Imperialismo cultural e a hegemonia da pesquisa estadunidense: A influência dos "passeurs" e a reprodução de produtos culturais
Resumo:
Este texto aborda a importância de entender as motivações que levam pesquisadores a negligenciar o modelo de pesquisa local de seus países em favor do modelo proveniente da tradição estadunidense. Bourdieu destaca que esses pesquisadores tendem a reconhecer os espaços sociais dos Estados Unidos como os únicos detentores legítimos do poder de conferir reconhecimento material e/ou simbólico às suas pesquisas. Nesse contexto, é crucial analisar o papel dos "passeurs" e importadores na disseminação da perspectiva estadunidense, assim como os efeitos da internacionalização comercial da atividade editorial universitária. Esses fatores contribuem para a hegemonia do pensamento estadunidense nas ciências sociais, influenciando a seleção de temas e perspectivas e limitando a diversidade de pensamento no campo acadêmico.
Tópico de desenvolvimento:
- A influência dos "passeurs" na disseminação da perspectiva estadunidense
- Explicação do papel dos "passeurs" como intermediários que acompanham, orquestram e propagam a conversão coletiva das sociedades locais para a perspectiva estadunidense.
- Análise dos diferentes graus de sublimação utilizados pelos "passeurs" em seus discursos e práticas, que podem variar entre conscientes e inconscientes, direta ou indiretamente interessados.
- Exemplificação de programas e iniciativas financiados por fundações bilionárias filantrópicas, como o programa "Raça e Etnicidade" da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que impõem requisitos que seguem critérios de affirmative action à maneira estadunidense, influenciando a pesquisa brasileira.
Conclusão:
A hegemonia da pesquisa e do pensamento estadunidense nas ciências sociais é influenciada por uma combinação de fatores, incluindo a atuação dos "passeurs" na disseminação da perspectiva estadunidense e a internacionalização comercial da atividade editorial universitária. Esses fatores contribuem para a reprodução de produtos culturais e conceitos que reforçam a hegemonia do pensamento estadunidense, muitas vezes em detrimento de abordagens locais e de outros contextos culturais. É essencial questionar essa dinâmica e promover a diversidade de pensamento no campo acadêmico, valorizando as perspectivas e teorias locais.
Conteúdo:
É importante destacar a atenção às motivações que levam um pesquisador a negligenciar o modelo de pesquisa local de seu país e adotar, de forma mais ou menos assumida ou descarada, o modelo de pesquisa proveniente da tradição estadunidense. Bourdieu ressalta que esse pesquisador pode tender a reconhecer os espaços sociais dos Estados Unidos como os únicos legítimos detentores do poder de conferir reconhecimento material e/ou simbólico à sua pesquisa.
No conceito de violência simbólica e campos sociais de Bourdieu, aplicado ao conceito de imperialismo cultural, destaca-se que a violência simbólica nunca é exercida sem uma forma de conivência (obtida) daqueles que a sofrem. No contexto do imperialismo cultural, é necessário analisar quem produz e distribui o conteúdo cultural, e Bourdieu chama a atenção para dois aspectos: (a) os "passeurs" e "carriers" (intermediários de informações) e (b) os importadores de produtos culturais de marca, desmarcados ou falsificados (editores, diretores de instituições culturais como museus, óperas, galerias de arte, revistas, líderes de centros de pesquisa, jornais, etc.) das instâncias culturais e produtos culturais estadunidenses.
Os "passeurs" e importadores desempenham o papel de acompanhar, orquestrar e, às vezes, até mesmo propor, propagar e organizar o processo de conversão coletiva das sociedades locais para a nova Meca simbólica da "globalização", nos temas da opinião pública das instâncias culturais e produtos culturais estadunidenses (no sentido de difusão autorizada). Nesse contexto, é necessário analisar os diferentes graus de sublimação utilizados por esses "passeurs" e importadores em seus discursos semi-eruditos e práticas. Esses graus podem variar entre conscientes e inconscientes, direta ou indiretamente interessados, muitas vezes com toda a boa-fé, coordenados explicitamente ou implicitamente, no próprio país ou em países-alvo.
Um exemplo concreto dessa circunstância, citado por Bourdieu, é o efeito causado pelas principais fundações bilionárias filantrópicas, de pesquisa e organizações similares na difusão da perspectiva estadunidense no campo acadêmico brasileiro. Isso se manifesta tanto nas representações como nas práticas, ou em outros domínios das categorias jurídicas e morais de "direitos humanos" e "filantropia". Bourdieu menciona o programa "Raça e Etnicidade" da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o Centro de Estudos Afro-Asiáticos (e sua revista Estudos Afro-Asiáticos) da Universidade Cândido Mendes, financiados pela Fundação Rockefeller e organizações semelhantes. O objetivo declarado desses programas é incentivar e promover a troca de pesquisadores e estudantes. No entanto, a Fundação Rockefeller impõe requisitos para a obtenção de financiamento que seguem os critérios de affirmative action à maneira estadunidense, o que gera problemas delicados, já que a dicotomia entre brancos e negros é aplicada, no mínimo, de forma arriscada na sociedade brasileira. Por um lado, as categorias, problemáticas, modelos, pontos de vista e experiências de pesquisa dos Estados Unidos são impostos aos pesquisadores brasileiros como requisitos indispensáveis para qualquer pesquisa digna de reconhecimento (começando pela divisão dicotômica entre negros e brancos). Por outro lado, os modelos, categorias, problemáticas e experiências de pesquisa do Brasil raramente fluem (ou fluem muito pouco) como pontos de vista a serem considerados em relação aos modelos de pesquisa dos Estados Unidos, seja para questionar as formas peculiares como a questão "racial" foi estabelecida, seja para analisar as razões históricas, sociais e políticas pelas quais essas categorias foram transpostas de forma acrítica para a ciência social brasileira.
Bourdieu também destaca a internacionalização comercial da atividade editorial universitária como outro fator que impulsiona a disseminação do pensamento "made in USA" nas ciências sociais. Nesse caso, existem dois elementos principais envolvidos. O primeiro é a integração da publicação de livros acadêmicos em língua inglesa, que são frequentemente vendidos pelas mesmas distribuidoras nos Estados Unidos, nos países da antiga Commonwealth britânica e em países poliglotas da União Europeia, como Suécia e Holanda, bem como em sociedades mais diretamente expostas à dominação cultural estadunidense. O segundo fator é a diminuição da fronteira entre a atividade editorial universitária e as grandes editoras comerciais. Essa situação tem incentivado a circulação de termos, temas e tropos que possuem um forte apelo de mercado (previsto ou constatado), e seu poder de atração decorre simplesmente de sua ampla disseminação comercial.
Esses fatores combinados contribuem para que determinados conteúdos, conceitos e abordagens tenham uma maior visibilidade e aceitação no campo acadêmico, em parte devido à sua popularidade no mercado editorial. Isso pode influenciar a seleção e o destaque dado a certos temas e perspectivas, muitas vezes em detrimento de abordagens e teorias locais ou de outros contextos culturais. Dessa forma, a difusão comercial de ideias e publicações acadêmicas em inglês acaba reforçando a hegemonia do pensamento estadunidense nas ciências sociais.
De fato, as decisões baseadas em estratégias puramente comerciais têm um impacto significativo tanto na pesquisa quanto no ensino universitário. Essas decisões muitas vezes direcionam a metodologia e as conclusões das pesquisas para se adequarem e se alinharem ao modelo estadunidense, buscando a homogeneização e submissão às tendências dominantes. Além disso, essas decisões podem levar à criação de "disciplinas" inteiras que são reconhecidas como as únicas legítimas para abordar determinados temas. Um exemplo disso é o campo dos cultural studies, que teve sua origem na Inglaterra nos anos 1970. Por meio de uma bem-sucedida política de propaganda editorial, esse campo obteve uma difusão internacional, tornando-se amplamente reconhecido. Apesar da inexistência da "disciplina" de estudos culturais franceses nos campos universitários, culturais e intelectuais da França, isso não impediu que a editora Routledge publicasse um compêndio intitulado "French Cultural Studies", inspirado no modelo dos estudos culturais britânicos. Essa dinâmica demonstra como a influência do mercado editorial pode moldar e impulsionar certos campos de estudo, promovendo uma visão específica e hegemônica. As estratégias de marketing editorial podem criar uma demanda por determinadas abordagens e perspectivas, muitas vezes alinhadas aos interesses e preferências do mercado anglo-americano. Isso pode resultar na marginalização de perspectivas alternativas e limitar a diversidade de pensamento no campo acadêmico.
Bourdieu argumenta que os fatores anteriormente mencionados não são suficientes para justificar completamente a hegemonia da produção comercial editorial sobre o mercado intelectual mundial. Ele enfatiza a importância de destacar o papel dos agentes que lideram as estratégias de importação e exportação dos conceitos presentes nas pesquisas publicadas. Esses agentes são responsáveis por transportar, muitas vezes sem o seu próprio conhecimento, a parte oculta e muitas vezes problemática dos produtos culturais que são colocados em circulação.
Em cada campo intelectual nacional, Bourdieu identifica a presença de agentes que ele chama de "passadores" (passeurs). Esses passadores são encontrados não apenas entre os defensores da revolução neoliberal sob a camuflagem da "modernização", mas também entre os produtores culturais (pesquisadores, escritores, artistas) e militantes de esquerda política que, em sua maioria, se consideram progressistas. Os passadores se envolvem em estratégias de projeção pessoal, competindo entre si dentro do circuito do imperialismo cultural.
Um dos efeitos dessas estratégias dos passadores em cada campo intelectual nacional, dentro do contexto desse circuito de imperialismo cultural, é a apropriação de mitos eruditos e sua reformulação em termos alienados. Eles contribuem para a disseminação de (falsos) problemas, ao mesmo tempo em que obtêm seu próprio "lucro simbólico" e material por meio dessas estratégias pessoais de consagração internacional.
Essa responsabilidade dos passadores nos "mal-entendidos" ocorre em parte porque eles são os "importadores que produzem, reproduzem e fazem circular todos esses problemas". Eles extraem sua pequena "quota" de lucro simbólico e material dessas estratégias pessoais de consagração no contexto das posições e distâncias sociais e de seus habitus eruditos. No entanto, esses passadores estão expostos a uma "dupla heteronomia": por um lado, eles olham para os circuitos de consagração dos campos sociais dos Estados Unidos, reconhecendo-os como o núcleo principal da "lar da (pós)modernidade social e científica", mas eles não estão incluídos nesses espaços e dependem dos pesquisadores estadunidenses que exportam produtos intelectuais para o exterior, geralmente em estado deteriorado e envelhecido. Por outro lado, eles tendem a estar no campo do jornalismo, atraídos pelas seduções de consagração e pelo sucesso imediato que ele oferece, trabalhando em temas que surgem na interseção dos campos da mídia e da política, maximizando seus ganhos sobre assuntos relacionados ao mercado externo.
Em resumo, Bourdieu destaca a importância dos passadores e seu papel na disseminação de produtos culturais e conceitos, bem como sua dependência dos circuitos de consagração dos Estados Unidos e seu envolvimento com o campo do jornalismo. Esses passadores desempenham um papel significativo na reprodução e circulação de ideias e produtos culturais que contribuem para a hegemonia da produção comercial editorial no mercado intelectual global.
Bourdieu aponta que os passadores, que são sociólogos-jornalistas, têm uma predileção por questões amenas, ou seja, problemáticas que não são verdadeiramente jornalísticas nem completamente científicas. Eles se orgulham de estar em simbiose com o "ponto de vista dos atores" e expressam suas ideias em uma linguagem acessível e "modernista", que é geralmente percebida como vagamente progressista em relação ao pensamento europeu mais tradicional.
Além dos passadores que realizam estratégias conscientes para benefício pessoal, Bourdieu destaca outros temas, ideologias e autores reconhecidos como progressistas, especialmente no campo da esquerda política. No entanto, esses atores muitas vezes estão engajados na empresa de importação-exportação cultural, sem perceberem plenamente sua participação nesse processo. Eles ocupam posições geralmente dominadas no campo de poder dos Estados Unidos e até mesmo em seu campo intelectual.
Bourdieu apresenta um duplo paradoxo nesse ponto de sua reflexão. Por um lado, há uma luta pelo monopólio da produção da visão do mundo social universalmente reconhecida, que os Estados Unidos exercem de forma excepcional. Eles têm o poder de tornar sua própria ideologia legítima e universal, embora essa ideologia seja baseada em particularismos que se aplicam apenas à sua tradição histórica específica. Além disso, os Estados Unidos são vistos como espaços sociais excepcionais, onde há uma maior fluidez da ordem social e oportunidades extraordinárias de mobilidade social em comparação com as estruturas sociais mais rígidas do "velho continente". Isso gera a ilusão de que é possível entrar nesses espaços e obter consagração.
No entanto, Bourdieu destaca que tanto a sociodicia (uma expressão que denota a desinformação social) quanto as ciências sociais concordam que os Estados Unidos não são fundamentalmente diferentes de outras nações pós-industriais em termos de fluidez da ordem social e oportunidades de mobilidade. Estudos comparativos rigorosos concluem que os Estados Unidos não são excepcionais nesse aspecto, embora a desigualdade de classe seja notavelmente maior nesse país.
Em resumo, Bourdieu aponta o paradoxo da hegemonia cultural e intelectual dos Estados Unidos, onde eles conseguem tornar sua própria ideologia legítima e universal, ao mesmo tempo em que são percebidos como espaços sociais excepcionais de fluidez e mobilidade, embora essas percepções não correspondam inteiramente à realidade.
Para Bourdieu, o que torna os Estados Unidos "realmente excepcionais" na sua vitória na luta pelo monopólio da produção da visão do mundo social universal é, na verdade, o que eles têm em comum com outros países. Ele destaca o "rígido dualismo" da divisão social nos Estados Unidos, o que significa que não há uma sociedade fluida, com mobilidade social e oportunidades extraordinárias.
Essa habilidade dos Estados Unidos em se apresentar como excepcionais está ligada à sua influência na produção e disseminação de ideias e conceitos. Eles conseguem impor sua visão do mundo social como universal, mesmo que essa visão seja baseada em suas próprias particularidades históricas e sociais. Essa estratégia permite que os Estados Unidos sejam vistos como a referência dominante na produção intelectual e cultural, reforçando sua hegemonia.
Portanto, para Bourdieu, a verdadeira excepcionalidade dos Estados Unidos está na capacidade de vender como excepcional o que na realidade é comum, e de impor como universal o que é particular a eles. Isso contribui para sua vitória na luta pelo monopólio da produção da visão do mundo social universal, influenciando e moldando as percepções e ideias em todo o mundo.
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