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MARX, O TERCEIRO GRANDE CONTINENTE CIENTÍFICO DA HISTÓRIA DO PENSAMENTO. - parte 1 - 1) A pretensão marxiana: a fundação de uma nova ciência. 2) O método de produção da ciência. 2.1) Marx versus Nietzsche: a produção da verdade. 3) Quais são os conceitos de que estamos falando? 4) O que, em Marx, devemos entender por materialismo? 4.1) Ciência e Filosofia unidas.


Marx, o terceiro grande continente científico da história do pensamento. - parte 1 - 1) A pretensão marxiana: a fundação de uma nova ciência. 2) O método de produção da ciência. 2.1) Marx versus Nietzsche: a produção da verdade. 3) Quais são os conceitos de que estamos falando? 4) O que, em Marx, devemos entender por materialismo? 4.1) Ciência e Filosofia unidas.



1) A pretensão marxiana: a fundação de uma nova ciência.



A primeira observação a ser proposta é que Marx tem certa pretensão para o seu trabalho: fundar uma nova ciência. Mas não é a única. Ele também tem a pretensão de propor uma nova sociedade, portanto, diríamos que toda a leitura da obra de Marx resvala nessa imbricação entre o seu pensamento científico de um lado e o seu pensamento propositivo ou, como alguns chamam, utópico de outro lado.

A nossa preocupação maior aqui é com pretensão científica do autor, em outras palavras, a busca pela explicação das coisas do mundo como ele é. Portanto, podemos dizer, o que Marx pretendeu fazer, antes de qualquer coisa, foi entender o mundo de seu tempo. Nesse sentido, Marx é bastante fiel àquilo que Hegel propõe como conceito de filosofia: entender o mundo do seu tempo.

Marx, para tanto, proporá uma ciência e a ela dará um objeto: a história.

Nesses termos, se perguntássemos para Marx como é que ele se definiria enquanto intelectual, é muito provável que obtivéssemos a resposta que procura ser um cientista da história. Ora, todos nós sabemos que a reflexão sobre a história do mundo não começa com Marx e, portanto, temos que concluir que esse filósofo propõe uma nova reflexão sobre a história, partindo de outro ponto de vista, cuja sua reflexão será única que merece a alcunha de científica. Então, naturalmente, quando Marx se diz um cientista da história ele obviamente se considera um pai fundador de um novo campo, novo continente científico, que se justaporá a outros tantos já existentes. No entanto, o que Marx está dizendo é que tudo que foi dito da história, antes dele, de científico não tem nada, portanto eis aí uma primeira perspectiva.



2) O método de produção da ciência.



Paralelamente a essa ambição científica, e aqui onde se instaura toda a dificuldade da compreensão do pensamento de Marx, ocorre quando encontramos certa frase chave em sua obra intitulada “Teses sobre Feuerbach”.

Feuerbach era um pensador importante quando Marx começa a trabalhar e, portanto, alguém em relação a quem Marx tinha que se posicionar, e ele não teve nenhum pudor em fazê-lo, daí escreve um livro que já no título mostra qual é o seu objetivo, ou seja, escreve ali suas diferenças e semelhanças em relação ao dominante da época, esse tal de Feuerbach. A grande obra de feuerbach é “a Essência do Cristianismo”, obra clássica do século XIX, e que de alguma forma é rigorosamente fundadora de uma crítica da religião proposta por Marx.

Pois bem, na tese 11 sobre feuerbach, conforme dito encontra-se a seguinte frase:

“(...) os filósofos só fizeram interpretar o mundo de muitas maneiras, o que importa é transformá-lo.”

Essa afirmação semeia grande confusão na hora de entender o que Marx almejava entender das coisas. Porque, afinal de contas, pela sua simples leitura, levamos a impressão de que Marx conclama logo a ação revolucionária imediata, ou seja, é preciso transformar o mundo, e, ao dizer que: “somente os filósofos fizeram até agora foi interpretar o mundo”, temos a impressão que Marx nega toda a importância da teoria no processo revolucionário, no entanto, perceba a contradição, a vida de Marx foi toda ela consagrada à sua obra e não se tem notícia que ele tenha pego em armas para deflagrar algum tipo de revolução, então a pergunta que surge é: será a tese 11 sobre feuerbach é incoerente com a vida de Marx, ou precisamos entender a tese 11 diferentemente? O que é importante talvez concluir é que a tese 11 não anuncia o fim da teoria, mas uma ruptura com as teorias de até então.

A rigor o que Marx procura é estabelecer uma ruptura simbólica com o pensamento que lhe precedeu, em especial, o pensamento que interpreta a história utilizando teorias meramente discursivas, especulativas, ensaísticas, essas não constituiriam conhecimento científico da sociedade e da sua história e, portanto, essa argumentação anuncia uma nova teoria, a cientifica da história, a qual Marx dará um nome: materialismo histórico.

Ora, se é uma teoria científica da história, a primeira pergunta diz respeito à própria palavra teoria, essa palavra vem do grego e aqui ela quer dizer contemplação do divino, ora a que divino aludiam os gregos? Aludiam a essa ordem universal, inteligência superior que ordena o mundo, a harmonia entre as coisas, suas atividades e suas finalidades. O divino é a própria índole cósmica do universo, e a teoria implica em uma contemplação de um divino que se descortinaria pela mera observação visual do mundo que nos encontramos. Assim bastava abrir um esquilo para ver, nas partes constitutivas dele, uma ordem universal maravilhosa que não foi o homem que a produziu, daí a nomenclatura de divina. O homem reconhece no universo uma ordem e uma lógica, cosmos e logos irmanados, mas também reconhece que não foi ele que a produziu, assim, se não foi ele que fez, então foi Deus, alguém que não é ele, portanto o divino é o universo enquanto ordenado, já a teoria é a contemplação do universo enquanto divino.

Naturalmente que a perspectiva grega de teoria não é a de Marx, não é a dele porque não é a de nenhum filósofo moderno, afinal o homem moderno sabia que o universo não é ordenado, organizado, nesse sentido os objetos não estão no seu devido lugar, não foram talhados por si só para desempenhar uma atividade específica, não há uma finalidade pré-existente que explique de forma soberana o porquê das coisas existirem, tais objetos têm muito mais causas materiais e existentes do que causas finais, portanto essa ordem a que aludiam os gregos parece não existir. Assim a teoria não pode ser mais contemplativa, e a ciência moderna é muito menos uma contemplação passiva do observador, mas sim ela faz produzir uma ordem aonde só há desordem e caos, religando causalidades e fenômenos através de mecanismos causais. Então perceba que a teoria não é mais nem contemplação nem do divino, conservamos o nome, mas que vai romper, etimologicamente, com suas origens.

O que a teoria vem a ser? A melhor alegoria para entender a teoria, nesse sentido, é a de instrumento, de ferramenta para a produção científica. A teoria é o instrumento que o cientista usa para fabricar conhecimento científico e, portanto, não tem nada mais de contemplativo, pelo contrário, é profundamente ativo, prático, e, portanto, não tem nada de simples registro espiritual de uma ordem divina e harmônica.

Marx propõe uma comparação, e ela parece profundamente heurística, esclarecedora, assim, explica no livro a ideologia alemã:

“(...) da mesma maneira que no processo de produção de bens materiais, pretende-se transformar uma matéria prima determinada, p. ex., o cobre, em um produto determinado, p. ex., cabos de cobre, mediante a utilização, por meio de trabalhadores, de meios especializados, máquinas, instrumentos, no processo de produção de ciência, pretende-se transformar uma matéria prima, percepções ingênuas e espontâneas da realidade, em um produto determinado: conhecimento científico, mediante a utilização de um instrumental competente, no lugar das máquinas que fabricam o cabo do cobre a partir do cobre, a teoria e o método”.

Aqui a teoria é a ferramenta que permitirá o cientista transformar percepções ingênuas e caóticas do mundo em conhecimento científico. Quando iniciamos um mestrado acadêmico exigem de nós um projeto de pesquisa, nele teremos de descrever o objeto de nosso trabalho, ele é o nosso ponto de partida, aquilo que nos dispomos a estudar, tal objeto é a matéria prima, o cobre, trata do mundo que grosseiramente vamos nos dispor a analisar. Nesse projeto terá de haver um método, um procedimento, também terá de haver a teoria, aqui podemos chamá-la de quadro teórico de referência, trata de ferramentas que aplicamos ao objeto (o fenômeno do mundo que constatamos), para dele produzirmos ciência (o resultado final de dessa aventura científica).

Portanto a teoria é um corpo de conceitos que, aplicados a certa realidade percebida, permitirá a produção de um conhecimento científico. Portanto a teoria científica da história, o materialismo histórico, pressupõe um conjunto de conceitos, muito específicos, que doravante analisaremos, e que, aplicados a certa realidade, permitirão a verdadeira ciência da história.

Até aqui nosso objetivo foi:
(1) Destacar que Marx tinha uma pretensão de encontrar verdades no mundo.
(2) Destacar que Marx tinha a pretensão de dizer sobre a história o certo e o errado.
(3) Destacar que Marx se considerava cientista e, portanto, a idéia de verdadeiro e falso, nesse pensador, é muito nítida e clara, em outras palavras, Marx partia de uma convicção tipicamente científica de que aplicada certas ferramentas em uma realidade temos como conclusão o aparecimento da verdade. Assim é preciso aplicar as corretas e boas ferramentas em uma realidade e a verdade aparecerá.


2.1) Marx versus Nietzsche: a produção da verdade.


Insisto nisso, pois as filosofias pós-modernas, originadas em Nietzsche, filósofo contemporâneo e diferente de Marx, ao refletirem sobre o mundo, já de início nos alertarão que seus postulados apenas cuidam de um ponto de vista particular e, portanto, certo delírio íntimo sobre o mundo, uma perspectiva relativa do que se compreende acerca da realidade, tratando de pulsões individuais em encontro com o mundo, portanto, simplesmente uma questão pessoal de cada pensador pós-moderno. Fosse outro, ou fosse Nietzsche em outro lugar, em outro momento, o resultado seria diferente, assim suas obras cuidam de uma produção sinábtica inédita, resultado de certas inquietações profundas que só fazem sentido no próprio escritor em questão. Portanto, se quiser ler suas obras, façamo-no, senão quiser não leia, mas não pense que Nietzsche, ao escrever, busca alcançar alguma verdade indiscutível sobre os objetos que expressa, de jeito nenhum. Assim, nesse raciocínio, tudo que Marx tinha de cientista, Nietzsche negava enquanto possibilidade de produção da verdade, pelo contrário, denunciava tal busca como o resultado de uma tristeza e incompetência no mundo, já que a vida desdobra somente em fluxo, deixar de ser, ineditismo, impermanência, e o homem, desesperado com tanta leveza, busca desesperadamente puxar o freio de mão, estabilidades, e nada melhor do que uma verdade, afinal ela não muda. O homem precisa de verdades por não suportar um mundo onde delas não cabe nenhuma, ainda mais, em sua fracassada tentativa de proclamá-las, alegoricamente, surge lhe o mundo em face, fazendo caretas e dizendo: fui! E aquela verdade já não corresponde.

Espero que tenha ficado claro que Marx é um belo e bom cientista, em outras palavras, alguém que está convencido de que é o dono da verdade, enquanto os outros, esses são mentiras. Para quem viveu o início de movimentos estudantis, supostamente ancorados na literatura marxista, tal ideia é muito visível: a certeza de que eles possuem a razão. Já aqueles que não compactuassem com essa máxima eram taxados enquanto descaminhados. Tal proposta “eu tenho razão, você é um imbecil” trata de um absurdo em um movimento nietzscheano, pois nesse, tanto eu quanto você, nós iremos possuir o único ponto de vista que poderíamos ter sobre o mundo, não havendo um que seja nobre, magnífico e outro medíocre, apequenado.



3) Quais são os conceitos de que estamos falando?



Aqui segue uma lista para certa noção do tipo de ferramentas aplicadas para estudar a realidade caso pretendamos fazer materialismo histórico, ou, se preferir, teoria científica da história à moda de Marx:

- processo de produção
- forças produtivas
- relações técnicas de produção
- relações sociais de produção
- infra-estrutura
- superestrutura
- estrutura ideológica
- estrutura jurídico política
- modo de produção
- formação social
- conjuntura política
- determinação pela economia
- autonomia relativa
- classes sociais
- luta de classe
- transição
- revolução
- ditadura do proletariado

Essa embocadura da pretensão cientifica de Marx pode ser lida, a grosso modo, no livro “A ideologia Alemã”

Louis Althusser, um marxista crítico do século XX, proferiu uma conferência em 1968, intitulada “Lenin e a filosofia”, onde realizou uma análise da produção científica na história que parece profundamente auspiciosa, ali ele vai comparar as ciências aos continentes. Althusser observa que, antes de Marx, só haviam sido descobertos dois grandes continentes científicos:

- as matemáticas, pelos gregos, certamente já ouviu falar, a título de exemplo, da geometria euclidiana, um grande continente;
- a física, por Galileu;

Assim de acordo com a análise que propõe Althusser, tudo deveria se deixar categorizar nesses dois grandes continentes: as matemáticas dos gregos e a física de Galileu. Dentro dessa perspectiva, a química de Lavousier, a biologia de Claude Bernard, são regiões do continente da física já citada. Da mesma maneira a lógica moderna é uma região da matemática.

Ora, para Althusser, e aí percebam a revelância da aventura marxista, Marx propõe o terceiro grande continente de produção científica da história do pensamento, que é o materialismo histórico, em outras palavras, a história, se preferir.

Aqui gostaria de ir além, porque poderíamos perguntar: mas, afinal de contas, todas as ciências não são materialistas? Sim, de fato, poderíamos chamá-las de materialismo físico, materialismo químico, materialismo biológico, mas isso parece tão evidente que não se coloca na nomenclatura, fala-se somente em química, física e biologia.

Agora o materialismo histórico se faz necessário, em nomenclatura, para marcar ruptura em relação a todos os pensamentos sobre a história anteriores que não eram materialistas, que não tinham índole científica, e que, portanto, claro,  resvalavam para o idealismo, transcendentalismo,  etc. Portanto , no caso da história, a nomenclatura materialismo se faz necessário, mas ela poderia estar presente em outros segmentos da ciência.



4) O que, em Marx, devemos entender por materialismo?



“Indica simplesmente a atitude frente à realidade de seu objeto: captar a natureza do objeto, sem nenhuma adição de fora.”

Essa definição de materialismo, proposta por Engels, implica certa higienização da produção da ciência em relação ao cientista, seu desejo, suas preferências, seus temores, seu repertório, suas angústias, em suma, tudo que lhe diz respeito.

Portanto, ao estudar as filosofias, percebemos que o olhar marxista, no que tange a produção científica, encontra grandes pontos de tangência com aquilo que, mais tarde, Comte sistematizou com o nome de positivismo, teoria rival do marxismo. Assim, é preciso aceitar que tanto marxismo como positivismo, nesse ponto, se irmanam de mãos dadas. Os dois desconsideram, para a produção da ciência, qualquer tipo de contaminação de subjetividade, por parte do cientista produtor de conhecimento. Para maior esclarecimento desse ponto, para o moderno não interessa saber qual é o seu olhar ou o de alguém, mas se quer a realidade, e ela independe de olhares, essa é a perspectiva científica que está sendo explicada aqui, e não uma angulação em perspectiva.     

O materialismo histórico é portanto uma ciência que tem esses conceitos já citados.


4.1) Ciência e Filosofia unidas.


A perspectiva de que há uma verdadeira correlação entre as grandes revoluções científicas e os movimentos filosóficos na história do pensamento será chancelada pelos marxistas, ou seja, não há nenhuma revolução científica que não venha imbricada a uma grande proposta filosófica. Afinal de contas, o mesmo substrato de infra-estrutura que patrocina a ciência, patrocina também a filosofia.

É normal que haja alguma imbricação ou coerência nesses movimentos, mas também há autores para nada marxistas, como Thomas Kuhn, observando que a revolução dos paradigmas, invariavelmente, vem acompanhada de uma revolução filosófica que lhe serve de fundamento. Assim, a título de exemplo, as matemáticas gregas vêm acompanhadas da filosofia de Platão, claro, já dizia este filósofo que não entra em sua academia quem não sabe geometria. No caso de Aristóteles a analogia fica ainda mais fácil, afinal ele é o cientista revolucionário e também o filósofo que lhe dá sustentação. Na perspectiva aristotélica, a discussão ética, ou seja, a reflexão sobre a vida boa mantém-se inseparável do entendimento do universo, não podendo ser feita de forma isolada do todo, devendo ser feita como a peça de uma máquina, inscrita no todo. Assim o pensamento de Aristóteles é de imbricação entre: uma ciência, enquanto produção de conhecimento sobre o universo e; uma filosofia ética de reflexão sobre a vida que só tem sentido nesse universo, ordenado, com atividade, finalidade, onde a vida tem que respeitar seu lugar natural e etc.

Da mesma maneira que a física de Galileu é inseparável da filosofia cartesiana. Da mesma maneira que a física de Newton é inseparável da filosofia Kantiana. E assim, a revolução científica do materialismo histórico é inseparável de uma filosofia que lhe seja substancial, recebendo o nome de materialismo dialético. Marx é um cientista, e, com pretensão de tal, quer fazer uma ciência da história, a seus modos, com um arsenal teórico próprio. E também, Marx, tal como Aristóteles, vai ele mesmo propor uma filosofia que dê sustentação a esse materialismo histórico, e vai denominá-la materialismo dialético. 

A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 5 (final) - 16) Segurança e o desespero ou insegurança, diferente da esperança. 17) Afetos, o corpo humano e a sociedade. 18) O Gaudio e a decepção. 19) Os afetos, a flutuação da alma e o conceito de angústia. 20) O reconhecimento e a indignação, nós e o outro.


A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 5 (final) - 16) Segurança e o desespero ou insegurança, diferente da esperança. 17) Afetos, o corpo humano e a sociedade. 18) O Gaudio e a decepção. 19) Os afetos, a flutuação da alma e o conceito de angústia. 20) O reconhecimento e a indignação, nós e o outro.



16) Segurança e o desespero ou insegurança, diferente da esperança.



Spinoza define segurança como uma alegria surgida da idéia de uma coisa futura ou passada da qual foi afastada qualquer causa de dúvida. A segurança é uma alegria a respeito de mundos absolutamente seguros. Alegria determinada por mundos passados ou mundos futuros. Situação da nossa cabeça, porque o mundo, nele mesmo, nunca se encontra nem no passado nem no futuro. Segurança é alegria determinada por coisas que já vivemos ou vamos viver, das quais isolamos qualquer possibilidade de dúvida de não ocorrência.

A segurança não é esperança. A esperança é alegria determinada por cogitações de mundos incertos, sob os quais pairam muita dúvida, o medo também, porém a segurança não! Ela é a eliminação radical de dúvida, o fato aconteceu ou vai acontecer mesmo, e, no entanto, nos sentimos seguros.
Alguém poderia perguntar como uma pessoa pode ter certeza de que alguma coisa vai acontecer? Isso não importa, trata de algo de cada um, aqui estamos falando de afeto. Dizer que se sente seguro significa dizer que se sente alegre por pensar em alguma coisa que necessariamente ou já aconteceu ou está em meados de ocorrer. A certeza é de cada um, coisa de afeto. Sou eu que tenho certeza, tenho segurança, o mundo não garante nada.
Além do mais, a segurança não é esperança porque nesse caso não se existe segurança, por isso que o tema da campanha da televisão chama-se “Criança Esperança”, ali há simplesmente uma torcida. Já a segurança é a alegria determinada por uma idéia sobre a qual não pairam dúvidas, trata de certeza subjetiva, de cada um, ou, se preferir fé.

Temos também a insegurança, que não se trata da existência de duvida, porque daí estaríamos falando de temor, mas insegurança é a certeza entristecedora  inexoravelmente determinada pela cogitação sobre o mundo sobre o qual não pairam dúvidas, em outras palavras, o que se acha que vai acontecer, se terá certeza que vai ocorrer daí tristeza será inexorável. Assim, diferentemente, quando alguém disser que se sente inseguro por não saber se vai acontecer o que ele acha que acontecerá, pode-se sentir como quiser, mas não é insegurança, mas sim medo.



17) Afetos, o corpo humano e a sociedade.



Não sei se já percebeu, mas tudo nos afetos de Spinoza tem a ver com ganho e perda de potência, o que vai diversificar é a sua causa. Ora é o mundo, o que se imagina do mundo, ora o mundo é certo, incerto, ora o mundo é futuro, passado, mas não importa! Todas essas explicações têm apenas uma lógica: o que alegra e o que entristece: os dois afetos matriz. Assim posso ter certeza ou incerteza, pode ser junto ou isolado, pode ser contíguo ou correlato, indiferentemente, tudo isso se resume em ganhar ou perder potência de agir, se alegrar ou se entristecer, de resto o nome varia em função da causa, da alegria e da tristeza.

Essas noções nunca são estudadas na grade escolar porque o papel da civilização é canalizar a nossa potência de agir para aquilo que lhe é útil. Assim quanto mais consciência nós tivermos das nuances que a civilização produz em nossos afetos, menos estaremos dispostos a que ela nos deixe ortopedizar (noção de Foucault que tem a ver com palmilha), e assim possamos moldar nosso corpo para que nos alegremos com aquilo que deve evidentemente nos alegrar.

Assim como saber quando nos alegramos, afinal, somos nós mesmos alegrados ou a sociedade que fez a nossa alegria? A resposta é que não tem como saber, porque somos um só: nós e o que a sociedade fez de nós.
Então não nos reconhecemos mais? Ótimo, isso é um sinal de lucidez, afinal quando buscamos coisas que a sociedade não autoriza isso lhe entristece, daí associamos esse fato com a tristeza, de tal maneira que, em uma situação superveniente aquilo nos entristece de novo, daí nós já a evitamos e passamos a nos alegrar com aquilo que é o contrário da nossa tristeza, e assim fabricamos exércitos, gados, todos de mochila na porta das faculdades, todos iguais, vestidos iguais, falando a mesma língua, todos docilizados, conformados na forma da civilização em nome da ordem social e da paz universal.

As tuas alegrias e tristezas não são apenas o GPS da tua natureza autêntica, mas também indicam o que o mundo fez contigo, tudo em nome da ordem civilizatória, da movimentação da indústria, de um consumo legítimo. Assim é fácil entender porque agimos de um jeito ou de outro, pois, de alguma forma, tristezas e alegrias acabam nos ensinando a sentir como temos que sentir, é isso que Foucault chama de ortopedização dos corpos, trata da sociedade moldando você através do cerco dos afetos, traumas, impactos para se comportar alinhadamente, adequadamente, ajustadamente.

Naturalmente que o preço do tamanho da tristeza será proporcional ao tamanho da heresia. O código Penal é bem claro: se tu fizeste um crime tua pena terá um mínimo e um máximo, esse é o tamanho da tristeza e o tamanho da heresia, e aí tu começas a perceber que toda sociedade tem um escalonamento de heresias e um escalonamento de tristezas que podem ir da chacota, heresia mais leve, à pena de morte. E aí se percebe que sentir não é só uma coisa de ti, mas tem a ver com teu corpo, ele mesmo sendo resultado de um trabalho ininterrupto de civilização que lhe é imposto pela vida em sociedade do nascimento à cova.



18) O Gaudio e a decepção.



O gaudio ocorre quando algo é surpreendente, alegria inesperada, o contrário da decepção que tem a ver com uma tristeza inesperada. Gaudio Trata de uma alegria acompanhada da idéia de alguma coisa passada que se realizou contrariamente ao esperado. Assim se disséssemos: “tudo que gostaria era que Maria nos afetasse de gaudio!”, não se trata de dizer que o esperado de Maria, para nós, fosse apenas um lixo, não! Afinal a dinâmica do gaudio ocorre na contramão daquilo que foi esperado propriamente dela.

Naturalmente a decepção é o seu contrário: uma tristeza acompanhada da idéia de uma coisa que se realizou na contramão do esperado. Naturalmente a decepção ocorre quando havia expectativa de alegria , o gaudio ocorre quando havia expectativa de tristeza.

Pode haver gaudio no amor? Sim! Pode haver decepção no amor? Sim! Aqui começamos a cruzar os afetos. Aqui devemos lembrar que como somos afetados de forma complexa por muitos corpos e muitos mundos, nada impede que sejamos afetados de forma incoerente, nada impede que sejamos afetados de alegria e de tristeza ao mesmo tempo, isso porque algum mundo determina em nós ganho de potência e outros perda de potência, é o hibridismo afetivo.



19) Os afetos, a flutuação da alma e o conceito de angústia.



É exatamente nesse momento que conseguimos definir aquilo que Spinoza chama de flutuação da alma, trata da oscilação entre afetos determinados por idéias que temos do mundo e de nós. A flutuação da alma mais conhecida é entre temor e esperança, ela é sempre determinada por afetos cuja causa são as idéias.

Não há flutuação da alma entre a segurança e a insegurança ou o desespero, pois como há segurança, assim não tendo dúvidas, a alma não flutua. O que quis dizer com isso é que temos um apreço espetacular por coisas seguras e certeiras, pois isso nos dá âncora, nos firma no chão, mas aqueles que gostam de filosofia já se acostumaram a essa dificuldade.
Não sei se já percebeste, mas existem espaços sociais cheios de certezas, quase sempre habitados por pessoas cheias de certezas, quase sempre essas pessoas colocam suas certezas em powerpoint, porque esse é um lugar que cabe certezas, mas, também, não sei se já percebeste, mas é muito difícil colocar uma incerteza em um PowerPoint, não cabe incerteza nesse software.

Porque temos apego à certeza? Porque ela nos leva a segurança, a certeza é coisa da mente humana. Segurança é afeto que vem de certeza, e a segurança impede que a alma flutue. Quando há incerteza não há segurança, daí oscilamos como p. ex., entre o temor e a esperança, e a flutuação da alma é das piores sensações que podemos ter.

A flutuação da alma em Spinoza é a matéria prima que usou o filósofo Kierkegaard para desenvolver seu conceito de angústia, aqui ela é a forma contemporânea de flutuação da alma, pressupõe incerteza sobre a melhor maneira de viver; incerteza sobre o valor dos valores; incerteza sobre os bons critérios para identificação das vidas boas.

Toda angústia é flutuação da alma porque ora nos alegramos e ora nos entristecemos com mundos sob os quais não temos certeza e, no final das contas, a flutuação entre essas duas situações é uma sensação que faz parte da nossa vida, não se trata de simplesmente um discurso a mais para tu aprender, anotar, memorizar e utilizar em situações de pedância intelectual, não! Trata de perceber que isso faz parte da tua vida na hora de descer escada p. ex., a oscilação entre o temor e a esperança é a conseqüência e tradução afetiva da nossa incompetência intelectual sobre o mundo, como quase tudo para nós é incerto só nos resta pagar o preço de nossa ignorância, e o corpo paga o preço da ignorância do intelecto oscilando, sofrendo mesmo.



20) O reconhecimento e a indignação, nós e o outro.



O reconhecimento é o amor por alguém que fez bem a outro. O amor é alegria. O amor por outro é o amor por alguém que supomos ser causa dela. E o reconhecimento é o amor por alguém que nos alegrou porque alegrou alguém. Naturalmente que o contrário do reconhecimento é a indignação, trata de um ódio por alguém que entristeceu outro e, naturalmente, eu reconheço alguém quando amo este pela alegria que proporcionou, e assim, fico indignado, com alguém porque eu o odeio pela tristeza que produziu a outro.

Espero que perceba que mesmo na filosofia mais materialista, e, supostamente, egóica, de Spinoza o outro conta demais. É verdade que tudo termina na gente, mas o outro conta muito porque se o amor é alegria acompanhada da idéia de sua causa, é imprescindível que nos alegramos com a alegria de amar, conseqüência inexorável.

Amar e alegrar-se com a alegria flagrada no amor, do mesmo jeito que odiar é entristecer-se com a tristeza flagrada no odiar. E quando o amado se alegra nos alegramos também, e é por isso também que fazemos de tudo para que o amado se alegre, afinal com a alegria do amado temos pronta a causa da própria alegria. A alegria do Amado é causa inexorável da nossa própria, a tristeza do amado é causa inexorável da nossa própria tristeza. Aqui tu deves ter percebido que mesmo sendo regido pelos nossos próprios afetos, mesmo sendo uma potência que luta por potência, mesmo sendo conatus e esforço para perseverar no próprio ser, nossos afetos estão absolutamente correlatos aos daqueles que nos afetam. Amar é alegrar-se com a alegria do amado que é a causa da própria alegria.

É incrível como essa definição se aplica a certos deveres profissionais. Como o dever do professor de amar os alunos, se não amá-los o sujeito não é professor, está simplesmente complementando seu orçamento. O professor só pode mesmo amar o aluno, e amá-lo é um risco, pois todo amor é um risco, daqueles que melhor simboliza o de viver: estar à mercê da tristeza do outro que, implacavelmente, determina a nós.

Como a civilização do século XX se dizia aquela do risco zero seu primeiro passo foi banir o amor, todo indivíduo que se diz afetado por ele é imediatamente rotulado de um fraco a ser adestrado, porque existe no amor uma dependência afetiva que fragiliza, como tudo na vida, arriscado, perdemos o controle, como se tivéssemos algum dia tido algum, e precisamos da alegria do outro senão não nos conseguimos alegrar, a isso chamam de amor, não se trata de mérito moral nem virtude ética, mas sim afeto, é o que é. Há aqueles que, como nós, amam os alunos, para além da particularidade de cada um, amar profissão de professor é amar os alunos, e amá-los é estranhamente estar à mercê de sua alegria, mas não qualquer alegria, mas de entender melhor as coisas, aprender o que não sabia, de alegrar o próprio repertório, alegria toda nossa de conhecer mais hoje do que se conhecia ontem, essa é a alegria que o professor precisa tanto para se alegrar também.