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INICIAÇÃO À BOURDIEU. – PARTE 1 – 1) APRESENTAÇÃO DO ESCRITOR. 2) A ILUSÃO NATURALISTA. 3) O CAMPO SOCIAL. 3.1) O ESPAÇO ABSTRATO. 3.2) COMO DEFINIRÍAMOS AS POSIÇÕES SOCIAIS? 3.3) A ESTRUTURAÇÃO DO CAMPO SOCIAL. 3.4) TODO CAMPO SOCIAL TEM REGRAS. 3.5) OS PRETENDENTES AO JOGO. 3.6) O CAPITAL DE CAMPO. 3.7) TODO CAMPO CONTÉM TROFÉUS. 3.8) A ILUSIO NO CAMPO.


Iniciação à Bourdieu.  – Parte 1 – 1) Apresentação do escritor. 2) A Ilusão naturalista. 3) O Campo Social. 3.1)  O espaço abstrato. 3.2) Como definiríamos as posições sociais? 3.3) A estruturação do campo social. 3.4) Todo campo social tem regras. 3.5) Os pretendentes ao jogo. 3.6) O capital de campo. 3.7) Todo campo contém troféus. 3.8) A ilusio no campo.




1) Apresentação do escritor.



Pierre Bourdieu é um sociólogo francês que se tornou mundialmente conhecido no final do século XX, falecendo no final do século atual, ano de 2002. A sua obra teve grande impacto na academia brasileira, sendo mais influente nas faculdades de educação, em seguida, nas faculdades de ciências sociais, e, em terceiro lugar, nas faculdades de comunicação.

Na verdade Bourdieu criou uma escola de pensamento, escola de pensadores ditos Bourdieusianos, além do mais esse autor tinha sua revista e um curso sobre suas idéias, com orientandos. Quanto à sua visão sobre a academia, pensava essa ser mafiosa, no sentido de que quem não é seu aliado, trata-se de inimigo. A truculência acadêmica de Bourdieu rendeu a ele muitos inimigos, por outro lado também lhe possibilitou notoriedade e prestígio impressionantes.

O filósofo Jean Paul Sartre é o mais importante e reconhecido intelectual da França na segunda metade do século XX, e Bourdieu não engolia isso, na verdade acreditava ser Sartre falastrão, enganador, picareta, pois queria muito ter um reconhecimento equivalente ou superior a ele, quanto a isso, podemos dizer, em certos aspectos, Bourdieu conseguiu esse objetivo à sua maneira, ou seja, fazendo ciência, que é o meio mais difícil, pois, para que concluísse qualquer idéia, precisava fazer antes milhões de pesquisas, enquanto que a filosofia especulativa permite dizer qualquer coisa e se desmentir amanhã mesmo.

Bourdieu nasceu em Denguim, comunidade francesa, e, na França, aquele que não tem origem em Paris é tido como inferior, seja pelo seu sotaque ou sua forma de falar, esses eram tidos como traços de inferioridade que ele teve de carregar sua vida inteira, e toda sua obra é marcada por esse preconceito social, daí não tem como entender Bourdieu sem entender de onde ele veio e, de certa maneira, que tipo de relação social injusta ele se sentia vítima.

Assim, ao apanhar uma obra de Bourdieu para ler, a primeira coisa que chama a atenção é a maneira absolutamente complicada de escrever, o que ele diz é difícil mesmo, mas poderia ser dito de maneira mais simples, e, quando indagado sobre sua rebuscada escrita, Bourdieu revela que a maneira de escrever é ideologicamente marcada, e assim ele não deveria assumir compromissos ideológicos que pudessem lhe confundir com a vulgarização burguesa da ciência.

Bourdieu entrou na faculdade de filosofia, posteriormente mudou-se para o curso de sociologia, e essa opção foi estratégica para a trajetória do autor, de certa maneira ser sociólogo não tem muita relação com filósofo, trata de jogar outro jogo, pertencer a outro campo e conviver com outro tipo de gente. Sua obra tem um enorme apreço pela análise da realidade, assim, não é Bourdieu um especulador, por isso seu pensamento permanece cheio de dados comprobatórios, diferente daqueles filósofos que vão argumentando sem haver o que demonstrar ou fundamentar, contrariando essa tendência, em Bourdieu não há nenhuma frase que não tenha muitos dados por detrás comprovando seu conteúdo, daí sua literatura ser imensa, trata de uma capacidade de trabalho genial deste autor que viveu para o estudo das sociedades que se dispôs a estudar.



2) A Ilusão naturalista.



Bourdieu passa a sua vida mostrando que muitas ocorrências que na sociedade nós consideramos como coisas de natureza, são, na verdade, ocorrências de sociedade, se preferir, muitas manifestações humanas que nós consideramos naturais, na verdade, são socialmente adquiridas, ou, para falar como Bourdieu, socialmente construídas.

Existe uma tendência no senso comum, esse que Bourdieu denominava com enorme desprezo enquanto saber espontâneo, de naturalizar as ações humanas, isto é, rotulá-las como resultado de uma natureza qualquer. Ocorre que, como conseqüência de tal rotulagem, surge outra tendência: a de ignorar o quanto nossas manifestações humanas resultam de um trabalho propriamente social, esse do qual o nosso corpo é vítima por um pertencimento social que lhe permite certo posicionamento no mundo social, assim, de certa maneira, tal tendência trata de desconsiderar uma explicação propriamente sociológica de uma manifestação que não é natural, mas sim um fato social, socialmente explicável, porque afinal o conceito de fato social, desde Durkheim, trata de uma ocorrência que só é explicável socialmente.

Nesse raciocínio Bourdieu identifica uma série de situações e comportamentos que, no senso comum, costumam ser imputados a uma natureza qualquer, mas que, na verdade, são os resultados de um processo complexo de socialização, de vida em sociedade. Portanto Bourdieu, de certa maneira, faz um trabalho de investigação desse processo, denunciando a intervenção da sociedade sobre o indivíduo, e, mostrando, em qual medida, as relações sociais são aquelas que explicam os comportamentos humanos mais aparentemente “naturais, óbvios, evidentes e cromossômicos”.

Assim, essa ilusão naturalista é, digamos, o primeiro degrau a se vencer, cuidando assim preliminarmente de identificar o que é, não natural, mas sim socialmente explicável, para, a partir daí, chegar às verdadeiras causas sociais que determinam este ou aquele fenômeno, sob pena de procrastinar-se no senso comum.

E se Bourdieu tem uma linguagem esquisita ela serve para deixar claro que seu pensamento não se trata de participar do senso comum, em outras palavras, o autor escreve à sua maneira para deixar claro que seu trabalho consiste em romper com o que é tido como óbvio, evidente, natural e etc., isto porque ele estava absolutamente convencido de que essa é a condição para evidenciar os processos de dominação simbólica inerentes na sociedade, sendo que qualquer tipo de naturalização dos comportamentos humanos gera como conseqüência a retirada da responsabilidade da sociedade por aqueles resultados.

Para Bourdieu o conceito de natureza humana é uma ideologia. Toda vez que alguém imputa ao homem certos atributos inatos o que está fazendo é um trabalho que, além de mascarar os processos sociais que socializam o homem, também buscam justificar, enquanto uma situação plausível, o mundo da maneira que se perpetua instituído, e não de modo diferente a isso.  Lógico, nada mais conveniente para os dominantes, que, de certa maneira, o mundo se mantenha como sempre foi. Então o trabalho de Bourdieu consiste em uma delicadeza de identificação das relações sociais, seus processos de dominação, e suas conseqüências comumente apresentadas como naturais, obvias, evidentes e decorrentes de um inatismo biológico.

Existe, portanto, uma iniciativa interessada de ocultar os processos de dominação em nome de certo inatismo humano. Todo argumento que estipula certa natureza humana trata de ser uma grande conspiração, mas é claro que tal situação se desdobra de várias maneiras. A primeira delas trata de querer imputar à humanidade genericamente atributos inatos, sejam eles de natureza intelectual, afetiva, espiritual e etc., de certa maneira, definindo o homem antes mesmo dele nascer, daí surgem jargões típicos desse pensamento, como: “O homem é assim mesmo”. Toda vez que é apresentada certa definição de qualquer homem genérico, como toda boa definição, recheada de atributos, obviamente está se dizendo que tais atributos estão presentes no homem desde seu nascimento, afirmando isso, se retira do pertencimento social a responsabilidade por aqueles atributos, portanto toda idéia de natureza humana é uma grande sacanagem ideológica para mascarar as coisas como elas são.

Os atributos genéricos, tipo o aristotélico: “o homem é um animal dotado de logos” e outros, são os menos graves. Na verdade Bourdieu se insurgia mais ainda contra as naturezas setoriais, e aqui surgem exemplos de todo tipo. O primeiro tipo que Bourdieu consagrou é o gênero, a natureza masculina e feminina. Bourdieu escreve então “Sobre a dominação masculina”, uma obra extraordinária, totalmente rica de investigação e análise para mostrar em função de que mecanismos sociais a dominação masculina se torna legítima, aceita e definida por todos, homens e mulheres, e é curioso como ele levanta dados que estão presente em nosso cotidiano, como até mesmo detalhes do parto, a maneira como o ginecologista lida, para mostrar o quanto, no cotidiano, aceitamos implicitamente uma superioridade que se evidencia nas práticas e, de certa forma, teria como fundamento uma natureza masculina e uma natureza feminina. Ora, dirá Bourdieu, a biologia é responsável por um suporte biológico inequívoco, mas, entre o macho com o pênis e a fêmea com a vulva, há uma distância oceânica, um trabalho propriamente simbólico de construção da identidade masculina e feminina que é propriamente social. De certa maneira o que se espera do comportamento masculino e feminino só pode ser compreendido dentro da análise daquele universo social específico, naquele momento da história, daquela sociedade específica e assim por diante. Os exemplos vão ao infinito, afinal de contas, ao longo da história, o que se exigia do comportamento masculino, em outros séculos, faria com que certos homens de hoje fossem conceituados como pederastas, ridículos, se por ex., eles não comessem um cérebro de macaco, ou arrancassem as tripas de um inimigo vivo, essa ausência, em certos momentos históricos, para os homens, tratava de ser uma lacuna espetacular, típico indivíduo com inclinações femininas, é só estudar a história e verificar o que se espera do comportamento masculino em outros tempos não é o que se espera hoje, mas não precisa ser historiador para se chegar a essa conclusão, basta observar hoje, diferentes universos sociais tem alternadas formas de definição da masculinidade e, portanto, é evidente, o que se espera do comportamento masculino, em certos espaços, é completamente diferente do que se espera em outros, porque não dizer em outras regiões geográficas. Assim, os processos de construção da masculinidade, que começam com a cor azul e um nome masculino na porta da maternidade, são, na verdade, processos performativos, e o discurso performativo visa fazer acontecer aquilo sobre o qual se fala, e a masculinidade é performativa no sentido de que tudo dito para uma criança, de um sexo ou de outro, poderia se resumir no seguinte: “veja se tu viras o homem/mulher que eu já estou afirmando que tu és”, em outras palavras, a socialização masculina é uma performação associativa que visa fazer acontecer aquilo sobre o qual ela afirma já estar acontecendo, de tal maneira que só se consegue entender a masculinidade se for entendido o lugar aonde aquele macho virou homem, só se consegue entender a feminilidade se entender aonde aquela fêmea virou mulher, e o suporte biológico trata de um pretexto inicial de uma construção simbólica complexa que varia de lugar para lugar. É preciso deixar claro que, muitas vezes, as identidades sociais do masculino e do feminino possam, de certa maneira, prescindir do suporte biológico supracitado, como por ex., no caso de certo de certos meios prisionais, onde se tem o marido e a esposa, sendo todos homens, portanto se tem a identidade do masculino e do feminino, não tendo o suporte biológico dando conta, deixando claro a independência e a soberania das construções simbólicas em relação ao pênis, clitóris e essas especificidades biológicas.

E porque, apesar disso tudo, valoriza-se tanto o biológico, sendo o fundamento do biológico sempre levantando? Porque, de certa forma, a identidade masculina/feminina é incorporada a golpes de inculcação, relações sociais que inculcam certo jeito de ser, pensar, agir e etc., que vão muito além da percepção consciente da gênese e de tal processo, em outras palavras, vai se virando homem e mulher sem perceber, de tal maneira que, o sujeito, quando se dá por si, já virou homem e mulher, sem ao menos ter se dado conta do trabalho social de construção dessa identidade, o que faz pensar tudo isso como nada mais do que uma conseqüência da natureza e da biologia, sendo justamente pela incorporação e interiorização de uma identidade simbólica, socialmente construída, que se perde a dimensão social dessa construção, razão pela qual o que é simbólico acaba sendo interpretado como biológico. Muitas vezes então gestos destemperados de valentia ou de covardia são interpretados e atribuídos a cromossomos tortos ou até mesmo filiações hereditárias, quando, na verdade, o ocorrido foi certa socialização que começou na família e, de certa maneira, continuou patrocinada em um meio que obviamente levou a tal tipo de comportamento como inevitável, daí então a valentia ou a covardia são construções sociais que quase nunca são explicadas como tais, mas quase sempre são explicadas em função de fatores que não são os bons.

Essa questão da ilusão naturalista não é só de gênero, afinal de contas, esse aspecto foi o que menos atrapalhou Bourdieu. A ilusão naturalista tem a ver com tantas outras variáveis, como étnicas por ex., afinal de contas quem é que não relaciona um homem de crânio maior com uma série de outras relações, e atribui-lhe, por conta de certa genética nordestina, esse ou aquele comportamento. Toda origem do racismo e da xenofobia está nesse biologismo do comportamento humano, em identificar nas origens genéticas e biológicas comportamentos que, na verdade, são social e politicamente explicados.

No seio da sociedade é muito tentador colocar em evidencia as diferenças biológicas para justificar todos os seus preconceitos, é tentador acreditar que pequenas diferenças biológicas possam justificar tanta descriminação e distância, afinal de contas, mesmo em um país como o nosso que todo mundo afirma não haver racismo fica muito difícil ver muita diversidade étnica por onde se passa. E sempre haverá um americano de extrema direita para dizer que trata do número de cromossomos serem menores ou algum problema de genética, seja para mulher ou negro o problema continua sendo o mesmo, existindo tais desvios a divisão do trabalho está justificada, então, os de cérebro maior vão para a universidade, enquanto os outros fazem trabalhos braçais e ganham menos.

Com isso se percebe que, adotando tais critérios, se retira da sociedade, da socialização, do preconceito, todo ônus da responsabilidade pela discriminação, culpando todos esses fatores em diferenças biológicas quaisquer, seja ele o músculo adutor da coxa desenvolvido ou até um pênis maior, então Bourdieu se transtornava com essa perspectiva, é claro, o fato do negro ou do branco não era o problema dele, mas particularmente quanto a Bourdieu pessoalmente a questão era sua taxação, pela sociedade parisiense, enquanto caipira, provinciano, e em toda aula Bourdieu lutava contra esse conceito, daí ele começava a falar e ninguém entendia nada, queria o autor mostrar que lerdos eram os parisienses incapazes de entendê-lo, assim invertendo processos de socialização. Em Bourdieu não tem como separar sua vida de sua obra, o próprio autor confirmava essa ideia, aliás, muito respeitador do que Nietzsche dizia também na frase “A minha filosofia é o resultado da minha loucura”, Bourdieu dizia que a sua vida estava totalmente explicada por sua sociologia, em outras palavras, podemos chamar Bourdieu enquanto um subversivo, quando tudo que ele fala sobre dominação se aplica perfeitamente a todas as suas estratégias de subversão e, depois como dominante, para conservação de certo campo.



3) O Campo Social.



O conceito de campo está presente em todos os livros de Bourdieu, no entanto, dizer o que campo é, de forma didática e definitiva, o autor não faz em momento algum, o lugar que talvez possa haver um arremedo de didatismo está no livro “Questões de sociologia”, que trata de uma reunião de conferencias. No resto de suas obras Bourdieu fala de campo como se fosse a maior obviedade do mundo, é o tipo da obra que já começa com o “bonde andando”, essa é a enorme dificuldade de ingressar na obra do autor.

Um campo social é um espaço abstrato estruturado de posições sociais e distâncias sociais, simbólicas, reflexivamente definíveis, constituído por regras de, ao mesmo tempo, rivalidade e cumplicidade, além de capital desigualmente distribuído e critérios próprios de vitória.


3.1) O espaço abstrato.


Quando se fala em espaço a primeira ideia que surge à mente cuida de um lugar físico, como por ex., uma sala, mas o espaço que Bourdieu fala não é dessa natureza.

Assim, espaço social, nessa concepção, cuida de um local que é abstrato, não físico, não um terreno ou um prédio, claro, eventualmente espaços físicos podem conter agentes de um campo social de forma muito recorrente e intensa, mas isso, para fins de conceituação do campo social, ocorre por mera contingência, portanto, as relações sociais que constituem esse espaço do campo social são relações típicas que podem ocorrer em qualquer ambiente, físico ou não.

Isto quer dizer que as posições sociais não são geográficas, mas sim simbólicas, de tal maneira que elas podem não ter nada a ver com as posições físicas dos agentes sociais, e, as distâncias sociais, simbólicas, podem não ter nada a ver com as distâncias físicas entre eles, como no exemplo onde o Senior de uma empresa pode eventualmente tomar elevador com o estagiário do setor de administrativo no local, nesse caso a distância física se reduz, mas a distância social continua oceânica, talvez até nunca pareça tão oceânica quanto a distância física se revela. Assim a distância física não elimina a distância social. Em relações públicas, há uma campanha que se chama “café da manhã com o chefe”, onde se pressupõe que, ao colocar o funcionário para tomar café da manhã com seu superior, posicionando ambos na mesma sala, torna-se possível reduzir as diferenças sociais entre eles, tal posicionamento trata de uma artificialidade extraordinária, a distância social continua presente, só em relações públicas para não enxergar que as distâncias simbólicas não se encurtam colocando uma pessoa na frente da outra.

Isto não quer dizer que as posições sociais e distâncias sociais não possam ser simbolizadas geograficamente, o que é outra situação, por exemplo, quando um aluno aborda certo professor em uma faculdade, entre eles haverá uma distância típica de aluno em relação a professor, ocorre que a tipicidade dessa distância não é espontânea, mas socialmente aprendida, e, se por ventura, o aluno transgredir seus limites, o professor vai recuar, isso porque, socialmente falando, aluno e professor têm que conservar uma distância, nesse caso ocorre certa materialização física de uma distância social simbólica. Mas isso não significa que se o aluno chegar perto do professor para tirar uma foto, por exemplo, ele se tornou que igual ou próximo ao professor.


3.2) Como definiríamos as posições sociais?


Quando se costuma definir algo, isto é feito seguindo os preceitos da lógica clássica, onde toda definição deve ser universal e própria, isso quer dizer, trata daquilo que é necessário para identificar a diferença específica, ou seja, aquilo TUDO que se define é, e aquilo SÓ que se define é, assim, ao definir bananas, deve-se dar uma compreensão que compreenda todas as bananas, mas só as bananas, não incluindo pêra, ou seja, não pode transbordar, mas também não pode ficar aquém, oferecendo a diferença específica, o contorno daquele universo. Toda definição, costuma ser entendida na lógica clássica a partir de um exame do objeto a definir, para daí encontrar sua universalidade e a sua propriedade.

As posições sociais de Bourdieu não são possíveis ser definidas dessa forma, isso porque elas não são definíveis por elas mesmas, mas sim em relação a outras definições, portanto, ela é relacional, trata-se de uma definição por tautologia, ou seja, certa coisa é o que a outra não é, e a outra é o que o que certa coisa não é. Assim, a vida social, de acordo com Bourdieu, é estruturada em torno de polaridades que só tem significado no desmentido de seu contrário. Segue aqui um exemplo clássico de Bourdieu: imaginemos certa definição para a posição social de um patrão, ele não será definível por ele mesmo, mas só o será em função de seu subordinado, pois um patrão sem subordinado não tem sentido, não patrona, portanto só será tal em função do que lhe é outro, tautologicamente, do mesmo modo, se fôssemos definir subordinado sem fazer alusão a um patrão não conseguiríamos defini-lo, isso porque as posições sociais de Bourdieu só são definíveis nesses termos, ou seja, umas em relação às outras, paradoxalmente, elas encontram no seu contrário a sua definição possível. Como norte e sul, outro exemplo clássico de Bourdieu, define-se sul como o ponto oposto ao norte, e norte como o oposto ao sul, assim, da mesma forma, chefe e subordinado, burguês e proletário, rico e pobre, chato e legal, brega e elegante.

Assim a sociedade tem posições que só são definíveis relacionalmente, reflexivamente umas em relação às outras, portanto, no campo social, em seu espaço, as posições só podem ser cernidas relacionalmente, sendo imprescindível a existência de alguma referência externa a elas, aliás, desde Copérnico, Gallileu e Newton, para posicionar um objeto no espaço, tal procedimento tem de ser feito em relação a outro objeto, nenhum deles posiciona um objeto em si, mas sempre em relação a outro, e Bourdieu não faz diferente.

Um campo é um espaço de posições sociais definíveis reflexivamente.


3.3) A estruturação do campo social.


O que significa dizer que o campo é um espaço estruturado? Significa dizer que a característica de reflexividade das posições sociais, inerentes do campo social, sempre se dará a partir de certos eixos, esses, sendo estruturantes do campo, são vetores, portanto, em torno dos quais as posições sociais ganham a sua simetria de reflexividade. Por exemplo: concluímos que certo ato governamental agressivo, em prejuízo de ocupantes de propriedades vazias, está mais próximo do deputado Paulo Maluf do que do presidente do Partido da Causa Operária, porque o campo político mantém em seu bojo certo eixo estruturante, que é o da direita/esquerda, pois bem, tal eixo permite estabelecer essa diferença, daí, os tucanos do PSDB, Paulo Maluf, Delfin Neto, todos eles são posicionados como de direita, por outro lado, PT, PSTU, PCO e etc., esses são colocados de esquerda. Assim, a partir do eixo direita/esquerda se consegue aproximar e distanciar certos agentes inerentes do campo.

Um eixo do campo jornalístico é o jornalismo de massa, inerente na indústria cultural, de um lado, e, o jornalismo alternativo, de outro, a rigor, a revista veja e o jornal nacional da Rede globo, pertencem ao jornalismo de massa, já o jornal o pasquim, a tribuna operária e a carta capital, pertencem ao jornalismo alternativo. Outro eixo do campo jornalístico se dá pelo veículo de transmissão, televisão de um lado e jornalismo impresso de outro.


Assim todo campo tem uma série de eixos a partir dos quais se consegue situar os atores que estão inseridos dentro do campo, e é claro que essa estrutura ajuda demais a explicar as manifestações desses agentes dentro dos espaços estruturados de posição dentro dos campos. Exemplo: o campo social acadêmico universitário mantém um eixo divisor importante que lhe reparte: eixo universidade pública/universidade privada. Tal eixo traz conseqüências espetaculares, os agentes que estão do lado da universidade pública fazem muitas pesquisas, os de universidade privada fazem menos pesquisas; os de universidade privadas preparam para o mercado de trabalho, os de universidade pública criticam o mercado de trabalho, e por aí vai. Assim a presença desse eixo causa uma série de conseqüências que crivam o campo acadêmico. Ademais, como todo ambiente de criação cultural, outro eixo fundamental deste campo é o puro/comercial, puro/impuro, capitalizados/não capitalizados, daí, assim como no campo da música há certa divisão entre música de raiz/música comercial, no acadêmico há certa divisão entre ciência pura, típica do professor da USP pobre, e a produção de conhecimento impura, prostituída, típica de palestras em banco.


3.4) Todo campo social tem regras.


As regras inerentes do campo podem ser jurídicas, sendo essas para Bourdieu as que menos importam, ou podem ser resultado de uma aceitação tácita, não estando escritas em lugar nenhum, mas são respeitadas por todos no campo social.

Os campos são espaços de conflito e competição e, ao mesmo tempo, de concordância implícita sobre o seu funcionamento, e é isso que faz do campo social certo paradoxo. Exemplo: na época da promulgação da Constituição Federal de 1988 havia um deputado constituinte chamado Lula, e havia outro chamado Guilherme Afif Domingos, por razões de estrutura do campo, Lula era o líder do PT, Domingos era o líder do PL, ora, no campo político eixo direita/esquerda absolutamente antagônico, ali Lula e Domingos eram adversários, mas, ao mesmo tempo, viviam uma grande amizade, em outras palavras, existia muito mais afinidade entre dois adversários de campo do que com qualquer outras pessoas.

Assim o campo tem essas situações ambíguas, que são, ao mesmo tempo, de conflito e proximidade, luta e cumplicidade, para a defesa das regras do jogo, isso ocorre porque todos os agentes do campo são responsáveis pela proteção do jogo, porque, em acabando a disputa, o fim recai conjuntamente para todos do campo, então os agentes são, ao mesmo tempo, defensores e competidores das condições de reprodução do jogo, daí a ambigüidade de todo campo. Exemplo: Dois professores acadêmicos de ética, um formado nas bases do pragmatismo Estadunidense, outro no humanismo francês, embora um possa admirar a pessoa do outro, devido às suas visões muito diferentes de mundo eles são concorrentes, adversários, daí se enfrentam e se atacam nas aulas, disputando os aplausos dos alunos e da instituição, sendo ambos muito queridos pelos alunos na universidade. Porém no momento que, por razões de administração da universidade, eles tiverem de se afastar e suas rivalidades restarem comprometidas, suas adversidades podem ser o primeiro elemento que unem ambos a se defenderem, reconhecendo um professor que ele, sem seu adversário, não consegue sobreviver por si, isso porque, na hora que o jogo está ameaçado, é preciso fechar a questão: são eles adversários, mas também são jogadores do mesmo jogo, trata-se de uma dupla dinâmica, de enfretamento e cumplicidade.


3.5) Os pretendentes ao jogo.


Todo o campo, além de ter os jogadores que já estão disputando, também tem outros que querem ingressar na disputa, mas ainda estão fora dela, esses Bourdieu nomeia como pretendentes. Exemplo: o sujeito quer ser professor universitário, a porta de entrada para poder entrar na disputa por uma vaga no campo acadêmico é a conclusão de certo mestrado, após tal fato ele vai ser um competidor em potencial, daí quem não ingressou em um mestrado não disputa o jogo. Claro o mestrado é um primeiro degrau, mas, sem ele, não acontece disputa. Por outro lado se o sujeito tem diploma de MBA, por exemplo, ele tem qualificação para outro tipo de jogo, não o acadêmico.

No campo jurídico, da mesma forma, existem os agentes que estão jogando e aqueles querem entrar na disputa. Uma das portas mais devassas desse campo trata do exame da OAB, evidente, sendo reprovado em tal exame o sujeito se encontra do lado de fora da disputa, por outro lado ocorrendo sua aprovação ele já está convidado a disputar com os outros jogadores. Assim o campo jurídico é um espaço de posições rigorosamente estabelecidas que os agentes ocupam em funções de uma série de eixos, sendo essa arena uma das mais estruturadas de toda a sociedade, assim também englobará eixos como de especialidade, onde o advogado trabalhista é considerado em um nível abaixo, já o tributarista em um nível acima, por exemplo, bem como aquele que situa advogados de um lado e concurseiros do outro, nesse segundo temos os promotores, juízes, delegados, defensores e etc, e aqui os juízes se colocam em posição superior ao delegado e ao promotor, já o promotor se coloca melhor que juiz, e por aí vai.


3.6) O capital de campo.


Após redefinir-se de pretendente para efetivo jogador dentro do campo, o sujeito passa a ser posicionado socialmente à condição de amador na competição, combatente de primeira batalha, inexperiente, portanto inferior face ao resto dos jogadores. Esse primeiro posicionamento social do sujeito deixa claro que os jogadores não disputam o jogo com a mesma quantidade de fichas, isso é o que Bourdieu chama de capital.

Esse capital deve ser entendido não como dinheiro, por exemplo, a Marilena Chauí, professora titular da USP, tem um capital acadêmico incalculável, mas não é o mesmo capital do Di Gênio, reitor da UNIP, pois eles não jogam no mesmo campo, ainda que o Di Gênio seja reitor de universidade, seu jogo se situa no campo econômico não no acadêmico, da mesma forma o capital acadêmico da Marilena Chauí não tem nada a ver com o salário que ela recebe, muito pelo contrário.

Nessa concepção capital social é o conjunto de recursos que certo jogador mantém para disputar troféus específicos dos campos sociais que estão inseridos.  Então, é claro, cada campo tem capitais específicos, daí o capital, por exemplo, do campo acadêmico nada tem a ver com o do campo jornalístico, que não tem nada a ver com o do campo jurídico, que não tem nada a ver com o capital do campo econômico e assim por diante.

Exatamente porque são específicos que toda tentativa de conversão de capital, de um campo social para outro, encontra uma taxa de conversão altíssima, daí, por exemplo, caso Marilena Chauí quisesse ser jornalista iria sofrer severas críticas específicas daquele campo. Daí toda vez que se tenta converter capital de um campo social para outro paga-se um preço que, às vezes, corrói o próprio capital. Assim o apresentador Silvio Santos tentou se candidatar a cargos políticos algumas vezes, dotado de um capital econômico gigantesco, e pagou um preço caro que nem conseguiu realizar a conversão, do mesmo jeito o empresário Antonio Emílio que realizou a campanha política mais cara da história do Brasil, isso deixa claro que cada campo tem suas regras e não é tão fácil chegar conquistando espaço quando não se é do ramo. O campo acadêmico ele é um dos mais sórdidos, local onde se incentiva as pessoas a jogarem, porém, em sua primeira curva, ele já intimida o jogador para convencê-lo que não é do ramo, e repensar sua carreira para ser, por exemplo, um técnico de televisão, pois ali não é a sua praia.

Assim cada campo tem capital específico e sua distribuição entre os jogadores é profundamente desigual. Não é só dinheiro que se concentra dramaticamente nas mãos de uns, mas todo tipo de capital se concentra. Karl Marx tem razão, mas para além deste filósofo, se no capitalismo o capital se concentra, na academia o capital acadêmico se concentra dramaticamente. Para entender essa concentração de capital, basta observar o número de professores de filosofia do ensino médio que adotam o livro da Marilena Chauí, esses que quando encontram essa escritora tem o direito social de pedir um autografo ou de aplaudi-la quando ela fala, veja, não estão esses professores autorizados a lhe fazer uma pergunta, para cada centena de milhar deles tem uma Marilena Chauí, e eles só aplaudem porque existe um reconhecimento simbólico de concentração de capital, a legitimidade da Marilena Chauí é tamanha que ela não precisa nem falar, porque o objeto das palmas não são suas palavras, o que quase nunca é entendido, mas sim a sua posição social, além de suas obras dentro do campo, indo mais adiante, o que está sendo aplaudido na verdade é a capacidade da Marilena Chauí de concentrar legitimidade e reconhecimento, é nesse ponto que é importante entender que o capital social não é um objeto que se coloca no bolso, mas sim trata de ser o reconhecimento dos outros, assim o capital social precisa da chancela do outro, quem é que confere capital social a um professor é o seu destinatário, do mesmo jeito o jornalista, então, na sociedade, os recursos que alguém dispõe para alcançar os troféus do campo são outorgados pelos seus pares, os demais jogadores do campo, que reconhecem no vencedor alguém com esta condição e com esses recursos para se conseguir o que se pretende.


3.7) Todo campo contém troféus.


Todo jogo tem o critério da vitória. O que é importante compreender é que o valor do troféu só é percebido por quem joga, porque quando não se está jogando esse valor aparece. Tanto quanto as posições sociais só tem sentido em relação a outras delas, o valor do troféu só tem sentido na dinâmica do jogo, fora disso os troféus parecem esdrúxulos para quem olha externamente ao campo, tanto é assim que tu podes perfeitamente pegar um prêmio, materializado em troféu, de um campeonato de bocha e jogá-lo no lixo, porque, é claro, por não ser jogador de bocha ninguém vai colocá-lo na instante de honra ao mérito, não faz o menor sentido, está completamente fora do jogo, não tem valor nenhum.

No campo acadêmico concorrer à livre docência na USP é um troféu, esse é um dos piores concursos, trata-se de uma carnificina mesmo, onde o concorrente pode ser questionado até quanto aos locais que leciona, porque o livro docente está muito acima do doutor que encontra no senso comum uma espécie de significado pasteurizado, o livre docente é típico troféu de identificação muito específica, mas, para quem está olhando de fora, o concorrente está se sacrificando simplesmente por um título que não serviria para nada, com fins de não ganhar nada a mais de salário, pois quem está externo àquela situação não está jogando, portanto não tem como entender a motivação da disputa.


3.8) A ilusio no campo.


Ilusio trata da obviedade do valor do troféu para quem é jogador do campo. Nietzsche tem uma frase onde diz que “tudo que precisa ser demonstrado não tem valor nenhum.”, para o jogador do campo acadêmico, por exemplo, a posição social de livre docente da USP não necessita ter seu valor explicado, pois, o simples fato dele ocupar e disputar um alguma posição dentro deste campo já basta para a compreensão integral desse troféu.

O campo é um espaço privilegiado de socialização e um dos efeitos desta socialização é a naturalização do valor do troféu, a isso Bourdieu chama de ilusio, ela não precisa se demonstrar é óbvia. Hoje em dia muito se fala em motivação, essa que nada mais é senão a quantidade de energia que se disponibiliza para buscar troféus em espaços específicos de convivência que são os próprios, então não adianta, por exemplo, dar palestra para motivar os jogadores a competir em um campeonato de bocha, isso porque motivação pressupõe a inscrição em um contexto relacional de jogo que é social, e não individual, por isso que o troféu é importante, e a obviedade do valor do troféu faz com que o agente social vá em busca daquele triunfo como sendo uma decorrência obvia de seu pertencimento e inscrição social.

É claro que quando Durkheim escreveu “O suicídio”, e disse que o suicídio tem causas sociais, ele não falou de campo, nem de ilusio, troféus e etc., mas é muito menos provável que alguém que tem troféus claros, competidores claros e contextos de luta claros cometa suicídio, em face de outro alguém que não jogue um jogo e não dispute nada, ninguém se mata por perder, não há nada mais terrível que esse tipo de exclusão social, por isso que é importante incluir, colocar jogadores para disputar, afinal existe troféu para todo mundo, ou pelo menos para todos os níveis, porque todos sabem, por exemplo, quando entram no campo jurídico, que não vão se tornar ministros do STF da noite para o dia, daí não será esse cargo o troféu que estará sendo disputado naquele momento, pois sua competição ocorre em nível menor, e, ao ganhar esse nível, começa a disputar o troféu do nível imediatamente acima, afinal o campo social é sábio na hora de colocar os troféus, e persegui-los é um excelente antídoto na hora da depressão, mas palestra nenhuma faz isso sozinho, é preciso de jogo, jogador, troféu, reconhecimento de inscrição no jogo.

Haverá quem critique Bourdieu, dizendo que esse autor faz uma sociologia dos poderosos, afinal de contas o campo jurídico é fácil de visualizar suas posições e troféus, o jornalístico, publicitário, acadêmico também, mas e a copeira de um hotel ou o apanhador da bola do jogo de tênis a qual campo pertencem, quais troféus disputam e quais as regras de seu jogo? Daí se percebe que a sociologia de Bourdieu pode colocar muitas pessoas de fora por não disputarem jogo nem troféu algum. Um professor acadêmico de filosofia, por exemplo, pode disputar troféus diferentes daqueles típicos do campo acadêmico, como o troféu do campo de palestrantes, daí seus adversários passam a ser outros, não mais apenas os acadêmicos, mas também mágicos, ilusionistas, monges e cantores, todos eles com grande capacidade de entreter públicos típicos de palestra, daí sua competição permanece muito mais difícil, sobretudo para quem diz coisas que não são nada agradáveis de ouvir, mas trata de ser seu novo desafio, mudou-se de jogo, daí esse professor pode até tentar transferir seu capital do campo acadêmico para outro campo, mas logo descobre que quando diz ser professor o preço da palestra cai, então ele na verdade precisa esconder essa condição de disputa que ele realiza no outro campo, para somente daí poder jogar e não ter seu importância diminuída pela tarefa ridícula e legítima que trata de educar. A sociedade é o que é, os agentes jogadores são o que são, a situação de professor, salvo dois ou três lugares de reconhecimento, tratam-se de locais onde esse agente apanha em sala de aula, se vê agredido atacado e humilhado pelo salário que recebe, é preciso esconder que é professor para tentar jogar outro jogo menos indigente.

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