No existencialismo existência precede a essência.
A primeira ideia é a definição de existencialismo de Sartre, presente em sua Obra “O Existencialismo é um humanismo”. No existencialismo a existência precede a essência. O que isso quer dizer? Sartre quer dizer com isso que na tradição filosófica, dentro da chamada metafísica, sempre se acreditou que primeiro havia um conceito, idéia, natureza, essência humana, e depois cada homem particular, por ter nascido, vive de acordo com essa essência de homem. Nesse caso ele primeiro teria uma definição, depois viria a vida, e essa seria do jeito que é porque a definição assim determina. Ex: Para Aristóteles o homem é um ser social e racional: eis a definição, a partir daí nasce o homem, logo ele vive na sociedade e usa a razão. Note-se: primeiro veio a definição, depois veio a vida do homem, primeiro a essência, depois a existência.
Sartre diz que não ocorre desse jeito, porque o supra-sumo dessa anterioridade da idéia em relação à existência é o chamado argumento ontológico da existência de Deus. Tal argumento consiste na prova da existência de Deus partindo da ideia que ele é perfeito, assim perceba que sua definição surge antes de qualquer coisa, daí dizer que Deus é perfeito, significa o mesmo de dizer que ele tem todos os atributos possíveis, ora, se Deus é perfeito, e tem todos os atributos, o que não pode deixar de ter é não existir, porque senão ele não seria tão perfeito assim, logo Deus existe. Assim partiu-se da definição e concluiu pela existência. Para Sartre não se pode deduzir a existência de algo através de uma ideia, afinal quem falou que Deus é perfeito, partiu de uma idéia tirada do nada, e depois acabou concluindo que Deus existe a partir de uma idéia que não existe, é o que se chama de sofisma. Ex: O Sofá é azul, todo sofá é azul, esse sofá é azul, logo esse sofá existe, a ideia inicial de que o sofá é azul veio de onde? Essa é a premissa de onde se parte, ela não garante nada, assim definiu-se a existência de uma definição que não se sabe de onde surgiu. Assim o argumento ontológico é esse que se acabou de dizer: se Deus é perfeito, e ser assim significa ter todos os atributos, a existência é necessariamente um deles sobre a idéia de Deus, logo Deus existe, depreende-se a existência a partir da idéia. Em objetos como, por ex., uma tesoura, se pensou em um objeto para cortar outros objetos que tenha funcionalidade, e daí se projetou dois cabos e lâminas para servir para esse fim. Para o homem, Deus precisava de homens, criou a ideia de homem, e ele é a aplicação concreta da idéia de Deus, como a tesoura na gaveta é a aplicação concreta da idéia do tesoureiro. Porém, e se não houver Deus nem a idéia de homem?
É daqui que partimos, se na tesoura a essência precede à existência, no caso do homem a existência precede a essência, em outras palavras, ao invés de termos a idéia de homem, e depois termos vidas de homens adequadas a essa idéia, temos o contrário: não tem ideia nenhuma anterior à vida, primeiro o homem vive, depois ele descobrirá quem ele é, a existência precede a essência. Esse pensamento é extremamente libertador, pois se um homem fosse algo antes de viver, Deus teve uma idéia dele antes de nascer, uma finalidade ou missão, nesse caso, relacionando, poderia uma tesoura desistir de cortar papel e servir de cotonete? Não. O existencialismo é a única filosofia que leva a sério a questão da liberdade.
A crítica da liberdade do existencialismo em relação ao livre arbítrio cristão, nesse último, Deus, sendo perfeito, já sabe o que vai acontecer, só que ele dá a liberdade ao homem para fazer dela o que quiser, mas Deus, sendo perfeito, já sabe o que ele vai fazer ?!? Replicando a essa crítica o cristão dirá que esses fazem parte dos mistérios da fé.
Sartre não concorda com essa justificativa, vai dizer que não tem Deus, não tem idéia, não tem natureza humana, o que se tem é uma relação sexual que findou em nascer o homem, daí ele vai viver como tiver a gana para tanto, descobre quem é em função da maneira como se vive, a vida vem antes, a definição de vida vem depois, a vida é a matéria prima da essência, e só nessa concepção que se é livre, porque não há nenhuma idéia anterior, a tesoura não tem liberdade para ser cotonete, carro não tem liberdade para ser um leão, mas o homem, que não é nada, tem liberdade para ser tudo. O homem é o nada, e pelo fato de não ser nada pode ser o que quiser.
Se a existência precede a essência não existe nenhuma natureza humana, em outras palavras o homem não tem nenhuma essência, a vida do homem não está subordinada a nenhuma definição que lhe seja anterior, em outras palavras, o homem tem 360 graus de possibilidades existenciais, está solto no mundo por ser nada, e, sendo assim, pode tudo. Não havendo natureza humana perceba que não há, por ex., natureza feminina ou masculina, a mulher é um homem como outro qualquer, não é porque uma pessoa é mulher que deva viver como mulher, porque, como ser mulher não é nada, a vida da mulher está tão aberta quanto à vida de qualquer homem, portanto, a natureza feminina não escraviza a natureza da mulher ou do homem, pois elas não existem. Acreditar que a mulher é naturalmente propensa a maternidade trata de escravizar a vida em nome de uma definição, como também não há natureza de negro, judeu, japonês, a vida está aberta a todo mundo.
Trata-se de um conceito libertador, pois não precisa dar conta de uma definição, pagar pedágio de uma essência ao longo de sua vida, pois a cada segundo há um universo de alternativas existenciais. Caso fôssemos como uma tesoura, por ex., só poderíamos abrir e fechar, a nossa realidade seria cortar papéis, qualquer coisa escapando disso seria uma blasfêmia contra a idéia de tesoura, no nosso caso não há uma idéia de homem que se refira a ele. Na concepção contrária a essência anteciparia a existência, só se teria o bem se houvesse encaixe à idéia que anteriormente se fez do homem para que ele pudesse existir, a partir de agora a existência está desamarrada de qualquer essência. Somos livres.
O Fardo da liberdade.
Poderia se imaginar que essa liberdade é algo bom, Sartre teria anunciado a boa nova, ou inaugurado o fundamento da zona, foi o preceito da revolução de maio de 1968: “é proibido proibir”, a liberdade é a nossa condição, toda interdição parte de uma essência que escraviza a existência, não somos nada, e, portanto temos o direito de optar por tudo.
O outro lado que a revolução de maio de 1968 esqueceu de ler em Sartre é que toda liberdade tem correlata a responsabilidade de ser livre. Uma tesoura não é responsável por cortar, existem algumas profissões onde seus profissionais se apresentam como ferramentas, apresentando-se dessa forma são como tesouras, mas essa não tem vida inteligente, daí sua essência preceder sua existência em 100%, daí ela não ser responsável por nada.
Quando somos responsáveis por nossas deliberações? Quando deliberamos, quem delibera é quem escolhe, quem tem possibilidade de escolher, quem não tem essência que escraviza a existência, quem não é nada delibera, quem delibera é livre para deliberar, e quem é livre para deliberar é responsável pela deliberação. Na empresa o empregador concede responsabilidades ao funcionário, mas não lhe concede liberdade deliberativa, assim ocorrendo algo errado o funcionário é o responsável, já ocorrendo algo certo fez a única coisa que poderia fazer, ou seja, ele é ferramenta quando acerta, e nada quando erra, esse é um esquema desgraçado que se chama trabalho. A responsabilidade é correlata da liberdade e para ser livre é preciso não ser nada.
Qual é a condição do nada? O que é preciso para que o homem, não sendo nada, seja livre, pergunta Sartre.
A resposta a essa pergunta é o que Sartre chama de consciência de si. Usando exemplo para explicar: quando alguém afirma que come demais à noite. Observe-se nessa afirmação um afastamento em relação a si mesmo, nessa afirmação ocorre o surgimento de dois, o que come de noite, e o outro, que o observa, o recrimina, se fosse possível o esganaria, perceba que há o sujeito e o objeto na mesma pessoa, a isso Sartre denomina consciência de si, só o nada permite a consciência de si. Aquela tesoura, por ex., não tem consciência de si, o gato não tem consciência de si, pois ele é, e, sendo, ele é e acha que é, existe uma coincidência entre o que ele é e o que acha que é, assim, só no caso do homem há um afastamento possível entre o eu e o seu objeto. Essa é a condição da liberdade, porque é só podendo ter a mim mesmo como objeto de observação é que posso deliberar o que é melhor para mim, se o eu coincidisse com o eu, não haveria escolha, mas, como tem o eu sujeito e o eu objeto, o eu sujeito anda com o eu objeto, e isso só é possível havendo consciência de si, no afastamento do eu em relação ao eu.
O nada: é a condição da liberdade através da consciência de si. A consciência de si é o caminho através do qual o nada que somos consegue livremente deliberar a própria vida e se responsabilizar por ela. A ideia de que a liberdade é felicidade ficou por conta da publicidade e propaganda, porque no humanismo não há essa concepção. O homem tem um problema que os animais não têm: tudo o que realizam faz parte das regras do jogo, já o homem, não sendo nada, consegue fazer da vida o que bem entende, por ex. matar seis milhões de pessoas do nada. :/
Não se trata do homem poder fazer as escolhas, se trata dele ter obrigação de fazer as escolhas. Somos condenados a ser livres. Isso quer dizer que ser livre não é um privilégio típico de um filho de Deus, pois um animal que não é livre está com a vida pronta, todos tem a vida pronta, já o homem não a tem assim, nesse caso ele deve efetuar um trabalho que ninguém mais é obrigado a ter, porque o Epimeteu arrumou a vida de todo mundo e o prometeu teve que nos dar o artifício da liberdade para escolher, justamente pelo fato de a sua vida não estar pronta, daí o homem ser o nada, e, nesse caso, deve escolher.
Algumas escolhas são fáceis, como por ex. machucar ou não a outrem, trata de uma escolha que não aflige, mas existem pessoas não só que discordam desse posicionamento, mas optam pela outra solução e, indo mais longe, não conseguem se desvencilhar de tal ato. Se há uma escolha fácil de realizar, existem vidas que não são fáceis de serem escolhidas, pois esquerda ou direita são opções ruins do mesmo jeito, nos dois casos o problema está colocado: o problema de não saber como viver. Para esse problema poder-se-ia imaginar um balcão de informações onde ali se diria todas as possibilidades de vida que passam pela cabeça para que seja resolvido o problema, ou se pediria umas férias no paraíso, para, depois de alguns dias, retornar ao mundo com a decisão, mas isso não é possível, pois a vida não tira férias, deve-se continuar vivendo de qualquer maneira, não há no mundo celestial, supra-celeste, um caminho pronto, uma seta, um indicativo, um conceito, que seja garantidor da melhor escolha. Essa concepção é contrária à da teoria da auto-ajuda, assim, essa não é uma filosofia existencialista, pois, embora discuta a existência, ela parte de uma premissa que o existencialismo não aceita, a ideia de que seja você quem for, se você seguir certos ditames vai se dar bem, na proposta existencialista esse protocolo não é confiável, seja ele qual for.
Assim estamos diante de um dilema, tem a necessidade de liberar, não há nada que ajude e precisa-se viver, escolher de qualquer jeito, sabendo ou não qual é a melhor escolha. Aqui podemos comparar com um magistrado, se um cidadão ingressar no poder judiciário e solicitar a este uma prestação jurisdicional, reposta, o Estado tem que apresentar-lhe a solução, quem tem a razão, dizer o direito, se o juiz não souber quem tem razão, não há a opção de não existir solução, se ele escolher a resposta que não é a melhor não há nada que se possa fazer. A escolha é inexorável, somos condenados a ser livres, mas muitas e muitas vezes não temos condições de saber qual é o melhor caminho, isso só pode nos entristecer, tal tristeza recebe o nome de angústia.
Toda angústia é existencial, daí falar angustia existencial é um pleonasmo, mas se tratando de uma angustia, por ex., pela morte de algum familiar, não se trata de uma questão existencial, também não é angústia, porque aqui se conceitua como angústia a tristeza decorrente da necessidade de deliberar sobre a vida sem ter certeza da melhor maneira de viver.
Assim nos angustiamos porque temos de deliberar sobre a vida, temos de escolher, pois somos livres, somos livres porque somos nada! Quando delibera sobre a vida, percebe que nada sabe sobre isso, e nesse caso, a angústia acompanhará. A pessoa angustiada tem plena consciência da sua incompetência para viver, da necessidade imperativa de escolher a vida, do quanto se erra, uma usina de equívocos existenciais, uma hecatombe vivente.
Quando aceitamos nossa condição, poderíamos concluir que somos sábios, o sábio de Spinoza e Nietzsche é aquele que aceita a sua condição. A diminuição da angústia ocorre quando somos alguma coisa, porque sendo assim nega-se o nada, negando o nada nega-se a liberdade, negando a liberdade nega-se a angustia.
A negação do nada tem no existencialismo o nome de má-fé, age de má-fé aquele que ao negar o nada, convence-se de ser algo. Na obra de Sartre “A Náusea” tem-se o exemplo do garçom que é garçom, pois assumiu sê-lo, a sua é uma vida de garçom, ele diz para todo mundo que nasceu para ser assim, portanto, toda a vida dele será atendendo as pessoas, estará pautada pela definição dele que é ser garçom, daí ele se curva, coloca o guardanapo no braço, ele está convencido que é garçom, vestindo um personagem, está agindo de má-fé, tudo isso serve para diminuir sua angústia. Rousseau já falava disso, chamava a má-fé de Sartre de imbecil. O imbecil é aquele que, negando a sua condição de nada, dota-se de uma identidade, veste a carapuça de um personagem em si, e vive de acordo com ela, escravizado com ela. A desvantagem é que não escapa nunca de seu personagem, a vantagem é que não tem dúvidas. Muitas vezes as empresas cobram das pessoas o imbecil máximo, aquele que mais radicalmente veste a carapuça e a personagem, e, portanto é aquele que mais nega a liberdade que é a sua. Aquele que faz tudo roboticamente em nome de uma identidade que lhe escraviza de cima para baixo. Rousseau explica que esse é o problema do homem envelhecer, à medida que envelhece, se convence que é alguma coisa, quanto mais assim, menos livres para viver, porque temos de dar conta do que somos, reduzindo bastante a angustia que durante toda a nossa vida nos acompanhou. Podemos chamar esse sujeito daquele que se leva a sério, que não se desarma, que não baixa a guarda, ele está postado na posição de personagem, como um robô.
O que é curioso mencionar é que a adoção de personagens não só reduz a angustia individual como a angustia coletiva, porque não basta ter certeza de quem sou para me relacionar, eu preciso ter certeza de quem o outro é, pois se trata de um doido, que faz o que lhe dá na veneda, o relacionamento se torna no mínimo angustiante e complexo, portanto, a imbecilidade de Rousseau, a má fé de Sartre, ou aquele que se leva a sério, não só tem uma função de esclarecimento identitário para si, a vantagem é que adquirem pontos existenciais, e também que o outro não tem dúvidas com relação a ele. A imbecilidade é o primeiro passo para que as pessoas possam conviver e cumprir o seu curso.
E como pode algo negativo ser condição de algo tão positivo? A isso denominamos complexidade do existir, coisas ruins levam a boas, e essas levam a outras muito ruins, porque se você assumir a sua posição de nada e de livre é possível que você nunca entenda quem é, e o que é pior, não admita que ninguém à sua volta saiba quem você é, então será uma pessoa incompreendida, e, às vezes, a sociedade pode tolerar você, mas às vezes ela pode achar você intolerável e aí ela guarda maneiras de tratar com você, o direito se ocupa disso, não é por acaso que se tem uma carteira de identidade, é a carteira do imbecil, porque o direito precisa que você seja alguma, porque se você não for alguma coisa, fica difícil, por ex., colocar-te na cadeia oito anos depois de se ter cometido um crime.
fantastico
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