A FILOSOFIA
DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 3 – 6) A vida e
a morte. 7) O amor e o ódio. 8) Consciência e afetos possíveis de amar / odiar.
9) Esperança e o temor, dois lados de uma mesma moeda.
6) A vida e a morte.
Na filosofia de Spinoza a idéia
da potência de agir é muito importante, o resto é apenas sintoma disso.
Potência de agir é a essência, o esforço, isto porque não está nada fácil o
homem ser homem com tantos mundos prejudicando-lhe.
Alegria é afeto onde a potência
de agir aumenta. Tristeza é afeto onde a potência de agir diminui. Por isso que
alegria é no sentido da perfeição e da vida, tristeza é no sentido da
imperfeição e da morte. Faz sentido então a frase clássica de Spinoza: “Só
morremos de tristeza”, em outras palavras, a própria idéia de morte em Spinoza
não é apenas o desaparecimento da potência de agir por completo, tal como a entendemos
nos velórios, não, mas sim é todo instante em que, na vida, a potência de
agir cai, pois, nesse caso, somos menos de nós em nós mesmos, perdemos
essência, e aquele que é menos de si em si mesmo é porque morreu um pouco.
A idéia de morte tal como se
entende no senso comum definitivamente não serve para nada. Agora trazer a
morte para dentro da vida parece altamente fecundo, afinal de contas, no
momento que associamos tristeza à morte, temos um entusiasmo maior para cuidar
direito da nossa vida e zelar por ela, não aceitar tão passivamente a tristeza,
resistir melhor, não tolerar tão facilmente encontros que podemos vislumbrar
como entristecedores.
No momento que cada tristeza é
entendida como um pouco de nós que morre, percebemos o quão preciso é o
instante em que a vida vive.
Insisto nisso porque a vida em
sociedade nos adestra a tolerar a tristeza, aceitá-la como normal. Tanto é
assim que quando tu lutas de verdade por um instante alegre é muito comum que a
sociedade se organize para te dissuadir, é o Zaratustra do Nietzsche que melhor
diz isso, se te apetecer repousar, repousa, se te apetecer esforçar, esforça,
se te apetecer fugir, fuja, se te apetecer enfrentar, enfrente, mas veja bem o
que te apetece e não recue diante de nenhum pretexto, porque o mundo se
organizará para te dissuadir. Em Spinoza encontramos a mesma idéia, em Deleuze na
“Máquina Desejante” idem. Toda vez que tu defines o que te alegra, é muito
possível que as pessoas em tua volta afirmem que tu não és ninguém, então é
normal que, para não enfrentar uma sociedade truculenta, nos habituemos a uma
rotina de tristeza mascarada, é por isso que happy hour ocorre sempre nas sextas
feiras às 18h30min, e o mais bacana, é a tranqüilidade e facilidade que aceitamos
essas convenções, até lá é serviço, enquanto o trabalho dura não pode haver
felicidade.
Naturalmente percebe-se o quanto
a leitura de Spinoza é libertadora sem livre-arbítrio, porque a liberdade agora
não se trata de escolher entre a dieta carnívora ou vegetariana, mas sim de perceber
a inexorabilidade da existência e as condições ideais de luta pela própria potência.
Não se trata do livre arbítrio
tolo de uma escolha irrisória e ilusória, mas sim de uma liberdade de outro
padrão, a liberdade do sábio, daquele que sabe o que acontece é só o que
poderia acontecer, porque tudo não é outra coisa senão apenas uma luta, a única
que poderia ser por perseverar no próprio ser. O sábio que sabe que tudo é
só como poderia ser, ele, sabendo tudo, sabe, assim se frustrará menos, trata
de alguém que vive o mundo no mundo. O sábio tem um pouco de super-homem,
simplesmente por suportar a vida na vida, sem recorrer a piruetas metafísicas,
a grandes parafernálias lógicas transcendentais, deuses criadores, sociedade
sem classe, democracias perfeitas, Atlântida, direitos humanos, que o homem
inventa para escapar do encontro do real como ele é.
7) O amor e o ódio.
Naturalmente que depois da
alegria e da tristeza poderíamos propor o amor, e, como tudo é geométrico e
simétrico, junto com ele o ódio. O amor, sendo uma alegria, e o ódio, uma
tristeza, mas é claro que o amor é uma alegria particular, senão seriam sinônimos.
Também amor não é alegria, porque há alegrias que não são amorosas.
Quando que alegria é amor?
Alegria é amor quando vem
acompanhado da idéia da sua causa, porque podemos nos alegrar e não ter a
menor idéia do porque estamos alegres. Isso acontece muito freqüentemente, p.
ex., naquela situação onde estamos bem, mas existem muitas outras situações que
podem nos melhorar ainda mais, daí podemos nos alegrar e supor qual é a causa
de nossa alegria. Aquilo que se supõe ser a causa dessa alegria é o objeto do
nosso amor, quando p. ex., tu encontras alguém e diz: “a tua presença me
afeta de alegria, e suponho com convicção conhecer a causa: você”. Trata de
uma maneira de dizer eu te amo à moda de Spinoza. Claro que se poderia
substituir a expressão alegria por passagem para um estado mais perfeito e
potente do ser, isso torna a definição ainda mais charmosa: o encontro contigo,
determinou em meu corpo, uma passagem para um estado mais perfeito e potente do
ser, com causa suposta clara, você. Trata-se de dizer eu te amo para os eruditos
leitores de Spinoza.
Existem outras particularidades
que podemos trazer com o fio dessa definição: Spinoza não está dizendo que o
amor é pela causa da alegria, mas que o amor é pela idéia da causa, ou
seja, o que tu achas que causou a alegria, pode bem não ser a causa dela, é por
isso que o amor de Spinoza, assim como qualquer outro, pode ser bem equivocado.
Assim julgamos saber o que nos alegra, mas erramos, com isso insistimos que o
amor é aquilo que definimos sê-lo, e, como nós ignoramos quase tudo, o amor é
sempre uma suposição, e o objeto do amor uma idéia que nós mesmos fazemos das
causas da nossa alegria.
Amor é ganho de potência, quando
p. ex., um marido diz que ama sua esposa, mas ela o abarrota de tristeza, o
pobre rapaz tem uma idéia de amor como um estado de princípio, assim: A ama B,
mais ou menos como o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos
catetos, ou seja, é o que é e ponto.
De fato o amor é afeto, sendo assim,
está no mundo da vida, portanto, não transcende ao trânsito da existência, mas
está inscrito nela. Não se trata de “aconteça o que acontecer, mesmo que tu me
destruas a existência, eu te amo”, mas sim que tu te relacionas com uma pessoa,
e (1) em certos momentos ela alegra-te, tu percebe que ela te alegrou, assim tu
a amas; (2) já em outros momentos ela alegra-te, mas tu não percebes que ela te
alegrou, assim tu não a amas, e pensa estar nesse estado por outro motivo que
não ela; e (3) tem outros momentos que ela entristece-te, tu achas que foi ela
que te entristeceu, assim tu a odeias.
No matrimônio amores e ódios que
oscilam ao sabor das alegrias e das tristezas, assim funciona, e para sempre. Diz
um adágio: a tristeza mora do lado, esperar do matrimônio alegria e amor para
sempre é desconsiderar a oscilação inexorável da potência de agir, portanto, em
um matrimônio, tu amarás e odiarás na seqüência, e se esperar mais do que isso,
é claro, está esperando do mundo mais do que ele pode oferecer.
Essa é a grande lição do
pensamento de Spinoza, trata da desesperança, nos termos escritos pelo filósofo
André Comte-Sponville,
em sua obra “Felicidade Desesperançadamente”. Espere menos do mundo
do que ele pode afetar-te, porque se tu esperas menos é possível que tu te
frustres menos, assim, p. ex., querer exigir do cônjuge alegria atrás de
alegria não tem possibilidade. Por outro lado na hora que tu aceitas o amor e o
ódio na oscilação das alegrias e das tristezas, a vantagem é que o ódio chama
mais a atenção, dele tu tens melhores condições de análise de que o outro te
entristeceu, tu sabes que foi ele, e tu o odeias naquele instante.
A palavra ódio foi estigmatizada
pelos monoteísmos como ruim, mas nada mais é que afeto, afinal se tu te
entristeceste, e, sabendo qual mundo te deixou assim, só pode odiá-lo
legitimamente, pois somos do tipo que odiamos quem nos contraria, e amamos quem
é a nosso favor. Ser em nosso favor é proporcionar-nos alegrias, já quem
entristece é contra a nós, só resta odiá-lo.
8) Consciência e afetos possíveis
de amar / odiar
Por outro lado todo amor implica
em algum tipo de consciência, porque, sendo seu objeto a idéia da causa, daí todos
os afetos alegrados que não ingressam no espaço da consciência são impossíveis
de amar. Talvez agora entenda a utilidade de incluir na consciência os
afetos que antes ficavam na periferia, pois, puxa vida, se o amor é sensação boa
de sentir, quanto mais tu tiveres noção daquilo que te alegra, mas tu tens
condições de amar, tenderá a viver melhor. Para dar-se conta das alegrias do
mundo é fundamental dar-se conta das relações que mantemos ininterruptamente
com o mundo. As coisas do mundo que nos alegram são amáveis, devemos
agradecê-las internamente, mas na nossa soberba, na nossa arrogância de
auto-suficientes filhos de deus acreditamos que tanto a alegria como a tristeza
são responsabilidade e méritos nossos, esquecemos de nos agradecer pelos mundos
e pessoas que nos alegram, truculentos que somos, sem entender que a vida é a
composição nossa com todo o resto, amor é alegria acompanhada da idéia da sua
causa.
Talvez tu concluas que essa idéia
te alegrou, e talvez tu suponhas que tenha sido a mesma idéia que tenhas te
alegrado, portanto, tu carregas a idéia de Spinoza, ela é o objeto de teu amor,
e ela ajudar-te-á muito, porque, já que o amor tem como causa a idéia de
Spinoza, é possível alegrar-te mesmo que não leia esse texto, daí tu percebes
que, com o amor, vencemos aquela sensação de leveza insuportável da seqüência
dos afetos, de que alegria morre no instante mesmo que nasce.
Com o amor vencemos um pouco
aquela sensação do transito inescapável dos instantes; levamos para a nossa
vida o objeto, a idéia da causa da alegria vivida; puxamos o freio de mão; o
tempo do mundo descola um pouco do tempo da alma; o tempo da alma se afasta do
tempo do mundo; podemos esticar um pouco mais, o quanto possível, aquilo que
nos alegrou, porque a idéia, essa levamos conosco, não precisa estar presente. Leve
para tua vida a idéia do amor de Spinoza, objeto de teu amor, lembre dela, fala
dela, alegre-se com ela, e aí tu perceberá com tranqüilidade o quanto podemos
resistir e vencer essa montanha russa dos afetos, onde as tristezas teimam em
aparecer arrebentando com nossas alegrias instantâneas, o amor nos permite,
graças a idéia que temos do mundo, conservar
e segurar um pouco a alegria, ainda que seja ilusão, tão importante para
uma vida menos dramática.
9) Esperança e o temor, dois
lados de uma mesma moeda.
Relembrando: a alegria é algo que
tu sentes quando ganha potência, o amor é algo que tu sentes quando ganha
potência + supõe qual é a causa.
A esperança também trata de um ganho
de potência determinado por uma idéia de mundo, porém aqui, determinado por uma
suposição particular, de um real que tu não sabes se será real, determinado por
um mundo apenas cogitado, mas não verificado, não concretizado, não acontecido,
que apenas passa pela cabeça, mas que não tens a menor certeza que aconteceu.
Nesses termos, claro, é possível
ter esperança de coisas que tu não sabes se vão acontecer, não só as futuras,
mas as ignoradas, p. ex., um avião cai e um parente teu encontra-se a bordo, se
resistiu ou se morreu, tu permaneces na ignorância, a esperança de que tenha sobrevivido
permanece viva. Trata de um real cogitado que jamais tenha se confirmado, ganho
de potência com reais apenas imaginados, eis a esperança.
A campanha da televisão Criança
Esperança não dá lugar à criança a alegria, nem no seu slogan temos a amoral de
resolver os problemas, porque Criança Esperança trata de criança que se alegra
com mundos que não existem ainda, seria melhor se fosse Criança Alegria,
Escolaridade, Saúde, Discernimento, Vida Boa, Concretude. Esperança é um afeto
determinado por elucubrações de mundos delirantes, esperança não basta.
Alguém poderia perguntar: Se na
esperança ganhamos potência, então, nesse caso, a esperança não é boa?
Essa não é a perspectiva de
Spinoza, porque como a esperança é determinada por uma idéia de mundo que não
se confirma, é claro que o contrário do mundo cogitado também pode aparecer na
mente, é por isso que toda a esperança é inseparável do seu contrário, o temor,
que é a queda de potência determinado por um mundo cogitado, suposto, mas não
verificado.
Como os mundos são incertos,
tanto o da esperança como o do temor, toda a esperança vem acompanhada de
temor, pois se pode ter esperança p. ex, que meu time ganhe, ela é inseparável
da esperança que ele perca de novo. A esperança que algo aconteça é inseparável
do temor que ele não aconteça.
É diferente da alegria e da
tristeza, pois nessas duas o mundo está ali diante de ti, já aconteceu, alegrou
ou entristeceu.
No caso do temor e da esperança
tratam de dois lados da mesma moeda, são inseparados, viver esperançosamente
é viver em temor, de forma amedrontada, portanto, não é o que se pretende.
Na verdade, enquanto imaginamos
mundos, o real, de carne e osso, desfila na nossa frente. Assim, toda a
esperança acaba fazendo curto circuito com uma alegria, porque claro que no
lugar do mundo que cogitamos tem outro, bem diante de nossos olhos, e ele
poderia estar nos alegrando.
Aquele que vive entre o demônio e
a esperança acaba perdendo a oportunidade de viver uma alegria plena e tristeza
plena.
O temor e a esperança é um
escape determinado por um receio enorme que temos que o mundo nos entristeça,
mas aquele que vive pirado pelas próprias idéias, enfeitiçado pelas próprias
cogitações, a mercê das próprias divagações, acaba se impedindo de encontrar o
mundo como ele é, amá-lo como se apresenta diante de si.
Assim damo-nos conta de que uma
alegria plena pressupõe certa desesperança, pressupõe estarmos 100%
galvanizados, absorvidos pelo mundo da vida, porque se tivermos com a mente
voltada à outros mundos, estaremos metade em cada um deles, fracos, desarmados,
despotencializados, cada caco em um canto. Alegria plena pressupõe corpo e alma
voltados para o mundo tal como ele se apresenta diante de nós.
É sempre aquela velha lição
clássica retomada dos estóicos por Sponville: lamentar um pouco menos, esperar
um pouco menos e amar um pouco mais, amar o mundo como ele é, deixar-se alegrar
pelo mundo como ele se apresenta, eis aí um grande desafio.
No amor de Platão, Eros, o desejo é pelo que falta, e o que
falta trata-se de algo de nossa cabeça, porque ao mundo não falta nada, ensina
Spinoza, o real é o que é, toda falta é só um entendimento equivocado do mundo.
Quando vemos lacunas no real, trata de um desalinhamento entre o que esperamos
do mundo e o que ele realmente é, porque o mundo não pode estar errado, ele só
é, erro é atributo de pensamento, de expectativa, de quem pensa sobre o modo. O
mundo segue impávido conosco a sua trajetória, somos nós que vemos nele faltas,
lacunas, injustiças, imperfeições, assim, claro, esse problema é nosso.
Conseguir amar o mundo como
ele é, trata-se de um grande desafio. Apaixonar-se pelo que falta, trata de
apaixonar-se por desejos, aquilo que não se tem e gostaria de possuí-lo, é tão
mais fácil e simplório, nível zero de espiritualidade é amor pelo que falta.
Já a alegria pelo que não falta, o
amor philia em Aristóteles, ou, o
amor de Spinoza, diferentemente, aqui sendo aquele acompanhado da idéia de sua causa,
esse já requer um pouco mais de sofisticação, elevação espiritual. Não é a
mesma coisa, estar, p. ex., apaixonado por uma mulher que nunca agarrou e
alegrar-se por outra com quem convive.
É preciso apreço pelos detalhes
para amar o mundo tal como ele se apresenta, esse não é para qualquer um, daí
por isso que a definição de amor em Spinoza tanto encanta. Quando se ama alguém
à moda de Platão constrange o outro, pois, como deseja, e o faz na falta, e o
desejo busca a presença, é preciso submeter. Por outro lado amar alguém à moda
de Spinoza, trata de agradecer por existir, por patrocinar uma idéia que tanto
alegra, e o máximo que o amado dirá é que fica feliz por se alegrar com a déia
de que ele existe.
Assim a esperança não é tão boa
quanto parece, é o que Spinoza, entre outros, chama de paixão triste, pois
apesar de haver ganho de potência, ela é triste, pois tem causa cogitada,
descolada do real. É por isso que a boa atitude é a vida na desesperança, amor
ao mundo como ele é, coisa para sábios.
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