Iniciação à
Bourdieu. – Parte 2 – 3) O Campo Social. 3.9) a historicidade,
valor e a ética nos campos. 3.10) O campo social de Bourdieu versus o espaço
público de Habermas. 4) O Habitus e a estratégia. 4.1) A estratégia. 4.2) O
Habitus. 4.3) Dominantes e Dominados.
3) O Campo
Social.
3.9) a
historicidade, valor e a ética nos campos.
Dentro da
reflexão sobre o campo social do post 1, faltou esticar a ideia da ética.
Em um
primeiro momento, existe o filósofo Platão ensinando que o certo e o errado da
convivência dependem de idéias que transcendem a vida, portanto são idéias
absolutas, quer dizer, não são relativas a nada, portanto o que é justiça será da
mesma forma em qualquer tempo e espaço, seja durante cinco séculos antes de
Cristo como ainda hoje, seja no Brasil ou Japão, para burgueses e proletários,
perspectiva típica de um mundo ideal e sensível. Platão vai parir um discípulo,
Aristóteles, este, diferentemente, propõe que os problemas éticos do cotidiano
devem ser regidos por uma harmonia cósmica, trata de colocar-se em harmonia com
um universo. Assim perceptível está que, de um pensador para o outro, a
referencia baixou de degrau, porque o mundo das idéias platônico se caracteriza pelo fato de não depender dos
encontros materiais, pois ele transcende a matéria, por seu lado, o cosmos
grego aristótelico, espécie de mundo harmônico que convida os homens a se
harmonizarem com ele, é o próprio mundo da matéria, aqui a referência do certo
e errado trata de ser transcendente em relação ao homem, mas imanente em
relação ao mundo material, diferente de Platão, cuja referência trata de ser
imanente em relação tanto ao homem como ao mundo material, houve a descida de
um degrau, Aristóteles propõe uma referência ética mais próxima dos homens do
que uma definição de justiça a ser buscada.
Seguindo na
história temos o pensamento Cristão. De certa maneira o movimento cristão vai
propor a referência dos problemas éticos cotidianos na idéia de que a divindade
resguardou certa missão aos homens, assim oferecendo-lhes talentos e aptidões
para seu cumprimento, portanto, o Deus Cristão teria uma relação íntima com os
homens, e, no diálogo com sua divindade, encontra-se possível descobrir tal propósito,
para daí mobilizar os próprios talentos em busca do que ele espera de cada indivíduo.
Assim perceptível está que, se de Platão para Aristóteles foi descido um
degrau, no Nesse Deus volta-se a subir um degrau, até o momento que ele mandou
seu filho e, de certa maneira, Cristo tangibiliza um pouco essa referencia
ética de que os homens tanto precisam.
Na
modernidade a reflexão sobre o certo e o errado vai depender mais dos homens do
que dependeu em outros momentos.
Começando pelo
pragmatismo de Maquiavel ensinando que a ação é boa quando se alcança o que
deseja, em outras palavras, a ação vale em função de seu efeito produzido bom
ou mal para quem a produziu, assim, o que define o efeito em relação à ação
trata de uma circunstância externa ao mundo da vida, está fora da conduta
humana, portanto perceba que, de certa maneira, aqui se continua com uma
referencia que transcende a vida por depender dos efeitos eventuais, só
consegue viver bem quem consegue o que quer, portanto aquele que quer algo e
não a consegue não poderá dizer que viveu bem. Exemplo: um profissional da
política quer o poder, senão não é um profissional da política, então ele só
governa bem quando aumenta o poder que possui, quando perde o poder que possui
governa mal, e as outras pessoas contam como meio para ele, se a alegria delas contribui
para aumentar o poder do político, então boa ação será alegrá-las, caso contrário
não, isso porque o jogo da política é o jogo do poder, nesse raciocínio idéias
como o bem comum não tem nenhuma relevância a não ser como meio para aumentar o
poder, isso porque o que o profissional da política quer é aumentar o poder.
Discursando
que a boa ação ocorre quando se é alcançado certo fim desejado, naturalmente, o
outro será encarado como meio para a vitória, tal postulado produz um
desconforto enorme, assim surge o pensamento utilitarista de Bentham,
discursando que a ação será boa, não porque o seu sujeito ativo do ato se deu
bem, mas sim porque ela teve como efeito a felicidade do maior número de
pessoas, de novo, a felicidade do maior número não está na ação, mas sim está externo
ao ato, o critério continua transcendente. Esse preceito está ligado hoje em
dia ao que se chama responsabilidade social das empresas. O problema desse
critério é que a felicidade do maior número ninguém nunca descobriu do que se
trata.
Perceba:
mundo das idéias, cosmos, Deus, vitória de quem age e alegria do maior número
são referências externas ao agente, ligadas ao seu efeito, e que serviram, no
decorrer da história, enquanto parâmetro para saber se o sujeito da ação foi
eticamente correto ou não.
Até que
surge Kant postulando não ser possível afirmar a ação como boa ou não pelo seu
efeito que lhe é posterior, justamente porque tal efeito depende muito mais de
outras causas do que da ação em si, e nesse raciocínio o sujeito ativo terminaria
assumindo todas essas causas, de sua não autoria, sozinho. Não havendo ação, o
efeito aconteceria? Talvez não, mas não foi ela a única determinante daquele
resultado, ora, se a ação vale pelo seu efeito, quem a realizou tem que
responder por ela sozinho, não parece justo, afinal de contas tal ato foi uma
gota em um oceano de causas que permite, a quem age, o resultado que procurou,
mas ele não pode responder por ela sozinho, não há como julgar a ação pelo seu
efeito. Daí o pragmatismo maquiavélico é uma falácia. Isso sem falar que seus
efeitos não param, geram mais efeitos, que geram mais de seus pares até o
infinito e, portanto, não se tem como aferir a ação pelos efeitos por eles não
serem confiáveis, portanto a boa ação não pode depender do efeito, mas sim tem
que ligar-se à boa vontade, esse é o voluntarismo de Kant, aqui o importante
sim é o que o agente quer que aconteça com a sua ação, mas não o que ocorrido
efetivamente, e sim o que se gostaria que acontecesse. Aqui é importante
perceber que essa referencia, dentre todas as colocadas nessa exposição, é a
mais imanente ao agente que realiza o ato, pois boa ação depende de uma boa
vontade, ainda se o resultado da ação não ocorreu conforme o esperado tal
situação não é um problema de quem a efetivou, o efeito não é referência. Nesse
raciocínio Kant acha que tem razão, pois o que o agente quer que aconteça é a
única possível de ser controlada completamente, o efeito não se controla, sendo
isso que deve pautar uma ação.
Prosseguindo
na história, a partir do século XIX aparece a sociologia nos propondo que, no
lugar de tudo aquilo que foi ensinado, desde Platão à Kant, o certo e o errado
é uma decisão social, assim quando Durkheim fala sobre ética vai se dirigir a
ela enquanto um fato social, culturalmente explicável. Nesse raciocínio é a
sociedade a referência e instância legítima de definição a partir da qual se
torna possível identificar algum sujeito como agindo certo ou errado, daí sua
relatividade no espaço e no tempo, mudando o contexto social em questão as
noções éticas também seguem sua sorte. Assim, dirão os sociólogos, para
melhorar a competência na investigação dos processos de origem e decantação dos
valores, a sua genealogia, a partir de uma perspectiva sociológica, é preciso cortar
a sociedade de maneira a focar melhor onde aquele valor surgiu, assim, por
exemplo, para saber como um juiz deve proferir uma sentença não se deve perguntar
sobre ela em um hospital para quem é médico.
Assim para
uma investigação social é preciso identificar no meio de um universo social
gigantesco onde mais provavelmente os critérios de uma boa tese são discutidos
e definidos, trata-se da busca pela gênese dos valores que se está
investigando. Para responder a essas questões encontramos a conclusão do
materialismo histórico, propondo Marx que, para se saber o valor de certo
objeto, é preciso partir da premissa que suas aparições no mundo não se
explicam por elas mesmas, por exemplo, o valor de um artigo jornalístico, uma
sentença judicial ou uma obra de arte não se explicam por elas mesmas, pois, desde
Platão até aqui, precisam tais objetos de uma referência para ser explicadas, e
a referência em Marx, dentro do valor das coisas, é a infra-estrutura
econômica, em outras palavras, é a economia da sociedade, a produção de bens
materiais, o lugar privilegiado para achar os valores das coisas do mundo,
assim, por exemplo, para saber se o STF julga bem as lides que chegam até ele
ou se o ensino nas faculdades é de qualidade a resposta sempre estará na
produção de bens materiais. O que tem a produção de bens matéria a ver com tudo
isso? A resposta de Marx segue no sentido de que, na hora de produzir bens
materiais, dentro da sociedade, existirão dois grupos: a burguesia, dona dos
meios de produção, e o proletariado, vendendo seu trabalho para participar do
processo econômico, portanto a relação de conflito entre eles é o que explica o
valor de todas as coisas. A luta de classes é o motor da história e a base para
se entender o valor de todas as coisas, pois existe uma forma burguesa de
atribuir valor ao mundo e essa forma vai ser espargida, universalizada e
estendida para as zonas não burguesas da sociedade através dos meios de difusão
e imposição dos valores burgueses, a partir daí eles se tornarão universais,
como se fossem uma verdade absoluta indiscutível. Assim o que a classe
dominante diz ser belo acaba sendo assim graças à rede globo; o que diz ser um
corpo belo passa a ser belo graças às panicats e por aí em diante, a burguesia
tem seus espaços de consagração do bom e do ruim, têm ela o controle das
instancias sociais de divulgação e propagação do que é certo e errado, bom ou
ruim, portanto para se entender o que é bonito ou feio na sociedade, deve-se
entender de que maneira a burguesia oprime o proletariado.
O que
Bourdieu vai dizer?
Na hora de
estudar qualquer problema existencial no cotidiano é preciso de alguma
referência, para Bourdieu tal referência é a sociedade, mas uma alusão genericamente
à sociedade é muito ampla, quase que não estipula referência alguma, então esse
autor tenta encontrar um orbital, o lugar mais provável de explicação dos valores,
assim, em relação a Marx, Bourdieu dirá que dividir a sociedade entre burguesia
e proletariado é muito útil para entender muitos dos valores que os homens
respeitam, e completamente inútil para entender tantos outros valores, em
outras palavras, Marx está para o pensamento social contemporâneo como o pneu
para um veículo, assim a proposta de Bourdieu busca encontrar uma forma de
explicar melhor os valores que estão na sociedade pela sociedade, melhor que
dividir a sociedade apenas em burguesia e proletariado, afinal muito do que
acontece na sociedade não se deixa explicar pela luta de classes.
Aqui surge o
campo social de Bourdieu como referencia para entender os valores dominantes em
circulação dentro de um determinado espaço e tempo, em outras palavras, se o
problema for a tese, o campo é o acadêmico; se o problema for o filme, o campo
é o cinematográfico; se o problema for uma jogada do centroavante, o campo é o
futebolístico; se o problema é uma sentença judicial, o campo é o jurídico; se
o problema é a decisão de um empresário, o campo é o econômico; se o problema é
a estratégia eleitoral, o campo é o político.
Graças ao
conceito de campo social torna-se possível identificar o orbital dos fenômenos
sociais, quer dizer, onde mais provavelmente está acomodado o valor de certo
objeto. Portanto só é possível explicar a gênese dos valores sociais a partir
do campo social específico em que eles nascem, porque, por exemplo, fora do
campo social acadêmico o valor acadêmico não tem valor, daí um título de
livre-docente é um valor social, academicamente é uma hecatombe de valor social,
fora desse campo social não tem valor nenhum. Assim é o campo social o instrumento
sociológico, legítimo, de investigação da gênese dos valores sociais, do
surgimento do certo e do errado, justamente por ser nele que os valores têm
razão de ser, fora deles os valores são difusos e confusos.
3.10) O
campo social de Bourdieu versus o espaço público de Habermas.
Jurgen Habermas,
filósofo contemporâneo, estabelece o conceito de espaço público ou esfera
pública enquanto um espaço abstrato, local de possibilidade e necessidade que
os agentes sociais têm à disposição para se apresentarem, interagirem e
defenderem seus pontos de vista face aos outros, o que quer dizer defenderem
seus valores em aliança com uns e em contradição com outros. Segundo Habermas
esse espaço público democrático é a condição de emancipação da sociedade, isto
é, a condição para que o homem consiga trazer para si as rédeas da sociedade, no
sentido de uma definição para onde quer prosseguir. O espaço público, enquanto
espaço da exposição e apresentação dos agentes sociais em aparição pública, tornando
possível a eles conhecerem suas diferenças e semelhanças em relação aos outros,
de certa maneira, ajuda a humanidade a se conhecer melhor, portanto trata de um
espaço por excelência onde se decantará sejam os melhores argumentos, valores, pontos
de vista e ideias para aquele mundo e espaço, enfim o melhor caminho para ser
trilhado por aquele coletivo. Portanto esse é um espaço de enfrentamento, mas
com vistas a um pacto, consenso, em função de uma deliberação coletiva para onde
quer se chegar.
Por seu lado
Bourdieu trata ser um cientista social, estuda a sociedade como ela é
realmente, não tem a menor preocupação de dizer para onde ela tem que chegar, portanto,
quando Bourdieu estabelece o conceito de campo social, caracteriza-lhe enquanto
um espaço de poder, de luta e enfrentamento entre conservadores e subversivos, logo
um local onde há uma dominação, assim, quando Habermas propõe um espaço onde
todos vão, igualmente, apresentar seus argumentos, e por fim decidirem e estabelecerem
um acordo de qual é a melhor disposição para si, Bourdieu só pode dizer que não
consta nenhum espaço onde esse fato ocorre. Para Bourdieu, no espaço do campo
social, ocorre consenso quando um domina e o outro é dominado; um vence outro
perde; um manda e o outro obedece; um tem um ponto de vista que prepondera e o
outro que não prepondera, chamar isso de consenso tudo bem, mas o campo é um
espaço de dominação, poder, por seu lado, a solução de Habermas, afirmando um
espaço onde todos os agentes sociais se expõem para juntarem as mãos com
objetivo encontrar o melhor caminho comum, trata ser uma concepção fantasiosa.
Habermas curiosamente é um pensador humanista, muito bem intencionado, mas, no
mundo da vida e na sociedade, acontece que os valores decorrem de um processo
de dominação e imposição do interesse de uns sobre o de outros.
Habermas,
querendo que as pessoas participem e decidam mais dos debates mundanos, o que
considera fundamental para a democracia, propõe um espaço público como aquele
espaço legítimo de deliberação coletiva sobre os valores legítimos, os melhores
argumentos e ponto de vistas, com finalidade a uma humanidade melhor. Bourdieu,
analisando o mundo real, propõe o campo como certo espaço onde uns mandam e os
outros obedecem, uns preponderam e os outros sucumbem, e assim por diante. Cada
um deles quer uma coisa diferente, para Habermas as pessoas têm que participar
mais do debate, mesmo que certo argumento não prepondera no espaço, é preciso
aceitar que o outro argumento é melhor, daí se convence, assim o espaço público
é um local de convencimento fundamentalmente, para Bourdieu o campo é um espaço
truculento de dominação.
4) O Habitus
e a estratégia
4.1) A
estratégia.
Pertencendo
a um campo, jogando um jogo, muita coisa que certo jogador realiza, ele fará visando
troféus típicos do campo. Visando quer dizer articular meio e fins, ações que
passam pela mente humana e tem como conseqüência imaginada uma aproximação dos
troféus do campo social, o que também está ligado ao ganho de capital
específico deste campo, espécie de recurso que só tem validade naquele campo social
para obtenção daquele troféu. O capital acadêmico e o capital político são
incomparáveis, daí tanta irritação quando um profissional da política pretende
invadir a academia, mesmo quando ela é a Academia Brasileira de Letras, então o
Sarney é acadêmico, tal nomeação produz raiva por muitas razões, mais uma delas
é essa: existe uma suposição de que ele teria conseguido converter o imenso
capital político que é o dele em capital acadêmico, o que seria de uma heresia
inaceitável, afinal se ele escreve bem ou mal vai lá saber o que isso quer
dizer, mas o fato é que os capitais são de uma dramática especificidade, porque
eles só valem mesmo no orbital que lhe corresponde.
A estratégia
é isso: a articulação de meios, a disposição de capitais, para a aproximação
progressiva do troféu, ou se preferir, é a acumulação de capital para a
acumulação de mais capital; mobilização dos próprios recursos para dispor de
mais recursos, vontade de potência dirá Nietzsche, alegria que busca alegria,
tesão que busca o tesão, potência que busca potência e quer mais potência,
quando tudo isso é consciente e orquestrado pela consciência recebe o nome de
estratégia. Exemplo: um professor que quer mais prestígio acadêmico
visualiza-se onde está, seus pontos fortes, daí desenvolve um plano de ações,
como um título de livre-docente, para alcançar o que deseja.
Então os
campos são espaços em que os agentes sociais articulam meios e recursos para obter
troféus específicos, sendo conscientes disso. Assim todo campo social é um
espaço de estratégias. Ocorre que algumas dessas estratégias não são
aceitáveis. Portanto a especificidade do campo social também se dá na
interdição, assim é o campo social o espaço legítimo da definição da estratégia
inaceitável, onde será proclamado o que ali pode ou não ser feito para
conquista dos troféus.
Muitas vezes
uma estratégia equivalente em outro campo social é aceitável, mas no campo
social em questão é entendido como indigno, canalha ou até mesmo ilegal. Então
perceba trata de ser o campo social o espaço em que é encontrado o espaço
das estratégias legítimas, quer dizer, autorizadas, entendidas como nobres,
aceitáveis e as estratégias inaceitáveis e, claro, quando alguém adota uma
estratégia entendida pelo campo como inaceitável, pagará as conseqüências que o
próprio campo prevê para esse tipo de heresia, portanto entenda que
comportamentos equivalentes serão ofensas muito mais graves, dependendo do
campo social que um sujeito estiver. Exemplo: o sujeito no campo empresarial
que age imitando as condutas do fulano do lado pode ser aplaudido por este
campo social, já se ele tiver no campo acadêmico e realizar esse tipo de atitude
a chance de ser achincalhado é muito grande, perceba, o comportamento é muito
parecido, mas, dependendo do campo social que se adota, as conseqüências
sociais de índole ética são muito específicas, tal atitude é ainda mais
inaceitável no campo artístico caso o sujeito se aproprie de uma tela cuja
autoria não é própria. Daí plagiar pode ser louvável, aceitável, condenável,
inaceitável ou completamente reprovável, dependendo do lugar onde o ator social
estiver. Outro exemplo: imaginemos certo jogador de futebol atacante que
resolve imitar as pedaladas que o jogador Robinho realizou quando estava no
Brasil, e sua tentativa é exitosa terminando em um gol, essa pedalada é um obra
de arte, mas no campo futebolístico a imitação não tem nenhuma conseqüência
ética de transversão, mas em sendo uma tela de pintura ou música erudita
trata-se de um problema, já em se tratando de música popular o plágio é mais
tolerável, tudo dependendo de quem imita, afinal quando trata de ser o Rod
Steward que copia o Jorge Bem, embora seja um caso de plágio, como foi o
artista mais legítimo que copiou o menos, ele, de certa forma, chancela, com a
sua legitimidade, essa cópia.
4.2) O
Habitus
O certo e o
errado dependem muito das condições específicas do campo. Estratégia ocorre
quando o ator social age sabendo o que quer, trata do maquiavelismo aplicado
aos campos, a articulação de meios para alcançar certos fins, a parte
pragmática do campo.
Ocorre que
Bourdieu está para Maquiavel como o veículo está para seu pneu. Bourdieu dirá
que a ação social não tem na estratégia sua dimensão mais importante.
Para entender o comportamento de alguém na sociedade saiba: a parte
consciente e estratégica da sua ação não é o mais importante, relevante,
significativo e digno de ser estudado, porque a influência dos campos sociais
sobre esse comportamento em sociedade é muito mais significativa naquilo que
não é perceptível, nem articulado, ou seja, não passa pela consciência
individual e não se traduz em estratégia. A influência da sociedade sobre o
comportamento dos atores sociais cultiva a sua parte mais sofisticada,
requentada e fina, naquilo em que o sujeito não se dá conta, portanto, querer
reduzir a importância do pertencimento do campo às estratégias que o ator
social usa para alcançar o que deseja, implica em ignorar o principal da vida
social, ou da influencia decisiva da sociedade sobre o comportamento humano,
que se desdobra para além da consciência, da estratégia ou do dar conta de.
Assim, se a
estratégia é socialmente explicável, o que mais importa da vida em sociedade
não é estratégia, e não é estratégico porque não é consciente, portanto,
Bourdieu diria para Maquiavel que reduzir sua ética a uma questão estratégica (consegue
o que quer age bem, não consegue o que quer age mal) limitaria a vida social à
consciência, sendo que o seu ponto principal se dá sem consciência da gênese
social da vida.
A sociedade
instrui seus cidadãos a preferir e priorizar os fatos que envolvem a
consciência humana, colocando esses como os mais importantes, daí surgem
valores como aqueles onde cada indivíduo vale pelo que pensa, articula e define
estrategicamente, assim há muita resistência em aceitar o fato de que o mais
importante não é o que surge na consciência, mas o oceano daquilo que não passa
por ela, mas se manifesta nela o tempo inteiro.
Nessa etapa
chegamos ao conceito de habitus em Bourdieu. Habitus é um conjunto de
disposições para agir, socialmente explicáveis, construídas e incorporadas ao
ser que dispensam estratégia e consciência de quem age. Trata de esquemas de
classificação do mundo, disposições para agir, fazendo com que o sujeito aja
sem precisar pensar. Habitus ocorre quando se respeita as regras sociais sem
precisar pensar em respeitá-las; quando age de acordo sem precisar pensar para
agir de acordo; age de forma conveniente sem precisar ser estratégico para ser
conveniente; age a não destoar sem precisar pensar para não destoar, assim
passando até a impressão que o agente social tem mesmo sangue puro do campo
social, quando na verdade o que ele teve foi uma socialização própria, que quer
dizer convivência e pertencimento a universos próprios do campo social, sublimes,
legítimos. O agente social que convive nesses espaços, de tanto observar e
imitar aqueles que exercem funções dentro do campo social, termina por
exercê-las também, sem perceber, transmitindo assim a impressão que é uma
condição de estirpe, linhagem, genealogia, enfim ilusão naturalista, habitus
que faz o ator social agir sem precisar pensar. O habitus de classe é o mais
irritante, mas podemos imaginar a torcida Gaviões da Fiel chegando até o Pacaembu,
analisando como seus atores sociais interagem, percebe-se que nenhum deles
precisa pensar estrategicamente para ser um integrante daquela torcida, pois
trata de um saber prático incorporado, não há liberdade deliberativa, não há
consciência moral ou escolha, mas sim existe uma atualização vital de saberes
práticos, incorporados ao longo de uma trajetória.
Habitus
serve de contraponto com a tendência do senso comum de biologizar aquilo que é
desconhecido de onde vem, assim inserindo esse desconhecido na sociedade que o
sujeito freqüenta, nos espaços abstratos que ele mais convive. Outro exemplo é
o do professor que age com habitus acadêmico, ele não precisa ser estratégico
por ter sua docência incorporada em seu ser, não sendo decorrente de fatores
biológicos, mas uma incorporação curtida no campo acadêmico, um espaço onde
muito provavelmente ele se encontra, se relaciona, e a sociedade age sobre ele
definindo seu comportamento, assim, para entender suas atitudes, de nada
adianta conviver com traficantes ou atletas, mas sim trata de freqüentar o
campo acadêmico, pois ele convive nesse campo o tempo todo, isso faz dele um
acadêmico, não porque nasceu feito, mas sim por se converteu em tal,
socializando, interagindo, participando, convivendo, e, portanto, observando,
se exibindo, criando, gerando, instigando expectativas próprias, e assim, nesse
espaço específico de convivência que se aprende a viver como vive, agir como
age, dando aula o tempo inteiro, habitus de professor que dispensa qualquer
estratégia, maquinação, cálculo, a sociedade o fez assim. O campo jurídico é um
espaço socializador fantástico de habitus, comportando um jeito de ser, pensar,
se vestir, se posicionar, olhar o mundo e etc., ao falar alguns minutos com
certo agente social desse campo logo é perceptível tratar-se de um jurista, mas
ele não nasceu feito, com bunilamento e militância na área foi produzido como
tal, graças a um espaço da socialização perversa, corpo que incorporou regras, vítima
do campo. O campo jornalístico já não é tão bem estruturado como o jurídico,
contendo regras diferentes, seus troféus não têm muito a ver com um reconhecimento
externo, daí mesmo que o jornalista de televisão seja mais conhecido do grande
público, tal fato não significa consagração dentro deste campo social, assim
observemos o exemplo de Clóvis Rossi e Willian Bonner, observados fora do campo,
Clóvis Rossi é um desconhecido e Willian Bonner é muito conhecido, mas o
reconhecimento fora do campo não tem a ver com o reconhecimento dentro do
campo, a televisão carrega um estigma de vulgarização que contamina o capital
jornalístico cuja busca é de certa pureza e autonomia. Clóvis Rossi, dentro do
campo jornalístico tem muito capital específico, assim o habitus jornalístico
acaba se traduzindo em um jeito jornalístico de ser, tornado assim ao longo de
um rigoroso processo de socialização.
Para descobrir
o habitus de certo agente social não adianta simplesmente fazer-lhe perguntas prontas
em uma entrevista pessoal, mas é preciso analisar suas expressões depois de
muitas ações e tempo decorrido, até porque o habitus só é possível de ser
identificado quando da espontaneidade da ação inconsciente do agente, nas
entrelinhas, sendo que, nos primeiros atos, estará ele armado para se proteger.
Assim, por exemplo, descobre-se o habitus de um ator social sovado no campo
jornalístico, quando ele confessa em entrevista pessoal que, mesmo estando de
férias, não consegue se impedir de enxergar qualquer fato, que lhe chega aos
sentidos, sem a respectiva produção de título e foto enquanto notícia em um
jornal. Tal atitude lhe surge habitualmente, dispensa palco e estratégia,
porque foram notícias o que ele produziu sua vida inteira, daí não precisa
pensar para produzi-las. No momento em que esse jornalista mudar de campo
social ocorre como conseqüência a perda de sua base incorporada, pois, ao
modificar seu universo, ele terá que começar a pensar aquilo que antes não era
necessário, o que já difere do conceito de hábitus, ou seja, na hora em que o
indivíduo, sovado dentro de um campo social, desloca um pouco seu foco, o ineditismo
dessa situação obriga-o a pensar, o que lhe torna lento, paquiderme. Toda vez
que se tem que pensar para agir, o ator social não age por habitus e perde
contundência, não é à toa que Nietzsche afirma: “o que precisa ser demonstrado
não tem importância.”, o que é forte e contundente não é pensado, pois no
momento em que se tem que pensar para agir, o agente torna-se previsível, lento,
inoperante e estúpido. Nesse raciocínio o ator social não é responsável pelo
que faz, pois ele apenas carrega a síntese passiva de sua socialização, uma
espécie de trajetória própria que se manifesta em um instante privilegiado onde
todo o seu passado faz presente, e assim o agente faz sua apresentação sem
precisar pensar.
Portanto
sendo habitus a maneira do agente social agir sovado em algum campo social,
haverá tantos deles quantos forem os campos sociais possíveis de ser
considerados.
No post 1
foi falado que o campo é um espaço de distâncias sociais e que elas podem se
materializar em distâncias físicas autorizadas, decorrentes dos papéis sociais,
e esses papéis é que são de certa forma definidores da distancia física que o
ator social tem que ocupar para, por exemplo, uma conversa, daí certo agente não
precisa pensar para obedecer essas distâncias, habitus, que faz a distância se
efetivar entre, por exemplo, um professor e um aluno, sem que eles pensem em
realizar ou não distâncias. Aqui a idéia trata de admitir que o sujeito pouco
controla do seu comportamento, seu inconsciente lhe escraviza e com isso ele
pode se desculpabilizar um pouco de suas atitudes pretéritas. Assim as células orgânicas
do ator social não são células de natureza, mas sim educadas em um processo de
socialização, dentro de uma sociedade que não age apenas na parcela pensante do
ser como uma equação matemática, daí o corpo, seja alegrado ou entristecido,
não trata de ser virgem, casto, mas sim trata de um corpo curtido em uma trajetória
imensa de experiências, e que, portanto, tende a se alegrar e entristecer em
função do que já experimentou, viveu.
E, claro,
por exemplo, se um professor passa a maioria de seu tempo convivendo no meio
acadêmico, esse é o ambiente altamente propício para entender porque ele se
alegra com certas situações e se entristece com outras. Mais à frente falaremos
sobre o que Bourdieu chama de libido social, trata do tesão socialmente explicado,
um sujeito tem motivação ou desmotivação, fica feliz com certas coisas e outras
o entristecem, não porque nasceu com pureza de espírito, mas sim porque sua
trajetória foi moldando seu corpo de maneira a determinar nele tendências alegres
com certas experiências e tristes com outras, mas como ele não tem condições de
resgatar em sua consciência todas as causas e experiências sociais que
determinam seu corpo social, tenderá a achar que esses efeitos surgem do nada,
e afim de não pairar um vazio no ar, então afirmará que trata de uma questão de
liberdade e jeito de ser.
4.3)
Dominantes e dominados.
O campo tem
dominantes e dominados. O dominante está perto do troféu e o dominado está
longe dele. Assim para Bourdieu as pessoas não se equivalem no campo, já para
Habermas, que é um cristão tardio, os homens em união vão se dar as mãos,
seguir para o espaço público e deliberar coletivamente, todo mundo em igualdade
de condições para concluir para onde seguem seu rumo, em Bourdieu o campo não
trata de ser um espaço democrático, homogêneo, cristão, de igualdades, mas sim
um espaço de diferenças e de dominação.
O que pretende um dominante de um campo social?
Já ocupando a posição máxima dentro do campo social, o troféu deste espaço,
então pretende a conservação ou manutenção deste poder em sua posse, um
dominante será sempre conservador no campo social. Assim vai esse dominante
querer que o mundo acabe em barranco, da forma como se perpetua o mundo é a
melhor para seu conforto, daí sempre adotará estratégias conservatórias de sua
posição privilegiada dentro do campo. Quem não é dominante no campo, dominado
será, mas o que pretende esse? Não trata de conservar as situações do campo
social como elas estão, mas de subvertê-las. O senso comum tende a colocar os
partidários da direita como conservadores e os partidários de esquerda como
subversivos, mas é só posicionar os partidários de esquerda no poder que eles tornam-se
conservadores e os partidários de direita tornam-se subversivos.
Os
subversivos são em gigante maior número, por seu lado os conservadores são
pouquíssimos e sendo eles que amarram os subversivos. Por exemplo: no campo
acadêmico, quando o concorrente vai prestar prova para o mestrado tem como pré-requisito
de sua aprovação o estudo dos livros dos dominantes do campo, bibliografados
como em um edital, e essa tirania chega a certo ponto que o examinador alerta o
concorrente para que preste atenção na hora de escrever na sua folha de
resposta, exigindo dele que utilize unicamente a bibliografia da lista, daí, na
hipótese do concorrente utilizar-se de outros autores que não os constantes da
bibliografia, correrá ele o risco de sua avaliação ser reprovada de plano,
ocorre que esse autor, constante na bibliografia da lista, muitas vezes não
apenas é o dominante do campo acadêmico, mas trata ser o próprio examinador em
questão, aqui uma clara relação de poder e sujeição, aliás a bibliografia é o
maior instrumento de conservação de poder inerente do campo acadêmico, afinal
se o concorrente tem a obrigação de fazer a prova com base no próprio livro do
examinador, tal obra esse sabe mais que aquele, então assim ele mantém uma
posição de superioriodade em relação ao concorrente controlando tal
bibliografia, por seu lado, se o concorrente anota em prova um livro que ele
leu muitas vezes, o examinador pode nunca tê-lo lido, daí o concorrente pode
subverter as regras do campo, hipótese que o examinador vai resistir em permitir.
Assim é o dominante que define a bibliografia da avaliação, ditando assim as
regras do jogo, caso o concorrente queira se rebelar diante desses quesitos será
eliminado, afinal no campo acadêmico quem tem posição de ordem é o examinador,
não o concorrente. Na posição de concorrente esse candidato pode até afirmar
que quando assumir uma posição social superior à sua atual essa opressão não
mais ocorrerá, mas basta ele começar a ganhar visibilidade e crescer dentro do
campo, sair da condição de subversivo para a de dominante, tendo seu livro na
relação bibliográfica para o mestrado, o que acontece agora é que aquele
concorrente se tornou um dominante, e agora, tendo tal posição social ele se
torna um examinador, exigindo assim que todos os concorrentes a mestrado leiam
seu livro, ele que antes era um revolucionário se tornou agora arrogante,
breque de mão puxado, defensor de suas próprias linhas, tudo isso porque agora
ele é um dominante, não tem porque mudar, agora quer mais do mesmo, prestígio,
aplauso, e para isso deve achacar aqueles subversivos que desejam entrar no
campo, agora quem controla o troféu do jogo que disputa é ele.
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