Deus
e ateísmo - parte 2 - 5)
O Deus de Spinoza. 6) A questão do ateísmo e agnosticismo.
5)
O Deus de Spinoza.
A
filosofia de Spinoza vai falar sobre o Deus da imanência na imanência, cuja existência
não se perfaz fora do mundo. Nessa concepção não é Deus o criador do universo, mas
ele é o próprio universo, o próprio real, o mundo, o todo.
Já
os homens são partes desse Deus, não são seus filhos como no pensamento do
transcendente cristão, mas, no caso da filosofia de Spinoza, o homem é a
própria figura divina, afinal nela Deus é o todo que lhe compreende.
Então
porque chamar o todo de Deus? Afinal se o maior atributo de Deus é a eternidade,
ele está contrário à característica da mortalidade humana. A resposta surge
alegando que, enquanto parte do todo, o homem morre. Por outro lado Deus, o
todo que o homem faz parte, não morre, porque esta é a condição típica, não de
quem é o todo, mas sim de quem é a parte. A morte trata da deterioração de
partes que se relacionam, é a conseqüência da transformação, dos afetos que
partes impõem a outras partes. Deus, por seu turno, é o todo, não morre, já os
homens, enquanto partes, morrem, em nome de Deus. Exatamente ao contrário da
história de Cristo que morreu pelos homens, para Spinoza são os homens que
morrem por Deus que não pode morrer.
Mas
porque o todo não morre? Enquanto partes do todo, os homens morrem por se
relacionarem, se encontrarem e se deteriorarem na relação com outras partes
deste todo. Por outro lado, Deus, sendo o todo do qual o homem é parte, não se
relaciona com nada, porque caso ele se relacionasse com alguma coisa ele seria
sim uma parte, não o todo, nesses termos ele não é afetado, daí não se
transforma, e, conseqüentemente, também não morre, trata de ser eterno e,
portanto, imanente ao universo.
Em
Spinoza pode-se chamar de Deus o próprio universo, ele é eterno, não precisa ser
um sujeito de barbas bancas que criou homens em um momento de tédio. O universo
são as partes em relação, energia em circulação que sobe e desce, alegria e
tristeza, amadurecimento e apodrecimento, e isso tudo somado é Deus, que é
onipotente de toda a potência das partes que o constituem; é onisciente porque
é toda a ciência dessas partes; é onipresente porque é toda a presença dos
corpos, portanto o Deus de Spinoza tem os mesmos atributos do Deus cristão, com
a diferença que ele não está fora do mundo dos homens, mas ele é esse mundo. A
diferença é que o Deus cristão ele está no meio de nós, trata de ser terceiro,
já o Deus de Spinoza somos nós, trata de ser primeiro, é o que é, o real.
6)
A questão do ateísmo e agnosticismo.
É
claro que esse Deus não é justo, não é bom, ele só é, mas o outro Deus será que
também é assim? O ateísmo surge um pouco daí, afinal de contas, podemos pensar
que existem dois tipos de ateísmo: O primeiro é não acreditar que Deus existe,
esse é negativo trata de uma não crença; o segundo é acreditar que Deus não
existe, esse é uma crença. Se junta a esses dois tipos de ateísmo o agnóstico,
aquele que não tem certeza da existência de Deus, mas é sempre uma questão de
fé, porque é claro que a existência de Deus é indemonstrável e a sua inexistência
também.
Um
argumento forte é a fraqueza das provas da existência de Deus, que já foi
apresentado na parte 1 desse post, de fato essas provas são desconsequentes.
Mas podemos acrescentar a esse argumento outro, trata da questão da experiência
de Deus, afinal de contas se Deus existe, é um fato do mundo, seria normal que
ele se fizesse ver e sentir de maneira mais amiúde, mas não é muito presente
nas conversas humanas enquanto interlocutor, podendo sê-lo mais presente do que
aparenta, se é que assim o faz.
Alguns
dizem que Deus se esconde, essa é a afirmação mais elaborada de uma filosofia
teísta, alegando que Deus o faz para proteger a liberdade humana, como, por
exemplo, a de crer ou não nele. De fato, se Deus aparecesse à frente dos
homens, esses já não seriam mais livres de acreditar ou não em sua existência,
afinal sua aparição foi comprovada, daí, para o homem continuar livre, Deus se
esconde. Esse argumento parece fraco por muitas razões:
- A
primeira delas consiste em dizer que então Deus se esconde para o homem
continuar livre para acreditar nele ou não, daí o homem é mais livre que Deus,
afinal ele não é livre para acreditar na sua própria existência ou não,
justamente por saber absolutamente que ela ocorre, e o homem não pode ser mais
livre que Deus, porque tal situação seria contrariar toda e qualquer ponderação
filosófica sobre a divindade, da mesma maneira que o homem seria mais livre que
Paulo ou Maomé, aqueles que supostamente tiveram revelação divina, esses estão
escravizados pela necessidade de acreditar em Deus, enquanto o homem continua
livre para ser ateu. Outro aspecto consiste em dizer que esse pensamento faz
acreditar que a liberdade só é possível na ignorância, e toda vez que
conhecemos estamos escravizados pelo conhecimento, ora esse argumento vai de
encontro a toda e qualquer perspectiva de um conhecimento LIBERTADOR, quando
colocamos filhos na escola, não o fazemos com fins de que o conhecimento ali
adquiridos os escravize, pelo contrário, mas os liberte, portanto a tese de que
a ignorância de Deus possa trazer liberdade é uma tese que embaraça.
- A
segunda razão da fraqueza desse argumento consiste em falar sobre a existência
do mal, aqui podemos pensar no que realmente constrange não como sendo o mal em
si, mas o excesso dele. Se deus é o todo poderoso e a suma bondade, é muito
difícil tolerar certos fatos desagradáveis que surgem no mundo.
Na
concepção evangélica costuma-se dizer que o mal é um mistério, mas assim é para
o crente, pois para o ateu não é mistério nenhum, afinal, para este o mal trata
de ser o mundo, a vida como ela é, trata da realidade nua e crua ou a natureza,
se preferir.
Naturalmente
que sempre haverá o argumento de que o homem é sempre responsável por muito
mal, mas haverá os dizeres de que se ele é responsável por muito do mal, da
mesma forma ele é vítima inocente de muito do mal também. Não consta que seja o
homem responsável pelo desequilíbrio das placas tectônicas, por tsunamis ou
nada disso que assola a terra muito antes da civilização poluir o planeta. A
maldade no mundo é muito anterior ao surgimento da humanidade, em outras
palavras, no circuito da vida, o sofrimento é a palavra de ordem, e tal
concepção surge muito antes do homem aparecer, razão pela qual responsabilizar
o homem pelo mal na vida do mundo é olhar a questão de maneira míope.
É
claro que sempre existe o argumento que Deus continua bom, agora não sendo mais
o todo poderoso, quem defende essa tese é o filósofo alemão judeu Hans Jonas,
que escreveu o mais importante texto sobre Deus de filosofia no século XX,
intitulado “O conceito de Deus depois de Auschwitz”. O texto vai tratar de
dizer que se Deus é sumamente poder e bondoso ele não poderia ter permitido
Auschwitz, então, já que esse fato histórico ocorreu, duas possibilidades
surgem: (1) Deus continua poderoso, mas não é bom. (2) Deus continua bom, mas
não é poderoso. E o raciocínio que podemos fazer surgir então, prosseguindo
pela opção onde Deus continua bom, mas sem poder, se dá pela famosa teologia da
fraqueza, onde se indaga: será que esse Deus, tão fraco, não pareceria mais um
homem como qualquer outro? Porque bom, por si, homens também o são, essa tal de
bondade em si parece muito pouco para a divindade.
O
Filósofo Alan, em sua introdução à mitologia, dirá que as duas imagens Centrais
da figura do Cristo são a creche e o calvário. Nos dois casos o símbolo é de
fraqueza. A coroa é de espinhos, a tônica é de humildade, portanto Deus, todo
poderoso, cede lugar a outro que não é guerreiro, não é triunfador, não manda
ficar quieto, não faz acontecer como quer, pelo contrário, cuida da ideia de um
Deus que se retira, impotente. Nesse raciocínio podemos perguntar: Como é que
um Deus, que tem condição de fazer o universo, pode não conseguir salvar dois
ou três dos seus filhos? A ideia de um Deus que se esconde é incompatível com a
de um Deus de amor, afinal de contas se o Deus que se esconde ainda pode amar
os homens, escondido, como ele pode pretender que os homens o amem, na
ignorância, na distância, na falta? É obvio que o amor que os homens deveriam
ter pela divindade não é o amor de Platão, erótico, desejante, na falta, mas
tal amor teria que pressupor a alegria da presença, a generosidade da preocupação
com o outro, isso em um jogo de esconde-esconde parece difícil de acontecer.
Sempre
haverá um argumento onde Deus é quem explica tudo, trata de ser a conseqüência
lógica da prova cosmológica dita no post anterior, de fato, sem Deus ficamos no
ar, porque sem ele toda causa permanece inexplicável, e regular causas e
efeitos de fatos, rumo ao infinito, nos impossibilitaria de explicar tudo.
Então naturalmente sempre haverá o crente para dizer que Deus é o que explica
tudo, mas nesse raciocínio há de se pensar: o homem, que ignora o mundo, quando
vai tratar de explicá-lo tem que manter sua atividade em referencia com um
objeto que ele conhece, menos Deus! Explicação essa que relaciona o que é
ignorado com outra coisa que se ignora mais ainda, porque por definição Deus é
incompreensível, significa condenar-nos a girar em falso e acreditar ter
entendido tudo, trata de explicar sem sair do lugar ou substituir palavras, e,
no lugar de mistério, coloca-se a palavra Deus, mas o fato é que com essa
esteira de ideias não avançamos um milímetro na explicação do mundo.
Na
carta aos coríntios, São Paulo apresenta as virtudes teologais, são elas a fé,
a esperança e o amor, esse último que os católicos traduzem por caridade, os
protestantes por amor, mas que em grego é ágape. Tanto a fé como a esperança
tem algo em comum, lidam com situações que não estão diante dos homens. A fé é
certeza intelectual sobre o indemonstrável e o que não vimos. A esperança é
sensação de alegria sobre coisas que não aconteceram ainda. Já Ágape é o amor
que humaniza, e afasta o homem da animalidade, porque o amor erótico, de paixão
e desejo pelo que falta, esse os animais irracionais também tem, mas ágape eles
não possuem, porque trata de recuar para que o amado resulte, ágape é esse
estranho sentimento que necessita tanto da alegria do outro para que o amante
possa se sentir bem, ainda trata de ser o amor pelo filho pequeno que ocupa
todos os espaços. Ágape não é desejo, paixão, tesão, mas é uma preocupação com
a alteridade que torna os homens singulares em relação a qualquer outro ser
vivente. E ágape existe, porque a mãe faz o que for preciso para o filho
sorrir, mas não precisa ser só para ele, existem certas coisas que se faz para
o próximo que, para si mesmo, o indivíduo nunca fez, fidelidade ao que pensava
Cristo. Curioso é amar em ágape pessoas que nem se sabe o nome, mas que existem
e estão à frente.
Santo
Agostinho comenta a carta aos coríntios, nessa oportunidade dirá que de
qualquer atitude ágape é a mais importante das virtudes, porque a fé e a
esperança passarão, e, quando tudo acabar, não vai mais precisar ter fé, porque
ela é a certeza das coisas que não se vêem, e Deus estará ali à frente de cada
homem, também não vai mais precisar ter esperança, porque esta é sempre em
relação ao mundo que não existe ainda, e o paraíso estará à frente de cada um,
portanto a única virtude teologal que permanece é o amor, esse é o que existe
de mais firme.
São
Tomás de Aquino comenta os coríntios e Agostinho. Vai dizer que Cristo, das
três virtudes teologais, só tinha uma: o amor. Afinal porque ele tinha que ter
fé e esperança em si mesmo se tais virtudes já eram ele mesmo? Daí Cristo só
poderia mesmo é amar.
Acreditar
ou não que Deus existe, cada um fica com a sua crença, isso tem pouca importância
quando se compartilha a idéia de central de que o amor que humaniza os homens é
a transcendência em relação à sua natureza egoísta e a sua capacidade de recuar
para que outro possa luzir.
Na
mais estrita imanência da vida, a espiritualidade é absolutamente possível,
porque ela, no fundo, é a vida do espírito quando na sua relação com o
absoluto, infinito e eterno. A metafísica também é isso, mas essa é uma
reflexão, conceito, um encadeamento de noções que buscam dar conta deste
infinito.
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