Deus
e ateísmo - parte 1 -. 1) Eternidade e Transcedência. 2) Deus e o Cosmos. 3) Provas da
existência de Deus. 3.1) Provas ontológicas. 3.2) Provas ditas cosmológicas (Em
latim: contigentia mundi). 3.3) Provas ditas teleológicas. 3.4) A
perspectiva de um Deus transcendente. 4) O Pensamento de Berkeley.
1)
Eternidade e Transcedência.
Quando
falam sobre Deus, quase sempre, parte-se de uma constatação: desde que o homem
existe, ele se refere a algum tipo de divindade, e, naturalmente, essa presença
recorrente do tema Deus na agenda das conversas e dos pensamentos do homem
sempre foi interpretado de duas maneiras:
(1)
Para alguns, se o homem sempre pensou em Deus é porque ele existe.
(2)
Para outros, se o homem sempre pensou em Deus é porque a carência e a
necessidade humana que Deus atende sempre existiram.
Para
os dois casos o ponto de partida é sempre o mesmo: Deus nunca saiu da pauta.
A
primeira grande perspectiva que a filosofia acolhe quando se refere a deuses é
sem dúvida a perspectiva da eternidade: Se é Deus é porque é eterno, isto é,
sempre existiu, existe e sempre existirá, a falar de uma perspectiva temporal.
Sendo eterno não desparecerá e também não surgiu em um determinado momento.
Perceba esse atributo da eternidade é um atributo que sempre distinguiu Deus de
tudo o que é finito e temporal a começar por nós mesmos, razão pela qual, se
sempre houve Deus, ele sempre foi outro em relação a nós. Daí Deus é eterno e
os homens são temporais.
Essa
perspectiva da eternidade, que já é acolhida desde o pensamento mitológico,
trata-se de um pensamento que continua presente em todo e qualquer tipo de
reflexão sobre Deus, sendo esse seu principal atributo, os outros podem variar
um pouco, mas a eternidade, essa estará invariavelmente presente.
Toda
vez que alguém fala sobre algum tipo de divindade está-se justamente pensando em
uma entidade que paira sobre os fluxos da vida, em outras palavras, a entidade
divina, por ser eterna, não está submetida aos processos de corrupção e
deterioração orgânica, por isso ela escapa às condições materiais dessa
degradação que são as relações com a matéria. Então, praticamente, correlata à
idéia de eternidade, está a de transcendência em relação à matéria, porque se o
homem é matéria e está condenado a coabitar, conviver e se relacionar com
matéria, é indubitável que essa matéria o afetará, transformará, apodrecerá e a
finitude será uma conseqüência óbvia dessa sua condição material. Se os deuses
têm o atributo da eternidade é porque, de alguma forma, eles estão pairando,
transcendem, estão em cima da celeuma das relações materiais.
O
mundo está agindo sobre o homem, e este na hora de encontrá-lo não tem outro
remédio senão afetá-lo, transformá-lo, agredi-lo, modificá-lo, deteriorá-lo,
mas, a contrapartida é que o mundo também vai afetá-lo, agredi-lo,
transformá-lo, determinando assim o fluxo de sua existência e de sua própria
deterioração progressiva. Se Deus é eterno, está acima da matéria, contempla
tudo do alto, então ele, evidentemente, não está submetido a esse embate
conveniente que é o inconveniente da vida finita.
2)
Deus e o Cosmos.
A
segunda idéia que se costuma debater na reflexão sobre Deus trata de dizer que
o universo é ordenado, compreensível, lógico, respeitador de certo jeito de
funcionar que não foi produção humana, quer dizer, que se para a maré marear, o
vento tem que ventar, então existe certa lógica que não foi o homem que a
produziu, este que, no máximo, tem competência para identificá-la, descobri-la,
percebê-la, mas para fazer acontecer não. Em outras palavras, a perspectiva de
Deus que surge, logo depois da idéia de eternidade, trata de dizer que o
universo é maravilhoso e não é produção humana.
Ora
se o universo é maravilhoso, ordenado, organizado, e não se trata de uma
produção humana, então inicialmente existiu alguma coisa, depois surgiu ordem
no universo, e este que fez o universo organizado é Deus, portanto, além de ser
eterno, ele é responsável por certo jeito de ser do mundo, o organizado,
compreensível, lógico, ou se preferir, cósmico.
Então
o Deus aqui trata de quem colocou ordem no universo e, ao mesmo tempo, trata da
manifestação dessa ordem no próprio universo. O divino, para o pensamento
histórico, por exemplo, é o próprio universo enquanto ordenado, organizado,
compreensível e lógico. Então, se o olho humano é uma engenhoca de uma riqueza
espetacular, e não foi o homem que o fez, ele enxerga porque é feito para isso
e não poderia ser mais bem projetado para tal função, daí alguém o criou,
assim, Deus é, ao mesmo tempo, aquele que criou e a criatura, o olho divino, a
manifestação do Deus através do próprio mundo ordenado e organizado.
3)
Provas da existência de Deus.
Em
um determinado momento da história do pensamento o homem sentiu necessidade de
provar a existência divina.
Existem
três tipos de prova da existência de Deus, e tais provas, ao longo da história
da filosofia ,fizeram enorme sucesso no seu tempo, estiveram na moda, por assim
dizer. São provas que, observadas com o olhar que é o de hoje em dia, são
claramente frustrantes. São elas:
3.1)
Provas ontológicas.
A
existência de Deus decorre de sua própria definição.
Ontologia
quer dizer o estudo do ser, as provas ontológicas são aquelas “a priori” da
existência de Deus. A priori, em filosofia, significa tudo aquilo que se pode
deduzir sem precisar ter nenhum tipo de experiência flagrante sensorial no
mundo, em outras palavras, pode-se supor, deduzir, inferir que Deus existe, sem
precisar de nada que a experiência humana pode trazer. Essas provas surgem
antes de qualquer experiência, por assim dizer. Daí a priori se refere a uma
certeza que advém de uma reflexão suspensa de qualquer observação empírica.
Dentro
das provas ontológicas podemos destacar 3 delas:
A)
Na Filosofia de Anselmo:
Aqui
nos encontramos no coração da idade média, vive-se um momento onde a igreja
controla o mundo, Anselmo trata-se de um homem da igreja que, pela influência
de seus pensamentos, tornou-se santo.
A
prova de Santo Anselmo trata de dizer que se o homem definir Deus, então a
divindade tem que existir. Isso, de certa maneira, quer dizer que a existência,
no caso de Deus, decorre da sua própria definição. A definição de Deus, no caso
de Anselmo, diz respeito àquilo que de maior, no sentido de “mais grande”, é
possível de ser pensado. Ora, se deus é aquilo que de maior ou de “mais grande”
pode-se pensar, então ele existe.
A
reflexão é a seguinte: Deus é a maior grandiosidade possível a ser pensada,
logo ele tem que existir. Se Deus não existir, digamos, isto apequena tal
grandiosidade, daí ele precisa existir para ser o mais grandioso, porque se não
existir ele poderia ser algo ainda maior em existência, então, de certa
maneira, Deus existe porque ele tem que ser grandioso, e, por ser assim, isso é
sinal de que existe.
Aqui
temos retratada a convicção dos medievais que a existência de Deus é uma
conseqüência lógica de sua essência e de sua definição: Se Deus é grandioso,
então ele tem que existir, porque tudo que é grande existe. Assim só conclui-se
que existe porque antes, como premissa maior, definiu-se que Deus era grandioso.
B)
Na filosofia de Descartes:
Séculos
depois René Descartes fez uma reflexão parecida, alegando que Deus é perfeito,
a suma perfeição, daí, para ser perfeito, ele tem que existir enquanto
perfeição. Se Deus não existir está arranhada a sua perfeição, porque algo que
existe é, de certa maneira, superior àquilo que não existe, portanto, se Deus é
assim, tão espetacular, então ele tem que existir, afinal seria apequenador,
digno de imperfeição, se ele fosse tão perfeito e não existisse, daí para ser
perfeito, tem que existir na perfeição, assim Deus existe por ser perfeito.
C)
Na filosofia de Leibniz:
Nessa
esfera Deus é definido enquanto infinito, grandioso e perfeito. Três atributos
que sugerem a existência, se não houver existência fica arranhada a definição.
Assim já que Deus é como se diz ser, então ele tem que existir porque só a sua
existência garante a plenitude da sua essência e de sua definição.
Daí
deve existir Deus para que seja garantido o seu tamanho, a sua perfeição e
infinitude.
* Aqui
se pode fazer uma crítica no sentido de que tais provas ontológicas são de uma
tristeza infinita, afinal de contas, não é difícil de concluir que ninguém pode
deduzir a existência de algo a partir de uma definição. Ninguém, por exemplo,
fica rico definindo riqueza, ou fica generoso definindo generosidade, ou fica
sábio apenas definindo sabedoria, em momento nenhum da trajetória intelectual
do homem uma definição garantiu certa existência, razão pela qual, não seria
por Deus que isso se faria possível, daí é por isso que as provas ditas
ontológicas são hoje tidas como uma relíquia histórica da trajetória humana
pensante, portanto ninguém, contemporaneamente, as leva a sério para filosofar.
3.2)
Provas ditas cosmológicas (Em latim: contigentia mundi).
Essas
são as provas que advém da contingencia do mundo, poderíamos traduzir. Aqui
tudo estaria flutuando se não tivesse um Deus para dar origem ao mundo.
O
mundo nos causa espanto, para explicá-lo temos que aplicar sobre ele aquilo que
Leibniz chama de princípio da razão suficiente, quer dizer, aquilo sem o que, o
que é não seria.
Assim,
considerando que o mundo é, se aplicarmos sobre ele o princípio da razão suficiente,
teremos de encontrar aquilo que, poderíamos chamar, A CAUSA do mundo ser o que
é, com isso, apanhamos um mundo qualquer, e aplicamos um fato e uma realidade
dele que quisermos, com o objetivo de justificar certos efeitos ocorridos em
sua esfera. Poderíamos, por exemplo, nos perguntar sobre a sociedade de consumo,
alguém dirá que tal sociedade só é o que é (princípio da razão suficiente),
porque o capitalismo da primeira fase se esgotou, então, é preciso saber o que
é o capitalismo da primeira fase, alguém dirá que se trata de um sistema
baseado em uma moral da poupança, cuja forma econômica já não dava conta de sustentar
a produção, daí era preciso incentivar, mais que a poupança, o consumo, porque
gastando se faz produzir, tem-se comércio, assim a sociedade de consumo só é
explicável pelo exaurimento de um primeiro capitalismo. Esse primeiro
capitalismo, por sua vez, só será entendido, completamente, se for conhecida as
características principais da revolução industrial do século XIX, seu acontecimento
anterior, já tal revolução só será entendida se for compreendido, completamente,
o movimento ideológico, político e social da chamada Revolução Francesa de
1789, e, para entendê-la, é preciso saber que, antes dela, havia um sistema de
monarquia absoluta onde o rei, em aliança com a burguesia, acabou revertendo
uma situação desfavorável em relação à nobreza que era a classe dominante de até
então, já para entender a monarquia absoluta precisa-se conhecer o até então,
que era o sistema feudal, período onde a nobreza dominava e fazia o que queria
em uma forma de governo descentralizado, e por aí em diante.
Assim
para entender o mundo, por meio das provas cosmológicas, é imprescindível
voltar nos acontecimentos anteriores do tempo que se quer explicar, e, para
compreender esses acontecimentos anteriores que lhe sustentariam, deve-se fazer
novamente esse movimento de retorno para as suas causas do passado que, da
mesma forma, lhe oferecem base, e daí sucessivamente.
O problema
é que com esse método nunca ninguém conseguirá compreender nada, afinal sempre
aquilo que se busca explicar precisa ser remetido a uma situação anterior, e
esta, da mesma forma, à sua situação anterior, e, por aí em diante, se
prossegue sem entender um mundo que se quis explicar, porque se buscou
justificativas que nada mais fizeram a não ser remeter a outro mundo que, da
mesma forma, não se explica por si só, esse é o deleite do historiador que não
explica nada e vai retrocedendo ao passado eternamente.
Porém
existe uma saída para esse problema, trata de se estabelecer um ponto de
partida: antes de haver história que se justifica através de um fato passado,
seja ele feudalismo, Império Romano, Grécia antiga, Atlantes, Big Bang e etc.,
tem-se Deus, afinal, na hipótese deste ente não existir, tornar-se-ia
impossível amarrar a grade de acontecimentos passados que ficariam flutuando no
espaço, daí as provas cosmológicas só extraem sua base na divindade, naquela
que se explica por si, é a causa de si mesmo. Aqui é importante destacar que
não se trata de dizer que Deus também é a causa de si mesmo, mas ele é somente
isso: aquilo que é causa de si mesmo.
Então,
claro, já que é preciso explicar o mundo, possuindo este uma razão para ser o
que é, estando todos seus objetos amarrados entre si em relações de causa e
efeito, surge Deus, porque é ele quem garante a causa de tudo. Em não havendo
Deus retrocede-se na história por milênios e não chega a lugar nenhum, porque
nada se explica por si só, nem é causa de si mesmo.
Contingência
é o contrário de necessidade, trata-se daquilo que poderia ser diferente do que
é ou poderia não ser. Então se não for dada uma causa para o mundo, ele poderia
não ser, seria outra coisa, é contingente. Para o mundo não ter esse atributo é
necessário amarrá-lo a uma causa, ela que também é contingente, desde que a
amarre em outra causa, também contingente, que se amarra em outra origem, e, daí
por diante, surge duas saídas: (1) ou se chega a algo que é necessário em si
mesmo, dele surgindo todo o resto que se pode reconstruir; (2) ou está tudo
flutuando, então, sendo bem possível que nada exista, não faz sentido
permanecer atribuindo causas que suas próprias origens não se sabem de onde
vieram. Assim a busca aqui cogita alcançar a conclusão que alguma coisa existe
por si só.
Porém,
o fato de haver alguma coisa que é a causa de si mesmo, em nada garante um Deus,
tal como nós o entendemos, afinal de contas se existe alguma coisa que é por si
só, causa de si mesmo, pode bem ser uma natureza, o próprio mundo, uma
molécula, ou algo muito diferente daquilo que costumamos entender por Deus,
sobretudo se tal divindade for tida modelo do homem, feito à sua imagem e
semelhança. Se o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, ele tem o
direito de imaginá-lo assim, mas daí dizer que existe um Deus, que é causa de
si mesmo, em nada garante que seja ele semelhante ao homem, portanto essa
demonstração, aparentemente atrativa, típica de Aristóteles, Tomás de Aquino e
tanta gente, vai tratar de uma necessidade lógica de não regredir ao infinito,
mas que não nos aproxima de nenhuma divindade tal como sempre assim foi
entendida.
Existe
também um segundo problema: Quem garante que não esteja tudo mesmo só flutuando
no espaço? Quem garante que exista de fato uma mesma causa para as coisas? Quem
garante que as coisas tenham de fato uma causa para ser? Quem garante que a
vida tenha um sentido? Quem garante que o universo seja compreensível? Quem
garante que não seja tudo absolutamente contingente ou ilusório e nada tenha
sentido? Quem garante que haja uma razão suficiente para as coisas serem como
elas são? Deus garante? Mas ele é a garantia de sua própria existência, para
demonstrar Deus precisa-se que ele diga que exista, pensando assim está se
inserido em uma demonstração circular e viciosa, sem nenhum interesse
intelectual. Em outras palavras, o mundo não tem sentido, não é lógico e
compreensível, e tudo aquilo que julgamos entender nada mais é que o erro a ser
desmentido na semana seguinte.
3.3)
Provas ditas teleológicas.
Essas
são as provas fazem de um atributo de Deus a amostra da sua própria existência.
Tínhamos dito que Deus é aquele que colocou ordem no mundo. Dirão filósofos
como Rousseau e Voltaire que se o mundo é tão ordenado isto se dá porque existe
um ordenador.
Para
explicar esse trecho imaginemos que, um indivíduo qualquer, andando pelo
universo, encontrasse um relógio, rapidamente entenderia ele que o relógio é a
reunião de elementos que só pode ter sido obra de uma inteligência externa
àquele objeto. Cada célula do corpo humano é infinitamente mais complexa que o
relógio, então, nada mais normal, deduzir a existência de um relojoeiro. Se o
universo é um relógio, Deus é o relojoeiro. Não se vê como o relógio do
universo poder existir sem uma inteligência criadora.
Essa
também trata de uma reflexão complicada de se aceitar, afinal uma célula
cancerosa também acaba programando a deterioração do organismo em que ela está
inserida. Essa maravilha que alguns filósofos enxergam no universo, desde os
estóicos até esses mais recentes, alegando tudo ser um espetáculo, trata de uma
reflexão passível de desconfiança, afinal para cada objeto que podemos
interpretar como belo haverá outros tantos medonhos. Fica muito claro,
principalmente depois de Darwin, que a maneira como a vida se organiza obedece
a requisitos de competitividade inerentes à própria existência e que dispensam
qualquer relojoeiro.
Na
prova teleológica, que tem origem no termo “Thelos” e quer dizer finalidade,
sobretudo, a comparação com o relógio é infeliz, isto porque tal objeto tem a
finalidade de indicar as horas, e quando ele é comparado com o universo,
parte-se da premissa de que o universo tenha sido criado para alguma coisa, mas
quem foi que disse que este tem uma finalidade? Essa premissa trata-se de algo
completamente discutível, qualquer um pode perfeitamente não aceitar essa
comparação, porque se o relógio é feito de fato para marcar as horas, não há
nenhuma garantia que o universo tenha uma finalidade, seja ela qual for, afinal
ele pode perfeitamente existir sem finalidade nenhuma, nesse caso, desaparece o
Deus ordenador, a inteligência pensante. O erro está na comparação.
O
relógio é constituído por peças que são funcionalmente complementares. A
finalidade do relógio é marcar as horas, mas nenhuma peça do relógio pode
compreender a finalidade deste objeto que estão inseridas, porque, para
compreender a finalidade do todo, é preciso transcender a sua condição de
parte, essa que, por definição, não entende o Thelos ou a finalidade do todo, afinal
parte enxerga e vive afetos típicos de parte. Então veja que curioso: as horas
que o universo marcaria, nenhum dos homens pode enxergar. O relógio não é para
os homens, esses que, em comparação com o relógio, são seus ponteiros, roelas,
pistões e etc., que passam suas vidas inteiras levando pistonadas no lombo, e,
ao se questionarem do porquê de carregar esse fardo, alguém lhes dirá que o
universo é um relógio, e, para que ele possa marcar as horas, é preciso que
alguém faça a função de levar pistonadas. Com esse discurso fica fácil de
legitimar-se o que quiser, porque se o indivíduo é escravo, pobre, analfabeto, imbecil,
explorado, não importa! Afinal foi Deus que fez o universo assim, perfeito,
para que assim as horas sejam marcadas corretamente. Se o indivíduo não quer
marcar hora para ninguém ver ou almeja sair da sua condição de pistão,
carregando fardo, para a de ponteiro, privilegiado, o discurso é manipulado no
sentido de que se está impedindo o normal funcionamento do relógio. Legitima-se
o que for com um Deus que fez tudo certo para poder marcar as horas.
3.4)
A perspectiva de um Deus transcendente.
Todas
essas provas ditas acima são decepcionantes. Em um artigo do filósofo Emmanuel
Kant, intitulado “A religião nos limites da simples razão”, o autor vai se
insurgir contra essas provas, mesmo sendo ele um cristão com formação
evangélica, porque quando o homem se dispõe a provar a existência de Deus, ele
produz um efeito nefasto para sua relação com o divino, trata do
desaparecimento da fé, afinal de contas ela, que é o caminho real da sua
relação com Deus, pressupõe certeza sem demonstração, em se buscando
comprovação da existência de Deus não há porque ter fé, e, com isso, desaparece
a condição primeira de toda a religiosidade humana, portanto eis aí um caminho
a evitar.
4)
O Pensamento de Berkeley.
Berkeley
parte da premissa que a percepção humana do mundo não é recorte das manifestações
de um ente maior que ela, mas tal percepção é o próprio mundo, em outras
palavras, o autor está absolutamente convencido de que não tem duas coisas: o
mundo fora do homem e um campo visual que ele tem do mundo, um recorte, que é a
sua percepção. Assim o ser é o ser percebido, daí tudo só existe na medida em
que é percebido, portanto, aquilo que supostamente é visto e percebido
tatilmente fora do homem, na verdade, é visto e sentido no próprio homem, da
mesma maneira o que se cheira fora do homem, é cheirado nele, o que se vê fora do
homem, é visto nele, em outras palavras o mundo é a sua percepção do mundo,
como em Matrix. Não existe sala, existe a percepção da sala, a maior prova
disso é que a sala que um homem vê, é diferente da que outro vê, se é que um
deles enverga alguma sala, e mesmo que alguém diga que observa uma, isso não
passa de palavras, porque para outra pessoa esse alguém pode ser somente parte
de seu filme, e tudo que se observa é parte de seu enredo. Não se trata de
haver um indivíduo e o que se percebe deste indivíduo, mas somente o que se
percebe dele.
Podemos
perguntar, mas se o mundo é uma percepção dentro do homem, então ele não existe?
Existe, trata de ser uma percepção dentro de cada homem particularmente. Assim
não existe um único mundo que toda a humanidade está inserida, afinal de contas
a cada segundo os homens percebem uma experiência de mundo diferente, que não
coincidem. Assim cada um tem um filme dentro de si.
Se
cada homem tem uma percepção diferente, como ter certeza de que toda a
humanidade está no mesmo mundo, se a rigor, na hora de encará-lo, o mundo se
apresenta singular e particular para cada um dos indivíduos? Não há um mundo
fora do homem, há somente um filme humano que trata dele mesmo.
Nessa
interpretação Deus é o diretor do filme, trata de quem colocou o homem para
perceber o que ele percebe. A seqüência de objetos que um indivíduo percebe do
mundo nenhum outro pode fazê-lo de forma igual, o mundo contemplado a cada
segundo dentro do ser ninguém contempla igual, então Deus foi generoso,
benevolente e forneceu um filme só para cada um dos homens, exclusivo, o que é
percebido somente cada um dos indivíduos o faz e mais ninguém.
No
momento em que se apanha um microscópio e o coloca para observar certa mesa, o
que se visualiza somente com o olhar não estará ali, mas é quase tudo vazio. O
que é observado no mundo não é da maneira que se enxerga, mas só se percebe os objetos
de certa maneira porque o homem traz os recursos de sua própria estrutura
humana, se tivesse outros recursos não humanos avistaria outro objeto e filme,
cujo diretor será sempre Deus, aquele que inseriu o homem no mundo para que
contemplasse segundo cadências e roteiros trazidos aos seus sentidos sob certa
perspectiva. Disso alguns personagens entram, outros saem, e essa seqüência
percebida dentro do homem vai ser tida como organizada por Deus.
E o
filme de cada um vai ser do jeito que é por motivos da própria divindade, uma
lógica divina difícil de entender. Esse é o Deus de Berkeley, aquele que é
responsável pela percepção humana. Como não é o homem que produziu o filme,
Deus é aquele que lhe permite perceber, o filme vai rodando na sua frente e para
a divindade é atribuído o papel de fazê-lo rodar.
A
perspectiva de Berkeley é fantástica, esse autor que era pastor evangélico, de
formação teológica, e também em física especializado em ótica, estava ele
convencido que o ser era o ser percebido e que a existência de um mundo fora de
do homem é o maior erro que a humanidade compartilhadamente já cometeu.
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