Pesquisar este blog

A cidadela científica: desafios e perspectivas para a produção científica e a colaboração interdisciplinar

Toda comunidade acadêmica é um microcosmo social, com instituições de controle, requisitos e educação, como autoridades universitárias, júris, tribunais críticos, comissões e instâncias de cooptação. Essas instituições estabelecem as normas da competência profissional e procuram inculcar os valores que representam. Conforme observado por Duhem, assim como o conhecimento das relações estabelecidas por meio de experimentos, a normatividade lógica por si só não é suficiente para garantir as condições necessárias para a renovação teórica.

Dessa forma, a produção de obras científicas não depende apenas da resistência da comunidade científica em si diante de demandas externas, como expectativas do público, pressões dos usuários ou solicitações de ideologias políticas ou religiosas. Também depende do grau de conformidade às normas científicas que a própria organização da comunidade consegue manter. Alguns críticos da ciência se concentram apenas na resistência do mundo acadêmico como uma sociedade organizada, o que muitas vezes resulta em generalizações sobre as dificuldades enfrentadas pelos cientistas inovadores. No entanto, eles deixam de reconhecer os efeitos opostos que podem ser produzidos pelo controle da comunidade acadêmica, seja através do tradicionalismo que limita a pesquisa à conformidade com uma tradição teórica, seja através da institucionalização de uma vigilância estimulante que favorece a quebra contínua com todas as tradições.

Portanto, devemos mudar o foco da discussão sobre se tal ou qual disciplina é ou não uma ciência, e se é uma ciência como as outras, para discutir o tipo de organização e funcionamento da comunidade acadêmica que é mais propício ao surgimento e desenvolvimento de uma pesquisa estritamente científica. Essa nova abordagem não permite uma resposta simples de sim ou não. Em cada caso, é necessário analisar os diversos fatores que contribuem para definir as possibilidades de produção científica e distinguir de forma mais precisa quais são os fatores que aumentam as chances de uma comunidade científica como um todo ser mais científica, assim como as oportunidades que cada cientista tem de se beneficiar dessas possibilidades, dependendo da posição que ocupa dentro dessa comunidade.

É fácil perceber que tudo o que contribui para intensificar a troca de informações e críticas, romper com os compartimentos estanques entre diferentes áreas do conhecimento, superar os obstáculos causados pela hierarquia e diversidade das formações acadêmicas, e reduzir os conflitos e competições desnecessárias, aproxima a comunidade acadêmica do ideal de uma cidadela científica. Essa cidadela seria um lugar onde todas as comunicações científicas, e somente elas, ocorreriam em prol do avanço da ciência. No entanto, a comunidade dos cientistas ainda pode estar distante desse cenário ideal. Existem inúmeras polêmicas que revelam oposições baseadas mais em afiliações externas do que em divergências relacionadas ao reconhecimento dos mesmos valores científicos. Além disso, a eficácia da crítica científica depende da forma e estrutura das trocas que a envolvem. Um modelo mais favorável para a integração orgânica da comunidade científica é a troca generalizada de críticas, em que cada pessoa critica outra que, por sua vez, critica uma terceira pessoa, formando assim uma rede de interações críticas. Esse modelo é mais benéfico do que clubes de admiração mútua ou polêmicas rituais que apenas reforçam os estatutos dos adversários em vez de promover um diálogo construtivo.

De fato, enquanto a troca restrita permite acomodar-se aos pressupostos implícitos, a troca generalizada exige a multiplicação e diversificação dos tipos de comunicação, favorecendo assim a explicitação dos pressupostos epistemológicos de cada proposta d conhecimento. Além disso, conforme demonstrado por Michael Polanyi, essa "rede contínua de crítica" garante a conformidade de todos com as normas comuns da cientificidade, estabelecendo o controle de cada indivíduo sobre alguns (aqueles que ele pode e deve julgar como especialista) e por alguns (aqueles que podem e devem julgá-lo como especialistas).

Ao confrontar constantemente cada cientista com uma explicitação crítica de suas operações científicas e dos pressupostos envolvidos, e ao exigir que essa explicitação seja um acompanhamento obrigatório de sua prática e comunicação de suas descobertas, esse "sistema de controles cruzados" tende a desenvolver e fortalecer em cada indivíduo essa habilidade de vigilância epistemológica. Em outras palavras, promove a consciência crítica em relação aos fundamentos teóricos e metodológicos da pesquisa, levando a uma maior responsabilidade e rigor na produção do conhecimento científico.

Os efeitos da colaboração interdisciplinar, muitas vezes apresentada como uma solução universal na ciência, também estão intrinsecamente ligados às características sociais e intelectuais da comunidade científica. Da mesma forma que os contatos entre sociedades com tradições diferentes proporcionam uma oportunidade para que os pressupostos inconscientes se tornem explícitos, as discussões entre especialistas de diferentes disciplinas podem revelar o grau de conservadorismo de um corpo de cientistas, ou seja, o quão inconscientemente eles excluem da discussão os pressupostos que tornam essa discussão possível.

Os encontros interdisciplinares, especialmente nas ciências humanas, muitas vezes resultam apenas em trocas de "dados" ou questões não resolvidas. Isso nos faz pensar em transações arcaicas, em que dois grupos simplesmente fornecem produtos um ao outro sem a necessidade de um encontro real. Essas trocas superficiais podem ocorrer devido a barreiras disciplinares rígidas ou à falta de abertura para questionar e desafiar os pressupostos subjacentes a cada disciplina.

Portanto, é importante reconhecer que a colaboração interdisciplinar não é apenas uma questão de unir diferentes áreas do conhecimento, mas também requer uma análise crítica das pressuposições subjacentes a cada disciplina. Somente ao superar as barreiras disciplinares e estimular discussões mais profundas e desafiadoras, é possível obter os benefícios verdadeiros da colaboração interdisciplinar na produção científica.

Isso significa que a comunidade científica deve adotar formas de sociabilidade específicas, e podemos ver, de acordo com Durkheim, um sintoma de sua falta de autonomia no fato de que, ela muitas vezes se submete às complacências da mundanidade intelectual. Durkheim argumentava que era hora da sociologia renunciar aos sucessos mundanos e assumir um caráter esotérico, como convém a todas as ciências. Ele acreditava que, ao fazer isso, a sociologia ganharia em dignidade e autoridade, embora possa perder em popularidade.

Essa visão de Durkheim destaca a importância de manter a integridade científica e evitar ceder às pressões da mundanidade e popularidade. Ao se distanciar de interesses mundanos e abraçar um caráter mais esotérico, a comunidade científica pode fortalecer sua autoridade e credibilidade. Isso implica em buscar a excelência científica, mesmo que isso signifique ser menos acessível ao público em geral. A busca pela verdade e pelo avanço do conhecimento deve ser o objetivo primordial da comunidade científica, e Durkheim defende que isso requer uma postura mais reservada e focada em um público especializado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário