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MARX, O TERCEIRO GRANDE CONTINENTE CIENTÍFICO DA HISTÓRIA DO PENSAMENTO. - PARTE 3 - 7) ANÁLISE DE TEXTOS SOBRE A ALIENAÇÃO, AUTONOMIZAÇÃO DA MERCADORIA E DO TRABALHO. 8) OUTROS PONTOS DE VISTA SOBRE O TRABALHO.


Marx, o terceiro grande continente científico da história do pensamento. - parte 3 - 7) Análise de textos sobre a Alienação, autonomização da mercadoria e do trabalho. 8) Outros pontos de vista sobre o trabalho. 



7) Análise de textos sobre a Alienação, autonomização da mercadoria e do trabalho  
Revisando: Objeto, meio e atividade de trabalho são, digamos, os elementos substantivos do processo de trabalho. Todo trabalho implica uma transformação da natureza em um produto. O produto só se define pelo seu valor de custo. Desse processo do trabalho, o principal elemento que Marx destaca é a relação do processo do trabalho com o que denomina alienação. A tese é que, na sociedade capitalista, o processo de trabalho é inseparável de outro processo: o de alienação. Na sociedade capitalista, poderíamos dizer, o trabalho é alienante.

Ora, o termo alienação merece aqui a nossa atenção, a própria palavra aponta para uma exterioridade, um parentesco com o alheio, que indica terceiridade ou alteridade. De qualquer forma, quando se pensa em alienação a primeira coisa que surge à mente é justamente uma referência ao que está fora, o que é outro no processo.

7.1) A Fetichização da mercadoria.

Antes de falarmos da alienação no trabalho, talvez fosse útil falar de outra alienação, que Marx se refere: a alienação da mercadoria. Tal alienação consiste, justamente, no fato de que, no sistema capitalista, a mercadoria, quando pronta, ganha autonomia em relação ao seu próprio processo produtivo. Um exemplo, quando vamos ao Shopping Center, em uma loja da Nike, e compramos uma camiseta, a mercadoria camiseta age como se higienizasse, automizasse o processo produtivo dela própria, quase como borrando ou fazendo esquecer o trabalho escravo que permitiu a sua produção.

Assim existe aí uma idéia inicial de alienação. A mercadoria, no sistema capitalista, é alienada na medida em que ela se autonomiza das suas causas materiais, como se ela tivesse surgido do nada, a esse trabalho ou a essa conseqüência dá se o nome de feitichização da mercadoria, termo clássico do pensamento marxista. A feitichização da mercadoria, fazer dela um fetiche, trata de tomar sua existência como alienada do seu processo produtivo. Na ótica marxista importa ressaltar que a infra-estrutura é assim, porque, de certa forma, toda a superestrutura é banhada pela alienação, isto é, pela ignorância ou pela desqualificação do que está por de trás, os processos produtivos como verdadeiras causas.

A alienação do trabalhador, ela faz parte de um processo, digamos, de uma análise mais complexa da própria condição operária, essa condição se caracteriza por dois elementos fundamentais: a exploração do trabalho e a alienação do trabalho. Ora, a exploração do trabalho, conforme já destacamos, se deve ao fato de que o burguês controla as condições materiais da venda da força de trabalho e, de uma certa forma, por causa disso, paga menos do que o trabalho vale.

7.2) A alienação do trabalho.

Interessa-nos agora o segundo elemento da condição operária: a alienação do trabalho. Segundo o processo de alienação, as condições objetivas do trabalho, no sistema capitalista, fazem com que o trabalhador se torne estranho, alienado em relação a ele mesmo e a sua própria condição. Então a idéia é que o processo de produção e produto levam o trabalhador, ele próprio, a uma estrangeiridade, estranhamento, em relação a si mesmo, essa idéia parece inicialmente complexa e difícil, mas pode ser esclarecida.

No que diz respeito à alienação do trabalho seria interessante destacar o texto conhecido como “Manuscritos”, que datam 1884, onde Marx fala da alienação do trabalhador no produto.

“O operário se torna tanto mais pobre quanto mais sua produção cresce em potência e em volume, o operário se torna uma mercadoria, ao preço tanto mais baixo quanto mais ele cria mercadorias, a desvalorização do mundo humano vai de par com a valorização do mundo material. O trabalho não produz só mercadorias, mas o trabalho se produz a ele mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria a mais, na medida em que ele produz mercadorias em geral.”

Esse parágrafo tem uma idéia central, do mesmo jeito que tu compras um produto, como um eletrodoméstico, alguém compra o seu trabalho, razão pela qual o trabalho é um produto à venda, como qualquer outro, nesse sentido, o trabalho é uma mercadoria e, entre outras, o trabalhador também.

Propõe Marx, quanto mais o trabalhador produz mercadorias, mais a sua própria mercadoria é uma entre outras e, curiosamente, menos ela vale. Disse aqui, portanto, uma idéia central interessantíssima de que, no processo de produção capitalista, a própria atividade de produção é uma mercadoria à venda, entre outras.

Poderíamos estender esse raciocínio à prestação de serviço, por exemplo, o trabalho do dentista é uma mercadoria, e isso faz com que o próprio dentista seja uma mercadoria. Mas como que se sabe que o dentista, ele mesmo, é uma mercadoria? Porque seu valor existe mesmo quando ele não está atuando dentro de suas funções odontológicas, da mesma forma, o médico que atende o Adib Jatene, ele é uma mercadoria cujo seu nome tem valor, ainda quando ele não esteja atuando no hospital. Então é óbvio que o médico e seu trabalho são mercadorias, afinal estão à venda como qualquer outra mercadoria, nesse sentido, a perspectiva do trabalho, enquanto mercadoria é uma idéia central do pensamento marxista.

Outra reflexão trata de dizer que o trabalho tem um valor que tende a ser pequeno, por ele estar inscrito em um contexto de abundância propriamente, e, tudo que tem essa característica acaba não sendo raro, tudo que não é raro, não vale.

Vamos usar o exemplo do professor que recebe pouco salário, sua aula e o próprio professor ambos são mercadorias, o valor da mercadoria aula, curiosamente, será tanto menor quanto a quantidade de aulas que ele ministra, ou seja, existe uma superabundância de aula de professor que faz com que o valor da mercadoria aula seja pífio. Entretanto, a mercadoria aula, pode ter outro valor, possibilitando ser revalorada quando o professor, de alguma forma, fabrica algum tipo de escassez, será nessa hipótese que a mercadoria aula poderá adquirir certo valor, e onde que a mercadoria aula é escassa? Em algum lugar onde não existe escola, ou poucas aulas, porque nas escolas a aula é abundante. Assim o professor consegue ganhar dinheiro com aula quando consegue vendê-la onde não existe aula. O valor da mercadoria aula e o valor da mercadoria professor dependem da sua raridade e, portanto, a resposta clássica marxista, diz que é preciso encontrar um lugar que exista capital e não exista aula, para daí a mercadoria aula passar a ter condições de valer mais do que um professor ganharia ministrando-a em escolas, onde tal mercadoria aula existe em abundância.

Essas idéias são fantásticas se imaginarmos a sociedade do espetáculo, se, por exemplo, lembrarmos o sucesso da Tiazinha e da Feiticeira, ou o sucesso das pessoas que tiveram um valor espetacular durante alguns dias e tal valorização foi corroída imediatamente. Isso, de certa forma, deixa claro que, provavelmente, a Tiazinha e a Feiticeira continuaram as mesmas, mas são as condições materiais de produção, de certo valor, que fazem com que uma pessoa, em certo momento, valha muito, e, dias depois, ela passa não valer absolutamente nada, assim a Tiazinha e a Feiticeira são mercadorias cujo valor transcende a elas próprias.

“O objeto que o trabalho produz, o seu produto, se levanta diante dele como um ser estranho, com uma potência independente do produtor.”

Imaginemos certo carro que foi produzido por uma série de operários, quando ele se situa no stand do aeroporto de congonhas, não fará lembrar, em nada, a massa operária que permitiu que aquele carro acontecesse, aliás, curiosamente, quando assistimos à publicidade deste carro, a impressão que temos é que ele vem de outro planeta. A publicidade, de certa forma, contribui para a alienação, o carro se levanta diante do operário e revela que seu valor nada tem a ver com ele, portanto uma ruptura, autonomização, alienação entre o processo de produção e a vida do produto no mercado.

“o produto do trabalho é o trabalho que se fixou, materializou em um objeto, ele é a objetivação do trabalho. A realização do trabalho é a sua objetivação. No mundo da economia política, tal realização do trabalho aparece como a perda, para o trabalhador, da sua realidade, a objetivação como a perda do objeto ou a submissão a este, a apropriação como a alienação, o despossuimento.”  

Em outras palavras, no exato momento em que o trabalho se materializa no objeto produzido, acontece uma perda por parte do trabalhador, ele perde a posse, o controle, a soberania diante do objeto produzido, então, acontece que a realidade do produto se autonomiza da realidade do trabalho. Assim, o objeto produzido, objetiva, materializa e depois higieniza o trabalho, quer dizer, faz esquecer o trabalho, e o que é mais fascinante, essa autonomização não é só para aquele que vai comprar o produto, por que esta é óbvia, mas atinge também o trabalhador que, quando o produto está pronto, de certa forma, não se dá conta, não percebe que perdeu, sobre o produto, qualquer tipo de controle.

“A realização do trabalho se revela ser a tal ponto uma perda de realidade que o trabalhador perde a sua realidade, ela mesma, até morrer de fome. A objetivação se revela a tal ponto ser a perda do objeto que o trabalhador é esfolheado, não somente dos objetos materiais mais indispensáveis à sua vida, mas ainda dos objetos do trabalho. Sim, o trabalho, ele mesmo, se torna um objeto do qual ele não pode se possuir, a não ser, fazendo o maior esforço com o máximo de interrupções, as mais irregulares. A apropriação do objeto se revela a tal ponto ser uma alienação que quanto mais o trabalhador produz objetos, menos ele pode possuir e quanto mais ele cai sobre a dominação de seu próprio produto, o capital.”

Isso quer dizer propriamente que, no momento onde o produto ganha autonomia frente ao trabalhador, tal autonomia, descontrole, será de tal ordem que, paradoxalmente, o próprio trabalhador não terá acesso ao produto que produziu. Algo equivalente ao que propõe Marx é o exemplo de certo professor, produtor de mercadoria aula na Universidade de São Paulo; ele concluiu sua graduação nesta mesma universidade, instituição de ensino superior cujo vestibular para ingresso na graduação é concorrido, isto porque antes, este professor, custeado por seus pais, ele estudou em um colégio de ensino médio de ótima qualidade, daqueles que poucos são os capazes de custeá-lo; hoje tal professor não tem condições de custear, para seu filho, o colégio de ensino médio que lhe permitiu ser aprovado no vestibular da universidade em questão, portanto, o professor da Universidade de São Paulo não pode dar a seu filho as condições materiais de ingresso à universidade que trabalha e cursou sua graduação.

Outro exemplo imagine um palestrante contratado para ministrar palestras no evento HSM expo management, ele com encargo de oferecer sua mercadoria palestra, ministrou três palestras neste evento, em um auditório com seis mil pessoas presentes, onde cada uma delas pagou seis mil reais para assistir, faça o cálculo, cem pessoas já custeariam o evento, ocorreram três dias de palestras, cada dia contou com a presença de seis palestrantes. Continuando o exemplo, as três palestras deste palestrante são filmadas assumidamente, de maneira que ele teve de assinar documentos atestando que o conteúdo das palestras pertenceria à mantenedora do evento, ou seja, o que foi falado na palestra não é mais daquele que falou, e a mantenedora faz desse seu conteúdo, propriedade sua, o que ela quiser, e essa mantenedora apanha esse conteúdo de palestra, produz DVD’s, os coloca em caixas com laços e distribui a todos interessados na compra do produto. Veja, se o palestrante quiser ter acesso a esse DVD produzido terá que comprar a própria palestra que produziu, ou pedir cópia para alguém que a comprou, como se o palestrante fosse traficante de seu próprio produto. Adiante, a independência do produto chega a tal ponto que caso o palestrante queira pegar uma cópia de tal DVD com alguém, transcrever e vender um livro daquilo que ele falou no evento poderá ainda ser processado pelo fato de que o conteúdo da palestra não é mais dele.

“Todas essas conseqüências decorrem do fato que, por definição, o trabalhador se encontra diante do produto de seu próprio trabalho, na mesma relação que em relação a um objeto estranho.”

Aqui se quer dizer que, você, diante do produto de seu trabalho, e você, diante de algo que nunca viu, a relação é a mesma, de estranheza e estrangeiridade.

“E se isto é assim é evidente que quanto mais o trabalhador se esfalfa no trabalho mais o mundo estranho objetivo que ele cria, diante dele, se torna poderoso, mais ele se empobrece diante dele mesmo e mais seu mundo interior se torna pobre porque menos ele possui como ser.”

Em resumo: Qual é o cálculo que Marx faz? O que o trabalhador produz não é dele, e lhe é estranho, quanto mais ele se sacrifica na hora da produção, mais ele está para alguma coisa que nunca será dele, portanto, existe um processo de perda.

Voltemos ao exemplo do palestrante, ele colocou toda sua energia em três palestras de trinta minutos, trazendo reflexões pessoais suas para aquele momento, seja de sustentabilidade, desenvolvimento social, ética corporativa, qualidade de vida, isto se trata da produção propriamente dita, mas ocorre que foram as mantenedoras do evento que filmaram o que foi dito, assinaram um termo de cessão de direitos com o palestrante, então o conteúdo é dela, e, quanto mais o palestrante falou, foi o quanto mais ele perdeu, a diferença é que o palestrante continuará criando, enquanto a mantenedora do evento continuará extraindo, e também torcendo para que o palestrante nunca deixe de criar para que assim ela sempre tenha de onde extrair.

Prosseguindo no texto, Marx faz uma comparação entre o processo de produção e a religião. Isto porque Marx é muito influenciado pelo livro “A essência do Cristianismo”, de Feuerbach, nessa obra é dito que Deus é uma projeção do homem, e o homem coloca em Deus atributos que ele mesmo cria. Marx diz que:

“Quanto mais o homem projeta coisas em Deus menos ele guarda para ele mesmo.”

A comparação proposta por Marx é a seguinte: Do mesmo jeito que, no exemplo, o palestrante aumentou o conteúdo de sua palestra, que acabou de perder, e ali colocou “atributos de Deus”, isto foi o palestrante que criou, e quando ele cria Deus, este ente se autonomiza, se torna exterior e transcendente, e quanto mais Deus é, menos é o palestrante, assim quanto mais Deus é poderoso, forte, onisciente, mais o palestrante é insignificante, fraco, miserável, em outras palavras, o homem fabrica Deus, coloca nele tudo, e, por contraste, o homem não é nada.

“O trabalhador coloca sua vida no objeto, mas então, esse objeto e essa vida, não lhe pertencem mais, a vida pertenceu e pertence ao objeto.”

O trabalhador coloca sua força de trabalho e sua energia no produto e este não lhe pertence mais, e o esforço do trabalhador estará aderido no produto. Assim o produto carrega consigo o sangue e o suor do trabalhador, estes que não lhe pertencem mais. E espantosamente isto não incomoda ninguém, e, ao serem questionados, ainda usarão a argumentação simplesmente de que o mundo é assim mesmo

“(...)Quanto mais essa atividade é grande e esforçada, mais o trabalhador é privado de objetos, ele não é o que ele produz pelo seu trabalho, quanto mais o produto cresce, mais o trabalhador dele se distancia, menos o trabalhador é ele mesmo. A alienação do trabalhador no seu produto significa não somente que o seu trabalho se torne um objeto, realidade exterior, mas que seu trabalho existe fora dele, independente dele, estrangeiro a ele, e se torne uma potência autônoma face a ele e que muitas vezes se opõe a ele, se torna, a ele, hostil, estrangeiro e inacessível.”



8) Outros pontos de vista sobre o trabalho.



Essa reflexão do trabalho relacionada à alienação é algo muito particular do pensamento do materialismo histórico. E, para fins de esclarecimento, passemos a constratar esse ponto de vista com outros clássicos sobre o trabalho.

A) Platão: trabalho como pobreza de natureza.
 O filósofo grego fala sobre o trabalho no livro II da República, linhas 369-B a 370-C, em um diálogo de Sócrates com Adimanto. Nesse livro a idéia central relata existir uma hierarquia natural entre os seres, e estes, por participarem de um todo ordenado, encontrarão pessoas com aptidões diferentes, umas maiores, outras menores, algumas são mais hábeis para o trabalho físico, outras para o trabalho intelectivo, outras são mais valentes, assim o trabalho deve respeitar as aptidões e singularidades naturais de cada um, assim, a boa cidade é aquela que permite que cada um faça luzir a sua natureza, na sua excelência ou na sua mediocridade. O que Platão propõe, portanto, é uma república respeitadora da hierarquia dos talentos e dons naturais, trata de uma perspectiva aristocrática, isto é, alegando existir uma hierarquia natural entre os seres, e tal sistema deve se traduzir em uma hierarquia laboral. A ideia de trabalho está relacionada a um acanhamento natural de competências, em outras palavras, será a função que deve ficar restrita a ser realizada por uma parcela significativa da população, pessoas medíocres, pouco talentosas para as faculdades do uso da razão, cumprindo tarefas braçais a serviço dos outros, ao passo que, àqueles naturalmente virtuosos, do ponto de vista intelectivo, os talentosos para a faculdade do uso da razão, cumpre lhes a tarefa intelectiva propriamente e, portanto, ao exercício do poder político também, mas a isso Platão, obviamente, não denominava trabalho, pelo contrário, denominava posse. No estudo da história não se tem nenhuma referência de algum sábio governante que tenha sido certo. A virtude para os gregos era a competência natural, diferentemente dos cristãos que vão introduzir a ideia do uso, mais do que o talento.

Esse pensamento é completamente diferente do de Marx, mas existe certa tangência entre os dois filósofos. Tanto para Platão como para Marx não é todo mundo que trabalha, mas alguns trabalham para outros, assim, para esses dois pensadores, o trabalho é a marca do explorado.

A diferença é que, para Marx, aquele que, ao final das contas, não trabalha é o proprietário dos meios de produção, enquanto que para Platão é o sábio. Agora caberia uma pergunta, quem é o sábio? Do ponto de vista político é o cidadão, do ponto de vista econômico é quem nunca precisou trabalhar, e quem é que nunca precisou trabalhar? O proprietário dos meios de produção.

B) Locke: trabalho como fundamento da propriedade privada.
Um pensador liberal, de marxista nada tem, vai falar sobre o trabalho em seu livro que data 1690, denominado “Segundo Tratado do Governo Civil”, capítulo 5, parágrafo 27. Dirá esse pensador: “ainda que a terra e todas as criaturas inferiores pertençam em comum, a todos os homens, cada homem se torna proprietário na medida em que transforma a propriedade por seu próprio esforço”. Significa dizer que a princípio as coisas são todas de todos, mas cada um se torna proprietário daquilo que transforma pelo próprio esforço. Ora, esse trabalho sendo, indiscutivelmente, propriedade daquele que trabalha, nenhum outro homem pode ter o direito de possuir o ente transformado. Portanto o trabalho é o elemento legitimador e fundamento do direito de propriedade. Perceba que antes do esforço tudo é de todos, mas, por causa do esforço do trabalho aplicado à matéria legitima-se a propriedade. Assim sou dono de algo no mundo por direito porque fui eu que o transformei, o criei, o plantei, o produzi e etc. O que tem de gracioso nisso? Nada. Mas se tu foste pensar, em termos de reforma agrária, e o fundamento da propriedade está no trabalho, no processo produtivo, é evidente que está retirado todo o fundamento de propriedade privada improdutiva, só que em 1690 a visão aqui é de um liberal, não do MST. Ou, se preferir, ao chegar a uma terra e plantar uma jabuticabeira, tanto a terra transformada como o fruto, seria de quem preparou e cuidou do local para que pudesse haver jabuticaba, afinal o trabalho é o fundamento da propriedade. Ainda mais, o fundamento da propriedade não é a herança, mas o trabalho.

Qual análise o materialismo histórico faria do texto de Locke? O problema dessa reflexão, nos termos do materialismo histórico, trata de dizer que Locke não teria abordado o verdadeiro problema, pois se alguém realiza um esforço para transformar matéria em produto, quem foi que forneceu tal matéria a ser transformada? Ainda, para o processo de transformação da matéria em produto é imprescindível possuir os meios de produção, pois não será simplesmente com a mão que esse processo se concretizará. Então Locke só esqueceu-se de dizer que, embora será possuidor aquele que transformou a matéria em produto, há certa camada de pessoas que são as donas dos objetos e dos meios para realizar o processo de produção, a maioria das pessoas não os possui para efetuar essa transformação. Assim Locke parte de uma premissa que tudo é de todos, menos os meios de produção, ou seja, tudo é de todos, mas nem todos podem transformar matéria em produto.

O segundo problema que Marx aqui perceberia trata de que o sistema capitalista não funciona como Locke revela, pois aquele ente transformador da natureza em produto não é o proprietário deste, afinal quem realiza tal transformação não tem acesso àquilo que produziu, isto porque o produto transformado é atomizado, alienado daquele que o transformou, assim este produto é de qualquer um, menos de quem Locke diz ser. Assim são dois os problemas da análise de Locke: ignorar a alienação do processo do trabalho e ignorar os meios de produção. 

C) Adam Smith: o trabalho como medida do valor de troca de mercadorias.
Este economista escreve sobre trabalho em sua obra denominada “Pesquisas Sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, livro I, capítulo V. Nessa obra vai dizer que o homem é rico ou pobre segundo os meios de que dispõe para buscar coisas necessárias, cômodas ou agradáveis para sua vida, mas na hora de fazer a divisão, só uma pequena parte dessas coisas o homem pode obter diretamente pelo seu trabalho, assim é do trabalho do outro que ele tem que esperar a grande maioria das coisas que são necessárias e prazerosas, como por exemplo, o trabalho do pizzaiolo que vai resultar na pizza, como o trabalho do professor que vai resultar no conteúdo da aula. Assim o valor $$$ de qualquer mercadoria, para aquele que a possui, e que não pretende usar ou consumir ele mesmo, mas que tem a intenção de trocar por outra coisa, é igual à quantidade de trabalho que isto levou para ser feito. O trabalho é, portanto, segundo Adam Smith, a medida real do valor de troca de toda mercadoria. Pois bem, se voltarmos ao exemplo do trabalho do chinesinho escravo, na fabricação do Tênis Nike, e pensarmos que esse trabalho é a medida do valor de troca deste tênis, conclui-se que a proposta de Adam Smith cuida justamente da não-alienação, ou se preferir, a imbricação ou a não autonomia do produto em relação ao trabalho, tese oposta da marxista.

Para Marx o preço real de cada coisa, o que cada uma delas custa na verdade, para qualquer um que quiser comprá-la, é o trabalho e o sofrimento que esta coisa custou para ser produzida. O comprador do produto não tem noção do que precisou ser realizado para que este pudesse ser transformado e finalizado, o critério que Adam Smith usa para estabelecer o valor de troca das mercadorias não tem nada a ver com trabalho, do mesmo jeito que o valor de um apartamento de luxo em nada está relacionado com o trabalho do pedreiro, encanador, engenheiro, da mesma forma o livro não tem relação com o trabalho feito pelo escritor.

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