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MARX, O TERCEIRO GRANDE CONTINENTE CIENTÍFICO DA HISTÓRIA DO PENSAMENTO. - parte 1 - 1) A pretensão marxiana: a fundação de uma nova ciência. 2) O método de produção da ciência. 2.1) Marx versus Nietzsche: a produção da verdade. 3) Quais são os conceitos de que estamos falando? 4) O que, em Marx, devemos entender por materialismo? 4.1) Ciência e Filosofia unidas.


Marx, o terceiro grande continente científico da história do pensamento. - parte 1 - 1) A pretensão marxiana: a fundação de uma nova ciência. 2) O método de produção da ciência. 2.1) Marx versus Nietzsche: a produção da verdade. 3) Quais são os conceitos de que estamos falando? 4) O que, em Marx, devemos entender por materialismo? 4.1) Ciência e Filosofia unidas.



1) A pretensão marxiana: a fundação de uma nova ciência.



A primeira observação a ser proposta é que Marx tem certa pretensão para o seu trabalho: fundar uma nova ciência. Mas não é a única. Ele também tem a pretensão de propor uma nova sociedade, portanto, diríamos que toda a leitura da obra de Marx resvala nessa imbricação entre o seu pensamento científico de um lado e o seu pensamento propositivo ou, como alguns chamam, utópico de outro lado.

A nossa preocupação maior aqui é com pretensão científica do autor, em outras palavras, a busca pela explicação das coisas do mundo como ele é. Portanto, podemos dizer, o que Marx pretendeu fazer, antes de qualquer coisa, foi entender o mundo de seu tempo. Nesse sentido, Marx é bastante fiel àquilo que Hegel propõe como conceito de filosofia: entender o mundo do seu tempo.

Marx, para tanto, proporá uma ciência e a ela dará um objeto: a história.

Nesses termos, se perguntássemos para Marx como é que ele se definiria enquanto intelectual, é muito provável que obtivéssemos a resposta que procura ser um cientista da história. Ora, todos nós sabemos que a reflexão sobre a história do mundo não começa com Marx e, portanto, temos que concluir que esse filósofo propõe uma nova reflexão sobre a história, partindo de outro ponto de vista, cuja sua reflexão será única que merece a alcunha de científica. Então, naturalmente, quando Marx se diz um cientista da história ele obviamente se considera um pai fundador de um novo campo, novo continente científico, que se justaporá a outros tantos já existentes. No entanto, o que Marx está dizendo é que tudo que foi dito da história, antes dele, de científico não tem nada, portanto eis aí uma primeira perspectiva.



2) O método de produção da ciência.



Paralelamente a essa ambição científica, e aqui onde se instaura toda a dificuldade da compreensão do pensamento de Marx, ocorre quando encontramos certa frase chave em sua obra intitulada “Teses sobre Feuerbach”.

Feuerbach era um pensador importante quando Marx começa a trabalhar e, portanto, alguém em relação a quem Marx tinha que se posicionar, e ele não teve nenhum pudor em fazê-lo, daí escreve um livro que já no título mostra qual é o seu objetivo, ou seja, escreve ali suas diferenças e semelhanças em relação ao dominante da época, esse tal de Feuerbach. A grande obra de feuerbach é “a Essência do Cristianismo”, obra clássica do século XIX, e que de alguma forma é rigorosamente fundadora de uma crítica da religião proposta por Marx.

Pois bem, na tese 11 sobre feuerbach, conforme dito encontra-se a seguinte frase:

“(...) os filósofos só fizeram interpretar o mundo de muitas maneiras, o que importa é transformá-lo.”

Essa afirmação semeia grande confusão na hora de entender o que Marx almejava entender das coisas. Porque, afinal de contas, pela sua simples leitura, levamos a impressão de que Marx conclama logo a ação revolucionária imediata, ou seja, é preciso transformar o mundo, e, ao dizer que: “somente os filósofos fizeram até agora foi interpretar o mundo”, temos a impressão que Marx nega toda a importância da teoria no processo revolucionário, no entanto, perceba a contradição, a vida de Marx foi toda ela consagrada à sua obra e não se tem notícia que ele tenha pego em armas para deflagrar algum tipo de revolução, então a pergunta que surge é: será a tese 11 sobre feuerbach é incoerente com a vida de Marx, ou precisamos entender a tese 11 diferentemente? O que é importante talvez concluir é que a tese 11 não anuncia o fim da teoria, mas uma ruptura com as teorias de até então.

A rigor o que Marx procura é estabelecer uma ruptura simbólica com o pensamento que lhe precedeu, em especial, o pensamento que interpreta a história utilizando teorias meramente discursivas, especulativas, ensaísticas, essas não constituiriam conhecimento científico da sociedade e da sua história e, portanto, essa argumentação anuncia uma nova teoria, a cientifica da história, a qual Marx dará um nome: materialismo histórico.

Ora, se é uma teoria científica da história, a primeira pergunta diz respeito à própria palavra teoria, essa palavra vem do grego e aqui ela quer dizer contemplação do divino, ora a que divino aludiam os gregos? Aludiam a essa ordem universal, inteligência superior que ordena o mundo, a harmonia entre as coisas, suas atividades e suas finalidades. O divino é a própria índole cósmica do universo, e a teoria implica em uma contemplação de um divino que se descortinaria pela mera observação visual do mundo que nos encontramos. Assim bastava abrir um esquilo para ver, nas partes constitutivas dele, uma ordem universal maravilhosa que não foi o homem que a produziu, daí a nomenclatura de divina. O homem reconhece no universo uma ordem e uma lógica, cosmos e logos irmanados, mas também reconhece que não foi ele que a produziu, assim, se não foi ele que fez, então foi Deus, alguém que não é ele, portanto o divino é o universo enquanto ordenado, já a teoria é a contemplação do universo enquanto divino.

Naturalmente que a perspectiva grega de teoria não é a de Marx, não é a dele porque não é a de nenhum filósofo moderno, afinal o homem moderno sabia que o universo não é ordenado, organizado, nesse sentido os objetos não estão no seu devido lugar, não foram talhados por si só para desempenhar uma atividade específica, não há uma finalidade pré-existente que explique de forma soberana o porquê das coisas existirem, tais objetos têm muito mais causas materiais e existentes do que causas finais, portanto essa ordem a que aludiam os gregos parece não existir. Assim a teoria não pode ser mais contemplativa, e a ciência moderna é muito menos uma contemplação passiva do observador, mas sim ela faz produzir uma ordem aonde só há desordem e caos, religando causalidades e fenômenos através de mecanismos causais. Então perceba que a teoria não é mais nem contemplação nem do divino, conservamos o nome, mas que vai romper, etimologicamente, com suas origens.

O que a teoria vem a ser? A melhor alegoria para entender a teoria, nesse sentido, é a de instrumento, de ferramenta para a produção científica. A teoria é o instrumento que o cientista usa para fabricar conhecimento científico e, portanto, não tem nada mais de contemplativo, pelo contrário, é profundamente ativo, prático, e, portanto, não tem nada de simples registro espiritual de uma ordem divina e harmônica.

Marx propõe uma comparação, e ela parece profundamente heurística, esclarecedora, assim, explica no livro a ideologia alemã:

“(...) da mesma maneira que no processo de produção de bens materiais, pretende-se transformar uma matéria prima determinada, p. ex., o cobre, em um produto determinado, p. ex., cabos de cobre, mediante a utilização, por meio de trabalhadores, de meios especializados, máquinas, instrumentos, no processo de produção de ciência, pretende-se transformar uma matéria prima, percepções ingênuas e espontâneas da realidade, em um produto determinado: conhecimento científico, mediante a utilização de um instrumental competente, no lugar das máquinas que fabricam o cabo do cobre a partir do cobre, a teoria e o método”.

Aqui a teoria é a ferramenta que permitirá o cientista transformar percepções ingênuas e caóticas do mundo em conhecimento científico. Quando iniciamos um mestrado acadêmico exigem de nós um projeto de pesquisa, nele teremos de descrever o objeto de nosso trabalho, ele é o nosso ponto de partida, aquilo que nos dispomos a estudar, tal objeto é a matéria prima, o cobre, trata do mundo que grosseiramente vamos nos dispor a analisar. Nesse projeto terá de haver um método, um procedimento, também terá de haver a teoria, aqui podemos chamá-la de quadro teórico de referência, trata de ferramentas que aplicamos ao objeto (o fenômeno do mundo que constatamos), para dele produzirmos ciência (o resultado final de dessa aventura científica).

Portanto a teoria é um corpo de conceitos que, aplicados a certa realidade percebida, permitirá a produção de um conhecimento científico. Portanto a teoria científica da história, o materialismo histórico, pressupõe um conjunto de conceitos, muito específicos, que doravante analisaremos, e que, aplicados a certa realidade, permitirão a verdadeira ciência da história.

Até aqui nosso objetivo foi:
(1) Destacar que Marx tinha uma pretensão de encontrar verdades no mundo.
(2) Destacar que Marx tinha a pretensão de dizer sobre a história o certo e o errado.
(3) Destacar que Marx se considerava cientista e, portanto, a idéia de verdadeiro e falso, nesse pensador, é muito nítida e clara, em outras palavras, Marx partia de uma convicção tipicamente científica de que aplicada certas ferramentas em uma realidade temos como conclusão o aparecimento da verdade. Assim é preciso aplicar as corretas e boas ferramentas em uma realidade e a verdade aparecerá.


2.1) Marx versus Nietzsche: a produção da verdade.


Insisto nisso, pois as filosofias pós-modernas, originadas em Nietzsche, filósofo contemporâneo e diferente de Marx, ao refletirem sobre o mundo, já de início nos alertarão que seus postulados apenas cuidam de um ponto de vista particular e, portanto, certo delírio íntimo sobre o mundo, uma perspectiva relativa do que se compreende acerca da realidade, tratando de pulsões individuais em encontro com o mundo, portanto, simplesmente uma questão pessoal de cada pensador pós-moderno. Fosse outro, ou fosse Nietzsche em outro lugar, em outro momento, o resultado seria diferente, assim suas obras cuidam de uma produção sinábtica inédita, resultado de certas inquietações profundas que só fazem sentido no próprio escritor em questão. Portanto, se quiser ler suas obras, façamo-no, senão quiser não leia, mas não pense que Nietzsche, ao escrever, busca alcançar alguma verdade indiscutível sobre os objetos que expressa, de jeito nenhum. Assim, nesse raciocínio, tudo que Marx tinha de cientista, Nietzsche negava enquanto possibilidade de produção da verdade, pelo contrário, denunciava tal busca como o resultado de uma tristeza e incompetência no mundo, já que a vida desdobra somente em fluxo, deixar de ser, ineditismo, impermanência, e o homem, desesperado com tanta leveza, busca desesperadamente puxar o freio de mão, estabilidades, e nada melhor do que uma verdade, afinal ela não muda. O homem precisa de verdades por não suportar um mundo onde delas não cabe nenhuma, ainda mais, em sua fracassada tentativa de proclamá-las, alegoricamente, surge lhe o mundo em face, fazendo caretas e dizendo: fui! E aquela verdade já não corresponde.

Espero que tenha ficado claro que Marx é um belo e bom cientista, em outras palavras, alguém que está convencido de que é o dono da verdade, enquanto os outros, esses são mentiras. Para quem viveu o início de movimentos estudantis, supostamente ancorados na literatura marxista, tal ideia é muito visível: a certeza de que eles possuem a razão. Já aqueles que não compactuassem com essa máxima eram taxados enquanto descaminhados. Tal proposta “eu tenho razão, você é um imbecil” trata de um absurdo em um movimento nietzscheano, pois nesse, tanto eu quanto você, nós iremos possuir o único ponto de vista que poderíamos ter sobre o mundo, não havendo um que seja nobre, magnífico e outro medíocre, apequenado.



3) Quais são os conceitos de que estamos falando?



Aqui segue uma lista para certa noção do tipo de ferramentas aplicadas para estudar a realidade caso pretendamos fazer materialismo histórico, ou, se preferir, teoria científica da história à moda de Marx:

- processo de produção
- forças produtivas
- relações técnicas de produção
- relações sociais de produção
- infra-estrutura
- superestrutura
- estrutura ideológica
- estrutura jurídico política
- modo de produção
- formação social
- conjuntura política
- determinação pela economia
- autonomia relativa
- classes sociais
- luta de classe
- transição
- revolução
- ditadura do proletariado

Essa embocadura da pretensão cientifica de Marx pode ser lida, a grosso modo, no livro “A ideologia Alemã”

Louis Althusser, um marxista crítico do século XX, proferiu uma conferência em 1968, intitulada “Lenin e a filosofia”, onde realizou uma análise da produção científica na história que parece profundamente auspiciosa, ali ele vai comparar as ciências aos continentes. Althusser observa que, antes de Marx, só haviam sido descobertos dois grandes continentes científicos:

- as matemáticas, pelos gregos, certamente já ouviu falar, a título de exemplo, da geometria euclidiana, um grande continente;
- a física, por Galileu;

Assim de acordo com a análise que propõe Althusser, tudo deveria se deixar categorizar nesses dois grandes continentes: as matemáticas dos gregos e a física de Galileu. Dentro dessa perspectiva, a química de Lavousier, a biologia de Claude Bernard, são regiões do continente da física já citada. Da mesma maneira a lógica moderna é uma região da matemática.

Ora, para Althusser, e aí percebam a revelância da aventura marxista, Marx propõe o terceiro grande continente de produção científica da história do pensamento, que é o materialismo histórico, em outras palavras, a história, se preferir.

Aqui gostaria de ir além, porque poderíamos perguntar: mas, afinal de contas, todas as ciências não são materialistas? Sim, de fato, poderíamos chamá-las de materialismo físico, materialismo químico, materialismo biológico, mas isso parece tão evidente que não se coloca na nomenclatura, fala-se somente em química, física e biologia.

Agora o materialismo histórico se faz necessário, em nomenclatura, para marcar ruptura em relação a todos os pensamentos sobre a história anteriores que não eram materialistas, que não tinham índole científica, e que, portanto, claro,  resvalavam para o idealismo, transcendentalismo,  etc. Portanto , no caso da história, a nomenclatura materialismo se faz necessário, mas ela poderia estar presente em outros segmentos da ciência.



4) O que, em Marx, devemos entender por materialismo?



“Indica simplesmente a atitude frente à realidade de seu objeto: captar a natureza do objeto, sem nenhuma adição de fora.”

Essa definição de materialismo, proposta por Engels, implica certa higienização da produção da ciência em relação ao cientista, seu desejo, suas preferências, seus temores, seu repertório, suas angústias, em suma, tudo que lhe diz respeito.

Portanto, ao estudar as filosofias, percebemos que o olhar marxista, no que tange a produção científica, encontra grandes pontos de tangência com aquilo que, mais tarde, Comte sistematizou com o nome de positivismo, teoria rival do marxismo. Assim, é preciso aceitar que tanto marxismo como positivismo, nesse ponto, se irmanam de mãos dadas. Os dois desconsideram, para a produção da ciência, qualquer tipo de contaminação de subjetividade, por parte do cientista produtor de conhecimento. Para maior esclarecimento desse ponto, para o moderno não interessa saber qual é o seu olhar ou o de alguém, mas se quer a realidade, e ela independe de olhares, essa é a perspectiva científica que está sendo explicada aqui, e não uma angulação em perspectiva.     

O materialismo histórico é portanto uma ciência que tem esses conceitos já citados.


4.1) Ciência e Filosofia unidas.


A perspectiva de que há uma verdadeira correlação entre as grandes revoluções científicas e os movimentos filosóficos na história do pensamento será chancelada pelos marxistas, ou seja, não há nenhuma revolução científica que não venha imbricada a uma grande proposta filosófica. Afinal de contas, o mesmo substrato de infra-estrutura que patrocina a ciência, patrocina também a filosofia.

É normal que haja alguma imbricação ou coerência nesses movimentos, mas também há autores para nada marxistas, como Thomas Kuhn, observando que a revolução dos paradigmas, invariavelmente, vem acompanhada de uma revolução filosófica que lhe serve de fundamento. Assim, a título de exemplo, as matemáticas gregas vêm acompanhadas da filosofia de Platão, claro, já dizia este filósofo que não entra em sua academia quem não sabe geometria. No caso de Aristóteles a analogia fica ainda mais fácil, afinal ele é o cientista revolucionário e também o filósofo que lhe dá sustentação. Na perspectiva aristotélica, a discussão ética, ou seja, a reflexão sobre a vida boa mantém-se inseparável do entendimento do universo, não podendo ser feita de forma isolada do todo, devendo ser feita como a peça de uma máquina, inscrita no todo. Assim o pensamento de Aristóteles é de imbricação entre: uma ciência, enquanto produção de conhecimento sobre o universo e; uma filosofia ética de reflexão sobre a vida que só tem sentido nesse universo, ordenado, com atividade, finalidade, onde a vida tem que respeitar seu lugar natural e etc.

Da mesma maneira que a física de Galileu é inseparável da filosofia cartesiana. Da mesma maneira que a física de Newton é inseparável da filosofia Kantiana. E assim, a revolução científica do materialismo histórico é inseparável de uma filosofia que lhe seja substancial, recebendo o nome de materialismo dialético. Marx é um cientista, e, com pretensão de tal, quer fazer uma ciência da história, a seus modos, com um arsenal teórico próprio. E também, Marx, tal como Aristóteles, vai ele mesmo propor uma filosofia que dê sustentação a esse materialismo histórico, e vai denominá-la materialismo dialético. 

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