Isak Rubin, um economista marxista soviético do século XX, elaborou uma crítica abrangente à teoria marginalista do valor subjetivo. Sua obra principal, "Valor, Trabalho e Renda", publicada em 1926, apresenta uma análise detalhada das falhas e contradições da teoria marginalista, defendendo uma perspectiva alternativa baseada no valor-trabalho.
Pontos centrais da crítica de Rubin:
- Subjetividade e incomensurabilidade: Rubin argumenta que a teoria marginalista falha em explicar como valores subjetivos individuais se convergem em preços de mercado objetivos. A alegação de que a utilidade marginal determina o valor é vista como circular e tautológica, incapaz de explicar como diferentes unidades de medida de valor (por exemplo, tempo, trabalho, dinheiro) podem ser comparadas.
- Desconsideração das relações de produção: A teoria marginalista, segundo Rubin, ignora as relações sociais de produção que determinam a oferta e a demanda de bens. Ele argumenta que o valor de um bem não é simplesmente determinado pela utilidade marginal para um indivíduo, mas sim pelas relações de poder e exploração no sistema capitalista.
- Negação da exploração: A teoria marginalista, ao defender a ideia de que os preços refletem o valor subjetivo dos bens, mascara a exploração inerente ao sistema capitalista. Rubin argumenta que os trabalhadores recebem apenas uma fração do valor que criam, com o restante sendo apropriado pelos capitalistas através da exploração da força de trabalho.
Alternativa proposta por Rubin:
Rubin propõe uma teoria alternativa do valor baseada no valor-trabalho. Segundo essa teoria, o valor de um bem é determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário para produzi-lo. Essa abordagem leva em consideração as relações sociais de produção e a exploração da força de trabalho, oferecendo uma explicação mais completa e justa do valor.
O Valor e seus Três Aspectos: Uma Análise Detalhada:
O valor, um conceito fundamental na economia, representa a significância social de um bem ou serviço. Compreendê-lo em sua totalidade exige a análise de suas três dimensões principais: magnitude, forma e conteúdo.
1. Regulador da Distribuição Quantitativa do Trabalho Social (Magnitude do Valor):
O valor atua como um mecanismo regulador da quantidade de trabalho social dedicado à produção de diferentes bens e serviços. Através da lei do valor, os preços de mercado, reflexos do valor, orientam os produtores na alocação de seus recursos.
Exemplo: Se o preço de um tomate sobe, pode sinalizar aos produtores que há uma demanda social maior por tomates, incentivando-os a dedicar mais trabalho social à sua produção.
2. Expressão das Relações de Produção entre Pessoas (Forma do Valor):
O valor não apenas reflete a quantidade de trabalho, mas também as relações sociais em que este é realizado. Na sociedade capitalista, o valor assume a forma-mercadoria, onde o trabalho se torna mercantilizado, expresso em unidades monetárias.
Exemplo: O valor de um par de sapatos não se limita ao trabalho individual do sapateiro, mas também incorpora as relações de produção capitalistas, como a exploração da força de trabalho e a apropriação da mais-valia.
3. Expressão do Trabalho Abstrato (Conteúdo do Valor):
O valor, em sua essência, representa o trabalho abstrato, a quantidade média de trabalho socialmente necessário para produzir um bem ou serviço, independentemente das habilidades ou características individuais do trabalhador.
Exemplo: Um operário têxtil e um programador de software, embora realizem trabalhos distintos, contribuem com trabalho abstrato equivalente na produção de seus respectivos bens.
Interconexão dos Três Aspectos:
Magnitude: A quantidade de trabalho social necessária para a produção de um bem determina sua magnitude de valor.
Forma: A forma-mercadoria do valor reflete as relações sociais de produção em que o trabalho é realizado.
Conteúdo: O trabalho abstrato é a substância que dá origem ao valor, independentemente da forma que ele assume.
Compreender o valor em suas três dimensões permite uma análise mais profunda da dinâmica econômica, revelando as relações de poder, exploração e distribuição de riqueza na sociedade.
Por que as críticas de Rubin parecem tão sólidas?
Foco nas relações sociais de produção: Rubin, ao contrário dos marginalistas, coloca em destaque as relações sociais que permeiam a produção de bens e serviços. Essa perspectiva permite uma análise mais profunda das desigualdades e da exploração presentes no sistema capitalista.
Crítica à noção de utilidade marginal: A ideia de que o valor de um bem é determinado exclusivamente pela satisfação individual que ele proporciona é questionada por Rubin. Ele argumenta que essa abordagem ignora as condições sociais e históricas que moldam os desejos e necessidades dos indivíduos.
Valor-trabalho como base: A teoria do valor-trabalho, defendida por Rubin, oferece uma explicação mais robusta para a formação dos preços e para a distribuição da riqueza. Ao conectar o valor ao trabalho socialmente necessário, ela revela a exploração inerente ao capitalismo.
Por que os marginalistas não conseguem "derrubar" Rubin?
Dificuldade em explicar a exploração: A teoria marginalista, com seu foco no indivíduo e na utilidade, tem dificuldades em explicar como a exploração da força de trabalho ocorre e como a mais-valia é gerada.
Abstrações e simplificações: A teoria marginalista, ao buscar a construção de modelos matemáticos precisos, muitas vezes simplifica excessivamente a realidade econômica, ignorando aspectos cruciais como o poder de mercado, as externalidades e as desigualdades sociais.
Manutenção do status quo: A teoria marginalista, ao justificar a ordem econômica existente, serve aos interesses das classes dominantes. Por isso, é comum que seus defensores resistam a críticas que questionam os fundamentos do sistema capitalista.
Para se aprofundar no tema:
Livro: Rubin, Isak. "Valor, Trabalho e Renda". São Paulo: Editora Alfabeto, 2002.
Artigo: Kliman, Marshall. "Isak Rubin's Critique of Marginalism: A Neglected Contribution to Value Theory". Review of Radical Economics, vol. 25, no. 3 (1992): 37-53.
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