SINOPSE:
Para entendermos o pensamento de Bachelard em relação à tradição filosófica do conhecimento e à teoria das ciências, é importante considerar seu pensamento na relação com o realismo de Meyerson e o idealismo de Brunschvicg. Essa relação nos ajuda a compreender o significado da filosofia do não, que integra e vai além do conhecimento reflexivo anterior, e estabelece a epistemologia como uma reflexão sobre a ciência em constante evolução em vias de ser construída. Bachelard posiciona-se no centro das oscilações características do pensamento científico, entre a capacidade de correção própria da experiência e a capacidade de ruptura e criação peculiar à razão. Ele define como racionalismo aplicado e materialismo racional a filosofia que se manifesta na "ação polêmica incessante da Razão". Essa epistemologia rejeita não apenas o formalismo e o fixismo de uma Razão única e indivisível, em favor do pluralismo dos racionalismos relacionados aos campos científicos que eles racionalizam, mas também, estabelece o "primado teórico do erro" como primeiro axioma, e define o progresso do conhecimento como uma retificação constante. Portanto, ela pode fornecer uma linguagem e apoio teórico às ciências sociais, que precisam superar obstáculos epistemológicos para constituir seu próprio racionalismo regional.
TEXTO PRINCIPAL:
Em seu livro "La dialectique de la durée", Bachelard expressa seu posicionamento em relação ao bergsonismo*, afirmando que aceita quase todos os seus princípios, exceto a ideia de continuidade. No entanto, essa posição parece ser mais clara em relação ao que ele rejeita do que ao que ele mantém. Bachelard é totalmente contrário à noção de continuidade e não concorda com a visão de Émile Meyerson* de que a percepção e a ciência são funções especulativas em contínuo esforço para identificar o que é diferente.
*O ponto chave do bergsonismo é o da intuição, que é uma forma de conhecimento direto e imediato que vai além do intelecto e da análise conceitual. Bergson argumentava que a intuição era a chave para acessar a realidade profunda e a essência da vida. Ele via a filosofia como uma atividade criativa e intuitiva, que buscava capturar a experiência subjetiva e a vitalidade do mundo em vez de reduzi-las a conceitos abstratos. Bergson também explorou a natureza da evolução e criticou a visão mecanicista da ciência dominante em sua época. Ele propôs uma visão da evolução como um impulso vital que implica um processo criativo e imprevisível, em contraste com a noção de uma evolução puramente determinista e baseada em adaptação.
*Meyerson criticou a visão positivista, que considerava a ciência como uma acumulação progressiva de fatos observáveis. Em vez disso, ele argumentava que a ciência se baseia em princípios lógicos e na causalidade. Para Meyerson, a ciência busca descobrir as leis causais subjacentes aos fenômenos observáveis, permitindo assim a compreensão e a explicação racional do mundo. Uma das principais ideias de Meyerson é a noção de que a causalidade é um princípio fundamental na construção do conhecimento científico. Ele argumentava que a causalidade é uma categoria do pensamento humano e que a ciência não pode prescindir dela. A causalidade permite estabelecer relações de causa e efeito entre os fenômenos, proporcionando uma estrutura lógica para a explicação científica.
Nesse ponto Bachelard se aproxima mais de uma posição cartesiana, em que há uma distinção entre entendimento e imaginação. Essa posição é compartilhada, em certa medida, por Alain e Léon Brunschvicg, que veem a ciência como algo que se constitui por meio de uma ruptura com a percepção e como uma crítica a ela. No entanto, Bachelard se aproxima mais de Brunschvicg do que de Alain em um aspecto importante: ele reconhece e celebra a subordinação da razão à ciência, ou seja, a ideia de que a razão é instruída pela ciência.
No entanto, Bachelard se distancia dessa posição ao enfatizar a dimensão polêmica no que toca a dialética do avanço e superação do conhecimento, na qual Léon Brunschvicg via principalmente o efeito de um progresso contínuo e de correção, porém, contrariamente a Bachelard, para esse pensador a inteligência não precisa ser consciente de sua própria norma e tenha a capacidade de se transformar por meio da atenção que dedica a si mesma.
O primeiro princípio desse estilo é denunciar as coisas como as vemos ou conhecemos, sem nos preocuparmos em comprovar essa afirmação por meio de atenuações, concessões ou fórmulas como "se quisermos" ou "a rigor". Bachelard se recusa a ceder ao uso da fórmula "a rigor" porque ela implica abrir mão de todo rigor, e é nesse ponto que ele não quer abrir mão de sua posição.
Ao afirmar que "a ciência não é o pleonasmo da experiência", Bachelard argumenta que a ciência se desenvolve em contraposição à experiência, à percepção e a todas as atividades técnicas usuais. Ele está plenamente ciente de que ao colocar a ciência nessa posição estranha, pode não ser facilmente aceito pelos seus contemporâneos. No entanto, Bachelard considera a ciência como uma operação inteiramente intelectual, com uma história, mas sem origens. Ela é a Gênese do Real, mas sua própria gênese não pode ser narrada. Podemos descrevê-la como um recomeço, mas nunca compreendê-la em seus estágios iniciais. A arqueologia da ciência faz sentido, enquanto a pré-história da ciência é absurda.
Bachelard destaca a importância de compreender o papel do erro e da ignorância no processo científico, que vai além da mera expulsão do erro e substituição da ignorância pelo conhecimento. Enquanto alguns filósofos e cientistas consideram o erro como um acidente lamentável e a ignorância como uma privação do saber, Bachelard argumenta que a mente é inerentemente propensa ao erro e que o erro desempenha um papel positivo na geração do conhecimento.
Bachelard reconhece que a ciência não pode eliminar completamente o erro, mas destaca que é através da correção contínua dos erros que se alcança um progresso na busca pela verdade. O erro, portanto, não é simplesmente um obstáculo a ser evitado, mas uma força motriz que impulsiona a investigação científica. Além disso, a ignorância não é apenas uma falta de conhecimento, mas possui uma estrutura e vitalidade própria, semelhante ao instinto.
Em relação ao caráter hipotético-dedutivo da ciência, Bachelard reconhece que, desde o final do século XIX, os filósofos suspeitaram da suficiência das noções de princípios intuitivos, evidências, dados ou dons, tanto sensíveis quanto intelectuais. Ele enfatiza que a ciência não se baseia apenas no imediato e nas sensações, mas é construída através de um processo de reflexão, teorização e elaboração conceitual. A evidência primeira não é vista como uma verdade fundamental, e o fenômeno imediato não é considerado o mais importante na análise científica.
Essas ideias de Bachelard desafiam concepções tradicionais e ressaltam a importância de reconhecer a presença do erro e da ignorância como elementos inerentes ao processo de produção do conhecimento científico. Ele defende uma abordagem crítica que vai além do imediato e busca a construção de um conhecimento sólido e fundamentado em rigor intelectual.
Bachelard destaca a importância da malevolência crítica no processo científico, enfatizando que ela não é uma consequência da ciência, mas sua própria essência. A ruptura com conceitos do passado, a polêmica e a dialética são elementos fundamentais na análise dos meios do conhecimento. Ele considera a recusa como a força impulsionadora do conhecimento, que se manifesta na forma de questionamentos, críticas e revisões constantes.
Bachelard ilustra essa ideia por meio de exemplos, como o atomismo. Ele argumenta que o benefício do conhecimento depende da correção de conceitos iniciais por meio da supressão de intuições ou imagens primárias. No caso do átomo, ele afirma que a imagem inicial do átomo é submetida a críticas que levam a uma revisão conceitual. A imagem inicial do átomo é suprimida à medida que surgem novas críticas e entendimentos.
Bachelard também questiona as intuições primeiras, denunciando o caráter ilusório que muitas vezes possuem. Ele argumenta que o verdadeiro não é o que se poderia inicialmente acreditar, mas sim o que deveria ter sido pensado, indicando a importância da reflexão crítica na busca pela compreensão do real.
Para Bachelard, o conhecimento científico é uma jornada contínua de questionamento, crítica e revisão, em que a malevolência crítica desempenha um papel central. Ele destaca que a verdade só pode ser alcançada através da superação das ilusões perdidas, da constante busca por uma compreensão mais profunda e precisa do mundo ao nosso redor.
Bachelard enfatiza que a ciência não tem a capacidade de captar ou capturar o real de forma direta, mas indica uma direção e uma organização intelectual que nos permitem nos aproximar do real com segurança. Os conceitos científicos não são simplesmente catálogos de sensações ou réplicas mentais de essências. Bachelard argumenta que a essência é uma função da relação, destacando a subordinação do conceito ao julgamento.
Bachelard não se preocupa com rótulos atribuídos a ele, seja como idealista ao abordar a ciência através da física matemática, ou como materialista ao adentrar o laboratório químico. Ele responde que seu pensamento é caracterizado por um idealismo discursivo, laborioso em sua dialética e nunca triunfante sem vicissitudes, e um materialismo racional, instruído e operante, que não recebe a matéria, mas a apresenta a si mesmo. Bachelard enfatiza que seu objetivo não é estabelecer um sistema, mas sim seguir uma linha de pensamento que se reinicia a partir de um mundo em constante reavaliação.
Bachelard argumenta que a realidade do mundo precisa ser constantemente reformulada sob a responsabilidade da razão. A razão, por sua vez, nunca deixa de ser desrazoável na busca por se tornar cada vez mais racional. Se a razão se limitasse a ser razoável, eventualmente se contentaria com seu sucesso e deixaria de questionar. No entanto, a razão sempre diz não, perpetuamente relançando sua negação.
Bachelard explora essa capacidade de negação incessante, afirmando que "temos o poder de despertar as fontes". Essa fonte que nunca estanca, reside no âmago do ser humano. É a fonte dos sonhos, imagens e ilusões, algo que há muito tempo tem sido objeto de investigação filosófica no sono do corpo e da mente.
É a persistência desse poder originário, poeticamente falando, que impulsiona a razão em seu esforço constante de negação, crítica e redução. A dialética racional e a ingratidão essencial da razão diante de seus sucessos consecutivos indicam a presença, na consciência, de uma força incansável que acompanha o pensamento científico não como uma sombra, mas como uma contraluz.
Bachelard enfatiza a importância de a mente ter uma visão poética para que a razão possa ser analítica em sua abordagem. Ele argumenta que o racionalismo precisa ter uma intenção psicanalítica, uma vez que se trata de um empreendimento filosófico distinto da filosofia das luzes ou do positivismo.
Bachelard reconhece que alguns possam se surpreender ao ver a psicanálise sendo associada a um empreendimento filosófico que aparentemente está alinhado com a atitude constante do racionalismo. No entanto, ele explica que o objetivo não é acreditar que se é racionalista, mas sim buscar tornar-se racionalista. Ele justifica essa posição ao afirmar que o racionalista precisa prestar uma atenção demorada às ilusões e erros, constantemente representando os valores racionais e as imagens claras como correções de dados falsos.
Ao contrário do que os racionalistas dos séculos XVIII e XIX acreditavam, Bachelard argumenta que o erro não é uma fraqueza, mas uma força, e que o devaneio não é mera fumaça, mas um fogo que se manifesta incessantemente. Assim como o fogo, o devaneio continua a se manifestar de forma persistente. Bachelard afirma que devemos dedicar parte de nossos esforços para demonstrar que o devaneio continua a manifestar os temas primitivos, trabalhando incessantemente como uma alma primitiva, apesar dos sucessos do pensamento elaborado e mesmo contra as instruções das experiências científicas.
Bachelard argumenta que a redução definitiva das imagens sensíveis pela razão insensível é uma expectativa ilusória. Ele sugere que a imaginação sensualista possui uma vivacidade profunda e renovadora da sensualidade que não pode ser facilmente descartada. Ele cita as primeiras pesquisas sobre eletricidade como um exemplo em que os sentidos "fabulam", ou seja, exercem um papel ativo na construção do conhecimento.
Bachelard enfatiza o caráter sensual do conhecimento concreto e a imutabilidade dos valores inconscientes. Ele argumenta que ser racionalista não é tão simples como os filósofos do Iluminismo acreditavam. O racionalismo é uma filosofia complexa e custosa, que nunca acaba, porque não teve um começo definido. Isso implica que o caminho da razão é constantemente desafiado pela vivacidade e profundidade da imaginação sensualista.
Essa perspectiva de Bachelard destaca a importância de reconhecer a complexidade da mente humana e a interação entre razão e imaginação. O conhecimento não pode ser reduzido apenas à razão insensível, mas deve levar em consideração a vivacidade e a sensualidade da imaginação. Isso implica que o racionalismo requer um esforço contínuo e uma compreensão mais profunda das dinâmicas do conhecimento humano.
Ao abordar as sutilezas dialéticas da razão em resposta aos obstáculos epistemológicos, Bachelard conseguiu compreender a anticiência, o que muitos outros epistemólogos haviam falhado em fazer. Em contraste, Emile Meyerson tentava depreciar o núcleo rebelde da experiência qualificada e do universo dos seres vivos, rotulando-o como "irracional". No entanto, ao reconhecer implicitamente algum valor nesse núcleo rebelde e chamá-lo também de realidade, Meyerson criou uma dicotomia entre duas realidades.
Bachelard, por sua vez, não adota uma visão maniqueísta. Ele assume o papel de um "filósofo concordatário", que revela os arquétipos latentes da imaginação e apresenta obstáculos à ciência como objetos da ciência e objeções à ciência. Ao fazer isso, ele não se torna um advogado do diabo, mas reconhece sua cumplicidade com o Criador. Bachelard vê a criação contínua como uma mudança de sentido, não apenas em sua epistemologia, mas também em sua ontologia. Ele entende que a criação contínua não garante a identidade do Ser ou seu hábito, mas sim sua ingenuidade e renovação. Os instantes são distintos porque são fecundos, pois trazem consigo a possibilidade de novas formas de conhecimento e compreensão.
Essa abordagem não cartesiana de Bachelard se estende não apenas à sua epistemologia, mas também à sua ontologia. Ele reconhece a importância de superar as visões dualistas simplistas e abraçar a complexidade e a dinâmica contínua do conhecimento e da criação.
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