Ruptura epistemológica, vigilância epistemológica e os desafios na prática sociológica: Reflexões sobre o conhecimento científico
Palavras-chave: Ruptura epistemológica, vigilância epistemológica, conhecimento científico, perigos epistemológicos, empirismo, prática sociológica.
Quando há uma fronteira mais imprecisa entre o conhecimento comum, espontâneo, "freestyle", e o conhecimento científico, em comparação com outros campos, surge a necessidade urgente de uma ruptura epistemológica que atue pela necessidade de romper com os paradigmas e pressupostos estabelecidos anteriormente para avançar no conhecimento de forma significativa, e permita uma compreensão mais profunda e precisa do objeto de estudo, evitando o tipo de conhecimento que tende a se estagnar e bloqueie o progresso científico significativo.
Para esse fim é preciso questionar as condições sociais que tornam possível, e até mesmo inevitável, a ruptura com esse conhecimento espontâneo e a ideologia, nesse contexto surge a vigilância epistemológica como uma instituição que estabelece uma atitude de estar vigilante e crítico em relação ao conhecimento, trata-se de questionar, analisar e examinar criticamente os fundamentos teóricos, os métodos e os pressupostos subjacentes a uma determinada área de conhecimento. Envolve estar atento aos vieses, preconceitos e limitações que podem afetar a produção e a interpretação do conhecimento. Nesse sentido buscando constantemente aprimorar a validade e a confiabilidade do processo de construção do conhecimento. É um esforço para evitar erros, enviesamentos e suposições infundadas, promovendo uma abordagem mais rigorosa e fundamentada no campo do conhecimento em questão. Trata-se, todavia, mais de chamar atenção para os pressupostos inconscientes e as petições de princípio de uma tradição do que ser o questionador dos princípios de uma teoria estabelecida.
O empirismo, enquanto corrente filosófica que enfatiza a importância da experiência sensorial, ocupa atualmente o topo da hierarquia dos perigos epistemológicos, entendido aqui como um obstáculo ou desafio que pode comprometer ou distorcer o processo de obtenção e validação do conhecimento em uma determinada área do estudo. Esses perigos podem surgir de diferentes fontes, como pressuposições não examinadas, vieses cognitivos, limitações metodológicas, distorções ideológicas ou influências sociais e culturais. Os perigos epistemológicos podem levar a conclusões falaciosas, interpretações enviesadas ou limitações na compreensão adequada de um determinado fenômeno ou campo de estudo. Portanto, é fundamental estar ciente desses perigos e buscar abordagens e métodos rigorosos para minimizá-los e garantir uma busca mais precisa e confiável do conhecimento. O Perigo epistemológico relacionado ao empirismo se deve não apenas à natureza particular do objeto sociológico, que é o sujeito que propõe a interpretação enunciada de suas próprias condutas, mas também às condições históricas e sociais em que a prática sociológica ocorre.
As oposições epistemológicas só adquirem pleno significado quando são relacionadas ao sistema de posições e oposições que se estabelecem entre instituições, grupos ou facções presentes em diferentes espaços do campo intelectual. É fundamental considerar o conjunto de características que definem cada pesquisador, como seu tipo de formação (científica ou literária, especializada ou eclética, completa ou parcial, etc.), seu status na universidade, instituto, think tank, ou em relação a eles, as instituições das quais faz parte, suas afiliações de interesse e sua participação em grupos de pressão intelectual (revistas científicas ou não científicas, comissões ou comitês, etc.). Esses elementos contribuem para determinar suas possibilidades de ocupar determinadas posições e adotar certas oposições no campo epistemológico. Em suma, as oposições epistemológicas são moldadas pelas dinâmicas e relações sociais que permeiam o campo intelectual.
Aqui, é importante evitar atribuir uma realidade trans-histórica à estrutura do campo em estudo, como se fosse um espectro de posições filosóficas opostas em pares (X versus Y). Isso porque as diferentes ciências surgiram em datas e condições históricas e sociais distintas, em razão disso elas não seguem, de forma pré-determinada, as mesmas etapas de uma história da razão epistemológica que se propõe a investigar o desenvolvimento e evolução das transformações e mudanças nas concepções do conhecimento (teorias e os métodos utilizados) ao longo da história, de diferentes escolas de pensamento, correntes filosóficas e paradigmas científicos que surgiram e influenciaram a forma como a verdade e o conhecimento foram entendidos em diferentes contextos históricos.
O pesquisador acaba adotando uma abordagem empirista, formalista, teórica ou nenhuma delas não tanto por escolha, mas por influência do contexto em que realiza sua prática intelectual. O sentido dessa prática é moldado pelo sistema de possibilidades e impossibilidades que são definidas pelas condições sociais em que ele se encontra. Dependendo do caso, pode ser útil considerar as convicções epistemológicas como ideologias profissionais que, em última instância, buscam justificar não tanto a ciência em si, mas o pesquisador. Essas convicções também visam estabelecer os limites da prática científica com base na posição e experiência do pesquisador. Nesse sentido, as diferentes formas de erro epistemológico e as ideologias que as sustentam não são distribuídas aleatoriamente entre os pesquisadores, mas são influenciadas pela conjuntura teórica, suas tendências predominantes e suas lacunas que ele está inserido.
Em suma, o sistema de justificações ideológicas, que muitas vezes transforma limitações reais em limites oficiais, pode ser considerado um obstáculo para a lucidez epistemológica. Embora a sociologia praticada por cada sociólogo, moldada pelas condições sociais e pela relação com a disciplina, não possa substituir por si só uma reflexão epistemológica, ela desempenha um papel fundamental na explicitação dos pressupostos inconscientes e na internalização mais profunda de uma epistemologia mais completa. Portanto, a compreensão das condições sociais e a reflexão epistemológica são pré-requisitos essenciais para superar as resistências ideológicas e alcançar uma compreensão mais clara e aprofundada do conhecimento científico.
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