Iniciação à Boudieu. – Parte 3 – 5)
Não há atos desinteressados. 6) A legitimidade. 6.1) Os Processos de
legitimação do poder. 6.2) A luta pelos processos simbólicos de legitimação do
poder. 6.3) A concordância nos campo sociais. 6.4) As alianças externas ao
campo social.
5) Não há atos desinteressados.
Bourdieu tinha uma obsessão de
estudar as ideias filosóficas a partir de uma lógica sociológica, em outras
palavras, os filósofos sempre tentaram blindar a história do pensamento
filosófico no sentido de torná-lo infenso a uma investigação sociológica da
filosofia, na verdade, a obra de Bourdieu “Meditações Pascalianas” retrata
exatamente essa tentativa de fazer uma sociologia da filosofia.
As ideias filosóficas em geral,
quando apresentadas pelos seus autores, são colocadas como sendo o mais fiel
produto de suas inteligências, investigações pessoais, inquietações, e, porque
não dizer, de sua busca da verdade pessoal. Partindo dessa premissa o
pensamento de qualquer filósofo pode ser estudado filosoficamente através de
seus textos, assim, na faculdade de filosofia, o professor apanha certo
parágrafo de uma obra filosófica e pede ao aluno para que o explique, interprete,
comente com suas palavras, porém, o aluno só está autorizado a falar sobre
aquele parágrafo internamente, academicamente se costuma chamar tal trabalho de
leitura estrutural do texto, em outras palavras, o aluno pode comentar tudo
sobre o texto, desde que a partir e dentro dele, tal estipulação é reveladora
de uma preocupação da filosofia em fazer acreditar, aos seus novos agentes
acadêmicos, que o pensamento filosófico deve ser interpretado por ele mesmo.
Ao propor uma sociologia da
filosofia, de imediato, é preciso considerar que não é possível entender o
trabalho dos filósofos sem antes entender o que eles queriam e quais seus
interesses com tal criação. Esses interesses são de todas as ordens. Trata-se
da investigação do tipo herética, porque, a contrário sensu, o objeto de exame
do estudante de filosofia costuma abarcar, exclusivamente, o conteúdo interno
contido em certa obra filosófica, respeitando assim os limites que são impostos
por uma interpretação intrínseca do texto, daí livre da abordagem extrínseca
acerca do que o filósofo buscava com seu trabalho, pois a resposta filosófica
óbvia afirma que o escritor buscava encontrar a verdade. A sociologia da
filosofia recusa tal resposta, assim alegando que todo mundo tem interesses na
hora de pensar, motivações que são pessoais, próprias daquele que pensa e
escreve.
Nesse raciocínio toda a
sociologia da filosofia é, de fato, uma genealogia, o que quer dizer, um estudo
da origem de certo pensamento a partir dos interesses daquele que agente lhe
pensou, afinal, verdade seja dita, essa representação surge na própria
filosofia com o pensamento de Nietzsche, não é por acaso que Bourdieu é muito
citado pelos escritores que falam de tal filósofo, pois ele entendeu tudo o que
certo agente produz, do ponto de vista intelectual, diretamente relacionado com
seu tesão pelas coisas, ou se preferir, à sua libido ou potência de agir. O
corpo busca a alegria do corpo e a alma a alegria da alma, diria Spinoza, portanto,
o pensamento, como toda e qualquer atividade humana, é vontade de potência que
busca mais potência, tesão que busca mais tesão, afinal ninguém pensa de
bobeira ou em nome da verdade, o que as pessoas buscam é a própria alegria. Dentro
dessa perspectiva que Bourdieu vai escrever um famosíssimo texto chamado “Não
há atos desinteressados”, a perspectiva é essa: para se entender o que uma
pessoa faz e pensa, deve antes ser entendido o que ela queria com aquilo. Bourdieu
e Nietzsche assim estão tentando dizer que todos os agentes sociais são
interessados, o que varia um pouco trata do que se quer com certa ação.
Quando Nietzsche sugere fazer a
genealogia do pensamento, Bourdieu parte daí e avança enormemente nessa ideia, deste
modo, o filósofo, quando pensa, deseja algo, e o estudante de seu pensamento
precisa entender qual esse desejo do pensador para entender porque ele pensa o
que pensa, mais ainda, não basta saber que o pensador deseja alguma
coisa, mas é preciso saber o que é desejado especificamente, tal necessidade
decorre da premissa a qual certo pensamento está diretamente ligado com determinada
pretensão do pensante. Assim a busca pelo desejo das pessoas é o objeto
mais importante de certo estudo para entender porque elas vivem como vivem e
pensam como pensam. O ponto diferencial de Bourdieu em relação a Nietzsche,
indo além dele, trata de mostrar que só é possível descobrir o que as
pessoas desejam, e assim edificar a genealogia verdadeira de seus pensamentos,
se for entendido que tal desejo é um fato social, produto ou definição social.
Os objetos de desejo não são realidades
individuais, mas tem o seu valor definido socialmente, nesse ponto fica óbvio
que para ser entendido porque, por exemplo, o banqueiro pensa como pensa é
preciso investigar, fazer uma sociologia do banco, da mesma forma com o
jornalista é preciso fazer uma sociologia do jornalismo, daí, para entender o porquê
um filósofo pensa à sua maneira é preciso fazer uma sociologia da filosofia, afinal,
é só usando essa metodologia que se torna possível descobrir o que ele quer
quando filosofa. Para fazer uma sociologia de um filosofo é preciso
identificar o espaço aonde ele transita, os agentes sociais que ele encontra,
combate e se afilia para combater, em outras palavras, é só através do
campo social filosófico que é possível identificar o que ele deseja, e conseguindo
identificar seu desejo específico, daí é possível identificar o porque ele diz
o que diz, daí, toda interpretação de um texto pelo texto ignora o que
importa, e o importante para atribuir sentido a um texto é o que está fora
dele, porque todo sentido ou significado, necessariamente, está fora daquilo
que se pretende significar, afinal quando é perguntado o sentido de certo
objeto, isso ocorre por não se estar à razão dele, afinal, em estando à sua
razão, não existe motivo da pergunta acerca de seu sentido, daí o significado
de certo objeto não necessariamente é o objeto, mas outra coisa, pois só se
significa um objeto com outro objeto, portanto, para ser entendido o sentido
daquele texto não é em seu bojo o local de busca, mas sim fora deste, inserido
em uma lógica de produção de sentido que é social.
Bourdieu afirma que só uma
sociologia séria acerca da produção filosófica permite dar conta da produção
filosófica como um todo. Nesse sentido o filósofo não tem condição de atribuir
sentido aos textos filosóficos justamente por lhe carecer os instrumentos
adequados para abordar a filosofia, aliás, Bourdieu acusa o matemático de não
saber o que é a matemática, estando o matemático dentro dela, assim como o
filósofo em relação à filosofia, de muito pouco avança nessa verdade, assim só
quem está de fora consegue enxergar o jogo e a lógica de produção de sentido
que o campo social permite encontrar.
No campo jurídico, quando é
pedido para o jurista atribuir sentido ao texto de certa sentença, o que ele
vai falar é mais do mesmo, daí girando em círculos, e ainda com poucos recursos,
pois o jurista costuma ter menos recursos do que o resto dos pensantes,
terminando em discursar mais obviedades evidentes, isso porque ele não dispõe
de instrumentos para olhar de fora, o que significa dizer: o jurista, estando
no interior do campo jurídico, não tem instrumentos para dotar-se de procedimentos
metodológicos de recuo, falando como Bachelard ou Foucault, e, portanto, analisar
o objeto dentro de uma perspectiva de significação possível, em outras palavras,
a interpretação legítima do texto filosófico não é realizável pelo filósofo,
como a do texto jurídico não o é pelo jurista, porque ele, de certa maneira, vai
tratar o texto jurídico como próprio do direito, o que é chamado de dogmática
jurídica; o filósofo, por seu lado, trata o texto filosófico como próprio da filosofia;
o matemático trata a matemática por ela mesma, e, na verdade, para ser
entendido o que aquele objeto significa é preciso utilizar-se de instrumentos
que não são matemáticos, jurídicos ou filosóficos, mas são instrumentos típicos
das ciências sociais. Assim quando cita o campo jurídico, enquanto um espaço
estruturado de posições, com dominantes e dominados, pretendentes, portas de
entrada como exames da OAB e concursos públicos, eixos de consagração que
permitem o posicionamento reflexivo de certos agentes sociais em relação a
outros, condições de legitimidade do prestígio de uma ou outra área do direito
em relação à outra, portanto do direito como um local privilegiado e específico
de distribuição de capital jurídico em seu interior, na verdade, Bourdieu está
dizendo que, para ser entendível a razão do Ministro Marco Aurélio Melo do STF votar
contra o partido DEM, não é juridicamente que tal procedimento é possível, mas
sim sociologicamente, daí não adianta ler tal voto para entender o que ele
queria, porque as ações tendem a muito mais esconder do que revelar as
verdadeiras intenções de quem age, razão pela qual não é, propriamente,
através do exame daquilo que foi feito que se faz compreensível o porque dessa
feição, da mesma maneira que não é possível entender porque o Ministro Joaquim
Barbosa discutiu com o Ministro Gilmar Mendes, aparentemente a discussão
envolve argumentos jurídicos, mas tal argumentação ali está para esconder as
verdadeiras razões daquele conflito, quem é capaz de descortinar as verdadeiras
razões daquele conflito trata ser o sociólogo, também quando se observa a
mídia paulista fazendo pouco caso do fato da mídia carioca ganhar um prêmio
internacional pela reportagem realizada em um dos morros do Rio de Janeiro,
aparentemente, trata ser um problema jornalístico, ocorre que é muito fácil de
se perceber, por detrás de um pretexto jornalístico está um conflito pelo jornalismo
legítimo, do que é ou não sensacionalismo, até que ponto é bom fazer um bom
jornalismo e por aí em diante.
Assim por detrás de uma luta
aparente de conceitos, e esse será jurídico, filosófico, jornalístico,
publicitário, existe sempre um interesse, uma luta real, esses que só são
identificáveis a partir de uma investigação sociológica, o que Bourdieu se
dispõe a fazer, por isso que Max Weber chama o sociólogo de o desencantador do
mundo, afinal, em oculto ao que é visto existe um invisível, exatamente o que
Platão já dizia, mas para ele o que está sendo observado é ilusório, para o
sociólogo também, mas, por detrás desse ilusório, existe a realidade das
verdades absolutas para Platão, já para o sociólogo existe a realidade,
digamos, dos interesses absolutos, as ambições pessoais que estão por detrás de
toda e qualquer articulação.
Ainda aqui poderiam perguntar
acerca de lutas humanitárias extraordinárias, como o caso daquelas de Gandhi,
Luther King, Madre Teresa de Calcutá, tais pessoas poderiam ser apresentadas
como exemplo de desinteresse, e evidentemente talvez elas sejam os melhores
exemplos de uma ação interessada, afinal de contas, toda vez onde alguém se
apresenta para lutar por certas causas não somente próprias, obvio que vai obter
um lucro social imediato, trata do ganho que alguém aufere por ser marcado
socialmente enquanto lutador de causas não apenas próprias, tal ligação, por si
só, do ponto de vista social, já é compensadora e valorizante. Ainda, como se
não bastasse o fato do indivíduo afirmar defender causas, aparentemente,
transcendentes em relação aos seus interesses mais comezinhos, tal atitude
integra uma identidade que ele cultiva com ganhos sociais evidentes, afinal de
contas, é muito útil para alguém ter certo comportamento de maneira alinhada
com aquilo que afirma ser, ou então com aquilo que os outros pensam ele ser.
Nesse sentido o sujeito se posiciona envolto em manifestações nobres, em grande
medida, para pertencer a coletivos defensores de causas nobres, conviver com
pessoas defensoras tais causas, ser tomado por elas, daí os ganhos são
evidentes, tudo simplesmente pelo fato de se definir enquanto alguém bacana.
Por outro lado, um indivíduo afirmando pensar somente em si, querendo se dar
bem, independente dos outros ficarem bem ou mal contanto que não atrapalhem
seus planos, ele disse a única verdade, mas é possível que outra pessoa saia de
perto ao receber tal informação, pois é de costume esperar receber palavras
bonitas do próximo, daquelas transcendam ao seu ganho imediato, afinal é dessa
forma que os agentes sociais costumam ser apresentados. E o mais curioso é que
o agente social, ao se vestir com essa carapuça discursiva, pode até acreditar
ser aquilo que alega e os outros também, daí até agindo para justificar uma
identidade, definição já consagrada individualmente e pelos outros, mas dizer que
tal conduta é desinteressada é uma idiotice espetacular.
Nesse sentido, Madre Teressa de
Calcutá trata ser uma estrategista cujo marketing pessoal é de marca maior, afinal
conseguiu convencer o mundo inteiro, talvez até ela tenha se convencido também,
não descartando a hipótese de ser uma cínica completa, no sentido de ser uma
pessoa boa. Não tem nada mais insuportável do que uma pessoa que é apresentável
como sendo boa, daí então os outros também concordam, a mídia e o mundo idem,
ela faz postura de boa, se veste como tal, vive em ambientes onde pessoas tidas
enquanto semelhantes frequentam, os doentes a classificam assim também, o
alinhamento espetacular, independente de seu ganho financeiro, um exemplo de
sucesso e glória internacional. A provocação típica de Bourdieu segue pela
ideia de ainda que um indivíduo não tenha véu na cabeça, não use cajado, faça
cara de penitente, ou coloque mão em lepra, seria ele inferior à Madre por quê?
É a situação das pessoas que buscam enganar o tempo inteiro, junta com a mídia,
outros enganadores, e ainda fazem acreditar que renunciaram suas vidas para
viver pelos outros, e o mais interessante, é capaz delas convencerem, não só a
si mesmas, como também na porta do paraíso, tamanha é a força da crença
coletiva que é possível ser levada de roldão. Assim o que parece ser acaba tido
como verdadeiro, isso porque a sociedade tem essa prerrogativa de convencer e
tornar óbvio aquilo que pode ser sempre investigável como uma ação interessada.
Nesse raciocínio poderia se
pensar que Bourdieu faz das pessoas seres asquerosos. Muito pelo contrário,
Bourdieu parte de premissas que colocam as pessoas no seu lugar, sendo o resto
um elemento fantasioso. Na perspectiva de Bourdieu o lugar do homem é o mesmo
de qualquer ente que vive: alguém preocupado com a própria potência, alegria e
tesão. No caso do homem qual é a sua diferença em relação a outros entes
viventes? Seu objeto de desejo é menos uma questão apenas de reprodução sexual,
sendo um pouco mais sofisticado, em outras palavras, títulos, troféu,
reconhecimentos, aplausos, pechas de inteligente e competente, que fazem dele,
digamos, entretido com objetos que aprendeu a perseguir por conta da sua
trajetória.
A história do homem é a
história do direcionamento da sua libido para troféus sociais que lhe estão
autorizados a serem perseguidos, tais atos são uma forma odiosa de
canalização energética, fazendo com que ele tenha de perseguir o que todo mundo
segue, porque, se de outro jeito for, não terá com quem conversar e, claro, ao
canalizar a própria energia para conseguir tais glórias, impede-se em perseguir
outras afeições mais relacionadas com suas próprias aptidões mais genuínas,
originais e naturais. É aqui que a sociedade trabalha, no sentido da obnubilação
do homem, levando-o considerar óbvia certa busca, onde vai trabalhar que nem um
servo, tendo outros em sua concorrência por glórias, jogando um jogo que só tem
sentido para si, quem olha de fora não entende. Assim a sociologia de Bourdieu
não é depreciativa do homem, pelo contrário, ela busca uma redenção,
libertação, abrir os olhos para o homem não se ver pilhado por esquemas que lhe
constragirão a gastar toda sua energia com coisas que a sociedade apresentou
como sendo valiosas em si.
6) A legitimidade.
Nesse momento o conceito de
legitimidade fica muito mais acessível, afinal não é possível entender Bourdieu
sem essa noção. No estudo dos campos sociais, no post 1, foi dito que, por
exemplo, dentro do campo acadêmico a Marilena Chaui tem muito capital social,
e, sendo o campo social um espaço de distribuição extremamente desigual e
heterogêneo desse capital, haverá milhares de professores de filosofia que
estão autorizados somente a aplaudir a Marilena Chaui ou comprar seus livros, tudo
porque o campo acadêmico cuida de um espaço social impressionante de capital
acadêmico. Entendendo capital social acadêmico enquanto reconhecimento e
prestígio dos pares para os jogadores que se tornam pouco a pouco dominantes
dentro daquele espaço, surge a pergunta: como essa estrutura se sustenta?
Ainda, considerando a tendência dos
dominantes em adotar estratégias de conservação do campo social, e dos
dominados em adotar estratégias de subversão daquele, sendo os dominados
subversivos muito mais numerosos do que os dominantes não subversivos, surge uma
segunda pergunta: Como não há uma subversão por segundo?
A resposta: Na medida em que os
jogadores vão obtendo condições de subverter o campo social, concomitantemente,
vão perdendo o interesse em fazê-lo. Só há interesse em subverter o campo
social por parte de quem não tem condição para tanto, em outras palavras, quem
não sustenta capital social mantém todo o interesse em redefinir as condições
de distribuição deste capital, porém, a partir do momento que o jogador passa a
possuí-lo, na mesma medida, perderá o interesse em mudar as condições de sua
distribuição. Como no exemplo do campo acadêmico: o sujeito quer prestar
mestrado, para isso deve, contrariamente à sua vontade, estudar uma
bibliografia já definida pelos dominantes do campo acadêmico, ele questiona
essa bibliografia, então almeja subverter as regras deste espaço, porém, a
partir do momento que esse sujeito vai acumulando capital, pouco a pouco, ganha
condições de impor suas regras, e, assim, perdendo o interesse de mudá-las, até
se tornar um dominante desse campo social, momento em que seu interesse em
subverter as regras do espaço se perde completamente. Tal situação garante aos
espaços sociais uma extraordinária estabilidade.
Bourdieu dizia que a sociologia
sempre foi preocupada com as mudanças, já ele era o sociólogo das permanências.
É fácil constatar que, desde há muito tempo, os dominantes do campo jurídico
são os mesmos sujeitos, nos mesmos escritórios, de maneira idêntica no campo
jornalístico, em outras palavras, a afirmação da pós-modernidade enquanto um
espaço onde tudo muda em uma velocidade espantosa está sendo questionada,
afinal, aparentemente tudo muda, mas, na análise dos espaços de poder dos
campos sociais, fica perceptível, não só a ausência de mudanças, mas certa conservação
e estabilidade, tudo porque quem pode subverter não subverte, e quem quer
subverter não tem meios para tal ação.
Nesse ponto o conceito de
legitimidade aparece. Bourdieu está convicto que, se um agente social é
dominado, isso ocorre por ele perceber, na sua condição, alguma vantagem ou
benefício. A sociedade não suportaria caso todos os dominados considerassem
suas posições insuportáveis, exatamente porque tal situação não acontece que os
campos sociais apresentam notável estabilidade. Mas porque o dominado percebe,
na sua condição de dominado, algo que lhe é benéfico ou vantajoso, já que está
sendo objeto de uma dominação? Isso ocorre porque toda trajetória social está
revestida em expectativas de acúmulo de capital social, esses que o jogador
dominado segue aprendendo projetar dentro do campo social, para assim
vislumbrar o alcance de troféus intermediários, ganhos de pequeno porte, degraus
que, acumulados, permitirão alcançar um ponto mais elevado. Assim, estando na
pior posição possível de certo campo social, a conquista de uma posição melhor deve
surgir para o jogador enquanto sua grande vitória pessoal, seu objeto de
ambição. Nessa perspectiva, o campo será tão melhor estruturado quanto mais
conseguir que todos seus agentes sociais vislumbrem a possibilidade de um
ganho, em médio prazo, através de suas atividades, ou seja, um campo social,
para bem funcionar, precisa fazer todos os seus agentes sociais acreditarem ser
possível conquistar troféus em seu interior. Não basta ter a ilusio do
valor do troféu, mas é preciso ter a ilusio da possibilidade de alcançá-lo, daí
a necessidade de fazer com que todos os seus agentes sintam essa condição,
claro que ela não será óbvia e remota, mas deve existir essa possibilidade,
sendo tal requisito o que torna a dominação aceitável.
A legitimidade, em Bourdieu,
trata ser um atributo do exercício de um poder. Nessa ideia, o poder é que é
legítimo, porém existem alguns poderes não possuidores de legitimidade, assim só
será legítimo tal o poder que estiver sendo exercido por alguém entendido enquanto
autorizado para exercê-lo. Quando alguém é entendido nesses termos? Quando ele
ocupa uma posição social que lhe autoriza seu exercício, em outras palavras, só
é possível entender o porquê as relações de poder e dominações favorecem uma
sociedade com grande nível de estabilidade, se antes forem compreendidos os
processos de definição das posições sociais e sua autorização por esse ou
aquele agente jogador de certo jogo. Nesse sentido, um poder será
legítimo quando reconhecido por outrem, portanto, quem confere legitimidade ao
exercício do poder é o dominado, o outro, o par, ou seja, aquele que reconhece
e autoriza, e assim se submete a ele.
6.1) Os Processos de legitimação
do poder.
Porque o poder legítimo não é
substância nas mãos de quem o exerce, mas reconhecimento outorgado por quem a
ele se submete, então, é claro, ele não surge de qualquer maneira, por isso
que, em contrapartida, existem poderes não legítimos e processos de legitimação
do poder, conforme passamos a analisar agora.
Não é legítimo o poder na
medida em que ele não é aceito como autorizado, ou seja, quando quem o exerce
não é entendido enquanto autorizado para seu exercício, isso acontece quando
esse alguém não ocupa uma posição de direito dentro da lógica do jogo do campo
social, por parte dos outros jogadores. Assim, para uma situação de fato,
que autoriza um poder, ser transformada em poder legítimo dentro do campo
social, portanto uma posição de direto dentro do jogo, deverá ela esconder a
arbitrária gênese da sua condição por intermédio de um instrumento regulador,
mas, contando que, tal regulação, consiga tornar o exercício desse poder
aceitável por parte dos outros jogadores. Exemplo: a família X ganha 200
mil reais por mês (situação de fato), ela matricula seu filho no melhor colégio
da cidade (situação de fato), ele estuda ali até o ensino médio (situação de
fato), de lá segue em sentido à Londres, nessa cidade estuda na London School
of Economics (situação de fato). Para esses filhos exercerem um poder legítimo
no campo social, não seria aceitável pelos jogadores do campo, um discurso
oficial afirmando que tal posse ocorre simplesmente pelo fato de ter sido
desembolsado maior investimento financeiro em determinados agentes sociais, de
forma alguma tal discurso é aceitável. Com objetivo de converter uma situação
de domínio fático em poder legítimo no campo social, surgem instrumentos regulatórios
da legitimidade de certo poder, como, por exemplo, um processo seletivo, e, por
meio dele, o sujeito formado na London School of Economics estará aceito para iniciar
sua trajetória no campo social com um salário mensal de 50 mil reais por mês. Assim
as situações de fato, em algum momento, foram convertidas em uma situação de
direito, e o poder que esse indivíduo vai exercer jamais será ancorado na
situação de fato, mas de direito. Nesse raciocínio é estabelecido um
processo seletivo, ali concorre o sujeito formado em Londres e outro vindo do
orfanato, formado em Ribeirão Preto, em tal disputa não será afirmado que o
sujeito mais rico será o vencedor por esses critérios, mas são impostos
instrumentos, critérios de legitimação, e, por meio deles, o mais rico será
declarado vencedor, assim uma situação de fato se torna de direito e ninguém
mais pode reclamar. O mais curioso é que, pelo fato do derrotado não ter
acesso a todo o caminho, ele vai pensar que foi uma concorrência justa por isso
perdeu, e assim, espontaneamente, assina embaixo a virtude do processo
seletivo, conferindo assim legitimidade ao exercício de poder por parte do
filho da família X. Na verdade o processo seletivo foi feito com o objetivo
de maquiar o arbitrário do exercício do poder, então, no lugar de ser colocada
uma situação fática enquanto justificadora de um exercício do poder, é criado
um mecanismo que torne tal situação socialmente aceitável por todos aqueles que
de suas condições se subordinam, porque lhes será discursado que foram dadas
iguais condições e ganhou o melhor, os outros foram piores.
Portanto todo poder legítimo
só é assim, pois, em algum momento, foram escondidas suas condições materiais
que, de fato, proporcionam aquele exercício de poder, por condições jurídica e
socialmente aceitáveis, e que conferem aparente equidade e lisura do processo, oferecendo
assim condições do exercício de um poder tolerável por todos. O processo é
maquinado na medida em que estabelece um discurso afirmando, em sua estrutura,
certa igualdade de condições dos candidatos, sendo seus vencedores tidos como aqueles
que apresentaram méritos, houve ali um esquema de legitimação com objetivo
de esconder o arbitrário, presente no início da seleção: o fato de estar
incluso, nos critérios de legitimação, certo interesse de grupos poderosos com
muito poder financeiro, apoio das empresas e, paralelamente, a existência de
outros concorrentes com poucos recursos. Tal fato é escondido com uma
aparente equidade do processo, assim é perceptível a existência de instâncias
na sociedade que tem o papel de legitimar, quer dizer, tornar toleráveis
situações fáticas injustas, sendo o direito o responsável por essa maquinação. Nesse
momento é possível entender que, embora o rico não deva mandar no pobre, sua
dominação não ocorre nesses termos, pois, para assim ocorrer, existe a armação
de um esquema onde o rico ganha e o pobre perde, em um contexto aparentemente
justo para que a dominação pareça aceitável tanto ao dominador como ao
dominado.
A legitimidade cuida dos
processos que permitem o dominado exercer seu poder sem que precise haver uma
violência física para tanto, pois estabelece situações onde todos os jogadores
concordam com seus termos. No momento em que é montado um esquema onde, por
exemplo, as condições para o exercício profissional tornam a maternidade muito
mais complicada, também fica estabelecido o lugar da mulher fora do mercado,
daí caso ela queira ingressar ali, necessária é sua renuncia em parir. Assim um tem que dominar e o outro ser
dominado, não porque a situação de fato impõe, mas sim porque há uma situação
de direito que regulariza, legitima, portanto, esconde a verdadeira situação de
fato. Nesse patamar perceptível fica que o mecanismo legitimatório do
exercício de um poder é, assim, um processo simbólico, tipicamente social, fazendo
com que o reino animal da força bruta permaneça socialmente aceitável e
entendido como justo nas relações de poder. Nesse sentido, o discurso não
confirma haver dominantes e dominados por motivo de uma relação material que
lhes autoriza, mas justifica essa dominação pela definição de um fator,
socialmente reconhecido por todos, que coloca um em posição de superioridade em
relação a outros, por isso, de certa maneira, o dominado é o primeiro a
chancelar essa situação, afinal será ele o primeiro a aceitar as condições
sociais de legitimação do exercício do poder.
6.2) A luta pelos processos simbólicos
de legitimação.
Ocorre que nem sempre essa
chancela do dominado se aperfeiçoa de maneira fácil, afinal é possível que ele
não aceite essa dominação. Exemplo: uma universidade pública oferece cursos
gratuitos e de qualidade, mas não comporta estrutura física para todos os
interessados em acompanhar tais cursos, por isso estabelece um exame de
vestibular, perceba, não há um discurso de que os filhos de família rica
estudaram nas mais conceituadas escolas daí terão mais chance de aprovação, ou
ainda sobre as condições materiais que de fato selecionam, pois ele seria odioso,
daí o motivo da existência do vestibular estabelecendo uma situação de aparente
equidade, assim legitimando o ingresso de alguns nos cursos. Alguém pode
afirmar que esse processo não é justo, afinal de contas os concorrentes não têm
recursos iguais para se preparar. Assim as instâncias de legitimação do poder
também são objeto de luta, não sendo aceitas de uma vez por todas, em outras
palavras, sempre haverá luta pelas
condições materiais de legitimação de exercícios de um poder de fato, ou seja, aqueles
que por ventura não tem condição de exercer o poder tem a possibilidade de
questionar os processos legitimadores, denunciando assim o arbitrário que está
sendo escondido por detrás deles.
O arbitrário é o homem mandar na
mulher, o branco no negro, o rico no pobre, são seus exemplos, ele que é
escondido por processos de legitimação, mas sempre alguém poderá denunciar tais
processos como sendo tratantes e falseadores da disputa propriamente. Então, na
verdade, os processos de legitimação são alvo de disputa propriamente, objeto
de luta. De certa maneira então poderíamos dizer que exista uma luta pelos
símbolos, o que quer dizer, uma luta pelos sentidos sociais, pelos significados
das instituições, pelo que as coisas querem dizer.
A verdadeira luta social trata
da luta pelos processos simbólicos de legitimação e consagração de uns em
detrimento de outros. Exemplo: O que está por detrás dessa questão dos
vestibulares nas universidades públicas, trata da definição do que é universidade
pública, seria aquela que ingressa todo mundo? Seria uma universidade que deve
cobrar mensalidade? Existe uma luta pelo entendimento, sentido e significado
das coisas, porque quando certo agente social convence da razão de seu
significado, imediatamente impõe os processos de legitimação que lhe garantem
dominação. Assim, no momento em que o ator social consegue definir o que é
universidade pública e convencer todo mundo que tem razão, óbvio que o processo
de entrada em uma universidade pública terá de estar alinhado com o
entendimento maior do que ela é, portanto perceba, a luta social não abrange
chutes e pontapés, mas trata de uma luta pelo sentido das coisas, pelo que elas
querem dizer.
Quando Bourdieu diz que a
verdadeira luta social ocorre pelo que as coisas querem significar, fica fácil
de compreender que os jogadores sociais estão desigualmente preparados para
essa disputa, em outras palavras, se a luta é ideológica, pelo sentido das
palavras, ela fica reservada a dois ou três, isso porque existe uma imensa leva
de gente, não apenas carente de competência objetiva para participar dessa luta,
como estão convencidos de suas carências, portanto lhes assiste uma incompetência
objetiva e subjetiva, a isso Bourdieu chama de desposse. Essas pessoas são
despossuídas das condições de participação e argumentação no jogo, portanto se
lhes for perguntado sobre, por exemplo, política, a resposta vai ser
transferida para outrem, tal atitude é uma forma de manifestar que não joga o
jogo por falta de recursos para tanto. Então perceba, a dominação passa por
uma luta que a grande maioria perde por WO, devido à sua falta de condição de
participação, e quando se convida para que as pessoas participem do debate,
à moda de Habermas, falta só o resto.
Assim existem dois grandes
pensadores na idade contemporânea, Habermas e Bourdieu, e um discorda do outro.
Habermas estabelece o espaço público como um local legítimo de discussão para
deliberações coletivas, e o objetivo de toda sociedade é a sua emancipação,
quer dizer, tomar conta de si mesma, para que a sociedade consiga esse fim
precisa do espaço público, em outras palavras, o espaço público surge ao mesmo
tempo enquanto meio e fim, isso que esse filósofo chama de círculo virtuoso, afinal,
para ele, é debatendo que se consegue melhorar o debate, melhorando o debate se
consegue emancipar, emancipando será possível debater cada vez mais. A vitória de
Bourdieu sobre Habermas consiste em afirmar que para ser implantado um espaço
público onde todas as pessoas consigam debater, imprescindível que todas elas
tivessem munidas de: (1) condição de debater; (2) motivação para debater. No
final são dois lados da mesma moeda, afinal as pessoas não querem debater
porque não sabem fazê-lo, e não sabem por que nunca debatem, estão despreparadas
para isso, além do mais inexiste uma escolaridade que prepare para tal, nem a
de elite. Nessa etapa Bourdieu denuncia que o exercício do poder se dá por
falta de resistência, porque existe um despreparo importantíssimo para que o
debate sobre as condições de legitimação do poder fosse de tal maneira que
efetivamente questionasse os processos de legitimação do poder.
6.3) A concordância nos campo
sociais.
Assim os processos de legitimação,
de certa forma, são respeitadores das particularidades de cada campo social, em
outras palavras, aquilo que legitima no campo acadêmico, não o faz no campo
jurídico, sendo diferente também no jornalístico, e assim por diante. Nesse
sentido os critérios de distribuição de capital específico nos campos
sociais, de certa maneira, são devedores das condições particulares de legitimação
e consagração específicas a cada campo, frase clássica de Bourdieu. Isso
quer dizer, para alguém se converter em um dominante de certo campo social não há
regras genéricas, mas sim há campos
sociais e suas respectivas histórias particulares, sendo, por seu desdobrar
temporal, que tais espaços impõem meios de consagração, daí suas instâncias de
legitimação não estão lá desde sempre, por conseguinte elas são o produto da
história social do campo. Exemplo: dentro do campo jurídico temos o STF, e
ele é a corte suprema do Brasil, mas a
sua história é claramente dividida em duas, antes da Constituição federal de
1988 o STF de quase nada valia em comparação ao que vale hoje, porque, de certa
maneira, a nova constituição consagrou diferentes mecanismos de consagração
jurídica e entre eles essa corte específica.
Nesse momento estamos no coração
daquilo que Bourdieu chama de estruturante estruturado, o dialético por excelência,
quer dizer, da mesma maneira que as instâncias de legitimação de poder
estruturam as relações do campo social, estipulando quem é dominante e
dominado, quem tem mais e menos capital e assim por diante, também, essas
relações do campo social estruturam aquelas instâncias de legitimação de poder
que não são para sempre, mas estão à mercê dos fatos ocorridos no campo social,
então, por exemplo: A determina B, B determina A, falando do exame da OAB, houve época que esse
exame era uma falácia, portanto acontecia que o ingresso no campo jurídico
estava facultado a qualquer estudante de direito. Quando isso acontece o
próprio campo cuida de colocar sua porta de entrada em outro lugar, porque quando
não tem para todo mundo em lugar nenhum, isso quer dizer, os troféus são poucos
e os competidores são muitos, ao abrir a porta de entrada de um lado, em outro
lugar ela precisa ser fechada sob o risco de comprometer o jogo. No caso das
faculdades argentinas é possível a todos que ingressem em seus cursos no
primeiro ano, porém só passam para o segundo ano 5% daqueles que entraram,
então embora tenha se tirado a porta de entrada que é o vestibular, ela não
desaparece, apenas foi colocada mais à frente, em outras palavras, cada campo
tem suas formas de seletividades, e elas são formas de legitimação do poder.
Prosseguindo no raciocínio, à
medida que o campo consagra formas de legitimação do poder também são
consagrados atributos a serem legitimados, por exemplo, na faculdade de
administração existem objetos como curso de liderança, tanto na faculdade, em
empresas, palestrantes que oferecem tais cursos e vende muito bem, então
parte-se da premissa de que todo líder tem certo número de atributos, portanto,
é preciso fazer com que uma pessoa tenha tais atributos porque na hora que tivê-los
será líder, só faltou explicar que tais atributos são movediços e estão ao
sabor da lógica do campo, assim o que era tido como notável ontem, pode ser
imprestável hoje, assim se o agente social preparou-se para ser líder ontem,
hoje é patético, porque na lógica do campo ser líder consiste em exercer o
poder legitimamente, com o reconhecimento do dominado. Outro exemplo, Marilena
Chaui é líder, embora não tenha um único atributo para ser líder no campo de
administração, nem inglês sabe falar.
Dependendo do campo social que um
agente estiver inserido os atributos para sua dominação serão uns ou outros,
além do mais, dependendo do momento histórico deste campo social tais atributos
também são diferentes, em outras palavras, certo atributo pessoal, tanto poderá
ser condição de exercício legítimo do poder, como completamente ilegítimo para
tal exercício, dependendo da história e geografia da sociedade, de onde o
agente social está e em qual momento, os predicados mudam dentro do mesmo
campo. A liderança é um fato social e, como tal, não pode prescindir da
investigação sociológica sobre a sua condição, porque os bons atributos que um
líder precisa possuir são aqueles que a sociedade, naquele momento, julgar como
tais. Assim, em um determinado momento histórico, a Alemanha, um dos países de
maior competência em formação educacional, consagrou Hittler enquanto seu líder
supremo, e consagraria outra vez, mas que atributos ele possuiu? Basta deixá-lo
começar a falar, seus discursos são militares truculentos, de agressividade,
destruição e invasão do outro. Dependendo da época e do lugar o líder terá uns
atributos e não outros, às vezes opostos entre si, assim um programa de liderança
só pode ser uma investigação social das condições da legitimidade do poder.
Sendo assim, se a legitimidade
tem a ver com reconhecimento, é muito interessante perceber que ela pode se
capilarizar pela sociedade, isso quer dizer: existe legitimidade possível toda
vez que houver relações de poder, então, é claro que tais relações poderão estar
situadas no Estado e na mídia, como também fora deles propriamente, daí, por
exemplo, o fenômeno da legitimidade política é visível com os holofotes da
mídia justamente porque ela participa das condições simbólicas de consagração
do mandatário, tomadas de posse e etc, nesse sentido, todo cortejo simbólico do
campo político, absolutamente enfatizado pela mídia, são partes fundamentais do
processo de legitimação daquele mandatário, mas existem situações sociais, a
imensa maioria delas, em que existem exercícios de poder, legitimidade,
reconhecimento e recursos simbólicos muito menos sofisticados, visíveis e
óbvios de identificação.
De certa maneira, Bourdieu vai
dizer que os processos de dominação serão tanto mais eficazes quanto mais
naturalmente eles fizerem ignorar a perspectiva arbitrária que lhes fundamenta,
é daí que surgem mecanismos ostensivos de legitimação simbólica. Nessa fase
do estudo Bourdieu ensina que os processos de dominação mais eficazes são
aqueles onde mais naturalmente existe uma aceitação do exercício do poder, em
outras palavras, são aqueles que mais dispensam a ostentação da ruptura
simbólica em nome de uma aceitação tácita do exercício do poder. Os processos
de eficiência máxima de legitimação do poder pressupõem a conversão do
reconhecimento da dominação em forma de habitus, em outras palavras, toda
vez que alguém tiver de questionar o porquê certo agente social estar mandando,
e toda vez que quem manda tiver de demonstrar a justeza da sua dominação, suas
atitudes revelam situação de fragilidade desse domínio, podendo estar por um
fio de cair, porque os processos de dominação mais eficazes são aqueles em que
o dominante não precisa dizer nada, se faz discreto, e o dominado não precisa
de nenhuma trombeta ou palavra para reconhecer a posição social ocupada por ele.
Este processo de dominação advém
de uma socialização compartilhada de esquemas e disposições de pensar, agir e
sentir que são compartilhados, portanto, surge de um processo de aceitação
recíproca que escapa completamente a um cálculo custo benefício consciente. Quanto
mais o dominante tiver de demonstrar que tem o direito de dominar menos
legítima é sua dominação e seu direito de falar. Quanto mais for óbvia e
evidente a autoridade para exercer o poder, mais legítimo é o poder, menos
retumbante será o recurso simbólico para assegurá-lo, porque a legitimidade,
estando a ver com o reconhecimento do dominado, esse reconhecimento será tanto
mais eficaz quanto menos percebido ele for. Quando ele é menos percebido? Quando
inconsciente, ele é tácito, óbvio, está na esfera do socialmente encarnado.
Nesse ponto a legitimação nada
mais é do que uma grande concordância entre dominantes e dominados, o que
Bourdieu chama de grande concordância. Não trata de alguém dizer e o outro
concordar com o que foi dito, mas sim de concordância nas maneiras de pensar,
como também sentir, agir, se portar, em outras palavras, Bourdieu está
convencido que o exercício legítimo do poder pressupõe um processo de
legitimação que contamina dominantes e dominados em um mesmo habitus, jeito de
ser, se portar, isso dispensa de longe demonstrações enfadonhas sobre porque um
domina e o outro é dominado.
Dirá Bourdieu, toda vez que a
legitimação passar para a esfera da demonstração ela está em vias de ser
questionada e subvertida, portanto todo o processo de dominação dispensa,
completamente, toda justificação do exercício do poder. Um sujeito vive situações
sociais onde julga ter feito agido mal, cometido uma heresia, portanto sente-se
incomodado por ter tomado alguma atitude, esse incômodo nada mais é do que um
erro de comportamento social, pois, se a socialização tivesse sido mais
perfeita, o alinhamento entre a expectativa social do comportamento e o
comportamento estariam mais bem harmonizados, como uma orquestra sem maestro. Devido
ao fato das socializações não serem perfeitas existe a possibilidade do erro, e
ela será tanto maior quanto menor for a naturalidade da inscrição do agente
social naquele universo, quer dizer, quanto mais novato um agente social for,
menos habituado estará frente ao comportamento social daquele universo, assim o
debutante, o calouro, o recém ingressado no campo social é feito enquanto
idiota, por faltar a ele o senso prático, isto é, a competência para agir de
maneira alinhada com as expectativas sociais sem precisar pensar, aquele que
precisa pensar pode até acertar na hora de agir, mas é lento, paquiderme, “esquerdo”.
Um discurso da superioridade do vinho em relação à Coca-cola, ele coloca ambas
essas bebidas com um valor imanente, seja pela uva do vinho ou pela garrafa de
conservação da coca-cola e etc., como em Bourdieu não existe valor imanente,
dirá esse pensador que o fato de alguém tomar vinho ou coca-cola só pode ser
valorado socialmente, portanto quem estabelece melhor valor ao vinho o faz por
conta de tudo que ele significa, assim, claro que essa é uma luta por símbolos,
pelo que quer dizer, daí as pessoas tomam vinho para se posicionar
estrategicamente na sociedade, assim não basta deixar com que cada pessoa beba
o que quiser, isso porque existe uma luta social pela definição dos hábitos
legítimos, pela imposição de uma cultura por outra e cada agente social é o
representante social de sua história, essa que ele pode estar disposto a abrir
mão ou não.
6.4) As alianças externas ao
campo social.
Luta pelos símbolos, pelo valor
das coisas, pelos sentidos e significados. O tempo inteiro luta! É claro que
nessa luta cada um vai querer fazer da sua história a legítima, e para isso o
jogador social tem que deslegitimar tudo que não está relacionado a ele.
Os espaços de consagração e legitimação
social, sendo internos aos campos sociais, são dependentes de hábitos
adquiridos dentro desse campo, mas eles também contam com alianças fora dos
campos, Bourdieu chama isso de homologia. Imaginemos o campo A e B, ambos tendo
dominantes e dominados daí presentes estão especificidades de cada um desses
campos, mas existe uma iniciativa muito salutar que é a de fazer com campos
externos certas alianças estratégicas. Essas alianças são eficazes, pois os
circuitos de consagração social serão tão mais eficazes quanto maior a
distância do objeto consagrado, assim nada melhor que se aliar com alguém fora
do jogo para oferecer suporte. A aliança entre campos, dominante com dominante
e dominado com dominado. Exemplo: a homologia entre campo político e campo
econômico, depois que o PT passou a ganhar as eleições conseguiu o patrocínio
da empresa Camargo Correia pela Odebrecht, enquanto ele não as ganhava eram os
proletários que lhe patrocinavam. Exemplo: a parceria da rede globo, dominante
no campo das mídias, com a igreja católica, dominante no campo dos bens
imateriais, espaços autorizados de venda de salvação, tendo o padre Marcelo
Rossi como figura mais emblemática dessa aliança, ela tem uma fertilidade e
contundência espetacular, até porque se oporá a outra parceria homológica no
segundo andar, que é a da Rede Record com a Igreja Universal. Exemplo: quando a
Casa do Saber vai buscar seus professores, ela não os procura na FMU, Uninove,
Unicid, mas sim na USP, caso curiosíssimo de homologia entre o campo econômico
e o acadêmico, para quem queira duvidar da competência de Bourdieu essa é a
menos previsível de todas as homologias, mas que tem no cardápio da casa do
saber a sua mais incrível materialização. Essa parceria (Casa do Saber/USP) é
profundamente criticada pela Escola São Paulo, espaço alternativo que busca subsídios
alternativos para sua matéria prima.
Dominante conversa com dominante
e dominado com dominado, essa divisão homológica entre dominantes e dominados
acaba nos aproximando de uma divisão da sociedade por classes, é a contribuição
de Marx no pensamento de Bourdieu, ocorre que aqui a concepção de classe não
é mais uma definição exclusivamente econômica, a classe social dos dominantes é
de tal maneira que recorta os campos sociais transversalmente, colocando,
portanto, a Marilena Chaui como “burguesa”, o dominante domina em todos os
campos sociais, ao passo que, para Marx, o campo social importante é o campo
econômico e a fronteira é burguês/proletário enquanto classe social, em Bourdieu,
surge uma perspectiva sociológica riquíssima, através de uma análise
completamente diferente chega-se a uma conclusão semelhante que é a
sociedade dividida em quem está por cima, conservadores, e quem está por baixo,
subversivos, sendo normal que conservadores ajudem conservadores a conservar e
subversivos ajudem seus pares a subverter.
Existem também os casos de
transmigração, como é o caso, por exemplo, de Luan Santana, artista brasileiro
que mais ganha hoje. Bourdieu dirá que existe o campo social da produção
cultural, um eixo desse campo é o comercial/erudito, não o popular/erudito,
pois Caetano Velloso é avaliado enquanto erudito. O eixo comercial é avaliado
em função dos recursos financeiros. O campo da produção cultural cortado pelo
eixo erudito/comercial é aquele que mantém com o campo das mídias uma relação
mais complexa do que simplesmente uma relação de homologia, porque esse erudito
e comercial, separados no campo da produção cultural, são os mesmos que se
situam lado-a-lado dentro do campo das mídias, em outras palavras, o campo dos
dominantes da mídia abrange os dominantes eruditos e os dominantes comerciais
para si, assim para certo ator social sair da posição social comercial subversiva
seguindo à comercial dominante é preciso seu ingresso no campo das mídias,
assim, graças a tal ingresso nesse campo se torna possível ao agente social
alavancar, e graças a alavancagem que há o ingresso no campo da mídia, isso porque
os meios de comunicação são estruturantes e estruturados pelas carreiras dos
cantores de índole comercial, daí para o músico ganhar dinheiro tem de estar na
Rede Globo, mas para estar nela o músico tem que ter dinheiro, existe um ponto onde
não é possível de conhecer onde um campo começa e outro termina, isso que Bourdieu
chama de estruturante e estruturado, o eixo erudito/comercial é estruturante do
campo da produção cultural e estruturado pelo campo da produção cultural ao
mesmo tempo.
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