A FILOSOFIA DE SPINOZA E A REFLEXÃO SOBRE OS
AFETOS – parte 1
1.) Quem é Spinoza.
Spinoza, sendo um exemplo de pensador moderno, tem como uma
das características de seu pensamento, e também a sua crítica, a pretensão de
explicar tudo. Esses pensadores construíram verdadeiros edifícios filosóficos,
complexos sistemas que pretendem dar conta de qualquer problema ou questão,
assim muito difícil apanhar um aspecto da obra de Spinoza, que não respingue,
que não tenha de se recorrer ao resto de sua obra, porque todas as partes desse
sistema se relacionam de forma muito imbricada, sendo muito difícil isolar um
assunto em relação aos demais.
O texto de Spinoza tem uma forma muito particular, o autor
não escreve um texto corrido, mas em forma de teoremas, assertivas, e depois de
proposições, de demonstrações, e, portanto, de certa forma, a maneira do
pensamento de Spinoza já é indicativa de muito da especificidade da sua maneira
de pensar.
A pretensão é de fazer afirmações absolutamente
indiscutíveis a partir das afirmações anteriores, tentando explicar: se isso é
assim, aquilo é assado e aquilo é frito, então o resultado disso só pode ser
esse, se isso é assim, aquilo só pode ser assado, e assim ele vai tirando
conclusões e fazendo inferências, tendo a pretensão de chegar a resultados
indiscutíveis sobre as coisas que fala e ensina, nesse sentido, o texto de
Spinoza é difícil por conta da complexidade de suas idéias, mas não tem
enrolação, tudo que está ali é o mínimo necessário para explicar o que se
queria dizer, muito diferente daquele escritor que coloca muitos exemplos
desnecessários para conseguir completar o número de páginas que a editora considera
legítimo para um livro.
A obra de Spinoza é apresentada em forma de extratos,
condensada, pode-se até diluir o trabalho deste autor, mas é imprescindível
utilizar alguma forma de interpretação pessoal de cada intérprete, daí se pode
demonstrar a maneira de pensar do escritor diferentemente, aliás esse é o risco
que toda interpretação corre.
2.) Spinoza e outros pensadores
mais familiares.
2.1.) Diferenças entre
Spinoza e Platão.
O primeiro pensador é Platão, e porque ele? Trata de um
pensador que abastece o senso comum, por conta do que aconteceu depois dele e
das pessoas que influenciou, ele faz parte da nossa cultura, daquilo com que
estamos mais acostumados, daí relacionar Spinoza com Platão é sempre bem vindo,
principalmente para entender o quanto Spinoza pode ser subversivo em relação ao
entendimento cotidiano das coisas.
O primeiro degrau do pensamento de Platão é um degrau que
nos acompanha no senso comum, a ideia de que o homem é constituído por dois
tipos, partes, substâncias: o corpo e a alma.
- O corpo é material, extenso, sensível, desejante.
- A alma, o contrário de tudo isso, é imaterial, portanto
ela sempre existiu e existirá, eterna, não finita, não se deteriora, não se
corrompe. Ela não sendo material, também não tem forma, e, portanto, da mesma
maneira em que se pode descrever o corpo não se pode fazer com a alma, porque
não há o que descrever.
Assim, o único jeito de falar da alma é apresentando o seu
papel, sua finalidade, sua função. A função primordial da alma, para Platão, é
pensar, então, a primeira grande idéia do pensamento de Platão: quem pensa,
quem filosofa, quem articula intelectivamente não é o corpo, essa idéia é
imprescindível para nós, a alma é que é responsável por aquilo que passa pela
nossa cabeça, usando a metáfora. Nesse sentido, abordaremos as conseqüências desse dualismo
corpo e alma:
A) A Soberania
possível da alma em relação ao corpo:
O corpo pode sentir qualquer coisa, ter suas carências,
encontrar e perceber o mundo como quiser, mas nada disso tem, digamos, uma influência necessária pelo que passa na nossa cabeça. Em outras palavras, o
nosso pensamento pode ir à contramão, desmentir, os nossos apetites e
percepções corporais de mundo.
Esse é o dualismo de Platão: a alma não é o corpo, o corpo
não é a alma, a alma sobrevive ao corpo.
Assim perceba, nessa soberania possível, entre a alma e o corpo,
existe uma relação, pois, de certa maneira, aquilo que o corpo percebe no mundo
vai participar da atividade intelectiva da alma. A expressão participa
aqui é muito importante para nós.
Mas, partindo-se da ideia de que existe uma matéria prima
sensorial, da qual nós não podemos abrir mão por ela ser o começo de tudo,
quando nossa alma começa a trabalhar, pode, e, de certa maneira, deve buscar
verdades absolutas daquela matéria, que são aquelas inalcançáveis através dos
olhos do corpo.
Assim, de certa maneira, nessa relação entre corpo e alma,
há uma hierarquia, a alma é superior ao corpo por cuidar de coisas mais
importantes, buscar verdades que não são através do corpo que encontramos, de
tal maneira que, essa hierarquia faz com que se possa, inclusive, classificar
as pessoas em função da relação que elas mantém entre corpo e alma, daí existirem
pessoas superiores a outras, porque elas, de certa maneira, conseguem controlar
as rédeas da própria vida com a alma, sendo superiores àquelas que estão a
mercê dos apetites do corpo, assim, havendo pessoas superiores à outras, e a
superioridade ocorrendo nessa relação corpo-alma, daí essas pessoas também
devem mandar, ser politicamente dominantes, pois, de certa forma, elas podendo
pensar melhor, de forma mais soberana, têm melhores condições de identificar o
certo e o errado, o justo e o injusto, o adequado e o inadequado, e isso seria
melhor para toda a cidade.
Aqueles que não são bons de pensamento, que estão muito
amarrados pelos apetites do corpo, o que podem fazer, no máximo, é respeitar as
leis elaboradas pelos bons pensadores, daí já estarão fazendo o que de melhor
podem fazer, classificadas como gente xucra, que não são do ramo, quando as
pessoas estão classificadas assim não adianta insistir, gastar dinheiro em
políticas públicas e propiciar educação para eles, porque apenas 2% ou 3% que
vão conseguir alguma coisa, o resto teria de trabalhar só com o corpo mesmo. Essa
é uma postura elitista do pensamento de Platão.
É exatamente nesse ponto que nos interessa: Spinoza não é um
pensador dualista. Trata de um pensador que vai nos apresentar uma nova maneira
de entender a nós mesmos.
Nessa perspectiva, corpo e alma são dois modos de
manifestação da mesma substância, em outras palavras, só existe uma substância
que está por trás de tudo o que se pode imaginar, assim tudo, na verdade, é derivado
dela.
O corpo e o pensamento, produção da alma: são dois modos de
que o homem dispõe para se relacionar com a realidade, são duas chaves de fato,
mas isso não quer dizer que existam só essas duas formas de manifestação da
substancia única, não, certamente há muito mais, o homem é que, com suas
limitações, só consegue se dar conta de duas das formas de manifestação.
Para entender melhor essa parte, imaginemos uma vitrine de
um restaurante de massas, a massa, para produção dos alimentos ali expostos, é
uma só, dela se faz macarrão, pizza, inhoque, coxinha etc., na vitrine observa-se
existir muitas maneiras dessa massa se apresentar, se manifestar, assim, de
certa forma, acabamos nos relacionando com aquela massa por intermédio das
muitas formas de manifestação dela encontrada na vitrine. Supondo que a grande
massa que está por de trás de tudo o que existe seja essa substância única, os
corpos e o pensamento são as duas maneiras que os homens encontram na vitrine
de manifestação do “restaurante” da substância divina que constitui o universo,
as duas maneiras dela se manifestar para a humanidade.
Spinoza deixa claro ser possível que, nesse mesmo instante,
a substância única, constituinte de tudo, esteja se manifestando através de um milhão
de maneiras, mas nós só percebemos duas. É claro, nos damos conta que o
pensamento ou coisas que passam pela nossa cabeça, são diferentes, por ex., de
uma bola de futebol que podemos segurar, o pensamento e a materialidade das
coisas que encontramos são manifestações diferentes, percebemo-las
diferentemente, mas, que fique claro, são manifestações provenientes da mesma
substância.
Spinoza, ao dizer isso, está sugerindo que tudo o que se
passou pela nossa cabeça, as reflexões e os pensamentos, juízos de valor,
ponderações morais, assertivas sobre como o mundo deve ser e etc., caso algum
dia imaginamos que tudo isso não tem a ver com o corpo, supomos
equivocadamente, em outras palavras, aceite, desde já, que sendo seu pensamento
proveniente da mesma substância que as tuas tripas, eles tem a ver um com o
outro, de tal maneira que se quiseres saber por que alguma coisa passa na sua
cabeça, saiba é preciso admitir aquilo que passa pela cabeça estando
relacionado com o que acontece com o seu corpo.
Enquanto para Platão o que passa pela sua cabeça pode não
ter nada a ver com o que você sente, para Spinoza é o contrário. Para Platão um
juízo, assertiva, algo que se pensa, pode julgar do lado de fora uma sensação
que você mesmo sente, e o indivíduo, como controla as rédeas do cavalo da
própria vida pelo que pensa, ou julga, ele, de certa forma, define as condições
de satisfação daquilo que sente. Para Spinoza o que tu sentes e pensas caminham
paralelamente, sendo que não há a menor possibilidade de um dominar o outro, de
tal maneira que, nesse sentido, Spinoza tem pelos afetos um respeito, uma
preocupação de entender muito maior do que tem Platão, e, de certa maneira,
Spinoza reconhece que a nossa capacidade intelectiva não é tão autônoma e
soberana assim, mas ela é inseparável daquilo que sentimos, na medida em que o
nosso corpo vai vivendo no mundo.
B) O desejo:
Ainda comparando com Platão. O pensador grego fala sobre o
amor em um diálogo intitulado “O banquete”, que tem milhares de interpretações.
Esse amor é Eros, e o discurso platônico oficial do amor é que amar é desejar,
e, o que nos interessa: o desejo é a falta. Essa relação do desejo com a falta atravessa
os séculos até chegar à libido de Freud. O desejo de Spinoza não é a falta,
pelo contrário, é a nossa própria essência, nosso próprio ser, se preferir,
traduzindo de outra forma, somos desejantes, o desejo é a nossa característica
maior, a nossa essência. Esse desejo, potência, energia que nos anima, Spinoza
também vai chamá-lo, assim como Hobbes, de Conatus,
é o tesão pela vida, que não é falta, mas é, pelo contrário, bem presente
em nós.
O desejo de Spinoza é esforço presente, real, vital, que
fazemos a cada instante para ser o que somos, em outras palavras, somos um
esforço para ser o que somos, ou se preferir, somos um esforço para perseverar
no próprio ser.
Aqui o desejo não se trata do que gostaríamos de ser, como
em Platão, mas sim do esforço que fazemos para ser o que já somos, claro,
porque, para Spinoza, ser o que já somos requer esforço, em outras palavras,
você não é o que é numa boa, mas sim com suor. Para o homem ser homem, e
continuar sendo assim, de certa maneira, desabrochar como homem, para o homem
ser homem no homem, é preciso que ele coloque esforço em sua história, e a isso
se dá o nome de desejo ou de conatus,
essência, ou como preferir, nós estamos, o tempo inteiro, nos esforçando para
sermos nós mesmos, para perseverar no próprio ser.
2.2.) Diferenças entre
Spinoza e Aristóteles.
A) A Potência:
Há diferença da potência de Aristóteles para a potência de
Spinoza, a palavra é a mesma, o sentido é outro, por quê? Imaginem um ovo de avestruz,
quebrado, dele pode sair duas coisas: avestruz ou gema, não pode sair um pato.
Para Aristóteles um ovo de avestruz é potência de avestruz, não de pato, porque
para ser potência de pato o ovo deveria ser desta espécie. Algo, potencialmente,
pode se transformar em muitas coisas, mas existem outras que ele não será nunca.
Por ex., um professor indo para a escola é potencia de aula, pois a aula se
atualiza no momento em que é ministrada, assim ele pode dar aulas de níveis
excelentes a péssimos, mas existem conteúdos que o professor não consegue
ministrar, está fora dessa possibilidade de atualização.
Para Spinoza não, a potência já é a energia e esforço em
ato que se está disponibilizando na aula para ministrá-la, então, se for
observar Spinoza com o olhar de Aristóteles não encaixa, pois aqui potência não
é uma possibilidade de vir-a-ser, mas uma concretização existencial no mundo.
Assim, naquele exemplo, o professor se serve de uma quantidade de energia para
ministrar sua aula, essa é a sua potencia de agir no instante. A conseqüência
disso é que, para Spinoza, a potência de alguém, naquele instante, é a sua
essência, aquilo que ele chama de essência atual, aquilo que lhe é essencial, é
a energia que gasta para viver naquele instante específico.
B) A Essência:
Para a tradição filosófica a essência é sempre encontrada
pela razão que está por de trás das aparências que mudam, sendo sempre aquilo
que não muda, a verdade imutável que está por trás daquilo que percebemos em um
mundo de fluxos. Se focarmos nesta tradição e perguntássemos sobre a potência
atual para Spinoza, ele responderia que não se trata de potência atual, nem
desatualizada, mas ela é o que é, trata da verdade que transcende o fluxo da
vida, ora, para Spinoza, a essência de cada um de nós é a sua potência, sua
energia vital, e ela é atual sim, porque daqui a quinze segundos ela já foi
transformada e será outra, assim, nessa concepção, o que nos é essencial oscila,
varia, está a mercê das contingências da vida.
C) Liberdade:
A tradição filosófica nos diz: já que o homem é corpo e alma
e eles são soberanos entre si, pelo menos possivelmente, o corpo encontra
corpos, assim ele está na vida, e, por isso, vai se corrompendo, se
deteriorando, por mais que resista é inútil. Já a alma não falece com a morte
do corpo, ela pode inclusive habitar outros corpos.
A diferença é que, enquanto com os corpos as coisas acontecem
apenas como poderiam acontecer, este sendo regido pelo princípio da
necessidade, ele funcionaria como o vento, a maré. Já a alma, não sendo corpo,
guarda certa independência com relação a este, o que nos permite fugir dessa
rede de relações causais, de tal maneira que, graças à alma, nós poderíamos ter
alguma liberdade para decidir sobre a própria vida, em outras palavras, se fôssemos
apenas corpo seríamos como só como poderíamos ser, mas, como temos alma,
podemos participar da condução da vida, a isso dá se o nome de liberdade,
Spinoza, como era de 1600, foi muito influenciado por uma época de predomínio
de certas nomenclaturas, daí chamava isso de livre arbítrio.
Nessa concepção quem escolhe apresenta liberdade para
escolher, o resto da natureza não a tem, mas os homens sim, pois suas almas lhes
permitem essa prerrogativa. De acordo com essa tradição há o mito de Prometeu e
Epimeteu, que Platão, no diálogo Protágoras, explica tão bem, nele, Epimeteu
fez os animais, e deu a eles tudo que precisavam para viver, já Prometeu, quando
ia fazer o homem, ficou sem nada para construí-lo, e por isso, acabou lhe dando
a astúcia do palácio de Atena, para permitir-lhe fabricar a vida por si mesmo,
já que ele estava zerado de apetrechos, não tem casco, corre devagar, é
desequilibrado, bípede, torto, então a inteligência compensaria tais
debilidades, daí ele poderia decidir por si sobre a vida, nessa concepção o
livre arbítrio que acompanha o homem é tido como algo bom, o poder de decidir
sua própria vida.
Para Spinoza o livre arbítrio trata-se de uma ilusão, e,
sendo assim ele não é realidade, tal como nós o entendemos, em outras palavras,
o vento venta só como poderia ventar, a maré mareia só como poderia marear e o
homem existe só como poderia existir, nenhuma diferença, o homem não escolhe,
daí tratar-se de uma ilusão. Quando se demonstra que o livre arbítrio trata de
uma ilusão, é preciso deixar claro que, para Spinoza, o homem não goza de
nenhum privilégio ou superioridade em relação ao resto da natureza, de tal
maneira, sendo assim, sentimos o que só poderíamos sentir, e, como pensamento
caminha em paralelo com as nossas sensações, pensamos o que só poderíamos
pensar, dada certas condições materiais e efetivas de existência, razão pela
qual o que passa pela sua cabeça é só o que poderia passar por ela, dado certo
momento de afeto de seu corpo no mundo. Daí você pensa o que só poderia pensar,
por isso, tudo em você é só o que poderia ser. E se perguntasse, porque eu acho
que escolho? Por não conseguir identificar as causas adequadas, que realmente
determinam os efeitos daquilo que se sente, e, muito menos, daquilo que se
pensa, de tal maneira, acontece que o homem vai vivendo no mundo, sentindo, sem
saber por que sente o que sente, e vai pensando, pensa sem saber o que pensa, e,
nessa ignorância que é a sua, na hora de explicar porque se vive, como se vive,
e concluir que não se tem idéia do que acontece com ele, se diz que é livre, é
mais nobre, mais dignificante, ao invés de assumir a ignorância visceral que é
a tua dos afetos e pensamentos, dá sé um salto para a transcendência, se
considera filho de deus, e portanto, livre para fazer de tua vida o que bem
quiser. Naturalmente não sabendo o porque se sente o que sente, é desagradável
sentir sem saber o porquê. Não sabendo o porquê se pensa o que pensa, é
desagradável pensar sem saber o porquê, então nada mais reconfortante do que
considerar-se soberanamente autor de si mesmo, filho de deus, um deus em
miniatura, arrogância de homens tristes e ignorantes.
Na teoria da auto ajuda ensina que devemos ver a vida cor de rosa como
ela é, alegando que quando se quer de verdade algo, isto acontece, e quando não
ocorre, tal fato se deu porque não se quis certo. Imaginemos todos no avião
da air France, saindo do Rio de Janeiro rumo à Paris, alguns passageiros ali para
passar lua-de-mel, outros com filhos pequenos me sua primeira viagem, de repente
quatro minutos de queda livre, certamente muitas pessoas desejaram que aquele
avião voasse, e agora, sendo recolhidos os seus restos do fundo do mar, é
curioso dizer que eles não desejaram certo.
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