto. Dizer que se sente seguro significa dizer que se sente alegre por pensar em alguma coisa que necessariamente ou já aconteceu ou está em meados de ocorrer. A certeza é de cada um, coisa de afeto. Sou eu que tenho certeza, tenho segurança, o mundo não garante nada.
Além do mais, a segurança não é esperança porque nesse caso não se existe segurança, por isso que o tema da campanha da televisão chama-se “Criança Esperança”, ali há simplesmente uma torcida. Já a segurança é a alegria determinada por uma idéia sobre a qual não pairam dúvidas, trata de certeza subjetiva, de cada um, ou, se preferir fé.

Temos também a insegurança, que não se trata da existência de duvida, porque daí estaríamos falando de temor, mas insegurança é a certeza entristecedora  inexoravelmente determinada pela cogitação sobre o mundo sobre o qual não pairam dúvidas, em outras palavras, o que se acha que vai acontecer, se terá certeza que vai ocorrer daí tristeza será inexorável. Assim, diferentemente, quando alguém disser que se sente inseguro por não saber se vai acontecer o que ele acha que acontecerá, pode-se sentir como quiser, mas não é insegurança, mas sim medo.



17) Afetos, o corpo humano e a sociedade.



Não sei se já percebeu, mas tudo nos afetos de Spinoza tem a ver com ganho e perda de potência, o que vai diversificar é a sua causa. Ora é o mundo, o que se imagina do mundo, ora o mundo é certo, incerto, ora o mundo é futuro, passado, mas não importa! Todas essas explicações têm apenas uma lógica: o que alegra e o que entristece: os dois afetos matriz. Assim posso ter certeza ou incerteza, pode ser junto ou isolado, pode ser contíguo ou correlato, indiferentemente, tudo isso se resume em ganhar ou perder potência de agir, se alegrar ou se entristecer, de resto o nome varia em função da causa, da alegria e da tristeza.

Essas noções nunca são estudadas na grade escolar porque o papel da civilização é canalizar a nossa potência de agir para aquilo que lhe é útil. Assim quanto mais consciência nós tivermos das nuances que a civilização produz em nossos afetos, menos estaremos dispostos a que ela nos deixe ortopedizar (noção de Foucault que tem a ver com palmilha), e assim possamos moldar nosso corpo para que nos alegremos com aquilo que deve evidentemente nos alegrar.

Assim como saber quando nos alegramos, afinal, somos nós mesmos alegrados ou a sociedade que fez a nossa alegria? A resposta é que não tem como saber, porque somos um só: nós e o que a sociedade fez de nós.
Então não nos reconhecemos mais? Ótimo, isso é um sinal de lucidez, afinal quando buscamos coisas que a sociedade não autoriza isso lhe entristece, daí associamos esse fato com a tristeza, de tal maneira que, em uma situação superveniente aquilo nos entristece de novo, daí nós já a evitamos e passamos a nos alegrar com aquilo que é o contrário da nossa tristeza, e assim fabricamos exércitos, gados, todos de mochila na porta das faculdades, todos iguais, vestidos iguais, falando a mesma língua, todos docilizados, conformados na forma da civilização em nome da ordem social e da paz universal.

As tuas alegrias e tristezas não são apenas o GPS da tua natureza autêntica, mas também indicam o que o mundo fez contigo, tudo em nome da ordem civilizatória, da movimentação da indústria, de um consumo legítimo. Assim é fácil entender porque agimos de um jeito ou de outro, pois, de alguma forma, tristezas e alegrias acabam nos ensinando a sentir como temos que sentir, é isso que Foucault chama de ortopedização dos corpos, trata da sociedade moldando você através do cerco dos afetos, traumas, impactos para se comportar alinhadamente, adequadamente, ajustadamente.

Naturalmente que o preço do tamanho da tristeza será proporcional ao tamanho da heresia. O código Penal é bem claro: se tu fizeste um crime tua pena terá um mínimo e um máximo, esse é o tamanho da tristeza e o tamanho da heresia, e aí tu começas a perceber que toda sociedade tem um escalonamento de heresias e um escalonamento de tristezas que podem ir da chacota, heresia mais leve, à pena de morte. E aí se percebe que sentir não é só uma coisa de ti, mas tem a ver com teu corpo, ele mesmo sendo resultado de um trabalho ininterrupto de civilização que lhe é imposto pela vida em sociedade do nascimento à cova.



18) O Gaudio e a decepção.



O gaudio ocorre quando algo é surpreendente, alegria inesperada, o contrário da decepção que tem a ver com uma tristeza inesperada. Gaudio Trata de uma alegria acompanhada da idéia de alguma coisa passada que se realizou contrariamente ao esperado. Assim se disséssemos: “tudo que gostaria era que Maria nos afetasse de gaudio!”, não se trata de dizer que o esperado de Maria, para nós, fosse apenas um lixo, não! Afinal a dinâmica do gaudio ocorre na contramão daquilo que foi esperado propriamente dela.

Naturalmente a decepção é o seu contrário: uma tristeza acompanhada da idéia de uma coisa que se realizou na contramão do esperado. Naturalmente a decepção ocorre quando havia expectativa de alegria , o gaudio ocorre quando havia expectativa de tristeza.

Pode haver gaudio no amor? Sim! Pode haver decepção no amor? Sim! Aqui começamos a cruzar os afetos. Aqui devemos lembrar que como somos afetados de forma complexa por muitos corpos e muitos mundos, nada impede que sejamos afetados de forma incoerente, nada impede que sejamos afetados de alegria e de tristeza ao mesmo tempo, isso porque algum mundo determina em nós ganho de potência e outros perda de potência, é o hibridismo afetivo.



19) Os afetos, a flutuação da alma e o conceito de angústia.



É exatamente nesse momento que conseguimos definir aquilo que Spinoza chama de flutuação da alma, trata da oscilação entre afetos determinados por idéias que temos do mundo e de nós. A flutuação da alma mais conhecida é entre temor e esperança, ela é sempre determinada por afetos cuja causa são as idéias.

Não há flutuação da alma entre a segurança e a insegurança ou o desespero, pois como há segurança, assim não tendo dúvidas, a alma não flutua. O que quis dizer com isso é que temos um apreço espetacular por coisas seguras e certeiras, pois isso nos dá âncora, nos firma no chão, mas aqueles que gostam de filosofia já se acostumaram a essa dificuldade.
Não sei se já percebeste, mas existem espaços sociais cheios de certezas, quase sempre habitados por pessoas cheias de certezas, quase sempre essas pessoas colocam suas certezas em powerpoint, porque esse é um lugar que cabe certezas, mas, também, não sei se já percebeste, mas é muito difícil colocar uma incerteza em um PowerPoint, não cabe incerteza nesse software.

Porque temos apego à certeza? Porque ela nos leva a segurança, a certeza é coisa da mente humana. Segurança é afeto que vem de certeza, e a segurança impede que a alma flutue. Quando há incerteza não há segurança, daí oscilamos como p. ex., entre o temor e a esperança, e a flutuação da alma é das piores sensações que podemos ter.

A flutuação da alma em Spinoza é a matéria prima que usou o filósofo Kierkegaard para desenvolver seu conceito de angústia, aqui ela é a forma contemporânea de flutuação da alma, pressupõe incerteza sobre a melhor maneira de viver; incerteza sobre o valor dos valores; incerteza sobre os bons critérios para identificação das vidas boas.

Toda angústia é flutuação da alma porque ora nos alegramos e ora nos entristecemos com mundos sob os quais não temos certeza e, no final das contas, a flutuação entre essas duas situações é uma sensação que faz parte da nossa vida, não se trata de simplesmente um discurso a mais para tu aprender, anotar, memorizar e utilizar em situações de pedância intelectual, não! Trata de perceber que isso faz parte da tua vida na hora de descer escada p. ex., a oscilação entre o temor e a esperança é a conseqüência e tradução afetiva da nossa incompetência intelectual sobre o mundo, como quase tudo para nós é incerto só nos resta pagar o preço de nossa ignorância, e o corpo paga o preço da ignorância do intelecto oscilando, sofrendo mesmo.



20) O reconhecimento e a indignação, nós e o outro.



O reconhecimento é o amor por alguém que fez bem a outro. O amor é alegria. O amor por outro é o amor por alguém que supomos ser causa dela. E o reconhecimento é o amor por alguém que nos alegrou porque alegrou alguém. Naturalmente que o contrário do reconhecimento é a indignação, trata de um ódio por alguém que entristeceu outro e, naturalmente, eu reconheço alguém quando amo este pela alegria que proporcionou, e assim, fico indignado, com alguém porque eu o odeio pela tristeza que produziu a outro.

Espero que perceba que mesmo na filosofia mais materialista, e, supostamente, egóica, de Spinoza o outro conta demais. É verdade que tudo termina na gente, mas o outro conta muito porque se o amor é alegria acompanhada da idéia de sua causa, é imprescindível que nos alegramos com a alegria de amar, conseqüência inexorável.

Amar e alegrar-se com a alegria flagrada no amor, do mesmo jeito que odiar é entristecer-se com a tristeza flagrada no odiar. E quando o amado se alegra nos alegramos também, e é por isso também que fazemos de tudo para que o amado se alegre, afinal com a alegria do amado temos pronta a causa da própria alegria. A alegria do Amado é causa inexorável da nossa própria, a tristeza do amado é causa inexorável da nossa própria tristeza. Aqui tu deves ter percebido que mesmo sendo regido pelos nossos próprios afetos, mesmo sendo uma potência que luta por potência, mesmo sendo conatus e esforço para perseverar no próprio ser, nossos afetos estão absolutamente correlatos aos daqueles que nos afetam. Amar é alegrar-se com a alegria do amado que é a causa da própria alegria.

É incrível como essa definição se aplica a certos deveres profissionais. Como o dever do professor de amar os alunos, se não amá-los o sujeito não é professor, está simplesmente complementando seu orçamento. O professor só pode mesmo amar o aluno, e amá-lo é um risco, pois todo amor é um risco, daqueles que melhor simboliza o de viver: estar à mercê da tristeza do outro que, implacavelmente, determina a nós.

Como a civilização do século XX se dizia aquela do risco zero seu primeiro passo foi banir o amor, todo indivíduo que se diz afetado por ele é imediatamente rotulado de um fraco a ser adestrado, porque existe no amor uma dependência afetiva que fragiliza, como tudo na vida, arriscado, perdemos o controle, como se tivéssemos algum dia tido algum, e precisamos da alegria do outro senão não nos conseguimos alegrar, a isso chamam de amor, não se trata de mérito moral nem virtude ética, mas sim afeto, é o que é. Há aqueles que, como nós, amam os alunos, para além da particularidade de cada um, amar profissão de professor é amar os alunos, e amá-los é estranhamente estar à mercê de sua alegria, mas não qualquer alegria, mas de entender melhor as coisas, aprender o que não sabia, de alegrar o próprio repertório, alegria toda nossa de conhecer mais hoje do que se conhecia ontem, essa é a alegria que o professor precisa tanto para se alegrar também.

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