Pesquisar este blog

ENTENDENDO SARTRE - PARTE 1

Um pensador preocupado em se posicionar sobre as questões do cotidiano, isso faz dele muito diferente, pois a imensa maioria dos filósofos não tem nenhum apreço pelas questões comezinhas do cotidiano. Sartre se posicionou em questões candentes do século XX, como a independência da Argélia, o feminismo, maio de 1968, movimento hippie e tantas outras questões que fizeram do século XX tão especial à humanidade.

A questão do sujeito.

A história do pensamento passa por dois momentos importantes:
1) a convicção de que o universo é cósmico e ordenado
2) a convicção de que a vida boa é a vida harmonizada nesse todo ordenado.
Nesse momento a filosofia tem duas partes:
1) Entender o terreno do jogo, o próprio universo e como ele funciona, é o que chamavam de theoria.
2) Entender as regras do jogo para o homem, o que é preciso fazer para se viver bem, é o que chamavam de práxis. Nesse momento o homem está convencido de que ele é apenas a parte de uma engrenagem e ele não tem nenhuma especificidade como parte dela, em outras palavras, ele é tão específico nessa engrenagem como a girafa, o vento ou a samambaia p. ex.
Com o surgimento do pensamento cristão a reflexão sobre o terreno do jogo tornou-se menos importante, até porque o universo deixou de ser referencia para a vida boa, daí passa-se a ser mais importante entender:
1) como Deus criou o mundo.
2) O papel dos homens como privilegiados nessa criação.
3) O que Deus espera dos homens.
O fato é que o primeiro momento cósmico acabou e o segundo momento cristão também perdeu sua hegemonia.
É exatamente o terceiro momento que nos interessa. Aqui o homem se dá conta de que o UNIVERSO, por não ser ordenado, compreensível, não pode ser referência do pensamento, e, depois de se dar conta de que DEUS também é um problema, por não ser fácil interpretar sua vontade, o homem busca uma terceira referência e, curiosamente, essa referência é ELE MESMO. Nesse ponto que surge o paradigma da subjetividade, o homem é a referência. O que muda? Na hora de conhecer o mundo passa a ser menos importante o mundo em si, e passa a ser mais importante as condições humanas de conhecimento do mundo que o homem dispõe, os limites da razão para conhecer. E na hora de decidir como temos que viver, já que o universo e Deus não são referências, passa a ser importante o acordo dos homens entre eles, o pacto, o entendimento.
O paradigma da subjetividade surge com René Descartes, em 1600. Esse paradigma surge a partir de uma refutação radical de todo o passado, o que quer dizer refutação do pensamento grego e cristão. Dizia Descartes: já que o universo e Deus não são referências, não se pode confiar nos sentidos porque eles não são confiáveis, não se pode confiar nas matemáticas, e no meio de tanta dúvida ele percebe a única certeza indiscutível que se poderia haver: a da dúvida, o homem duvida, portanto duvido, logo sou, cogito ergo sum. Eu duvido, quanto a você, não sei, mas eu duvido, eu penso, eu questiono, eu critico, eu me posiciono. Essa é a certeza a partir da qual a filosofia vai se consolidar. A modernidade surge com essa frase.
Certeza um: o universo é cósmico, pensamento grego. Certeza dois: Deus existe e criou o mundo, pensamento cristão. Certeza três: penso logo existo, pensamento moderno. A partir daí tudo aquilo que é confiável, será partindo da sua chancela. O homem é especial, por ser ele que sustentará o edifício das certezas filosóficas. Esse momento do penso, logo existo é o momento da revolução científica. Nesse momento histórico o homem estuda cientificamente o mundo a partir do seu olhar, das suas condições de percepção do mundo, e para que faz isso? Aqui existem três pontos:
1) A dúvida
2) O cogito moral
3) Tudo o que fazemos serve para chegar em algum lugar, existe um projeto de civilização que se chamará Humanismo.
Perceba-se que a modernidade de 1600 começa com essas premissas: Tudo que eu vou conhecer o farei de acordo com as minhas possibilidades de conhecimento, assim, saber o que é o conhecimento é saber qual é a capacidade do homem de conhecer, tudo que é moral é um acordo entre os homens, tudo se fará com vistas a um projeto ambicioso de civilização chamado humanismo que é constituído por 2 elementos fundamentais:
1) o elemento de emancipação em relação aos discurso de autoridade. Referindo-se sobretudo aos dogmas anteriores, portanto existindo no humanismo uma perspectiva libertadora, pois o que é certo o é por eu estar convencido de ser certo, não por me disserem que é certo.
2) o elemento da felicidade. Mas essa não é a felicidade aristotélica, pois para os gregos existe o universo, e estando o homem no lugar certo fazendo as coisas certas ele é feliz, como se o homem fosse o vento ou a maré, a felicidade aqui pressupõe um encaixe no todo ordenado. A felicidade moderna é uma felicidade de convivência, entendimento, contrato, o homem decide as condições da vida feliz, é uma felicidade, portanto, que depende de uma conviviabilidade, de uma comunidade, e não uma inserção em uma máquina cósmica como acreditavam os gregos. Eis aqui uma idéia fundamental: Sartre não é compreensível sem levar em conta o quadro do início da modernidade que é o quadro do paradigma da subjetividade.

A questão da liberdade.

Sartre é herdeiro de uma tradição que considera o homem diferente do resto da natureza, no sentido de que no resto da natureza não há liberdade, tudo é regido pelo princípio da necessidade, nessa concepção tudo se dita do jeito que é, pelo princípio do determinismo causal, Sartre dirá que o homem não age dessa maneira, ou seja, um vegetal é o que só poderia ser, o homem não.
Essa herança começa com Platão, em um diálogo chamado Protágoras, onde é contado o mito de Prometeu. Nesse mito Prometeu e Epitemeu, são dois deuses de quinta classe, irmãos, Prometeu é o que pensa rápido, Epimeteu o que pensa lentamente. Nesse mito os deuses estão entediados, pois Zeus criou um universo em que nada acontece, sendo o conceito de acontecimento uma ruptura intempestiva na lógica das coisas, aqui, onde Zeus coloca a mão nada acontece, o vento venta, a maré mareia, o sapo sapeia e etc., onde nada acontece é um tédio, justamente porque nada acontece. Então os deuses foram falar com Zeus e disseram que antes dele o mundo era um caos e alí era um mundo entediante, quando p. ex., da mesma forma, um homem da Líbia viaja para Oslo, e ali se encontra em um domingo a tarde, não acontece nada, o ônibus passa na hora que tem de passar e tudo ocorre conforme o previsto. No afã de acabar com esse tédio, sugeriram a Prometeu e a Epimeteu, deuses de quinta classe, fabricar mortais.
Perceba-se que essa função foi delegada a dois deuses de quinta categoria para diminuir o tédio dos deuses principais, nessa ideia o homem é um bobo da corte, mortal, feito por deuses de menor importância, e a mortalidade do homem foi um elemento trabalhado para compensar as eventuais cagadas que ele pode fazer, é a insignificância do homem, nascido para viver pouco, porque se viver muito tempo o universo pode se contaminar, assim por mais besteira que se faça logo acaba. Aqui pensemos que se fossemos somente para distrair os deuses deveriam ter feito para nós uma vida menos dramática, pois teríamos melhores condições de fazer palhaçada se a vida fosse melhor, essa é a critica aos mitos de Prometeu e Epimeteu.
O fato é que Epimeteu entregou todos os atributos aos animais e quando Prometeu foi fazer o homem não tinha mais atributos com o que ser feito e aí aconteceu que foi entregue ao homem a astúcia, junto com o fogo, para ele ter condições de sobreviver sem recursos, na verdade o que Prometeu entrega ao homem é o fardo de decidir a própria vida, a própria liberdade.
Essa idéia é imprescindível para entender Sartre. Prometeu diz ao homem que pelo fato de seu irmão dar todos os atributos aos animais, ele teria de se virar, o homem pegou essa idéia e, por ser um piadista, propagandista, marketeiro, essa condição péssima sua chamou de liberdade.
No lugar de ter de se virar o homem disse que é livre, o que quer dizer a mesma coisa, só que olhado de outra perspectiva, o lado do otimista idiota. No lugar de se dar conta que, no nosso caso, a vida não está pronta, e daí teremos de fazer da nossa vida a nossa obra, inventando a trajetória a cada segundo, o homem preferiu se achar livre e fazer da sua condição de inferioridade absoluta o privilégio de ser filho de Deus.
Aqui há uma inversão: para a mitologia grega o homem é inferior a um animal, porque o animal recebeu os atributos de Epimeteu, o homem nem isso. E o pensamento Cristão, mais preocupado com o marketing da salvação, esqueceu essa condição pífia e chamou de livre arbítrio. E o que justifica ser homem e ter livre arbítrio? Não foi porque Epimeteu fez a cagada que fez, mas porque o homem é filho de deus, e como Deus é e foi livre para criar o mundo, o homem é livre para criar a própria vida.
Assim o livre arbítrio é a liberdade de delegar da filosofia cristã, é a condição humana que no cristianismo é tida como privilegiada de ser livre para decidir o que fazer da vida. Seguindo esse mesmo caminho Rousseau ensina que o gado por ex. tem instinto de animal e ele esgota a vida do animal, já o homem tem instinto, mas no seu caso ele não dá conta da vida, afinal Epimeteu foi mais generoso com os animais e o homem não tem nada, não é nada, daí tem que se fazer da vida alguma coisa a partir do nada, eis a condição humana e, portanto, perceba essa trajetória da idéia de liberdade vai terminar em Sartre.

A Questão da razão.

Terceira fonte onde Sartre foi buscar para as suas reflexões situa-se na distinção entre razão objetiva e razão instrumental, essa é classificação de Adorno, mas ela também encontra-se em Kant, e aqui vai se chamar razão hipotética e razão categórica. Assim, para Kant, Webber, Adorno e para Sartre existem 2 tipos de pensamento, o primeiro deles é o instrumental, aquele que chamamos de pensamento técnico, ou, de pensamento sobre os meios, aquilo que Kant denomina de hipotético, quer dizer que se eu quero alcançar algo o melhor meio para alcançá-lo será este ou aquele, a investigação está no melhor meio para alcançar determinado fim, mas esse fim não é discutido, já está dado, já é sabido, não é passível de ser contrariado. Então a razão instrumental é aquela que discute o meio. A razão objetiva, aquilo que Kant chama de razão imperativa, é o pensamento que discute os fins, o projeto, onde vai calhar o que estamos fazendo.
Então perceba o que é que a partir de Nietzche dirão os filósofos: o mundo mergulhou no capitalismo e o que lhe caracteriza é o desaparecimento da razão objetiva, isto é, o desaparecimento da razão preocupada com os fins, com um projeto para a civilização, o desaparecimento da preocupação de um projeto com a humanidade, assim o capitalismo consiste em uma luta e uma concorrência pelo acúmulo de meios para o acúmulo de mais meios até o infinito, e com o acumulo de meios, vai se organizar de tal maneira a acumular mais meios, assim, o sistema capitalista é o que Heidegger chama de mundo da técnica, trata-se de um mundo cíclico, que volta no mesmo lugar, não sabe para onde vai e não tem nenhum projeto para a civilização ou ideal de sociedade. Nietzsche explica bem isso, os homens fazem ações para aumentar suas potências, e esse aumento de potência serve para aumentar mais a potência, é aquilo que Nietzche chama de vontade de potência, e se quer potência para mais potência, capital que quer capital, meio que quer meio, empresa que aglutina empresa
Sartre é um pensador humanista, isso quer dizer, que é um crítico deste mundo da técnica. Acredita participar de um projeto de civilização, projeto de humanístico grandioso, portanto um crítico do mundo como ele já se apresentava na década de 50 e 60. A partir dessas idéias fundamentais onde Sartre foi buscar sua matéria prima, podemos identificar idéias importantes para avançar no estudo de Sartre.

2 comentários:

  1. Incrivelmente didático, não vejo a hora de ler a segunda parte. Lembra o que eu falei sobre ter a intuição de todas essas coisas e não sabê-las pela razão? A Sophia é uma existencialista, não? Sofre de liberdade. Tem muito a ver com o que você explicou, que aos homens restou o "se vira nos trinta". A Sophia sabe disso e se sente condenada. Muito interessante saber agora, racionalmente, o motivo de ela se sentir condenada.

    Quero mais!

    ResponderExcluir
  2. Sophia e todos nós somos existencialistas. Sophia e seus contos evidenciam o ápice do existencialismo no couro da pele, como pesado fardo a carregar todos os dias por cima de tuas costas Algumas vezes parece que ela quer sair de sua condição de angústia, SENDO alguma coisa, mas será que, segundo o existencialismo, essa é a solução para seus problemas? Cenas do próximo capítulo, já disponível em sua tela..rs

    ResponderExcluir