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DEUS E ATEÍSMO - PARTE 1 -. 1) ETERNIDADE E TRANSCEDÊNCIA. 2) DEUS E O COSMOS. 3) PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS. 3.1) PROVAS ONTOLÓGICAS. 3.2) PROVAS DITAS COSMOLÓGICAS (EM LATIM: CONTIGENTIA MUNDI). 3.3) PROVAS DITAS TELEOLÓGICAS. 3.4) A PERSPECTIVA DE UM DEUS TRANSCENDENTE. 4) O PENSAMENTO DE BERKELEY.



Deus e ateísmo - parte 1 -. 1) Eternidade e Transcedência. 2) Deus e o Cosmos. 3) Provas da existência de Deus. 3.1) Provas ontológicas. 3.2) Provas ditas cosmológicas (Em latim: contigentia mundi). 3.3) Provas ditas teleológicas. 3.4) A perspectiva de um Deus transcendente. 4) O Pensamento de Berkeley.



1) Eternidade e Transcedência.



Quando falam sobre Deus, quase sempre, parte-se de uma constatação: desde que o homem existe, ele se refere a algum tipo de divindade, e, naturalmente, essa presença recorrente do tema Deus na agenda das conversas e dos pensamentos do homem sempre foi interpretado de duas maneiras:
(1) Para alguns, se o homem sempre pensou em Deus é porque ele existe.
(2) Para outros, se o homem sempre pensou em Deus é porque a carência e a necessidade humana que Deus atende sempre existiram.
Para os dois casos o ponto de partida é sempre o mesmo: Deus nunca saiu da pauta.

A primeira grande perspectiva que a filosofia acolhe quando se refere a deuses é sem dúvida a perspectiva da eternidade: Se é Deus é porque é eterno, isto é, sempre existiu, existe e sempre existirá, a falar de uma perspectiva temporal. Sendo eterno não desparecerá e também não surgiu em um determinado momento. Perceba esse atributo da eternidade é um atributo que sempre distinguiu Deus de tudo o que é finito e temporal a começar por nós mesmos, razão pela qual, se sempre houve Deus, ele sempre foi outro em relação a nós. Daí Deus é eterno e os homens são temporais.

Essa perspectiva da eternidade, que já é acolhida desde o pensamento mitológico, trata-se de um pensamento que continua presente em todo e qualquer tipo de reflexão sobre Deus, sendo esse seu principal atributo, os outros podem variar um pouco, mas a eternidade, essa estará invariavelmente presente.

Toda vez que alguém fala sobre algum tipo de divindade está-se justamente pensando em uma entidade que paira sobre os fluxos da vida, em outras palavras, a entidade divina, por ser eterna, não está submetida aos processos de corrupção e deterioração orgânica, por isso ela escapa às condições materiais dessa degradação que são as relações com a matéria. Então, praticamente, correlata à idéia de eternidade, está a de transcendência em relação à matéria, porque se o homem é matéria e está condenado a coabitar, conviver e se relacionar com matéria, é indubitável que essa matéria o afetará, transformará, apodrecerá e a finitude será uma conseqüência óbvia dessa sua condição material. Se os deuses têm o atributo da eternidade é porque, de alguma forma, eles estão pairando, transcendem, estão em cima da celeuma das relações materiais.

O mundo está agindo sobre o homem, e este na hora de encontrá-lo não tem outro remédio senão afetá-lo, transformá-lo, agredi-lo, modificá-lo, deteriorá-lo, mas, a contrapartida é que o mundo também vai afetá-lo, agredi-lo, transformá-lo, determinando assim o fluxo de sua existência e de sua própria deterioração progressiva. Se Deus é eterno, está acima da matéria, contempla tudo do alto, então ele, evidentemente, não está submetido a esse embate conveniente que é o inconveniente da vida finita.



2) Deus e o Cosmos.



A segunda idéia que se costuma debater na reflexão sobre Deus trata de dizer que o universo é ordenado, compreensível, lógico, respeitador de certo jeito de funcionar que não foi produção humana, quer dizer, que se para a maré marear, o vento tem que ventar, então existe certa lógica que não foi o homem que a produziu, este que, no máximo, tem competência para identificá-la, descobri-la, percebê-la, mas para fazer acontecer não. Em outras palavras, a perspectiva de Deus que surge, logo depois da idéia de eternidade, trata de dizer que o universo é maravilhoso e não é produção humana.

Ora se o universo é maravilhoso, ordenado, organizado, e não se trata de uma produção humana, então inicialmente existiu alguma coisa, depois surgiu ordem no universo, e este que fez o universo organizado é Deus, portanto, além de ser eterno, ele é responsável por certo jeito de ser do mundo, o organizado, compreensível, lógico, ou se preferir, cósmico.

Então o Deus aqui trata de quem colocou ordem no universo e, ao mesmo tempo, trata da manifestação dessa ordem no próprio universo. O divino, para o pensamento histórico, por exemplo, é o próprio universo enquanto ordenado, organizado, compreensível e lógico. Então, se o olho humano é uma engenhoca de uma riqueza espetacular, e não foi o homem que o fez, ele enxerga porque é feito para isso e não poderia ser mais bem projetado para tal função, daí alguém o criou, assim, Deus é, ao mesmo tempo, aquele que criou e a criatura, o olho divino, a manifestação do Deus através do próprio mundo ordenado e organizado.



3) Provas da existência de Deus.



Em um determinado momento da história do pensamento o homem sentiu necessidade de provar a existência divina.

Existem três tipos de prova da existência de Deus, e tais provas, ao longo da história da filosofia ,fizeram enorme sucesso no seu tempo, estiveram na moda, por assim dizer. São provas que, observadas com o olhar que é o de hoje em dia, são claramente frustrantes. São elas:



3.1) Provas ontológicas.



A existência de Deus decorre de sua própria definição.

Ontologia quer dizer o estudo do ser, as provas ontológicas são aquelas “a priori” da existência de Deus. A priori, em filosofia, significa tudo aquilo que se pode deduzir sem precisar ter nenhum tipo de experiência flagrante sensorial no mundo, em outras palavras, pode-se supor, deduzir, inferir que Deus existe, sem precisar de nada que a experiência humana pode trazer. Essas provas surgem antes de qualquer experiência, por assim dizer. Daí a priori se refere a uma certeza que advém de uma reflexão suspensa de qualquer observação empírica.

Dentro das provas ontológicas podemos destacar 3 delas:


A) Na Filosofia de Anselmo:

Aqui nos encontramos no coração da idade média, vive-se um momento onde a igreja controla o mundo, Anselmo trata-se de um homem da igreja que, pela influência de seus pensamentos, tornou-se santo.

A prova de Santo Anselmo trata de dizer que se o homem definir Deus, então a divindade tem que existir. Isso, de certa maneira, quer dizer que a existência, no caso de Deus, decorre da sua própria definição. A definição de Deus, no caso de Anselmo, diz respeito àquilo que de maior, no sentido de “mais grande”, é possível de ser pensado. Ora, se deus é aquilo que de maior ou de “mais grande” pode-se pensar, então ele existe.

A reflexão é a seguinte: Deus é a maior grandiosidade possível a ser pensada, logo ele tem que existir. Se Deus não existir, digamos, isto apequena tal grandiosidade, daí ele precisa existir para ser o mais grandioso, porque se não existir ele poderia ser algo ainda maior em existência, então, de certa maneira, Deus existe porque ele tem que ser grandioso, e, por ser assim, isso é sinal de que existe.

Aqui temos retratada a convicção dos medievais que a existência de Deus é uma conseqüência lógica de sua essência e de sua definição: Se Deus é grandioso, então ele tem que existir, porque tudo que é grande existe. Assim só conclui-se que existe porque antes, como premissa maior, definiu-se que Deus era grandioso.


B) Na filosofia de Descartes:

Séculos depois René Descartes fez uma reflexão parecida, alegando que Deus é perfeito, a suma perfeição, daí, para ser perfeito, ele tem que existir enquanto perfeição. Se Deus não existir está arranhada a sua perfeição, porque algo que existe é, de certa maneira, superior àquilo que não existe, portanto, se Deus é assim, tão espetacular, então ele tem que existir, afinal seria apequenador, digno de imperfeição, se ele fosse tão perfeito e não existisse, daí para ser perfeito, tem que existir na perfeição, assim Deus existe por ser perfeito.


C) Na filosofia de Leibniz:

Nessa esfera Deus é definido enquanto infinito, grandioso e perfeito. Três atributos que sugerem a existência, se não houver existência fica arranhada a definição. Assim já que Deus é como se diz ser, então ele tem que existir porque só a sua existência garante a plenitude da sua essência e de sua definição.

Daí deve existir Deus para que seja garantido o seu tamanho, a sua perfeição e infinitude.


* Aqui se pode fazer uma crítica no sentido de que tais provas ontológicas são de uma tristeza infinita, afinal de contas, não é difícil de concluir que ninguém pode deduzir a existência de algo a partir de uma definição. Ninguém, por exemplo, fica rico definindo riqueza, ou fica generoso definindo generosidade, ou fica sábio apenas definindo sabedoria, em momento nenhum da trajetória intelectual do homem uma definição garantiu certa existência, razão pela qual, não seria por Deus que isso se faria possível, daí é por isso que as provas ditas ontológicas são hoje tidas como uma relíquia histórica da trajetória humana pensante, portanto ninguém, contemporaneamente, as leva a sério para filosofar.



3.2) Provas ditas cosmológicas (Em latim: contigentia mundi).



Essas são as provas que advém da contingencia do mundo, poderíamos traduzir. Aqui tudo estaria flutuando se não tivesse um Deus para dar origem ao mundo.

O mundo nos causa espanto, para explicá-lo temos que aplicar sobre ele aquilo que Leibniz chama de princípio da razão suficiente, quer dizer, aquilo sem o que, o que é não seria.

Assim, considerando que o mundo é, se aplicarmos sobre ele o princípio da razão suficiente, teremos de encontrar aquilo que, poderíamos chamar, A CAUSA do mundo ser o que é, com isso, apanhamos um mundo qualquer, e aplicamos um fato e uma realidade dele que quisermos, com o objetivo de justificar certos efeitos ocorridos em sua esfera. Poderíamos, por exemplo, nos perguntar sobre a sociedade de consumo, alguém dirá que tal sociedade só é o que é (princípio da razão suficiente), porque o capitalismo da primeira fase se esgotou, então, é preciso saber o que é o capitalismo da primeira fase, alguém dirá que se trata de um sistema baseado em uma moral da poupança, cuja forma econômica já não dava conta de sustentar a produção, daí era preciso incentivar, mais que a poupança, o consumo, porque gastando se faz produzir, tem-se comércio, assim a sociedade de consumo só é explicável pelo exaurimento de um primeiro capitalismo. Esse primeiro capitalismo, por sua vez, só será entendido, completamente, se for conhecida as características principais da revolução industrial do século XIX, seu acontecimento anterior, já tal revolução só será entendida se for compreendido, completamente, o movimento ideológico, político e social da chamada Revolução Francesa de 1789, e, para entendê-la, é preciso saber que, antes dela, havia um sistema de monarquia absoluta onde o rei, em aliança com a burguesia, acabou revertendo uma situação desfavorável em relação à nobreza que era a classe dominante de até então, já para entender a monarquia absoluta precisa-se conhecer o até então, que era o sistema feudal, período onde a nobreza dominava e fazia o que queria em uma forma de governo descentralizado, e por aí em diante.

Assim para entender o mundo, por meio das provas cosmológicas, é imprescindível voltar nos acontecimentos anteriores do tempo que se quer explicar, e, para compreender esses acontecimentos anteriores que lhe sustentariam, deve-se fazer novamente esse movimento de retorno para as suas causas do passado que, da mesma forma, lhe oferecem base, e daí sucessivamente.

O problema é que com esse método nunca ninguém conseguirá compreender nada, afinal sempre aquilo que se busca explicar precisa ser remetido a uma situação anterior, e esta, da mesma forma, à sua situação anterior, e, por aí em diante, se prossegue sem entender um mundo que se quis explicar, porque se buscou justificativas que nada mais fizeram a não ser remeter a outro mundo que, da mesma forma, não se explica por si só, esse é o deleite do historiador que não explica nada e vai retrocedendo ao passado eternamente.

Porém existe uma saída para esse problema, trata de se estabelecer um ponto de partida: antes de haver história que se justifica através de um fato passado, seja ele feudalismo, Império Romano, Grécia antiga, Atlantes, Big Bang e etc., tem-se Deus, afinal, na hipótese deste ente não existir, tornar-se-ia impossível amarrar a grade de acontecimentos passados que ficariam flutuando no espaço, daí as provas cosmológicas só extraem sua base na divindade, naquela que se explica por si, é a causa de si mesmo. Aqui é importante destacar que não se trata de dizer que Deus também é a causa de si mesmo, mas ele é somente isso: aquilo que é causa de si mesmo.

Então, claro, já que é preciso explicar o mundo, possuindo este uma razão para ser o que é, estando todos seus objetos amarrados entre si em relações de causa e efeito, surge Deus, porque é ele quem garante a causa de tudo. Em não havendo Deus retrocede-se na história por milênios e não chega a lugar nenhum, porque nada se explica por si só, nem é causa de si mesmo.

Contingência é o contrário de necessidade, trata-se daquilo que poderia ser diferente do que é ou poderia não ser. Então se não for dada uma causa para o mundo, ele poderia não ser, seria outra coisa, é contingente. Para o mundo não ter esse atributo é necessário amarrá-lo a uma causa, ela que também é contingente, desde que a amarre em outra causa, também contingente, que se amarra em outra origem, e, daí por diante, surge duas saídas: (1) ou se chega a algo que é necessário em si mesmo, dele surgindo todo o resto que se pode reconstruir; (2) ou está tudo flutuando, então, sendo bem possível que nada exista, não faz sentido permanecer atribuindo causas que suas próprias origens não se sabem de onde vieram. Assim a busca aqui cogita alcançar a conclusão que alguma coisa existe por si só.

Porém, o fato de haver alguma coisa que é a causa de si mesmo, em nada garante um Deus, tal como nós o entendemos, afinal de contas se existe alguma coisa que é por si só, causa de si mesmo, pode bem ser uma natureza, o próprio mundo, uma molécula, ou algo muito diferente daquilo que costumamos entender por Deus, sobretudo se tal divindade for tida modelo do homem, feito à sua imagem e semelhança. Se o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, ele tem o direito de imaginá-lo assim, mas daí dizer que existe um Deus, que é causa de si mesmo, em nada garante que seja ele semelhante ao homem, portanto essa demonstração, aparentemente atrativa, típica de Aristóteles, Tomás de Aquino e tanta gente, vai tratar de uma necessidade lógica de não regredir ao infinito, mas que não nos aproxima de nenhuma divindade tal como sempre assim foi entendida.

Existe também um segundo problema: Quem garante que não esteja tudo mesmo só flutuando no espaço? Quem garante que exista de fato uma mesma causa para as coisas? Quem garante que as coisas tenham de fato uma causa para ser? Quem garante que a vida tenha um sentido? Quem garante que o universo seja compreensível? Quem garante que não seja tudo absolutamente contingente ou ilusório e nada tenha sentido? Quem garante que haja uma razão suficiente para as coisas serem como elas são? Deus garante? Mas ele é a garantia de sua própria existência, para demonstrar Deus precisa-se que ele diga que exista, pensando assim está se inserido em uma demonstração circular e viciosa, sem nenhum interesse intelectual. Em outras palavras, o mundo não tem sentido, não é lógico e compreensível, e tudo aquilo que julgamos entender nada mais é que o erro a ser desmentido na semana seguinte.



3.3) Provas ditas teleológicas.



Essas são as provas fazem de um atributo de Deus a amostra da sua própria existência. Tínhamos dito que Deus é aquele que colocou ordem no mundo. Dirão filósofos como Rousseau e Voltaire que se o mundo é tão ordenado isto se dá porque existe um ordenador.

Para explicar esse trecho imaginemos que, um indivíduo qualquer, andando pelo universo, encontrasse um relógio, rapidamente entenderia ele que o relógio é a reunião de elementos que só pode ter sido obra de uma inteligência externa àquele objeto. Cada célula do corpo humano é infinitamente mais complexa que o relógio, então, nada mais normal, deduzir a existência de um relojoeiro. Se o universo é um relógio, Deus é o relojoeiro. Não se vê como o relógio do universo poder existir sem uma inteligência criadora.

Essa também trata de uma reflexão complicada de se aceitar, afinal uma célula cancerosa também acaba programando a deterioração do organismo em que ela está inserida. Essa maravilha que alguns filósofos enxergam no universo, desde os estóicos até esses mais recentes, alegando tudo ser um espetáculo, trata de uma reflexão passível de desconfiança, afinal para cada objeto que podemos interpretar como belo haverá outros tantos medonhos. Fica muito claro, principalmente depois de Darwin, que a maneira como a vida se organiza obedece a requisitos de competitividade inerentes à própria existência e que dispensam qualquer relojoeiro.

Na prova teleológica, que tem origem no termo “Thelos” e quer dizer finalidade, sobretudo, a comparação com o relógio é infeliz, isto porque tal objeto tem a finalidade de indicar as horas, e quando ele é comparado com o universo, parte-se da premissa de que o universo tenha sido criado para alguma coisa, mas quem foi que disse que este tem uma finalidade? Essa premissa trata-se de algo completamente discutível, qualquer um pode perfeitamente não aceitar essa comparação, porque se o relógio é feito de fato para marcar as horas, não há nenhuma garantia que o universo tenha uma finalidade, seja ela qual for, afinal ele pode perfeitamente existir sem finalidade nenhuma, nesse caso, desaparece o Deus ordenador, a inteligência pensante. O erro está na comparação.

O relógio é constituído por peças que são funcionalmente complementares. A finalidade do relógio é marcar as horas, mas nenhuma peça do relógio pode compreender a finalidade deste objeto que estão inseridas, porque, para compreender a finalidade do todo, é preciso transcender a sua condição de parte, essa que, por definição, não entende o Thelos ou a finalidade do todo, afinal parte enxerga e vive afetos típicos de parte. Então veja que curioso: as horas que o universo marcaria, nenhum dos homens pode enxergar. O relógio não é para os homens, esses que, em comparação com o relógio, são seus ponteiros, roelas, pistões e etc., que passam suas vidas inteiras levando pistonadas no lombo, e, ao se questionarem do porquê de carregar esse fardo, alguém lhes dirá que o universo é um relógio, e, para que ele possa marcar as horas, é preciso que alguém faça a função de levar pistonadas. Com esse discurso fica fácil de legitimar-se o que quiser, porque se o indivíduo é escravo, pobre, analfabeto, imbecil, explorado, não importa! Afinal foi Deus que fez o universo assim, perfeito, para que assim as horas sejam marcadas corretamente. Se o indivíduo não quer marcar hora para ninguém ver ou almeja sair da sua condição de pistão, carregando fardo, para a de ponteiro, privilegiado, o discurso é manipulado no sentido de que se está impedindo o normal funcionamento do relógio. Legitima-se o que for com um Deus que fez tudo certo para poder marcar as horas.



3.4) A perspectiva de um Deus transcendente.



Todas essas provas ditas acima são decepcionantes. Em um artigo do filósofo Emmanuel Kant, intitulado “A religião nos limites da simples razão”, o autor vai se insurgir contra essas provas, mesmo sendo ele um cristão com formação evangélica, porque quando o homem se dispõe a provar a existência de Deus, ele produz um efeito nefasto para sua relação com o divino, trata do desaparecimento da fé, afinal de contas ela, que é o caminho real da sua relação com Deus, pressupõe certeza sem demonstração, em se buscando comprovação da existência de Deus não há porque ter fé, e, com isso, desaparece a condição primeira de toda a religiosidade humana, portanto eis aí um caminho a evitar.



4) O Pensamento de Berkeley.



Berkeley parte da premissa que a percepção humana do mundo não é recorte das manifestações de um ente maior que ela, mas tal percepção é o próprio mundo, em outras palavras, o autor está absolutamente convencido de que não tem duas coisas: o mundo fora do homem e um campo visual que ele tem do mundo, um recorte, que é a sua percepção. Assim o ser é o ser percebido, daí tudo só existe na medida em que é percebido, portanto, aquilo que supostamente é visto e percebido tatilmente fora do homem, na verdade, é visto e sentido no próprio homem, da mesma maneira o que se cheira fora do homem, é cheirado nele, o que se vê fora do homem, é visto nele, em outras palavras o mundo é a sua percepção do mundo, como em Matrix. Não existe sala, existe a percepção da sala, a maior prova disso é que a sala que um homem vê, é diferente da que outro vê, se é que um deles enverga alguma sala, e mesmo que alguém diga que observa uma, isso não passa de palavras, porque para outra pessoa esse alguém pode ser somente parte de seu filme, e tudo que se observa é parte de seu enredo. Não se trata de haver um indivíduo e o que se percebe deste indivíduo, mas somente o que se percebe dele.

Podemos perguntar, mas se o mundo é uma percepção dentro do homem, então ele não existe? Existe, trata de ser uma percepção dentro de cada homem particularmente. Assim não existe um único mundo que toda a humanidade está inserida, afinal de contas a cada segundo os homens percebem uma experiência de mundo diferente, que não coincidem. Assim cada um tem um filme dentro de si.

Se cada homem tem uma percepção diferente, como ter certeza de que toda a humanidade está no mesmo mundo, se a rigor, na hora de encará-lo, o mundo se apresenta singular e particular para cada um dos indivíduos? Não há um mundo fora do homem, há somente um filme humano que trata dele mesmo.

Nessa interpretação Deus é o diretor do filme, trata de quem colocou o homem para perceber o que ele percebe. A seqüência de objetos que um indivíduo percebe do mundo nenhum outro pode fazê-lo de forma igual, o mundo contemplado a cada segundo dentro do ser ninguém contempla igual, então Deus foi generoso, benevolente e forneceu um filme só para cada um dos homens, exclusivo, o que é percebido somente cada um dos indivíduos o faz e mais ninguém.

No momento em que se apanha um microscópio e o coloca para observar certa mesa, o que se visualiza somente com o olhar não estará ali, mas é quase tudo vazio. O que é observado no mundo não é da maneira que se enxerga, mas só se percebe os objetos de certa maneira porque o homem traz os recursos de sua própria estrutura humana, se tivesse outros recursos não humanos avistaria outro objeto e filme, cujo diretor será sempre Deus, aquele que inseriu o homem no mundo para que contemplasse segundo cadências e roteiros trazidos aos seus sentidos sob certa perspectiva. Disso alguns personagens entram, outros saem, e essa seqüência percebida dentro do homem vai ser tida como organizada por Deus.

E o filme de cada um vai ser do jeito que é por motivos da própria divindade, uma lógica divina difícil de entender. Esse é o Deus de Berkeley, aquele que é responsável pela percepção humana. Como não é o homem que produziu o filme, Deus é aquele que lhe permite perceber, o filme vai rodando na sua frente e para a divindade é atribuído o papel de fazê-lo rodar.

A perspectiva de Berkeley é fantástica, esse autor que era pastor evangélico, de formação teológica, e também em física especializado em ótica, estava ele convencido que o ser era o ser percebido e que a existência de um mundo fora de do homem é o maior erro que a humanidade compartilhadamente já cometeu. 

LIBERDADE E MORAL NA FILOSOFIA DE KANT. (PARTE 2)

LIBERDADE E MORAL NA FILOSOFIA DE KANT. (PARTE 2) 3) A Boa Vontade. 3.3) Agir bem = agir desinteressadamente. 3.4) O Agir moral, uma questão universalidade. 4) A concepção existencialista sobre liberdade. 5) Visão crítica: a liberdade não existe.



3) A Boa Vontade.




3.3) Agir bem = agir desinteressadamente.




A reflexão moral cuida da melhor maneira de se viver. Os gregos refletiam a melhor maneira de viver pelo cosmos, os cristãos por Deus, e o homem moderno, reflete por si mesmo, mas o que tem esse último, de tão especial, que justificaria utilizar, a si mesmo, como critério para a vida boa, podendo assim encarar o cosmos e Deus, justificando, em si mesmo, o próprio fundamento de sua moral? A resposta cuidará justamente de uma necessidade humana de se transcender, indo além de sua própria natureza animalesca.

Nesse contexto o homem é apresentado como livre, sendo esta liberdade o fundamento de sua moral moderna, de sua própria reflexão sobre a melhor maneira de viver, que o diferencia de qualquer outro ser. Por outro o animal lado irracional não tem moral, não a tem por que ele não é tido como livre, assim, de que adianta a reflexão sobre a melhor maneira de viver se não existe liberdade para deliberar sobre sua vida, se viver for como uma maçã, por exemplo, que cai onde tem que declinar-se? Exatamente porque, no caso do homem, a vida pode ser diferente do que ela é que faz sentido pensar-se como viver melhor, por outro lado, se a vida humana fosse, igual a de um animal irracional, só como ela poderia ser, daí não haveria a reflexão sobre a moral, justamente porque é ela que trata do esforço deliberativo de escolha da própria trajetória.

A moral de Kant é desinteressada, normal, porque agora, como é o homem que deve decidir sobre o certo e o errado, terá, necessariamente, de considerar o outro, e, para fazê-lo, precisa ir além de si próprio. Assim a moral pressupõe abrir mão do próprio apetite em nome do alheio, quando assim a razão considerar adequado, moralmente certo e justo. No final das contas a moral desinteressada é aquela que humanizaria o homem, o apartaria e o diferenciaria da animalidade, porque toda vez que ele age 100% regido pelas próprias vísceras, claro, se distancia muito pouco de um animal irracional.

Essa ideia do desinteresse é inseparável da própria ideia de amor. Moral não é amor, esse é sentimento, já aquela é razão, intelecção, reflexão sobre a vida. Ocorre que, no final das contas, existe moral toda vez que pensamos a melhor maneira de imitar o que faríamos se amássemos. Assim, perceba, a ideia de desinteresse, em Kant, é muito inspirada na do amor cristão. Para entender esse pensamento é interessante, para fins didáticos, fazer uma analogia com atitudes de uma criança, entendendo que Deus é contrário a elas, explico. A criança, como diz o professor Sponville, ocupa todos os espaços, ela é gana de ser, avança como imperialista, já Deus, esse se retira, ele ama no recuo, para que alguém possa aparecer ele se retira, trata do amor ágape de Deus, esse que se sente ou não se sente, quando não sente seria bom senti-lo, mas como não calha a moral está ali para substituí-lo. Assim a humanidade pode não se amar, mas, ainda sim, levaria o outro em consideração, e seria respeitosa entre si, não precisa estar presente o amor para o homem ser dadivoso e generoso, mas age de tal maneira por moral kantiana desinteressada, por apreço pelo outro que lhe obriga ir além das inclinações de seu próprio eu, esse que talvez esteja cansado, com fome. Essa atitude Kant chama de amor prático, aquele atitude que está no lugar do amor. Nesse contexto só o homem consegue ser desinteressado, ainda que nada na natureza aja desinteressadamente, porque ele precisa, como diz Rousseau, transcender sua própria natureza, essa que não dá conta de sua própria vida, daí ser preciso ir além dela para poder viver.

O desinteresse é o primeiro ponto e característica da moral kantiana, inseparável da ideia de moralidade. Trata do resultado de uma deliberação da razão, na contramão da nossa própria natureza egoísta e interessada.

É importante deixar claro aqui que a ideia do desinteresse está vinculada com o que é pensado de mais próximo do senso comum que se possa imaginar, por exemplo, um chefe que concede carona à sua estagiária, alguma pessoa pode analisar essa situação e tirar a conclusão de que o ele só concedeu carona porque tinha escopo de cópula futura, e tal suposto interesse apequenou a moral de sua conduta. No fundo se perceberá que a conduta será tão moralmente apreciável quanto menos aparentemente interessada ela for, é isso que Kant está dizendo e faz parte de nosso dia-a-dia. A conduta humana valorizada diz respeito a certa da atitude da pessoa onde ela não tinha nada a ganhar agindo de tal maneira. Perceba toda vez que agimos de maneira aparentemente desinteressada é porque, de certa forma, agimos de forma virtuosa.

Nesse ponto é prudente conhecer dois conceitos:
- Desejo: trata do que o corpo pede.
-Vontade: trata do que a razão delibera.
Desinteresse é exatamente o momento em que essa distância se materializa, ganha corpo, assim o desejo aponta para direita, mas a vontade delibera para esquerda, porque a razão não é escravizada pelos próprios apetites. Daí é que a vontade reluz, porque ela fala ainda quando a natureza se cala, normal, porque, nesse raciocínio, a natureza humana é pobre, e seus desejos são pequenos, mesquinhos e não dão conta de suas vidas, por isso precisa-se ir além, e nada impede que a vontade possa ir à contramão dos desejos, transcendendo-os, e assim o homem age desinteressadamente, condição essa de levar o outro em consideração.


3.4) O Agir moral, uma questão universalidade.


Agir moralmente não é fácil nem evidente. Em outras palavras a moral é objeto que se aprende, treina, ensina, educa, e, portanto, tem a ver com o dever. Perceba, a moral para um grego é fazer o que o talento manda, trata de desabrochar a própria natureza, já a moral moderna de Kant é rigorosamente o contrário, trata de lutar contra a própria natureza egoísta, deliberar contra os apetites e inclinações, destacar-se da própria natureza desejante e enfrentá-la, nesse sentido a moral é uma questão de dever. Pensamento moderno clássico, o que se espera da escola é que ensine a criança a recuar, pois ela ocupa todos os espaços, se não fizer nada vai avançar, portanto, claro, o papel da escola é anti-natureza, de recuo, até porque, como agora, a forma correta de viver deve ser decidida pelo homem, é preciso definir até onde um chega e o outro pode avançar. Quem vai ensinar tais limites será a vida na civilização com todas as suas instituições. Assim a escola moderna é um espaço de educação para que a criança vá aprendendo aos poucos a controlar sua própria natureza, trata-se de um espaço de moralização por excelência. Da mesma forma a civilização toda de um modo geral, essa que faz um papel de educação moral importante, exatamente porque ensina a respeito dos apetites imperialistas aos homens para que segurem a onda, fiquem no seu quadrado, se coloquem no seu território e não avancem no lugar dos outros.

Sendo assim a moral é uma questão de dever, não é algo que se extrai da natureza humana, como por exemplo, a excitação ou uma manifestação do corpo qualquer, mas exige sacrifício, educação, treinamento e deliberação, contra, justamente, as inclinações apetitosas, é por isso que toda moral kantiana se estrutura em torno de imperativos, que é a maneira como esse dever vai se tornar concreto, imperativos.

Justamente porque ser livre é poder controlar a própria natureza egoísta que o homem deve se submeter a imperativos categóricos, definidos pela razão, e esses imperativos são a prova maiúscula de sua própria liberdade em relação aos próprios desejos.

Então, em Kant, liberdade não é poder fazer o que quiser? Veja, se liberdade é a possibilidade de fazer o que se quer fazer, então: ANTES mesmo de haver liberdade é preciso querer fazer, se é preciso querer fazer antes de ser livre, logo, não se pode ser livre para querer fazer. Explicando: para o homem ser livre, antes mesmo de haver tal liberdade, é preciso, primeiramente, calhar que lhe tenha ocorrido ou não certa vontade, daí temos um problema: como a liberdade surge no momento posterior da existência ou não de uma vontade primária, o homem nunca poderá contar com essa mesma liberdade para que certa vontade lhe arrebate ou não. Assim, se a liberdade é de fazer o que se quiser, ela não pode ser a liberdade de se querer o que quiser, por exemplo, todos são livres para votar em quem quiser, mas quem disse que todos são livres para querer votar ou não?

Nesse raciocínio o homem é escravo de suas paixões, até mesmo aquele, cansado de sua vida em labor, que resolve tomar seu veículo conversível em uma viagem para Búzios, de livre que julga ser, não passa de um tolo regido pelas vísceras, o perfeito escravo próximo da animalidade, uma girafa não faria diferente se soubesse dirigir.

Isso porque justamente, para Kant, a liberdade é a possibilidade que o homem tem, e só ele tem, de fazer o que não quer, afinal fazer o que quer não é ser livre, mas ser escravo.

Na filosofia de Kant encontramos três tipos de imperativos:
- Imperativos hipotéticos: São imperativos de terceira classe. Um imperativo é o fato de ter que se fazer alguma coisa. Esses se chamam hipotéticos, pois estipulam que na hipótese de se querer fazer alguma coisa, então se deve fazê-la! Tal imperativo condiciona a escravidão, coloca o homem próximo de sua animalidade.
- Imperativos de prudência: Esses imperativos funcionam como os imperativos hipotéticos, com a diferença de que são compartilhados por mais gente, no final das contas vai cuidar da alegria do maior número. Tais imperativos nos colocam no centro do senso comum da Polis na Grécia antiga, são aqueles objetos que quase todo mundo deseja, saúde, educação e etc.
- Imperativos categóricos: Os mais importantes. Nesses imperativos não se têm relevância o que se deseja ou não. Cuida aqui da possibilidade que um indivíduo possui, onde ele agirá de tal maneira que, qualquer outro indivíduo, na mesma situação que a sua, possa fazer o mesmo que ele fez. Nesses imperativos o homem só pode ser livre aceitando a possibilidade de se submeter a certos imperativos, pela razão, independentemente do que deseja ou não. A liberdade ainda existe, afinal é o próprio homem que vai deliberar se submeter a este imperativo ou não.

Perceba que o grande traço da moral kantiana, além do desinteresse, é a universalidade, em outras palavras, nada menos kantiano do que a ideia de haver privilégio para alguns poucos homens, como, exemplificando, a conduta daqueles sujeitos que falam: você não sabe quem eu sou?, tal afirmação é tipicamente grega e aristocrática, contrária ao kantismo, inerente de uma situação onde alguns fulanos são encarados como superiores a outros, e assim, existiriam certos direitos para eles que as pessoas ordinárias não usufruem. Desde a parábola dos talentos esse pensamento caiu por terra, daí, nesse outro contexto, só se pode fazer aquilo que puder ser feito por qualquer um.

Então como se deve agir? De tal maneira que se possa esperar que qualquer outro, no mesmo lugar, faça o mesmo que tu fizeres. Por exemplo, na reflexão sobre se podemos agredir alguém ou não, devemos imaginar se gostaríamos que, todo mundo, a todo o momento, nos agredisse também. Em outras palavras, não faça nada que não queira que façam contigo, e, sobretudo, mais positivamente, afinal a doutrina de Jesus Cristo foi muito pessimista nesse ponto, em Kant, podemos pensar: Faça toda ação que tu gostarias que qualquer outro fizesse para ti, independentemente de fazerem-na ou não, pois, em Kant, deve-se agir desinteressadamente, razão pela qual, se o outro não a realiza esse é um problema dele, cada um faz a sua parte.



4) A concepção existencialista sobre liberdade.



As ideias de Kant tiveram conseqüências para o futuro. No existencialismo, especificamente em Sartre, em sua obra O Existencialismo é um humanismo, encontramos a seguinte frase:

A Existência precede a essência.

O existencialismo trata de uma corrente de pensamento que está por trás de todo movimento social surgido depois da segunda guerra mundial, por exemplo, Woodstock, Maio de 1968, libertação da Argélia e etc. O líder do movimento estudantil do movimento de Maio de 1968 tinha um slogan, É proibido proibir, nada melhor para uma exposição sobre liberdade.

A existência é a vida, é o ser humano e o resto, em relação a tudo o que acontece com ele, os encontros, alegrias, afetos, transformações, nascimento, morte e etc.

Imagine uma tesoura, ela existe, e, na sua existência, corta papéis, não se trata de um objeto genérico, mas concreto, assim ela tem existência cortando papeis. Ocorre que, antes dessa tesoura cortar papéis, ela foi fabricada e projetada, portanto alguém pensou, idealizou que um instrumento com aquelas características, daquele jeito, cortaria facilmente papéis, assim primeiro existiu o plano da tesoura que veio antes dela, e, depois dele, alguém fabricou a tesoura, daí sim tal objeto passou a cortar no mundo. Perceba, no caso da tesoura, primeiro ocorreu a ideia, essência de tesoura, depois veio a existência do objeto que corta no mundo, assim, a ideia vem antes de sua matéria, conforme ela foi idealizada antes, a essência precede sua existência. No caso do gato também, porque ele primeiro, antes de qualquer coisa, é felino, nasce e tem vida de gato, e daí vive como tal, perceba, inicialmente surge a essência e instinto de gato, depois é que existe sua vida, esta, nada mais é, do que uma previsível atualização da sua essência de gato, assim, no caso deste felino, primeiro vem sua essência, depois a existência.

Já no caso do homem, contrariamente ao gato ou a tesoura, nasce zerado, ou seja, não tem plano, instinto e ideias humanas anteriores à sua atuação de existir no mundo, assim, primeiro lhe surge uma vida sem essência, depois, existindo, lhe sobrevém a idéia do que se é, ou seja, primeiro o homem vai viver, e, em um momento posterior, descobrir quem é. Daí, podemos dizer, não existe homem pré-fabricado, tal produção se dá na atuação de viver, em seu caso, a existência vem antes da essência, trata-se de um subproduto da vivência no mundo, só será vivendo que se descobre, aos poucos, quem se é.

Por isso a obra mais importante de Sartre denomina-se O ser e o nada. Quem é o Ser? O gato, a porta, a tesoura. Quem é o nada? O homem, que, partindo dessa condição, seu ser se forja na vida, não há essência antes da vida e da existência. E o que tem por trás da existência humana? Nada, porque o homem só tem sua vida para lhe dizer quem é, nasce sem guia de instrução. Portanto, não tendo natureza humana que lhe escravize, surge lhe a face 360 graus de possibilidades abertas de existências potenciais, por isso o homem desfruta de liberdade, não tem que pagar pedágio para natureza humana alguma, inversamente ao gato e à tesoura que não podem mudar sua natureza.

O homem não é nada, a vantagem é que, não sendo nada, pode tornar-se tudo, a desvantagem é que, diferentemente do gato, não tem a sua vida pronta, definida por sua essência, daí resta-lhe pelejar sua vida a cada segundo, sem muito saber o que fazer, e como conseqüência a angústia decorre dessa incerteza.

Para diminuir essa forte aflição que é a sua angústia, o homem acaba negando sua condição de nada, daí acaba se togando de uma natureza, definição ou plano, e acaba dizendo que foi nascido, projetado para ser alguma coisa, como a tesoura que foi projetada para cortar. O homem delibera isso para não ter muito problema na vida, afinal, a partir do instante em que lhe cobre certa natureza, ele, que antes nada era, passa a ser alguma coisa, daí vai elaborar toda sua vida em função desta sua roupagem, as escolhas e dilemas existenciais reduziram, e daí em diante tudo que ocorrer será calculado em função dessa referência. Esse que Rousseau chamava de o idiota, trata daquele indivíduo que se leva a sério, que se denomina alguma coisa, pobre desgraçado! Na incapacidade de ser livre foi afunilando a vida, e daí, quanto mais densa a definição de si, mais amarrada sua vida, para que não lhe surja dúvida de como viver, nunca foi digno de transcender sua natureza. Rousseau o chama de idiota porque esse é o indivíduo que abriu mão de sua única vantagem em relação aos animais e aos objetos: ser livre a cada segundo.

Se o homem não é nada, porque tem que pagar pedágio de uma natureza própria? Pagar pedágio para, por exemplo, certas categorias sociais que lhe escravizam? Afinal, se ele não é nada, e jamais o será, então poderia reinventar sua vida a cada segundo, e assim desfrutar de liberdade plena até o último dia quando constatar o nada que lhe acompanhou a vida inteira, esse mesmo nada que lhe permite tudo ser, tudo fazer, por não ter que pagar tributo a nenhuma natureza escravizante, nem de branco ou negro, pobre ou rico, homem ou mulher, judeu ou turco, sendo tais concepções as algemas que os próprios homens se colocam por não aceitar, tolerar a liberdade que é a sina humana, condenados a serem livres, não sabem, de jeito nenhum, o que fazer da vida, e, para reduzir sua angustia, deliberam se entulhar de definições de si.

Um homem que se denomina advogado, fala, se veste, compra livros como tal, o idiota de Rousseau e a má-fé no existencialismo, nega sua condição inicial de nada e assume-se como sendo alguma coisa, vira as costas para a liberdade que o fundamenta. Por seu medo de viver livremente, esconde-se da responsabilidade que lhe acompanhará sempre, inerente a toda responsabilidade de escolha da vida que tem que viver, avestruzes que, ridiculamente, se escondem da condição de livre, algemando-se em definições que o apequenam, o territorializam, lamentáveis que são, má-fé.



5) Visão crítica: a liberdade não existe.



Claro que nem todo mundo concorda com esse pensamento. Platão, Pico Della Mirandolla, Kant, Sartre e Rousseau, disseram todos eles a mesma coisa: no mundo, tudo é só como poderia ser, mas, no caso do homem não funciona assim, afinal ele é livre, a liberdade é o seu fundamento, não existindo natureza alguma que o escravize, a vida é a sua obra e sua única definição, mas haverá quem não concorde.  

Trataremos agora daqueles pensadores que dizem que o homem só tem corpo e não é possuidor de alma soberana para ser livre, aqui a abordagem humana é encarada da mesma forma como de qualquer outro animal irracional, tudo aquilo que é considerado enquanto liberdade, não passa de ignorância de certas causas materiais, sendo assim, só lhe resta ser como a única forma possível de se viver.

Esses autores, ditos materialistas, colocarão o homem, no mundo da vida, sem nenhuma possibilidade de transcendência em relação à sua natureza, do mesmo jeito que ele só sente o que sente, porque só poderia sentir, seu pensamento nada mais é que o resultado de uma disposição corporal, cientificamente explicável pela teoria da evolução, que o torna mais competitivo na disputa entre as espécies, nesse raciocínio tudo só é como poderia ser, daí, por não conhecer as causas materiais dos fenômenos, a liberdade é o sintoma de sua própria ignorância. Aqui o homem é escravo das causas materiais que determinam a sua vida, da mesma forma que uma fruta, um animal irracional, o vento, a maré e etc., tudo estaria inscrito em uma rede de causas em relação às quais nada transcende, a não ser como delírio, pretensão, busca religiosa ou metafísica em compensação aos fracassos terrenos. A liberdade não passaria de um delírio, um sonho ou uma projeção do que gostaríamos de ser, sobretudo quando entristecemos no mundo da vida onde tudo é só como poderia ser. Essa reflexão é típica de filósofos como Nietzsche, Marx, Spinoza entre outros.