Marx, o
terceiro grande continente científico da história do pensamento. - parte 2 -
5) O materialismo
histórico, aparência das coisas e produção de bens materiais. 6) O Processo de
trabalho.
5) O materialismo histórico, aparência das coisas e
produção de bens materiais.
Na hora de entender o mundo, o materialismo histórico proporá
uma reflexão preliminar: A realidade não se deixa explicar pelo que traz à
aparência, por aquilo que nós, ingenuamente, observamos do mundo, sejam seus
objetos, suas ocorrências ou seus fenômenos, em outras palavras, não será
olhando para o mundo que vamos conseguir explicá-lo. É exatamente isso que um
filósofo do século XX, chamado Paul Ricoeur, denomina filosofia da suspeita,
trata da desconfiança de que a mera observação de um objeto, por si só, não pode
nos colocar, à frente, o fundamento principal de sua verdade, assim tal objeto
não se mantém compreensível por si só, não é soberano, não carrega em si mesmo
o germe de sua explicação. Tal é o caso do materialismo histórico, onde o que
se enxerga não é o que importa, ou, não importará para remeter à sua
causalidade última, subterrânea, invisível, escondida, ocultada. Imaginemos um
pesquisador investigando os motivos do sucesso da telenovela “Caminho das
Índias”, será insuficiente assisti-la, seja analisando sua trama, atores, cenários,
dessa maneira de investigação não haverá uma adequada explicação sobre o tema,
materialista histórico ele não será nunca, e, como materialismo histórico busca
a verdade sobre as ocorrências do mundo, tal pesquisador seria taxado como um mentiroso.
A resposta que nos propõe o materialismo histórico: independente de assistirmos
a telenovela ou não, a explicação de seu sucesso não está neste tipo de análise
proposto, seja porque a telenovela é da forma que é, seja porque ela é
assistida da maneira que é. Assim tal explicação está onde? Fora da telenovela,
é o que passamos a expor.
Na perspectiva do materialismo histórico todos os fenômenos
que possamos querer estudar se tratam superestruturas, e essas, por sua vez,
encontram a sua explicação causal última nas infra-estruturas de qualquer
sociedade e, porque não, na sociedade capitalista, se preferir chamá-la hoje de
globalizada também pode.
Ora, o elemento central da infra-estrutura de qualquer
sociedade é a produção de bens materiais, isto quer dizer: se queremos entender
alguma coisa que vemos no mundo das pessoas, das relações, da mídia, será na
produção de bens materiais que a resposta deve ser encontrada. Porque o padre
Marcelo Rossi faz tanto sucesso? O sucesso dele está na produção de bens
materiais, não está em sua altura; não está na leveza saltitante da aeróbica da
fé dele; não está na competência retórica sacerdotal pastosa da fala dele; não
está na bondade objetivada e nos gestos lentos dele, mas na produção de bens
materiais.
O que é a produção do pensamento marxista? É o primeiro
conceito do materialismo histórico, trata da base do edifício conceitual, o
materialista histórico que não fala de produção não entendeu nada. A
compreensão última dos processos históricos deve ser buscada na forma como os
homens produzem bens materiais.
Engels diz:
“a concepção materialista da história parte do princípio que
a produção e o intercâmbio de seus produtos constituem a base de toda a ordem
social, de que em qualquer sociedade a distribuição e a produção dos produtos
com sua conseqüente articulação em classes sociais se orienta pelo que se
produz e como se produz, bem como pelo modo como se intercambia o produzido,
desta forma, as causas últimas de todas as modificações sociais e políticas não
devem ser buscadas nas cabeças dos homens, na sua crescente compreensão da
filosofia e da justiça eterna, mas sim nas transformações do modo de produção e
de intercâmbio das mercadorias, não há que buscá-las na filosofia, mas sim na
economia da sua época.”
Portanto se quisermos, à moda do materialismo histórico,
estudar a Revolução Francesa, não caia na esparrela dos livrinhos didáticos de
história geral onde está dito que a revolução francesa é o resultado da
proposta filosófica de Rousseau, Voltaire e etc., isso é bobagem, ingenuidade
pura! A revolução francesa é a conseqüência inexorável de uma inadequação da
organização social com as formas de produção de bens materiais desta época, ou
seja, nesse momento histórico, o direito, a política, a moral, nas formas como
estavam constituídos, embaçavam a produção de bens materiais deste período
histórico, então era preciso revolucionar, fazer uma nova ordem social mais
adequada ao pleno desabrochar da produção de bens materiais. E quanto a
Rousseau e Voltaire? Eram uns palhaços que ali estavam para dar tintas
legitimadoras a um processo econômico inexorável, necessário, e que se faria
com ou sem eles. Assim um sistema que está embaçando a economia de certa época
histórica é substituído. Outro exemplo seria dizer que a revolução do Brasil
foi um produto da inteligência de Sobral Pinto, errado! Essa revolução ocorreu
porque o sistema anterior estava embaçando a economia, daí foi decido pela
troca da forma de produção.
Da mesma forma a moral ascética de manter os mesmos produtos
durante muito tempo começou a complicar o processo produtivo, daí troca-se essa
moral, e estabelece outra onde o melhor é descartar os produtos antigos, isto
porque a moral é um mero subproduto das necessidades materiais de produção de
bens.
Porque hoje todo mundo é democrata, liberal,
parlamentarista, defendendo direitos humanos? Porque esse é o sistema mais
adequado para permitir o melhor funcionamento da economia, o pleno desabrochar
e o escoamento da produção, se essa forma de governo começa a embaçar tal
processo a conseqüência é a sua substituição por outra forma. Imaginemos que em
certa época da história a tirania se converta no melhor remédio para escoar a
economia, então se fará uma substituição para esse tipo de governo no lugar da
democracia, e, para legitimar ideologicamente tal mudança, nunca faltarão
intelectuais de plantão a serviço dos interesses dessa economia.
Toda produção é constituída de dois elementos inseparáveis:
- O Processo de trabalho
- As Relações de produção
6) O Processo de trabalho.
Todo trabalho é uma transformação de um objeto determinado
em um produto determinado por uma atividade humana determinada com o uso de
instrumentos também determinados. Perceba que todo processo de trabalho implica
uma transformação de uma coisa em outra. Quando essa coisa estiver transformada
recebe o nome de produto, e o produto se caracteriza como tal em função da sua
utilidade. O processo de trabalho está analisado no livro 1 do Capital. O
processo de trabalho tem três elementos:
6.1) Objeto sobre o qual se trabalha:
Dois são os tipos de objeto que participam do processo de
trabalho: aquilo que se denomina matéria bruta, natureza intacta e apenas
mexida no processo de trabalho, aqui existe virgindade de natureza e; matéria
prima, natureza já mexida para o processo de trabalho, aqui houve transformação
prévia, portanto, claro, árvore é matéria bruta, já madeira artesanal é matéria
prima.
6.2) os meios usados para o trabalho (meios de trabalho):
Poderíamos ver, para definir processo do trabalho, um
sentido estrito e um sentido amplo. No sentido estrito os meios de trabalho são
qualquer coisa que se interpõe entre o trabalhador e o objeto trabalho no
processo de produção. Portanto qualquer coisa que se interpõe entre o
trabalhador e a matéria bruta ou a matéria prima. Os exemplos são clássicos: o
serrote, o martelo, a máquina de costura, enfim, qualquer coisa entre. Em
sentido amplo, os meios de trabalho compreendem todas as condições materiais
sem as quais o processo produtivo de transformação não seria possível, portanto
indispensáveis para sua realização, como, por exemplo, os terrenos, os
edifícios, as vias férreas, para que a matéria prima chegue até o local de
trabalho, e assim por diante.
*Observação:
O que podemos destacar aqui é que Marx considera que não há
processo de trabalho sem objeto e meio de trabalho. E, portanto, Marx vai
reunir essas duas noções em uma só importantíssima, talvez a mais importante da
literatura marxista, os objetos de trabalho + os meios de trabalho vão receber o
nome conjunto de meios de produção. Daí os meios de produção são,
portanto, a reunião da matéria, sobre a qual se trabalha, e dos instrumentos
usados para o trabalho. Os meios de produção são, para Marx, o que tem de mais
importante, afinal, de acordo com Marx, a alteração dos meios de trabalho mudam
completamente as relações de produção, como por exemplo, a relação entre o
trabalhador e a matéria prima, as relações entre os trabalhadores e, sobretudo,
as competências necessárias para o exercício da atividade de trabalho. Por
exemplo, se temos trinta enxadistas eles serão imediatamente substituídos por
um piloto de trator, e assim, se foste colocar a informática nessa análise a
situação torna-se ainda mais gritante.
6.3) a atividade humana realizada no processo de produção
(trabalho)
O trabalho é apenas parte do processo de trabalho, porque
ele é a atividade transformadora que constitui processo de trabalho unido com
os meios de produção, isto é, objeto e os instrumentos usados para tal
objetivo.
Ora, quando falamos de atividade, o que é que
necessariamente uma atividade humana implica? Certa quantidade de energia
humana, e Marx chama isso de força de trabalho, trata da energia despendida na
atividade que transforma um objeto em produto, ou seja, a energia despendida no
processo produtivo, por parte do homem, se mede em caloria.
Essas noções são importantes, pois quando da reflexão acerca
do trabalho, vai pensar-se na atividade e o seu resultado transformador, por
outro lado quando da reflexão acerca da força de trabalho, vai pensar-se na
energia necessária para que esse resultado seja alcançado.
Aqui podemos fazer a pergunta clássica da crítica marxista,
em uma verdadeira disputa entre liberais e marxistas: No momento da remuneração
do trabalhador, o que será remunerado, o trabalho, isto é, a compensação de um
resultado obtido, ou a força de trabalho, isto é, a quantidade de energia
necessária para o trabalhador continuar trabalhando? O resultado do trabalho é
dificilmente transformável em reais, agora, o montante imprescindível na obtenção
energia para o trabalho, dia pós dia, esse é mais provável que passe por
transformação. Assim quando o sindicato dos trabalhadores pede aumento no
salário de seu proletário, vai usar como argumento, não o trabalho, mas a força
de trabalho, tanto é assim que nunca se verá um argumento sindical enfatizando
a boa produção dos trabalhadores, pois tal situação permaneceria inteligível,
então o argumento que o sindicalista enfatiza é o aumento dos produtos de
consumo, ou seja, o que o trabalhador precisa com fins de conseguir energia necessária
para voltar ao trabalho no dia seguinte, isto quer dizer, não vai se interessar
no resultado do trabalho.
* O produto o que vem a ser?
O resultado da produção. Um produto é aquilo que alguns convencionaram
chamar de valor de uso. Denomina-se valor de uso a tudo que responde a certa
necessidade fisiológica ou social, portanto é claro que não haveria nenhuma
razão para produzir se o produto não fosse valor de uso, em compensação, é
preciso reconhecer que nem todo valor de uso é produto, talvez até os mais
significativos valores de uso que podemos citar não seja um produto de nada,
nem produzido por ninguém, como o ar e a água. O conceito de valor de uso é
invariavelmente contrastado com outro conceito que é o valor de troca e,
naturalmente, a grande constatação que vai propor o economista Adam Smith,
trata de enfatizar que valor de uso e valor de troca não coincidem, essa era a
premissa da economia liberal da época, ou seja, o ar tem muito valor de uso,
mas não tem valor de troca nenhum, já uma barra de ouro tem muito valor de
troca, mas não tem valor de uso.
A) A alienação: independência e autonomia do trabalho e
do trabalhador
Antes de falar das relações de produção, ainda nas relações
de trabalho, diríamos, que a principal reflexão marxista sobre o trabalho está
na idéia de alienação pelo trabalho, ela consiste na independência e na
autonomia que o produto ganha em relação ao trabalhador. A situação fica mais
grave porque o próprio trabalhador se converte em uma mercadoria bem como o seu
trabalho, nesse aspecto, a situação se torna mais gritante porque o próprio
trabalho ganha autonomia em relação ao trabalhador, e, no ápice de agravamento,
o próprio trabalhador se autonomiza frente à pessoa do trabalhador. Por
exemplo, se pegarmos certo tênis da Nike produzido por um chinesinho escravo,
tal tênis ganhou autonomia de seu processo produtivo, e o chinesinho escravo
produtor não tem a mínima idéia de onde foi parar a sua produção, o valor da
troca daquilo que produziu e etc., assim existe uma autonomia brutal entre a
produção e o produto. Mas se parar, pensar e fizer uma alegoria imaginando que
um professor pode ser um trabalhador que age sobre a consciência de seus
alunos, no sentido de transformá-la em busca de um produto de consciência mais
lúcido, o próprio trabalho dele, isto é, sua aula, se autonomiza em relação a
ele por se tornar uma mercadoria que se consome.
Há um texto de Marx chamado “Manuscritos”, escrito na fase
de juventude do autor, geralmente se costuma chamar juventude de Marx, todos
seus textos escritos de antes de 1848, época que escreveu “O Manifesto
Comunista”.
“O operário se torna tanto mais pobre quanto mais sua
produção cresce em potência e em volume, o operário se torna uma mercadoria, ao
preço tanto mais baixo quanto mais ele cria mercadorias, a desvalorização do
mundo humano vai de par com a valorização do mundo material. O trabalho não
produz só mercadorias, mas o trabalho se produz a ele mesmo e ao trabalhador
como uma mercadoria a mais, na medida em que ele produz mercadorias em geral.”
“O objeto que o trabalho produz, o seu produto, se levanta
diante dele como um ser estranho, com uma potência independente do produtor, o
produto do trabalho é o trabalho que se fixou, materializou em um objeto, ele é
a objetivação do trabalho. A realização do trabalho é a sua objetivação. No
mundo da economia política, tal realização do trabalho aparece como a perda,
para o trabalhador da sua realidade, a objetivação como a perda do objeto, a apropriação
como a alienação, o despossuimento.”
“A realização do trabalho se revela ser a tal ponto uma
perda de realidade que o trabalhador perde a sua realidade, ela mesma, até
morrer de fome. A objetivação se revela a tal ponto ser a perda do objeto que o
trabalhador é esfolheado, não somente dos objetos materiais mais indispensáveis
à sua vida, mas ainda dos objetos do trabalho. Sim, o trabalho, ele mesmo, se
torna um objeto do qual ele não pode se possuir, a não ser, fazendo o maior
esforço com o máximo de interrupções, as mais irregulares. A apropriação do
objeto se revela a tal ponto ser uma alienação que quanto mais o trabalhador
produz objetos, menos ele pode possuir e quanto mais ele cai sobre a dominação
de seu próprio produto, o capital.”
Resumindo:
- Existe um paradoxo, e é ele que justifica a ideia de
alienação do trabalho, qual? O paradoxo é que o trabalho, quando produto,
mercadoria, se converte, ele mesmo, em uma mercadoria.
- Tanto a mercadoria produzida como o trabalho, enquanto
mercadoria, ganham independência em relação ao produtor.
- Quanto mais o produtor se esforça para produzir, mais o
seu esforço se objetiva no produto e na produção e mais se vê o trabalhador
esfolheado das forças que usou para produção, esfolheado de si mesmo.
- Paradoxalmente, quanto mais o trabalhador produz, mais
pobre ele se torna, porque, de certa forma, mais a sua energia foi empregada em
alguma coisa que ganhou autonomia em relação a ele, e esta, de certa forma,
fora de seu alcance a cada momento de produção.
Entender-se-á mais essa ideia de alienação quando percebemos
que o trabalhador, muitas vezes, não controla todo o processo produtivo. Então,
de certa forma, participando só de uma parte do processo produtivo, ele não tem
noção do todo e, portanto, ele lhe escapa. Quando o todo lhe escapa, para ele, se
torna natural esse despossuimento, autonomização, independência. A imagem óbvia
é a do Charlie Chaplin em tempos modernos, o sujeito passa oito horas fazendo o
mesmo movimento, então, é claro, que ele só tem noção de um segmento do
processo produtivo e, portanto, é claro que, para ele, o fato do produto lhe
escapar é uma obviedade, algo contra o qual ele se quer vai pensar em lutar. De
certa maneira, um sujeito que faz parte de uma parcela do processo produtivo
não se considera representado no produto, razão pela qual essa alienação é tão
pacificamente aceita. É por isso que o sistema capitalista, de uma maneira
geral, potencializa a alienação, porque tira do produtor a noção global da
produção do produto, coisa que não acontecia na fase artesanal, onde um único
indivíduo começava e terminava todo o processo, poderíamos dizer que, nessa
fase, a autonomização do produto, em relação ao produtor é mais complexa, mais
resistida, mais pelejada.
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