MARX,
O TERCEIRO GRANDE CONTINENTE CIENTÍFICO DA HISTÓRIA DO PENSAMENTO. - PARTE 4
(final) - 9) A infraestrutura e a superestrutura nas sociedades da
história. 10) As Relações de produção. 11) A Dominação ideológica de classe.
9)
A infraestrutura e a superestrutura nas sociedades da história.
Marx
está absolutamente convencido de que aquilo que é visível nos fenômenos
sociais, que podemos constatar das manifestações individuais e coletivas, sejam
os discursos, os gestos, as instituições, as regras, os programas, os meios de
comunicação, toda essa parte tangível da sociedade não se explica por si só.
Assim, por exemplo, se o ex-presidente Lula é um fenômeno social, quer dizer,
uma manifestação da nossa sociedade perceptível por todos, a verdadeira razão
do fracasso inicial de Lula e de seu sucesso a posteriori, não vai ser
explicado simplesmente analisando sua biografia.
Daqui
podemos concluir que para ser um materialista histórico o primeiro passo é não
se contentar com o que observa, pois o que vemos na sociedade esconde o que não
vemos, e isto é o mais importante. Tudo o que vemos na sociedade tem, por assim
dizer, uma causa oculta, por ser ela menos visível que seus efeitos, portanto,
para descobrir essas verdadeiras causas dos fenômenos sociais é preciso ser
cientista, ou seja, buscar verdades seguindo os métodos do materialismo
histórico. O que há de comum no pensamento de Marx, Nietzsche e Freud é o mesmo
alerta: o que tu observas não se explica pelo que é visto, existem causas
profundas que exigem uma espécie de escavação para sua identificação.
Para
entender, nos termos do materialismo histórico, como certas pessoas e objetos
fazem sucesso, por exemplo, o Padre Marcelo Rossi, o Willian Bonner, o ex-presidente
Lula, os livros de auto-ajuda, o silicone, os programas de televisão com
conselhos para se viver melhor e etc, deve-se saber: todos eles não se explicam
por si só. O primeiro degrau para entender o que isso quer dizer, trata de
analisar os conceitos de superestrutura e infraestrutura na filosofia de Marx,
que assim recorreu a uma metáfora da engenharia em suas obras, nesses termos,
infraestrutura e superestrutura, além de serem conceitos científicos no
materialismo histórico também são expressões do senso comum, embora, é claro
que, no materialismo histórico, o sentido dessas expressões será bem mais
preciso do que aquele.
O
que é a infraestrutura? O local onde encontraremos as verdadeiras causas de todos
os fenômenos sociais. O que compõe a infraestrutura de uma sociedade, seja qual
for, será tudo dela que direta ou indiretamente está ligado com a produção de
bens materiais em seu domínio. Imaginemos uma casa em Ubatuba usada para
veraneio, ela não é infraestrutura, da mesma forma um sítio em Botucatu usado
para férias, ele não é infraestrutura, mas imaginemos uma fazenda produtora de
soja, aí sim, ela é infraestrutura. Assim infraestrutura está ligada a tudo que
produz bens materiais em uma sociedade.
O
que é a superestrutura? Trata de tudo aquilo que está ao alcance dos sentidos
da sociedade, e, de certa maneira, ela abrange o “resto” em relação à
infraestrutura, cuidando assim de tudo aquilo que não está diretamente ligado à
produção de bens. Para a superestrutura, Marx não pode dar uma definição
acabada, fechada, justamente porque ela sempre se renova, por exemplo, a
internet é uma superestrutura, a ela, Marx não poderia ter incluído em uma
definição fechada.
A
política, a moral, a educação, a mídia, a polidez, as ideologias e discursos de
todos os tipos são superestruturas. Assim perceba, temos, na perspectiva do
materialismo histórico, uma cisão de princípios, de um lado a economia, as
condições materiais de produção de bens, e de outro lado o resto.
A
perspectiva considerada aqui trata de que nenhum elemento superestrutural é
explicável sem uma análise da infraestrutura que lhe corresponde, em outras
palavras, não se pode estudar, analisar e entender o sucesso, por exemplo, do ex-presidente
Lula, senão a partir da maneira como a sociedade em que ele se encontra produz
bens materiais naquele momento histórico, daí conclui-se que a economia detém a
chave explicativa de todo e qualquer fenômeno superestrutural, de todas as
causas profundas, causas essas que não são meros cosméticos e estão na
infraestrutura da sociedade.
10)
As Relações de produção.
Quais
são os elementos dessa tal infraestrutura que explicam as verdadeiras causas dos
fenômenos sociais e que também estão relacionados à maneira como as pessoas
produzem bens materiais? Podemos dizer que toda a infraestrutura é constituída
de forças de produção de um lado e relações de produção de outro lado.
As
forças de produção são todos os elementos materiais que participam da produção
de bens em um determinado instante histórico, portanto, elas só são plenamente
compreensíveis a partir da idéia de processo de trabalho, sendo através dele
que tais forças de produção se manifestam (vide o post da parte 1).
As
relações de produção são todas as condições políticas, históricas, culturais,
materiais e jurídicas em que o processo de trabalho se desdobra, em outras
palavras, desde o início de sua existência, o homem sempre agiu sobre a
natureza, mas tal processo nunca ocorreu da mesma maneira, isso porque as
condições em que tais ações foram possíveis sempre se modificaram de tempos em
tempos. Assim, de certa maneira, forças de produção e relações de produção
constituem a infraestrutura.
O
que caracteriza as relações de produção do mundo capitalista? Qual a principal
característica do contexto capitalista de produção de bens? Trata de dizer que
os meios de produção estão sob o controle de um proprietário, são objetos de
uma propriedade privada, em outras palavras, existe alguém que será dono dos
meios de produção. Sendo esta a característica principal das relações de
produção, nós podemos dizer, inferindo de forma imediata, que o característico
da produção capitalista, em termos de relação de produção, trata da existência
de dois grupos: os proprietários dos meios de produção e os não proprietários
dos meios de produção. Assim para entendermos porque, por exemplo, o ex-presidente
Lula faz sucesso, e se queremos tal entendimento a partir do materialismo histórico,
teremos de entender que tal sucesso se explica pela relação de produção entre
proprietários e não proprietários dos bens de produção. Da mesma forma um
pesquisador que quer estudar o sucesso da novela “Fina Estampa”, se servindo do
materialismo histórico, terá ele de estudar a relação entre proprietários e não
proprietários dos bens de produção. Mas, afinal, o que tem a ver o dono da
fazenda com o bóia fria e a pesquisa da novela Fina Estampa, de acordo com o
materialismo histórico?
Dirão
alguns, não marxistas, que proprietários e não proprietários dos bens de
produção se relacionam por meio de uma relação de alinhamento de valores,
complementaridade funcional e adoração, para que daí todos se sintam bem,
compartilhem de um mesmo ideal para o bem comum, vontade geral de uma vida
melhor e um mundo mais justo, como um time onde todos se dão as mãos, vestindo
a mesma camisa, estando todos juntos, daí não havendo diferença entre
proprietários e não proprietários dos bens de produção, onde a empresa seria
parte da vida do operário. Tal perspectiva de complementaridade funcional NÃO É
A PERSPECTIVA MARXISTA.
A perspectiva marxista alega que proprietários
e não proprietários dos meios de produção não se entendem bem, ou pelo menos,
não deveriam se entender bem, porque o proprietário quer uma coisa e o não
proprietário outra diferente. O proprietário quer o lucro e o trabalhador quer
o salário, sendo esses apetites incompatíveis. Para o proprietário aumentar
seus lucros precisa pagar pouco salário, sendo o que ele faz.
No
materialismo histórico os proprietários vão receber o nome de burguesia. A
expressão burguesia, para Marx, filósofo que viveu no século XIX, não se refere
às pessoas que vão ao Shopping e gastam no cartão de crédito, pode até
coincidir, mas não é esse o critério, a burguesia será a denominação utilizada
em referência às pessoas que detém os meios para produzir os bens materiais, em
outras palavras, o burguês será os proprietários de terras e máquinas. O
proletário, não proprietário dos meios de produção, será aquele que vende sua
força de trabalho para participar do sistema econômico.
A
parte interessante da análise marxista é que no enfrentamento entre proprietários
e não proprietários dos meios de produção não existe equilíbrio, isto porque o
proprietário vai ditar o quanto o não proprietário vai receber de salário, além
de onde, quando, porque, como vai ser realizado o trabalho, e este segundo não
apita nada sobre essas determinações, apenas lhe é facultado dizer sim ou não
para tais condições estabelecidas, em outras palavras, o burguês detém as
condições materiais da venda da força de trabalho. Como analogia pode-se dizer
que o burguês é o dono da bola do futebol de rua, quando ele quer jogar tem futebol,
quando não quer jogar não tem partida. Se o proprietário não está satisfeito
com o modo de trabalhar do não proprietário ele o demite, mas a recíproca não é
verdadeira.
Assim,
no caso da sociedade capitalista, as relações de produção se materializam em um
negócio, que no materialismo histórico denominou-se luta de classes. Isso quer
dizer que não se pode explicar a superestrutura sem a infraestrutura, se as
relações de produção são infra-estrutura e as relações de produção se
materializam na luta de classes, conclui-se que tudo só pode ser explicado a
partir da luta de classes, é por isso que Marx disse que a luta de classes é o
motor da história, em outras palavras esse filósofo quis dizer que é a partir
da luta de classe que é possível entender o porquê de que as coisas são como
tais.
Agora
peguemos novamente o exemplo do Padre Marcelo Rossi, na perspectiva marxista, ele
trata de um sujeito emblemático, pois realiza o cruzamento de instancias
alienantes, reúne em uma só figura duas das mais fortes instâncias de alienação
da sociedade: a religião e a mídia. Daí só se pode estudar o sucesso deste
padre pela luta de classes, ou se preferir, ele é o resultado da luta de
classes, ou mais que isso, é uma espécie de instrumento da luta de classes, ele
só se explica na luta de classes. Assim as lutas de classe são os motores da
história, é a usina oculta de causalidade que explica os fenômenos do mundo. Da
mesma maneira a telenovela “Fina Estampa” é um instrumento da alienação e
dominação de classes.
11)
A Dominação ideológica de classe.
Ocorre
que a luta de classes é desequilibrada, por isso ela vai ganhar outro nome:
dominação de classe. Ganha esse nome porque o burguês ganha sempre.
Aqui
podemos abrir dois parênteses:
(1)
Marx antecipava uma revolução, a sua mais firme convicção é a de que, no capitalismo,
o capital se concentra, premissa de um acerto histórico irritante, basta
observar o que ocorre hoje em dia com os bancos impiedosamente. Ora, se o
capital se concentra os proprietários dos meios de produção serão sempre mais,
em menor número, e cada vez mais gigantes, portanto podemos dizer que a
burguesia é uma classe que diminui em número e tamanho, daí, havendo duas
classes, o que o capitalismo patrocina é uma proletarização progressiva das
relações de produção, assim o sujeito que é dono de uma mercearia vende seu
comércio para uma grande rede de hipermercados e se torna gerente dela, da
mesma forma o dono da Editora Moderna vendeu a editora para um grupo espanhol,
daí ele passou a ser diretor do comércio que era dono, recebendo holerite de
uma empresa que antes era dele. Tal proletarização não quer dizer
necessariamente pobreza, quase sempre, mas nem sempre.
(2)
Na hora que se constata que a burguesia fica cada vez menor e o proletário fica
cada vez maior e mais miserável, a inferência óbvia disso é antecipar a
revolução como inexorável, essa que até hoje não ocorreu em lugar algum do
mundo.
Eis
aqui um ponto importante, toda vez que se tem uma relação de dominação de um
grupo sobre outro, surge a pergunta de como essa relação se mantém e se
reproduz, afinal toda dominação tem vida comum no desequilíbrio, e portanto,
trata de um desconforto para o dominado. Já a partir do momento em que o
dominado está em maior número tal situação se torna ainda mais intrigante: como
o dominado aceita uma situação de desconforto, tristeza, penúria ante a óbvia
vantagem e proveito de um grupo que é minoria?
A
primeira resposta será dizer que os dominados não aceitam e vão impedir
violentamente o grupo menor, tal fato não aconteceu até hoje, afinal a violência
física é uma forma de dominação, mas aparentementente não é a forma burguesa
essencial. O cotidiano é composto por uma exploração do trabalho aceita
pacificamente, quando falamos em exploração do trabalho nos referimos ao salário
pago à menor do que ele vale, pelo fato do burguês ser proprietário dos meios
de produção, e, assim, controlar a venda da força de trabalho, como
conseqüência se o burguês não quiser que o proletário venda seu trabalho tal ato
não será feito, daí paga-se o quanto quiser para o trabalhador.
Assim
a pergunta continua: já que não é na base da violência que a burguesia perpetua
seu poder, como que essa exploração se reproduz a tanto tempo sem revolução,
luta organizada explícita de classe ou guerra entre burguesia e proletariado?
Surge então um segundo tipo de exploração que não precisa de violência, trata
de uma dominação em que o dominado não se enxerga enquanto tal e concorda em
grande parte com o dominante, nessa dominação, dominantes e dominados
compartilham com uma mesma visão de mundo, poderíamos chamá-la de dominação
legítima, entendida como justa e normal, também podemos chamá-la de dominação
ideológica ou simbólica, isso porque, na hora de pensar o mundo como ele deve
ser, burgueses e proletários se aproximam muito mais do que divergem. Então
perceba que a luta de classe ela se mascara, não se explicita, e é por isso que
a guerra não acontece.
Assim
voltando ao exemplo anterior, só se pode entender o sucesso do Padre Marcelo
Rossi agora, se entendê-lo como participando de um processo de dominação
ideológica de classe, ou seja, ele como veiculador de uma ideologia dominante que
contamine burgueses e proletários e faça-os concordar. Da mesma maneira só se
pode entender o sucesso do Willian Bonner se
entendê-lo como instrumento de dominação ideológica de classe, ou seja,
como o veiculador de uma certa concepção de mundo ideal que faça coincidir
burgueses e proletários, da mesma maneira o ex-presidente Lula e todos os
outros exemplos que podemos dizer.
Para
que essa dominação ideológica de classes ocorra e assim entenda-se que dominantes
e dominados concordam, o proletário não pode se sentir dominando, isto porque
ele sequer se observa pertencendo a uma classe oprimida, pelo contrário será
ele o primeiro a defender as circunstâncias como elas são, será ele o primeiro
a achar que existe justiça onde há um flagrante desequilíbrio, assim, a
dominação ideológica dispensa a violência, pois o sujeito já está completamente
convencido.
De
certa maneira são os países que os Estados Unidos invadem militarmente aqueles
que ideologicamente não se alinham, eles não precisam invadir, por exemplo, o
Brasil, pois esse é um país extremamente dócil para o fenômeno da
americanização do mundo, já está pré-convencido. Quanto aos países que não
concordam com essa exploração, sobre eles é feita pressão física, econômica,
retaliação e em ultimo caso invasão militar. Assim só se recorre à violência
quando a ideologia não cumpriu bem seu papel. Quando que a ideologia não faz
seu papel? Muito raramente.
Assim a dominação ideológica converte as
relações capitalistas, confere legitimidade à forma particular de bens de
produção na sociedade, por isso que a guerra, a revolução de classes do
proletário se torna cada vez menos provável.
Já
a política é um epifenômeno, um sintoma da dominação de classes, assim o que
nós vemos no Congresso Nacional, por exemplo, nada mais é que uma manifestação
da alienação de classes como qualquer outra. Então, dentro da lógica marxista,
se entenderia a política do governo do ex-presidente Lula, ao patrocinar, por
exemplo, a inclusão pelo consumo de quinto escalão nas Casas Bahia, como um
processo de docilização das injustiças, através do consumo que antes não havia
pelas classes mais pobres, gerando assim como conseqüência a desmobilização da
luta de classes e da revolução do proletariado, portanto o ex-presidente Lula,
apesar de sua origem sindical é um governo de burgueses, para burgueses, como
todos os outros.
Com
esse trabalho esperamos que tenhas entendido que o materialismo histórico é uma
maneira de fazer ciência que tem um método e objetos próprios, que, embora coloque
na política um objeto, também situará na mídia e na religião outros de seus
objetos possíveis, e, indo mais adiante, em qualquer fenômeno social tal
constatação poderá ser feita, sendo o discurso ideológico sempre o mesmo: a
luta de classe é o motor da história.
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