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A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 2 – 3) Viver enquanto relação e transformação com o mundo. 4) O conhecimento enquanto Afetos com o mundo. 5) Afetos, solidão, esforço e alegria.


A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 2 – 3) Viver enquanto relação e transformação com o mundo. 4) O conhecimento enquanto Afetos com o mundo. 5) Afetos, solidão, esforço e alegria.



3) Viver enquanto relação e transformação com o mundo.


Spinoza conta que a nossa existência, a nossa vida, tem como matéria prima, unidade constitutiva fundamental, não exatamente nós mesmos, mas o conjunto de relações que mantemos como o mundo, assim viver é relacionar-se com o mundo.
 Quando perguntamos “está tudo bem?”, a dúvida, de fato, se trata de como tem sido as relações de certo sujeito com o mundo.
A vida é marcada por relações, os franceses a chamam de rapport, nessa idéia não é o “eu sou” que vive, mas, havendo vida necessariamente ocorrerão relações entre várias partes que constituem um todo, e a vida individual é, justamente, o conjunto de algumas dessas relações, onde a parte que nos toca, corpo e alma, se relaciona com outras partes, constituindo assim o todo.

Concluindo: viver é relacionar-se, em outras palavras, não há como não se relacionar, pois, cada um, sendo parte, e o que lhe define como tal é a relação com outra parte na constituição do todo, não importa para onde se vá, haverá mundo e partes dele com as quais cada indivíduo se relacionará, assim, a boa vida é aquela que relaciona-se bem com o mundo.
A perspectiva de Spinoza entenderia a teoria da auto-ajuda com um olhar estranho, porque ela diz que quando se quer algo isto acontece, o problema é que nessa idéia de relação existem pelo menos duas partes, e elas precisam se harmonizar, daí essa unidade constitutiva da vida enquanto relação obriga a invadir a própria idéia de relação.

Spinoza explica que, p. ex., quando um homem entra em relação com uma mulher, e, ao longo dessa relação, ele transforma ela e vice-versa, conseqüentemente ambos vão deixar de ser o que eram para ser, serão novos, tudo isso em função desta relação. Corpos em relação determinam no outro corpo uma passagem, transformação, produzem efeitos sobre ele. Assim relacionar-se é afetar e ser afetado, transformar e ser transformado, modificar e ser modificado. Então naturalmente que a nossa vida acaba se deixando traduzir por essa mecânica curiosa.

O que é viver? É mudar o mundo e ser mudado por ele. Assim se existimos no mundo, isso quer dizer que o transformamos ininterruptamente, o mundo não é se não formos, estamos transformando o mundo a todo o momento. No exemplo do educador que entra na sala para ensinar seus alunos, essa sua ação os faz dizerem coisas que antes não sabiam, e, pensando diferentemente, conversarão com outras pessoas, o fluxo dos efeitos se perenizará.
Mesmo que alguém esteja em uma praia deserta, sozinho, o vento não vai passar direto, pois terá que dar a volta sobre quem estiver ali.
Mesmo sem ter nada o que dizer, sem ter uma existência que todos reputam excelente, basta viver para transformar, ou se preferir, impactamos inexoravelmente, para não impactar é preciso não ser, pois quem é, impacta.

É claro que aquilo que produzimos no mundo nos escapa quase que completamente, o que outros estarão sentindo, aqui agora, afetados por nós, escapa-nos, quase que completamente, e quando não escapará? No final das contas só temos uma idéia do que produzimos sobre outros quando alguém falar conosco, e, sentirmos aquilo que sentimos em função do que foi dito por ele.
Essa a mais firme convicção de Spinoza: o nosso conhecimento do mundo é tosco, pois não conhecemos o mundo nele mesmo, mas sim na medida em que ele afeta, impacta nosso corpo, nos permite ter sensações. 


4) O conhecimento enquanto Afetos com o mundo.


O mundo em si, sem sensações, é absolutamente fechado para nós, ele só será conhecido na medida em que nos produzir sensações, nos transformar, nos modificar, porque as nossas sensações nada mais são que uma tradução que fazemos das modificações que o nosso corpo sofre nas relações que tem com o mundo.
Imaginemos uma pessoa, o que podemos conhecer dela? Apenas e tão somente aquilo dessa pessoa que nos afetar e nos produzir algum tipo de sensação, dirá Spinoza, porque não se consegue conhecer essa pessoa nela e por ela, mas sim na medida em que nos afeta.
O que conhecemos são os afetos que temos através do nosso corpo, o que sentimos através dele, essa é a única chave que temos para o contato com o mundo.
Nesse sentido, o nosso corpo é um espelho do mundo, é a chave que permite saber do que aquele se trata. Assim a nossa cognição necessariamente é fragmentada, porque em uma situação onde o mundo não nos afete, então passará longe, ao lado, permanecerá hermético a nós, daí dele ser sempre unicamente a somatória caótica das nossas afetações.

Assim, se o nosso corpo é um espelho do mundo, na medida em que o reflete de forma absolutamente contingente, doida, caótica, ao sabor da loucura dos encontros que tivemos com seu reflexo ao longo de nossa história; da mesma maneira, o mundo é um espelho do nosso corpo, na medida em que o permite identificar quem somos a partir das sensações que temos em contato com esse reflexo.
Precisamos do mundo para saber como o nosso corpo se deixa afetar por ele. Quando contemplo a Cléo Pires, p. ex., me encho de júbilo, então, para mim, ela é o espelho. E o que me conta que eu não saberia se não fosse ela? Me conta que o meu corpo, diante do dela, se enche de júbilo, assim obrigado por surgir na minha frente e me contar algo que eu jamais saberia se não fosse tu.

O mundo é um espelho, pois conta para nós coisas que não saberíamos se não fosse ele, e, graças ao mundo, podemos saber que tem alguns mundos que nos afetam de um jeito e mundos que nos afetam de outros, e assim vamos conhecendo-nos observando o que acontece quando eles se relacionam conosco.

Assim veja como somos fadados a sofrer, pois só conhecemos o mundo na medida de nossos afetos, e, só conhecemos a nós na medida dos afetos do mundo. O meu conhecimento de mim e do mundo é estilhaçado, fragmentado, pobre, inconfiável, absolutamente sem método, diriam os cientistas contemporâneos. O que eu sei de mim dependeu, dramaticamente, da loucura e do improviso dos encontros que eu mantive no mundo, tivesse eu vivido em outro lugar o entendimento que eu teria tido de mim seria necessariamente outro, porque outros teriam sidos os espelhos, as informações afetivas que eu teria tido a meu respeito seriam outras, não seria Cléo Pires, mas uma atriz ucraniana p. ex.
Naturalmente então, diante dessa perspectiva, fica mais fácil entender o livre arbítrio e a sua ilusão, não podemos nem mesmo controlar as causas dos nossos afetos e do nosso pensamento, pois ignoramos as duas partes da relação da vida: a nós e o mundo. Estamos absolutamente amarrados por uma limitação que é a nossa, conhecer a nós e ao mundo através do que sentimos.

Não é só isso. Ao viver no mundo somos afetados de forma complexa, plural, o tempo inteiro por muitos corpos.
O mundo nos transforma de forma complicada, são tantas as coisas que ao mesmo tempo agem sobre nossos corpos, mas nós, nessa pluralidade de causas, só temos consciência de uma parcela minúscula, só nos damos conta de um pequeno pedaço de mundo que nos afeta. Imagine a poltrona, cadeira ou banco que você esteja sentado agora, pode fazer segundos, minutos ou horas que ela encosta-se a teu corpo, mas você só percebe isso agora, mas ela continua encostando sempre assim mesmo, percebendo você ou não.
A consciência que temos dos afetos é irrisória em comparação à complexidade da nossa relação afetiva com o mundo. Quantos de nós olhamos e conversamos uns com os outros, quantos de nós nos afetamos nesses encontros, e o quanto percebemos disso? Não é porque não se percebe nada que não produz efeito algum, as pessoas se afetam, mas elas não se dão conta, então se faz vinte, trinta ou quarenta anos que o mundo sufoca alguém, ele não se dá conta de tudo que o mundo o afeta, daí é normal que tenha chegado à sua idade, o mundo lhe transformando, e ele não tendo a menor idéia de como não sabe quem é, e no que o mundo lhe fez para ser assim somente porque ali ou aqui ele percebeu alguma coisa, em outras palavras, não sei quem sou e vou vivendo sendo afetado, afetando o mundo, não sei o que acontece com os outros e quase também não sei o que acontece comigo.

Mas Spinoza acreditava que trazer para consciência esses afetos é também um afeto, afeta também, trata de um afeto que compreende os outros afetos, o que é uma coisa extremamente positiva nessa nossa sina de aprender a viver, a auto-análise dos afetos, falando de forma mais contemporânea, procurar ser menos grosseiro na hora de se relacionar com o mundo, conseguir se dar conta das nuances afetivas dos encontros com o mundo.

Quando o mundo nos transforma, o que ele muda em nós? A resposta de Spinoza é: tudo. A maior certeza de que o mundo muda tudo em nós, dirá Spinoza, é que a nossa essência sempre estará diferente a cada momento, por isso ela será sempre atual, a nossa potência de agir oscila nos encontros com o mundo. Assim afeto é a tradução de que o seu corpo dá para as oscilações de potência que o mundo lhe impinge, para as transformações que o mundo determina quando se relaciona com você. Afeto é o que você sente dos efeitos que o mundo te acarreta, para falar diferente, afeto é a subjetivização dos efeitos objetivos que o mundo produz sobre seu corpo. Canela na quina da cama, p. ex., ruptura do osso: encontro objetivo; dor: tradução subjetiva daquela objetividade em ruptura.


5) Afetos, solidão, esforço e alegria.


Somos todos solitários, porque naturalmente na medida em que encontramos o mundo, o fazemos com o corpo que é nosso, daí como a sensação é o resultado desses encontros e o nosso corpo é particular, não genérico, a sensação que temos, ao final, será apenas nossa, ninguém sente o que sentimos, mesmo diante da mesma explicação, mesmo diante do mesmo explanador, da mesma sala de aula, cada um com sua sensação, na estrita solidão dos afetos.
A solidão é a nossa sina, o isolamento não, podemos nos reunir em bandos para fazer algo, mas, mesmo no coletivo, somos solitários, porque não compartilhamos afetos, assim solidariedade é uma ilusão, cada um com a sua sensação. Mesmo quando damos causa ao afeto do outro ter-se-á uma sensação estrita dele, nada alegra por definição, nada alegra por princípio.
A alegria se dá no mundo da vida, na particularidade dos encontros, na virgindade das relações, e é exatamente aí que nos encontramos, cada um com a sua potência, cada um com a sua essência, cada um se esforçando para continuar sendo o que é, perseverando no ser.

Daí é claro, se a nossa potência é a nossa essência, se estamos no mundo, é porque a nossa potência oscila afetada pelo mundo, por isso a necessidade do esforço, conforme já havia dito, não somos o que somos tranquilamente, mas sim com dificuldade.
O homem não é homem com sossego, precisa sim se esforçar para sê-lo, mas se o homem já é homem, porque ele precisa se esforçar para sê-lo? Afinal se o homem é homem, sendo assim, já estaria bem, nos termos da lei da inércia. Essa lógica funcionaria se o mundo não tivesse à frente deste homem, de forma inapelável, inexorável, impondo-se, transformando-lhe e ele tendo que resistir, afinal o mundo é criativo na hora de ser lesivo, pitoresco na hora de apequenar, por isso para continuar sendo homem não pode tratar de ficar descansando, mas tem de resistir ao sabor dos encontros e das relações, porque a vida é no mundo.

É o desequilíbrio que caracteriza a vida marcada pela oscilação, trânsito, fluxo permanente. A obsessão humana, resistindo a isso, trava batalhas por estabilidade, eternidade, cuida do medo da morte em vida, do fluxo, de deixar de ser, mas todas essas atitudes de nada adiantam, pois embora seja desejante, tenha força e potência, contra ela há um mundo que poderá agredir sempre com contundência superior à sua capacidade de resistência.

Morte inexorável, à contramão de nossos mais genuínos anseios, é inapelável porque a natureza sempre tem uma força superior à nossa, resistiremos para perseverar no ser, essa conduta pemenece certo tempo, depois a resistência acaba e aí o ser vira outro, com nova força e nova resistência, e isso é só o que estamos fazendo, lutando para perseverar no ser, numa aventura de derrota certa e segura, para constatar essa assertiva basta fazer um passeio pelos cemitérios ou hospitais da cidade.

Mas sabemos que a vida não é só isso, a gestão da desgraça, é quase só isso, porque a nossa potência de agir não cuida somente de queda, certamente não podemos imaginá-la como um tobogã inapelavelmente descendente, não. Falo isso porque as relações com o mundo são tão complexas que elas conseguem também reforçar, ou, sendo mais contemporâneo, empoderar, dar potência, reforçar, dar força, aumentar a capacidade de resistir, até isso acontece na vida, ganho de potência de agir. Assim fundamentalmente vamos vivendo, haverão mundos que comporão bem conosco e aperfeiçoando-nos, outros que comporão mal, ou, se preferir, mundos que nos decompõe e nos imperfeiçoam, nos apequenam, eliminam a nossa resistência de perseverança no ser, assim a potencia de agir oscila nos encontros com o mundo.

Naturalmente, quando o mundo compõe bem conosco e a nossa potencia de agir se eleva, sentimos essa subida de potência de agir, e essa sensação, esse afeto, essa tradução da subida objetiva da potência de agir receberá o nome de alegria, passagem para um estado mais potente, perfeito do próprio ser. Porque perfeito? Porque, para Spinoza, a perfeição não está em verdades eternas, absolutas, supra-sensíveis, mas está na potência de agir.

Se o homem é a potência do homem para continuar sendo assim, ele estará mais perto da perfeição quanto maior for a sua potência para resistir contra tudo aquilo que tenda a negar a sua existência. Mais do homem no homem, isto é alegria do homem, porque cada alegria é uma, cada instante alegre é um, e mais do homem no homem é o reforço de sua vida, é o seu aperfeiçoamento existencial, nos aperfeiçoamos quando nos alegramos, nos alegramos quando temos mais de nós em nós, porque a potência é a essência, mais do homem no homem graças ao mundo, isso não é um trabalho de sigo consigo, mas se faz na vida, e sendo na vida, ocorrerá nas relações, nos encontros, na trajetória, no afetar e ser afetado, por isso que alegria é afeto, portanto, não poderá prescindir dos corpos que conosco se relacionam no instante em que nos alegramos.
Não há vida interior que possa prescindir de toda a exterioridade da relação de nossos corpos com o mundo, não há beleza interior, endoscópica, que possa abstrair-se de tudo aquilo que o mundo faz com o nosso corpo a cada segundo, eis aí a firme convicção de Spinoza.
Alegria é a passagem para um estado mais potente e perfeito do próprio ser.
É claro que a tristeza é o seu contrário simetricamente, tristeza é decomposição, é perda de potência, de essência, força, energia, menos do homem no homem para resistir. Há mundos que alegram, outros que entristecem.

O que é irritante nesses arautos da simplificação da vida é que eles fazem acreditar que, no final, tudo depende só de você, e entristecendo-se a culpa é sua, pois somos vítimas de uma cultura da culpa, miserável herança platônica, vulgarizada por uma centena de profetas que nos fizeram acreditar que tudo de ruim que acontece em nós é culpa nossa, nessa concepção seríamos nós que não quisemos direito.

Então perceba-se que, no final das contas, a filosofia de Spinoza que nos coloca no mundo, pois o vento venta e a maré mareia, se o vento não ventasse a maré não marearia, mas como o vento venta a maré mareia, assim um depende do outro, agora imagine se o vento fosse filho de deus, como nós somos, e ele não quisesse ventar, reivindicando sua liberdade, controlando a si mesmo, e a maré que se dane, se quisesse marear que se virasse, essa situação pode até parecer hilária com o vento e com a maré, mas com o homem ele vai se achar filho de deus sem se olhar no espelho, assim não nos devemos tornar superior a nada, o  vento venta, o gorila gorileia, e o homem é o que é.

Diferentemente dos livros motivacionais de auto-ajuda que ensinam a iludir a própria vida, nessa filosofia busca-se estudar as coisas como elas são, e o que se ganha com isso? A possibilidade de, pelo menos, se dar conta do porque se sofre tanto. Então tivemos a oportunidade maiúscula de chegar aos dois primeiros afetos raiz do Spinozismo, alegria e tristeza. O que é interessante é que a alegria e tristeza não se tratam de afetos episódicos, nem são estados para dizer “estou alegre”, mas tratam de passagens. Enquanto não entender que o mundo está em relação, e estando assim está em transformação, daí só pode ser passagens. É nesse momento que os estados darão lugar a afetos, tipos de transformação, e daí pode-se dizer “fui afetado de alegria”, pois se relacionou bem com o corpo que compôs bem com o mundo e determinou em nós a passagem para um estado mais potente e perfeito do nosso próprio ser.

Essa alegria é uma passagem, mas não se pode viver assim, alegre e triste, ao sabor da imprevisibilidade absoluta, é necessário haver referências que o protegem, expectativa de alguma certeza de durabilidade dos afetos, precisa-se criar um orbital de alegrias prováveis, que é um espaço de possibilidades onde a alegria pode estar, seja em uma aula, em um lugar em uma circunstância, é normal que se faça isso. De certa maneira a nossa experiência nos permite uma certa memória daquilo que nos alegrou e nos entristeceu, e com base nesse acervo, podemos forçar encontros alegres e fugir de encontros tristes, agora acreditar que  sempre essa matemática possa dar certo é uma bobagem, pois se pode alegrar com algo, e esperar que mais disso vai alegrar-te também, até ocorrer um enjôo, dessa experiência percebe que as experiências passadas são tudo que se tem, mas elas não dão conta da virgindade do ineditismo do instante da vida, quer saber, melhor assim, como seria chato se a gente aos vinte anos descobrisse todos os segredos da vida e depois só aplicássemos fórmulas até morrer, seria de uma bestialidade digna de um autor de auto-ajuda. Felizmente não funciona assim, encontros inéditos, virginais e irrepetíveis fazem com que toda fórmula esteja caduca no instante mesmo em que a alegria foi substituída por uma tristeza e esta substituída por outra alegria.
Fórmulas caducas, o que nós empregamos é a experiência, que se trata de coisa de gente velha, ser experiente é possuir um monte de formulas caducas, chaves para portas que não existem mais, para fechaduras já trocadas, sempre renovadas por um corpo sempre inédito, encontrando um mundo que também nunca encontrou antes, e é por isso que nessa radical necessidade de improvisar, diante de uma vida sempre nova, que tudo aquilo que utilizarmos, como já sabido, pode até ajudar, afinal é tudo que temos, mas nada nos garantirá, por isso a tristeza continuará fazendo parte da vida, por isso o mundo continuará agredindo, e, saber disso certamente nos prepara melhor do que ter a ilusão de uma felicidade eterna como resultado de uma simples fórmula qualquer.

A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 1 – 1) Quem é Spinoza. 2) Spinoza e outros pensadores mais familiares.

A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS AFETOS – parte 1 

1.) Quem é Spinoza.


Spinoza, sendo um exemplo de pensador moderno, tem como uma das características de seu pensamento, e também a sua crítica, a pretensão de explicar tudo. Esses pensadores construíram verdadeiros edifícios filosóficos, complexos sistemas que pretendem dar conta de qualquer problema ou questão, assim muito difícil apanhar um aspecto da obra de Spinoza, que não respingue, que não tenha de se recorrer ao resto de sua obra, porque todas as partes desse sistema se relacionam de forma muito imbricada, sendo muito difícil isolar um assunto em relação aos demais.

O texto de Spinoza tem uma forma muito particular, o autor não escreve um texto corrido, mas em forma de teoremas, assertivas, e depois de proposições, de demonstrações, e, portanto, de certa forma, a maneira do pensamento de Spinoza já é indicativa de muito da especificidade da sua maneira de pensar.

A pretensão é de fazer afirmações absolutamente indiscutíveis a partir das afirmações anteriores, tentando explicar: se isso é assim, aquilo é assado e aquilo é frito, então o resultado disso só pode ser esse, se isso é assim, aquilo só pode ser assado, e assim ele vai tirando conclusões e fazendo inferências, tendo a pretensão de chegar a resultados indiscutíveis sobre as coisas que fala e ensina, nesse sentido, o texto de Spinoza é difícil por conta da complexidade de suas idéias, mas não tem enrolação, tudo que está ali é o mínimo necessário para explicar o que se queria dizer, muito diferente daquele escritor que coloca muitos exemplos desnecessários para conseguir completar o número de páginas que a editora considera legítimo para um livro.

A obra de Spinoza é apresentada em forma de extratos, condensada, pode-se até diluir o trabalho deste autor, mas é imprescindível utilizar alguma forma de interpretação pessoal de cada intérprete, daí se pode demonstrar a maneira de pensar do escritor diferentemente, aliás esse é o risco que toda interpretação corre.


2.) Spinoza e outros pensadores mais familiares.


2.1.) Diferenças entre Spinoza e Platão.


O primeiro pensador é Platão, e porque ele? Trata de um pensador que abastece o senso comum, por conta do que aconteceu depois dele e das pessoas que influenciou, ele faz parte da nossa cultura, daquilo com que estamos mais acostumados, daí relacionar Spinoza com Platão é sempre bem vindo, principalmente para entender o quanto Spinoza pode ser subversivo em relação ao entendimento cotidiano das coisas.

O primeiro degrau do pensamento de Platão é um degrau que nos acompanha no senso comum, a ideia de que o homem é constituído por dois tipos, partes, substâncias: o corpo e a alma.
- O corpo é material, extenso, sensível, desejante.
- A alma, o contrário de tudo isso, é imaterial, portanto ela sempre existiu e existirá, eterna, não finita, não se deteriora, não se corrompe. Ela não sendo material, também não tem forma, e, portanto, da mesma maneira em que se pode descrever o corpo não se pode fazer com a alma, porque não há o que descrever.
Assim, o único jeito de falar da alma é apresentando o seu papel, sua finalidade, sua função. A função primordial da alma, para Platão, é pensar, então, a primeira grande idéia do pensamento de Platão: quem pensa, quem filosofa, quem articula intelectivamente não é o corpo, essa idéia é imprescindível para nós, a alma é que é responsável por aquilo que passa pela nossa cabeça, usando a metáfora. Nesse sentido, abordaremos as conseqüências desse dualismo corpo e alma:

A) A Soberania possível da alma em relação ao corpo:

O corpo pode sentir qualquer coisa, ter suas carências, encontrar e perceber o mundo como quiser, mas nada disso tem, digamos, uma influência necessária pelo que passa na nossa cabeça. Em outras palavras, o nosso pensamento pode ir à contramão, desmentir, os nossos apetites e percepções corporais de mundo.
Esse é o dualismo de Platão: a alma não é o corpo, o corpo não é a alma, a alma sobrevive ao corpo.
Assim perceba, nessa soberania possível, entre a alma e o corpo, existe uma relação, pois, de certa maneira, aquilo que o corpo percebe no mundo vai participar da atividade intelectiva da alma. A expressão participa aqui é muito importante para nós.
Mas, partindo-se da ideia de que existe uma matéria prima sensorial, da qual nós não podemos abrir mão por ela ser o começo de tudo, quando nossa alma começa a trabalhar, pode, e, de certa maneira, deve buscar verdades absolutas daquela matéria, que são aquelas inalcançáveis através dos olhos do corpo.
Assim, de certa maneira, nessa relação entre corpo e alma, há uma hierarquia, a alma é superior ao corpo por cuidar de coisas mais importantes, buscar verdades que não são através do corpo que encontramos, de tal maneira que, essa hierarquia faz com que se possa, inclusive, classificar as pessoas em função da relação que elas mantém entre corpo e alma, daí existirem pessoas superiores a outras, porque elas, de certa maneira, conseguem controlar as rédeas da própria vida com a alma, sendo superiores àquelas que estão a mercê dos apetites do corpo, assim, havendo pessoas superiores à outras, e a superioridade ocorrendo nessa relação corpo-alma, daí essas pessoas também devem mandar, ser politicamente dominantes, pois, de certa forma, elas podendo pensar melhor, de forma mais soberana, têm melhores condições de identificar o certo e o errado, o justo e o injusto, o adequado e o inadequado, e isso seria melhor para toda a cidade.
Aqueles que não são bons de pensamento, que estão muito amarrados pelos apetites do corpo, o que podem fazer, no máximo, é respeitar as leis elaboradas pelos bons pensadores, daí já estarão fazendo o que de melhor podem fazer, classificadas como gente xucra, que não são do ramo, quando as pessoas estão classificadas assim não adianta insistir, gastar dinheiro em políticas públicas e propiciar educação para eles, porque apenas 2% ou 3% que vão conseguir alguma coisa, o resto teria de trabalhar só com o corpo mesmo. Essa é uma postura elitista do pensamento de Platão.

É exatamente nesse ponto que nos interessa: Spinoza não é um pensador dualista. Trata de um pensador que vai nos apresentar uma nova maneira de entender a nós mesmos.

Nessa perspectiva, corpo e alma são dois modos de manifestação da mesma substância, em outras palavras, só existe uma substância que está por trás de tudo o que se pode imaginar, assim tudo, na verdade, é derivado dela.
O corpo e o pensamento, produção da alma: são dois modos de que o homem dispõe para se relacionar com a realidade, são duas chaves de fato, mas isso não quer dizer que existam só essas duas formas de manifestação da substancia única, não, certamente há muito mais, o homem é que, com suas limitações, só consegue se dar conta de duas das formas de manifestação.
Para entender melhor essa parte, imaginemos uma vitrine de um restaurante de massas, a massa, para produção dos alimentos ali expostos, é uma só, dela se faz macarrão, pizza, inhoque, coxinha etc., na vitrine observa-se existir muitas maneiras dessa massa se apresentar, se manifestar, assim, de certa forma, acabamos nos relacionando com aquela massa por intermédio das muitas formas de manifestação dela encontrada na vitrine. Supondo que a grande massa que está por de trás de tudo o que existe seja essa substância única, os corpos e o pensamento são as duas maneiras que os homens encontram na vitrine de manifestação do “restaurante” da substância divina que constitui o universo, as duas maneiras dela se manifestar para a humanidade.
Spinoza deixa claro ser possível que, nesse mesmo instante, a substância única, constituinte de tudo, esteja se manifestando através de um milhão de maneiras, mas nós só percebemos duas. É claro, nos damos conta que o pensamento ou coisas que passam pela nossa cabeça, são diferentes, por ex., de uma bola de futebol que podemos segurar, o pensamento e a materialidade das coisas que encontramos são manifestações diferentes, percebemo-las diferentemente, mas, que fique claro, são manifestações provenientes da mesma substância.

Spinoza, ao dizer isso, está sugerindo que tudo o que se passou pela nossa cabeça, as reflexões e os pensamentos, juízos de valor, ponderações morais, assertivas sobre como o mundo deve ser e etc., caso algum dia imaginamos que tudo isso não tem a ver com o corpo, supomos equivocadamente, em outras palavras, aceite, desde já, que sendo seu pensamento proveniente da mesma substância que as tuas tripas, eles tem a ver um com o outro, de tal maneira que se quiseres saber por que alguma coisa passa na sua cabeça, saiba é preciso admitir aquilo que passa pela cabeça estando relacionado com o que acontece com o seu corpo.
Enquanto para Platão o que passa pela sua cabeça pode não ter nada a ver com o que você sente, para Spinoza é o contrário. Para Platão um juízo, assertiva, algo que se pensa, pode julgar do lado de fora uma sensação que você mesmo sente, e o indivíduo, como controla as rédeas do cavalo da própria vida pelo que pensa, ou julga, ele, de certa forma, define as condições de satisfação daquilo que sente. Para Spinoza o que tu sentes e pensas caminham paralelamente, sendo que não há a menor possibilidade de um dominar o outro, de tal maneira que, nesse sentido, Spinoza tem pelos afetos um respeito, uma preocupação de entender muito maior do que tem Platão, e, de certa maneira, Spinoza reconhece que a nossa capacidade intelectiva não é tão autônoma e soberana assim, mas ela é inseparável daquilo que sentimos, na medida em que o nosso corpo vai vivendo no mundo.

B) O desejo:

Ainda comparando com Platão. O pensador grego fala sobre o amor em um diálogo intitulado “O banquete”, que tem milhares de interpretações. Esse amor é Eros, e o discurso platônico oficial do amor é que amar é desejar, e, o que nos interessa: o desejo é a falta. Essa relação do desejo com a falta atravessa os séculos até chegar à libido de Freud. O desejo de Spinoza não é a falta, pelo contrário, é a nossa própria essência, nosso próprio ser, se preferir, traduzindo de outra forma, somos desejantes, o desejo é a nossa característica maior, a nossa essência. Esse desejo, potência, energia que nos anima, Spinoza também vai chamá-lo, assim como Hobbes, de Conatus, é o tesão pela vida, que não é falta, mas é, pelo contrário, bem presente em nós.
O desejo de Spinoza é esforço presente, real, vital, que fazemos a cada instante para ser o que somos, em outras palavras, somos um esforço para ser o que somos, ou se preferir, somos um esforço para perseverar no próprio ser.
Aqui o desejo não se trata do que gostaríamos de ser, como em Platão, mas sim do esforço que fazemos para ser o que já somos, claro, porque, para Spinoza, ser o que já somos requer esforço, em outras palavras, você não é o que é numa boa, mas sim com suor. Para o homem ser homem, e continuar sendo assim, de certa maneira, desabrochar como homem, para o homem ser homem no homem, é preciso que ele coloque esforço em sua história, e a isso se dá o nome de desejo ou de conatus, essência, ou como preferir, nós estamos, o tempo inteiro, nos esforçando para sermos nós mesmos, para perseverar no próprio ser.


2.2.) Diferenças entre Spinoza e Aristóteles.


A) A Potência:

Há diferença da potência de Aristóteles para a potência de Spinoza, a palavra é a mesma, o sentido é outro, por quê? Imaginem um ovo de avestruz, quebrado, dele pode sair duas coisas: avestruz ou gema, não pode sair um pato. Para Aristóteles um ovo de avestruz é potência de avestruz, não de pato, porque para ser potência de pato o ovo deveria ser desta espécie. Algo, potencialmente, pode se transformar em muitas coisas, mas existem outras que ele não será nunca. Por ex., um professor indo para a escola é potencia de aula, pois a aula se atualiza no momento em que é ministrada, assim ele pode dar aulas de níveis excelentes a péssimos, mas existem conteúdos que o professor não consegue ministrar, está fora dessa possibilidade de atualização.
Para Spinoza não, a potência já é a energia e esforço em ato que se está disponibilizando na aula para ministrá-la, então, se for observar Spinoza com o olhar de Aristóteles não encaixa, pois aqui potência não é uma possibilidade de vir-a-ser, mas uma concretização existencial no mundo. Assim, naquele exemplo, o professor se serve de uma quantidade de energia para ministrar sua aula, essa é a sua potencia de agir no instante. A conseqüência disso é que, para Spinoza, a potência de alguém, naquele instante, é a sua essência, aquilo que ele chama de essência atual, aquilo que lhe é essencial, é a energia que gasta para viver naquele instante específico.

B) A Essência:

Para a tradição filosófica a essência é sempre encontrada pela razão que está por de trás das aparências que mudam, sendo sempre aquilo que não muda, a verdade imutável que está por trás daquilo que percebemos em um mundo de fluxos. Se focarmos nesta tradição e perguntássemos sobre a potência atual para Spinoza, ele responderia que não se trata de potência atual, nem desatualizada, mas ela é o que é, trata da verdade que transcende o fluxo da vida, ora, para Spinoza, a essência de cada um de nós é a sua potência, sua energia vital, e ela é atual sim, porque daqui a quinze segundos ela já foi transformada e será outra, assim, nessa concepção, o que nos é essencial oscila, varia, está a mercê das contingências da vida.

C) Liberdade:

A tradição filosófica nos diz: já que o homem é corpo e alma e eles são soberanos entre si, pelo menos possivelmente, o corpo encontra corpos, assim ele está na vida, e, por isso, vai se corrompendo, se deteriorando, por mais que resista é inútil. Já a alma não falece com a morte do corpo, ela pode inclusive habitar outros corpos.
A diferença é que, enquanto com os corpos as coisas acontecem apenas como poderiam acontecer, este sendo regido pelo princípio da necessidade, ele funcionaria como o vento, a maré. Já a alma, não sendo corpo, guarda certa independência com relação a este, o que nos permite fugir dessa rede de relações causais, de tal maneira que, graças à alma, nós poderíamos ter alguma liberdade para decidir sobre a própria vida, em outras palavras, se fôssemos apenas corpo seríamos como só como poderíamos ser, mas, como temos alma, podemos participar da condução da vida, a isso dá se o nome de liberdade, Spinoza, como era de 1600, foi muito influenciado por uma época de predomínio de certas nomenclaturas, daí chamava isso de livre arbítrio.
Nessa concepção quem escolhe apresenta liberdade para escolher, o resto da natureza não a tem, mas os homens sim, pois suas almas lhes permitem essa prerrogativa. De acordo com essa tradição há o mito de Prometeu e Epimeteu, que Platão, no diálogo Protágoras, explica tão bem, nele, Epimeteu fez os animais, e deu a eles tudo que precisavam para viver, já Prometeu, quando ia fazer o homem, ficou sem nada para construí-lo, e por isso, acabou lhe dando a astúcia do palácio de Atena, para permitir-lhe fabricar a vida por si mesmo, já que ele estava zerado de apetrechos, não tem casco, corre devagar, é desequilibrado, bípede, torto, então a inteligência compensaria tais debilidades, daí ele poderia decidir por si sobre a vida, nessa concepção o livre arbítrio que acompanha o homem é tido como algo bom, o poder de decidir sua própria vida.
Para Spinoza o livre arbítrio trata-se de uma ilusão, e, sendo assim ele não é realidade, tal como nós o entendemos, em outras palavras, o vento venta só como poderia ventar, a maré mareia só como poderia marear e o homem existe só como poderia existir, nenhuma diferença, o homem não escolhe, daí tratar-se de uma ilusão. Quando se demonstra que o livre arbítrio trata de uma ilusão, é preciso deixar claro que, para Spinoza, o homem não goza de nenhum privilégio ou superioridade em relação ao resto da natureza, de tal maneira, sendo assim, sentimos o que só poderíamos sentir, e, como pensamento caminha em paralelo com as nossas sensações, pensamos o que só poderíamos pensar, dada certas condições materiais e efetivas de existência, razão pela qual o que passa pela sua cabeça é só o que poderia passar por ela, dado certo momento de afeto de seu corpo no mundo. Daí você pensa o que só poderia pensar, por isso, tudo em você é só o que poderia ser. E se perguntasse, porque eu acho que escolho? Por não conseguir identificar as causas adequadas, que realmente determinam os efeitos daquilo que se sente, e, muito menos, daquilo que se pensa, de tal maneira, acontece que o homem vai vivendo no mundo, sentindo, sem saber por que sente o que sente, e vai pensando, pensa sem saber o que pensa, e, nessa ignorância que é a sua, na hora de explicar porque se vive, como se vive, e concluir que não se tem idéia do que acontece com ele, se diz que é livre, é mais nobre, mais dignificante, ao invés de assumir a ignorância visceral que é a tua dos afetos e pensamentos, dá sé um salto para a transcendência, se considera filho de deus, e portanto, livre para fazer de tua vida o que bem quiser. Naturalmente não sabendo o porque se sente o que sente, é desagradável sentir sem saber o porquê. Não sabendo o porquê se pensa o que pensa, é desagradável pensar sem saber o porquê, então nada mais reconfortante do que considerar-se soberanamente autor de si mesmo, filho de deus, um deus em miniatura, arrogância de homens tristes e ignorantes.

Na teoria da auto ajuda ensina que devemos ver a vida cor de rosa como ela é, alegando que quando se quer de verdade algo, isto acontece, e quando não ocorre, tal fato se deu porque não se quis certo. Imaginemos todos no avião da air France, saindo do Rio de Janeiro rumo à Paris, alguns passageiros ali para passar lua-de-mel, outros com filhos pequenos me sua primeira viagem, de repente quatro minutos de queda livre, certamente muitas pessoas desejaram que aquele avião voasse, e agora, sendo recolhidos os seus restos do fundo do mar, é curioso dizer que eles não desejaram certo.

ENTENDENDO SARTRE - Parte 2 (final)

No existencialismo existência precede a essência.

A primeira ideia é a definição de existencialismo de Sartre, presente em sua Obra “O Existencialismo é um humanismo”. No existencialismo a existência precede a essência. O que isso quer dizer? Sartre quer dizer com isso que na tradição filosófica, dentro da chamada metafísica, sempre se acreditou que primeiro havia um conceito, idéia, natureza, essência humana, e depois cada homem particular, por ter nascido, vive de acordo com essa essência de homem. Nesse caso ele primeiro teria uma definição, depois viria a vida, e essa seria do jeito que é porque a definição assim determina. Ex: Para Aristóteles o homem é um ser social e racional: eis a definição, a partir daí nasce o homem, logo ele vive na sociedade e usa a razão. Note-se: primeiro veio a definição, depois veio a vida do homem, primeiro a essência, depois a existência.
Sartre diz que não ocorre desse jeito, porque o supra-sumo dessa anterioridade da idéia em relação à existência é o chamado argumento ontológico da existência de Deus. Tal argumento consiste na prova da existência de Deus partindo da ideia que ele é perfeito, assim perceba que sua definição surge antes de qualquer coisa, daí dizer que Deus é perfeito, significa o mesmo de dizer que ele tem todos os atributos possíveis, ora, se Deus é perfeito, e tem todos os atributos, o que não pode deixar de ter é não existir, porque senão ele não seria tão perfeito assim, logo Deus existe. Assim partiu-se da definição e concluiu pela existência. Para Sartre não se pode deduzir a existência de algo através de uma ideia, afinal quem falou que Deus é perfeito, partiu de uma idéia tirada do nada, e depois acabou concluindo que Deus existe a partir de uma idéia que não existe, é o que se chama de sofisma. Ex: O Sofá é azul, todo sofá é azul, esse sofá é azul, logo esse sofá existe, a ideia inicial de que o sofá é azul veio de onde? Essa é a premissa de onde se parte, ela não garante nada, assim definiu-se a existência de uma definição que não se sabe de onde surgiu. Assim o argumento ontológico é esse que se acabou de dizer: se Deus é perfeito, e ser assim significa ter todos os atributos, a existência é necessariamente um deles sobre a idéia de Deus, logo Deus existe, depreende-se a existência a partir da idéia. Em objetos como, por ex., uma tesoura, se pensou em um objeto para cortar outros objetos que tenha funcionalidade, e daí se projetou dois cabos e lâminas para servir para esse fim. Para o homem, Deus precisava de homens, criou a ideia de homem, e ele é a aplicação concreta da idéia de Deus, como a tesoura na gaveta é a aplicação concreta da idéia do tesoureiro. Porém, e se não houver Deus nem a idéia de homem?
É daqui que partimos, se na tesoura a essência precede à existência, no caso do homem a existência precede a essência, em outras palavras, ao invés de termos a idéia de homem, e depois termos vidas de homens adequadas a essa idéia, temos o contrário: não tem ideia nenhuma anterior à vida, primeiro o homem vive, depois ele descobrirá quem ele é, a existência precede a essência. Esse pensamento é extremamente libertador, pois se um homem fosse algo antes de viver, Deus teve uma idéia dele antes de nascer, uma finalidade ou missão, nesse caso, relacionando, poderia uma tesoura desistir de cortar papel e servir de cotonete? Não. O existencialismo é a única filosofia que leva a sério a questão da liberdade.
A crítica da liberdade do existencialismo em relação ao livre arbítrio cristão, nesse último, Deus, sendo perfeito, já sabe o que vai acontecer, só que ele dá a liberdade ao homem para fazer dela o que quiser, mas Deus, sendo perfeito, já sabe o que ele vai fazer ?!? Replicando a essa crítica o cristão dirá que esses fazem parte dos mistérios da fé.
Sartre não concorda com essa justificativa, vai dizer que não tem Deus, não tem idéia, não tem natureza humana, o que se tem é uma relação sexual que findou em nascer o homem, daí ele vai viver como tiver a gana para tanto, descobre quem é em função da maneira como se vive, a vida vem antes, a definição de vida vem depois, a vida é a matéria prima da essência, e só nessa concepção que se é livre, porque não há nenhuma idéia anterior, a tesoura não tem liberdade para ser cotonete, carro não tem liberdade para ser um leão, mas o homem, que não é nada, tem liberdade para ser tudo. O homem é o nada, e pelo fato de não ser nada pode ser o que quiser.
Se a existência precede a essência não existe nenhuma natureza humana, em outras palavras o homem não tem nenhuma essência, a vida do homem não está subordinada a nenhuma definição que lhe seja anterior, em outras palavras, o homem tem 360 graus de possibilidades existenciais, está solto no mundo por ser nada, e, sendo assim, pode tudo. Não havendo natureza humana perceba que não há, por ex., natureza feminina ou masculina, a mulher é um homem como outro qualquer, não é porque uma pessoa é mulher que deva viver como mulher, porque, como ser mulher não é nada, a vida da mulher está tão aberta quanto à vida de qualquer homem, portanto, a natureza feminina não escraviza a natureza da mulher ou do homem, pois elas não existem. Acreditar que a mulher é naturalmente propensa a maternidade trata de escravizar a vida em nome de uma definição, como também não há natureza de negro, judeu, japonês, a vida está aberta a todo mundo.
Trata-se de um conceito libertador, pois não precisa dar conta de uma definição, pagar pedágio de uma essência ao longo de sua vida, pois a cada segundo há um universo de alternativas existenciais. Caso fôssemos como uma tesoura, por ex., só poderíamos abrir e fechar, a nossa realidade seria cortar papéis, qualquer coisa escapando disso seria uma blasfêmia contra a idéia de tesoura, no nosso caso não há uma idéia de homem que se refira a ele. Na concepção contrária a essência anteciparia a existência, só se teria o bem se houvesse encaixe à idéia que anteriormente se fez do homem para que ele pudesse existir, a partir de agora a existência está desamarrada de qualquer essência. Somos livres.

O Fardo da liberdade.

Poderia se imaginar que essa liberdade é algo bom, Sartre teria anunciado a boa nova, ou inaugurado o fundamento da zona, foi o preceito da revolução de maio de 1968: “é proibido proibir”, a liberdade é a nossa condição, toda interdição parte de uma essência que escraviza a existência, não somos nada, e, portanto temos o direito de optar por tudo.
O outro lado que a revolução de maio de 1968 esqueceu de ler em Sartre é que toda liberdade tem correlata a responsabilidade de ser livre. Uma tesoura não é responsável por cortar, existem algumas profissões onde seus profissionais se apresentam como ferramentas, apresentando-se dessa forma são como tesouras, mas essa não tem vida inteligente, daí sua essência preceder sua existência em 100%, daí ela não ser responsável por nada.
Quando somos responsáveis por nossas deliberações? Quando deliberamos, quem delibera é quem escolhe, quem tem possibilidade de escolher, quem não tem essência que escraviza a existência, quem não é nada delibera, quem delibera é livre para deliberar, e quem é livre para deliberar é responsável pela deliberação. Na empresa o empregador concede responsabilidades ao funcionário, mas não lhe concede liberdade deliberativa, assim ocorrendo algo errado o funcionário é o responsável, já ocorrendo algo certo fez a única coisa que poderia fazer, ou seja, ele é ferramenta quando acerta, e nada quando erra, esse é um esquema desgraçado que se chama trabalho. A responsabilidade é correlata da liberdade e para ser livre é preciso não ser nada.
Qual é a condição do nada? O que é preciso para que o homem, não sendo nada, seja livre, pergunta Sartre.
A resposta a essa pergunta é o que Sartre chama de consciência de si. Usando exemplo para explicar: quando alguém afirma que come demais à noite. Observe-se nessa afirmação um afastamento em relação a si mesmo, nessa afirmação ocorre o surgimento de dois, o que come de noite, e o outro, que o observa, o recrimina, se fosse possível o esganaria, perceba que há o sujeito e o objeto na mesma pessoa, a isso Sartre denomina consciência de si, só o nada permite a consciência de si. Aquela tesoura, por ex., não tem consciência de si, o gato não tem consciência de si, pois ele é, e, sendo, ele é e acha que é, existe uma coincidência entre o que ele é e o que acha que é, assim, só no caso do homem há um afastamento possível entre o eu e o seu objeto. Essa é a condição da liberdade, porque é só podendo ter a mim mesmo como objeto de observação é que posso deliberar o que é melhor para mim, se o eu coincidisse com o eu, não haveria escolha, mas, como tem o eu sujeito e o eu objeto, o eu sujeito anda com o eu objeto, e isso só é possível havendo consciência de si, no afastamento do eu em relação ao eu.
O nada: é a condição da liberdade através da consciência de si. A consciência de si é o caminho através do qual o nada que somos consegue livremente deliberar a própria vida e se responsabilizar por ela. A ideia de que a liberdade é felicidade ficou por conta da publicidade e propaganda, porque no humanismo não há essa concepção. O homem tem um problema que os animais não têm: tudo o que realizam faz parte das regras do jogo, já o homem, não sendo nada, consegue fazer da vida o que bem entende, por ex. matar seis milhões de pessoas do nada. :/
Não se trata do homem poder fazer as escolhas, se trata dele ter obrigação de fazer as escolhas. Somos condenados a ser livres. Isso quer dizer que ser livre não é um privilégio típico de um filho de Deus, pois um animal que não é livre está com a vida pronta, todos tem a vida pronta, já o homem não a tem assim, nesse caso ele deve efetuar um trabalho que ninguém mais é obrigado a ter, porque o Epimeteu arrumou a vida de todo mundo e o prometeu teve que nos dar o artifício da liberdade para escolher, justamente pelo fato de a sua vida não estar pronta, daí o homem ser o nada, e, nesse caso, deve escolher.
Algumas escolhas são fáceis, como por ex. machucar ou não a outrem, trata de uma escolha que não aflige, mas existem pessoas não só que discordam desse posicionamento, mas optam pela outra solução e, indo mais longe, não conseguem se desvencilhar de tal ato. Se há uma escolha fácil de realizar, existem vidas que não são fáceis de serem escolhidas, pois esquerda ou direita são opções ruins do mesmo jeito, nos dois casos o problema está colocado: o problema de não saber como viver. Para esse problema poder-se-ia imaginar um balcão de informações onde ali se diria todas as possibilidades de vida que passam pela cabeça para que seja resolvido o problema, ou se pediria umas férias no paraíso, para, depois de alguns dias, retornar ao mundo com a decisão, mas isso não é possível, pois a vida não tira férias, deve-se continuar vivendo de qualquer maneira, não há no mundo celestial, supra-celeste, um caminho pronto, uma seta, um indicativo, um conceito, que seja garantidor da melhor escolha. Essa concepção é contrária à da teoria da auto-ajuda, assim, essa não é uma filosofia existencialista, pois, embora discuta a existência, ela parte de uma premissa que o existencialismo não aceita, a ideia de que seja você quem for, se você seguir certos ditames vai se dar bem, na proposta existencialista esse protocolo não é confiável, seja ele qual for.
Assim estamos diante de um dilema, tem a necessidade de liberar, não há nada que ajude e precisa-se viver, escolher de qualquer jeito, sabendo ou não qual é a melhor escolha. Aqui podemos comparar com um magistrado, se um cidadão ingressar no poder judiciário e solicitar a este uma prestação jurisdicional, reposta, o Estado tem que apresentar-lhe a solução, quem tem a razão, dizer o direito, se o juiz não souber quem tem razão, não há a opção de não existir solução, se ele escolher a resposta que não é a melhor não há nada que se possa fazer. A escolha é inexorável, somos condenados a ser livres, mas muitas e muitas vezes não temos condições de saber qual é o melhor caminho, isso só pode nos entristecer, tal tristeza recebe o nome de angústia.
Toda angústia é existencial, daí falar angustia existencial é um pleonasmo, mas se tratando de uma angustia, por ex., pela morte de algum familiar, não se trata de uma questão existencial, também não é angústia, porque aqui se conceitua como angústia a tristeza decorrente da necessidade de deliberar sobre a vida sem ter certeza da melhor maneira de viver.
Assim nos angustiamos porque temos de deliberar sobre a vida, temos de escolher, pois somos livres, somos livres porque somos nada! Quando delibera sobre a vida, percebe que nada sabe sobre isso, e nesse caso, a angústia acompanhará. A pessoa angustiada tem plena consciência da sua incompetência para viver, da necessidade imperativa de escolher a vida, do quanto se erra, uma usina de equívocos existenciais, uma hecatombe vivente.
Quando aceitamos nossa condição, poderíamos concluir que somos sábios, o sábio de Spinoza e Nietzsche é aquele que aceita a sua condição. A diminuição da angústia ocorre quando somos alguma coisa, porque sendo assim nega-se o nada, negando o nada nega-se a liberdade, negando a liberdade nega-se a angustia.
A negação do nada tem no existencialismo o nome de má-fé, age de má-fé aquele que ao negar o nada, convence-se de ser algo. Na obra de Sartre “A Náusea” tem-se o exemplo do garçom que é garçom, pois assumiu sê-lo, a sua é uma vida de garçom, ele diz para todo mundo que nasceu para ser assim, portanto, toda a vida dele será atendendo as pessoas, estará pautada pela definição dele que é ser garçom, daí ele se curva, coloca o guardanapo no braço, ele está convencido que é garçom, vestindo um personagem, está agindo de má-fé, tudo isso serve para diminuir sua angústia. Rousseau já falava disso, chamava a má-fé de Sartre de imbecil. O imbecil é aquele que, negando a sua condição de nada, dota-se de uma identidade, veste a carapuça de um personagem em si, e vive de acordo com ela, escravizado com ela. A desvantagem é que não escapa nunca de seu personagem, a vantagem é que não tem dúvidas. Muitas vezes as empresas cobram das pessoas o imbecil máximo, aquele que mais radicalmente veste a carapuça e a personagem, e, portanto é aquele que mais nega a liberdade que é a sua. Aquele que faz tudo roboticamente em nome de uma identidade que lhe escraviza de cima para baixo. Rousseau explica que esse é o problema do homem envelhecer, à medida que envelhece, se convence que é alguma coisa, quanto mais assim, menos livres para viver, porque temos de dar conta do que somos, reduzindo bastante a angustia que durante toda a nossa vida nos acompanhou. Podemos chamar esse sujeito daquele que se leva a sério, que não se desarma, que não baixa a guarda, ele está postado na posição de personagem, como um robô.
O que é curioso mencionar é que a adoção de personagens não só reduz a angustia individual como a angustia coletiva, porque não basta ter certeza de quem sou para me relacionar, eu preciso ter certeza de quem o outro é, pois se trata de um doido, que faz o que lhe dá na veneda, o relacionamento se torna no mínimo angustiante e complexo, portanto, a imbecilidade de Rousseau, a má fé de Sartre, ou aquele que se leva a sério, não só tem uma função de esclarecimento identitário para si, a vantagem é que adquirem pontos existenciais, e também que o outro não tem dúvidas com relação a ele. A imbecilidade é o primeiro passo para que as pessoas possam conviver e cumprir o seu curso.
E como pode algo negativo ser condição de algo tão positivo? A isso denominamos complexidade do existir, coisas ruins levam a boas, e essas levam a outras muito ruins, porque se você assumir a sua posição de nada e de livre é possível que você nunca entenda quem é, e o que é pior, não admita que ninguém à sua volta saiba quem você é, então será uma pessoa incompreendida, e, às vezes, a sociedade pode tolerar você, mas às vezes ela pode achar você intolerável e aí ela guarda maneiras de tratar com você, o direito se ocupa disso, não é por acaso que se tem uma carteira de identidade, é a carteira do imbecil, porque o direito precisa que você seja alguma, porque se você não for alguma coisa, fica difícil, por ex., colocar-te na cadeia oito anos depois de se ter cometido um crime.

ENTENDENDO SARTRE - PARTE 1

Um pensador preocupado em se posicionar sobre as questões do cotidiano, isso faz dele muito diferente, pois a imensa maioria dos filósofos não tem nenhum apreço pelas questões comezinhas do cotidiano. Sartre se posicionou em questões candentes do século XX, como a independência da Argélia, o feminismo, maio de 1968, movimento hippie e tantas outras questões que fizeram do século XX tão especial à humanidade.

A questão do sujeito.

A história do pensamento passa por dois momentos importantes:
1) a convicção de que o universo é cósmico e ordenado
2) a convicção de que a vida boa é a vida harmonizada nesse todo ordenado.
Nesse momento a filosofia tem duas partes:
1) Entender o terreno do jogo, o próprio universo e como ele funciona, é o que chamavam de theoria.
2) Entender as regras do jogo para o homem, o que é preciso fazer para se viver bem, é o que chamavam de práxis. Nesse momento o homem está convencido de que ele é apenas a parte de uma engrenagem e ele não tem nenhuma especificidade como parte dela, em outras palavras, ele é tão específico nessa engrenagem como a girafa, o vento ou a samambaia p. ex.
Com o surgimento do pensamento cristão a reflexão sobre o terreno do jogo tornou-se menos importante, até porque o universo deixou de ser referencia para a vida boa, daí passa-se a ser mais importante entender:
1) como Deus criou o mundo.
2) O papel dos homens como privilegiados nessa criação.
3) O que Deus espera dos homens.
O fato é que o primeiro momento cósmico acabou e o segundo momento cristão também perdeu sua hegemonia.
É exatamente o terceiro momento que nos interessa. Aqui o homem se dá conta de que o UNIVERSO, por não ser ordenado, compreensível, não pode ser referência do pensamento, e, depois de se dar conta de que DEUS também é um problema, por não ser fácil interpretar sua vontade, o homem busca uma terceira referência e, curiosamente, essa referência é ELE MESMO. Nesse ponto que surge o paradigma da subjetividade, o homem é a referência. O que muda? Na hora de conhecer o mundo passa a ser menos importante o mundo em si, e passa a ser mais importante as condições humanas de conhecimento do mundo que o homem dispõe, os limites da razão para conhecer. E na hora de decidir como temos que viver, já que o universo e Deus não são referências, passa a ser importante o acordo dos homens entre eles, o pacto, o entendimento.
O paradigma da subjetividade surge com René Descartes, em 1600. Esse paradigma surge a partir de uma refutação radical de todo o passado, o que quer dizer refutação do pensamento grego e cristão. Dizia Descartes: já que o universo e Deus não são referências, não se pode confiar nos sentidos porque eles não são confiáveis, não se pode confiar nas matemáticas, e no meio de tanta dúvida ele percebe a única certeza indiscutível que se poderia haver: a da dúvida, o homem duvida, portanto duvido, logo sou, cogito ergo sum. Eu duvido, quanto a você, não sei, mas eu duvido, eu penso, eu questiono, eu critico, eu me posiciono. Essa é a certeza a partir da qual a filosofia vai se consolidar. A modernidade surge com essa frase.
Certeza um: o universo é cósmico, pensamento grego. Certeza dois: Deus existe e criou o mundo, pensamento cristão. Certeza três: penso logo existo, pensamento moderno. A partir daí tudo aquilo que é confiável, será partindo da sua chancela. O homem é especial, por ser ele que sustentará o edifício das certezas filosóficas. Esse momento do penso, logo existo é o momento da revolução científica. Nesse momento histórico o homem estuda cientificamente o mundo a partir do seu olhar, das suas condições de percepção do mundo, e para que faz isso? Aqui existem três pontos:
1) A dúvida
2) O cogito moral
3) Tudo o que fazemos serve para chegar em algum lugar, existe um projeto de civilização que se chamará Humanismo.
Perceba-se que a modernidade de 1600 começa com essas premissas: Tudo que eu vou conhecer o farei de acordo com as minhas possibilidades de conhecimento, assim, saber o que é o conhecimento é saber qual é a capacidade do homem de conhecer, tudo que é moral é um acordo entre os homens, tudo se fará com vistas a um projeto ambicioso de civilização chamado humanismo que é constituído por 2 elementos fundamentais:
1) o elemento de emancipação em relação aos discurso de autoridade. Referindo-se sobretudo aos dogmas anteriores, portanto existindo no humanismo uma perspectiva libertadora, pois o que é certo o é por eu estar convencido de ser certo, não por me disserem que é certo.
2) o elemento da felicidade. Mas essa não é a felicidade aristotélica, pois para os gregos existe o universo, e estando o homem no lugar certo fazendo as coisas certas ele é feliz, como se o homem fosse o vento ou a maré, a felicidade aqui pressupõe um encaixe no todo ordenado. A felicidade moderna é uma felicidade de convivência, entendimento, contrato, o homem decide as condições da vida feliz, é uma felicidade, portanto, que depende de uma conviviabilidade, de uma comunidade, e não uma inserção em uma máquina cósmica como acreditavam os gregos. Eis aqui uma idéia fundamental: Sartre não é compreensível sem levar em conta o quadro do início da modernidade que é o quadro do paradigma da subjetividade.

A questão da liberdade.

Sartre é herdeiro de uma tradição que considera o homem diferente do resto da natureza, no sentido de que no resto da natureza não há liberdade, tudo é regido pelo princípio da necessidade, nessa concepção tudo se dita do jeito que é, pelo princípio do determinismo causal, Sartre dirá que o homem não age dessa maneira, ou seja, um vegetal é o que só poderia ser, o homem não.
Essa herança começa com Platão, em um diálogo chamado Protágoras, onde é contado o mito de Prometeu. Nesse mito Prometeu e Epitemeu, são dois deuses de quinta classe, irmãos, Prometeu é o que pensa rápido, Epimeteu o que pensa lentamente. Nesse mito os deuses estão entediados, pois Zeus criou um universo em que nada acontece, sendo o conceito de acontecimento uma ruptura intempestiva na lógica das coisas, aqui, onde Zeus coloca a mão nada acontece, o vento venta, a maré mareia, o sapo sapeia e etc., onde nada acontece é um tédio, justamente porque nada acontece. Então os deuses foram falar com Zeus e disseram que antes dele o mundo era um caos e alí era um mundo entediante, quando p. ex., da mesma forma, um homem da Líbia viaja para Oslo, e ali se encontra em um domingo a tarde, não acontece nada, o ônibus passa na hora que tem de passar e tudo ocorre conforme o previsto. No afã de acabar com esse tédio, sugeriram a Prometeu e a Epimeteu, deuses de quinta classe, fabricar mortais.
Perceba-se que essa função foi delegada a dois deuses de quinta categoria para diminuir o tédio dos deuses principais, nessa ideia o homem é um bobo da corte, mortal, feito por deuses de menor importância, e a mortalidade do homem foi um elemento trabalhado para compensar as eventuais cagadas que ele pode fazer, é a insignificância do homem, nascido para viver pouco, porque se viver muito tempo o universo pode se contaminar, assim por mais besteira que se faça logo acaba. Aqui pensemos que se fossemos somente para distrair os deuses deveriam ter feito para nós uma vida menos dramática, pois teríamos melhores condições de fazer palhaçada se a vida fosse melhor, essa é a critica aos mitos de Prometeu e Epimeteu.
O fato é que Epimeteu entregou todos os atributos aos animais e quando Prometeu foi fazer o homem não tinha mais atributos com o que ser feito e aí aconteceu que foi entregue ao homem a astúcia, junto com o fogo, para ele ter condições de sobreviver sem recursos, na verdade o que Prometeu entrega ao homem é o fardo de decidir a própria vida, a própria liberdade.
Essa idéia é imprescindível para entender Sartre. Prometeu diz ao homem que pelo fato de seu irmão dar todos os atributos aos animais, ele teria de se virar, o homem pegou essa idéia e, por ser um piadista, propagandista, marketeiro, essa condição péssima sua chamou de liberdade.
No lugar de ter de se virar o homem disse que é livre, o que quer dizer a mesma coisa, só que olhado de outra perspectiva, o lado do otimista idiota. No lugar de se dar conta que, no nosso caso, a vida não está pronta, e daí teremos de fazer da nossa vida a nossa obra, inventando a trajetória a cada segundo, o homem preferiu se achar livre e fazer da sua condição de inferioridade absoluta o privilégio de ser filho de Deus.
Aqui há uma inversão: para a mitologia grega o homem é inferior a um animal, porque o animal recebeu os atributos de Epimeteu, o homem nem isso. E o pensamento Cristão, mais preocupado com o marketing da salvação, esqueceu essa condição pífia e chamou de livre arbítrio. E o que justifica ser homem e ter livre arbítrio? Não foi porque Epimeteu fez a cagada que fez, mas porque o homem é filho de deus, e como Deus é e foi livre para criar o mundo, o homem é livre para criar a própria vida.
Assim o livre arbítrio é a liberdade de delegar da filosofia cristã, é a condição humana que no cristianismo é tida como privilegiada de ser livre para decidir o que fazer da vida. Seguindo esse mesmo caminho Rousseau ensina que o gado por ex. tem instinto de animal e ele esgota a vida do animal, já o homem tem instinto, mas no seu caso ele não dá conta da vida, afinal Epimeteu foi mais generoso com os animais e o homem não tem nada, não é nada, daí tem que se fazer da vida alguma coisa a partir do nada, eis a condição humana e, portanto, perceba essa trajetória da idéia de liberdade vai terminar em Sartre.

A Questão da razão.

Terceira fonte onde Sartre foi buscar para as suas reflexões situa-se na distinção entre razão objetiva e razão instrumental, essa é classificação de Adorno, mas ela também encontra-se em Kant, e aqui vai se chamar razão hipotética e razão categórica. Assim, para Kant, Webber, Adorno e para Sartre existem 2 tipos de pensamento, o primeiro deles é o instrumental, aquele que chamamos de pensamento técnico, ou, de pensamento sobre os meios, aquilo que Kant denomina de hipotético, quer dizer que se eu quero alcançar algo o melhor meio para alcançá-lo será este ou aquele, a investigação está no melhor meio para alcançar determinado fim, mas esse fim não é discutido, já está dado, já é sabido, não é passível de ser contrariado. Então a razão instrumental é aquela que discute o meio. A razão objetiva, aquilo que Kant chama de razão imperativa, é o pensamento que discute os fins, o projeto, onde vai calhar o que estamos fazendo.
Então perceba o que é que a partir de Nietzche dirão os filósofos: o mundo mergulhou no capitalismo e o que lhe caracteriza é o desaparecimento da razão objetiva, isto é, o desaparecimento da razão preocupada com os fins, com um projeto para a civilização, o desaparecimento da preocupação de um projeto com a humanidade, assim o capitalismo consiste em uma luta e uma concorrência pelo acúmulo de meios para o acúmulo de mais meios até o infinito, e com o acumulo de meios, vai se organizar de tal maneira a acumular mais meios, assim, o sistema capitalista é o que Heidegger chama de mundo da técnica, trata-se de um mundo cíclico, que volta no mesmo lugar, não sabe para onde vai e não tem nenhum projeto para a civilização ou ideal de sociedade. Nietzsche explica bem isso, os homens fazem ações para aumentar suas potências, e esse aumento de potência serve para aumentar mais a potência, é aquilo que Nietzche chama de vontade de potência, e se quer potência para mais potência, capital que quer capital, meio que quer meio, empresa que aglutina empresa
Sartre é um pensador humanista, isso quer dizer, que é um crítico deste mundo da técnica. Acredita participar de um projeto de civilização, projeto de humanístico grandioso, portanto um crítico do mundo como ele já se apresentava na década de 50 e 60. A partir dessas idéias fundamentais onde Sartre foi buscar sua matéria prima, podemos identificar idéias importantes para avançar no estudo de Sartre.