A) O papel dos agentes na criação e estruturação do campo econômico
De acordo com Bourdieu, os agentes, ou empresas, são responsáveis por criar e moldar o campo social econômico. Esse campo só existe por causa dos agentes que habitam nele e que o influenciam ao seu redor, deformando-o, dando-lhe uma estrutura específica. É através da relação de concorrência entre as diferentes "fontes de campo", ou pessoas jurídicas, que o campo é gerado e as relações de força que o caracterizam são estabelecidas. Mais especificamente, são os agentes, definidos pelo volume e estrutura do capital específico que possuem, que determinam a estrutura do campo e, assim, o estado das forças que se exercem sobre o conjunto das empresas engajadas na produção de bens semelhantes "setor" ou "ramo" de atividade. As empresas exercem efeitos potenciais que variam em sua intensidade, lei de decréscimo e direção. Elas controlam uma parte do campo (fatia do mercado), tanto maior quanto seu capital for mais importante. Quanto aos consumidores, seu comportamento se reduziria inteiramente ao efeito do campo, se eles não tivessem uma certa interação com ele. O peso associado a um agente (empresa ou um consumidor) depende de todos os outros pontos e das relações entre todos os pontos, isto é, de todo o espaço compreendido como uma constelação relacional. Em resumo, o campo econômico é resultado das interações complexas entre os agentes, como as empresas e os consumidores, e suas relações de força dentro desse espaço delimitado.
Embora se enfatize as constantes aqui, não se ignora que o capital, em suas diferentes formas, varia de acordo com a particularidade de cada subcampo, ou seja, de acordo com a história desse campo, o estado de desenvolvimento (e, em particular, o grau de concentração) da indústria considerada e a particularidade do produto. No final do extenso estudo que realizou sobre as práticas de fixação de preços de várias indústrias americanas, Hamilton relacionou o caráter idiossincrático dos diferentes ramos (ou campos) à particularidade das histórias de sua emergência, cada uma sendo caracterizada por seu próprio modo de funcionamento, suas tradições específicas e sua maneira particular de tomar decisões sobre a definição dos preços. (W. H. Hamilton. Price and price policies. New York: Mac-Graw Hill, 1938.)
B) Recursos Estratégicos de Mercado: Os Diferentes Tipos de Capital no Campo Econômico
De acordo com as ideias de Bourdieu, a força associada a um agente depende de seus diferentes recursos, às vezes chamados de ativos estratégicos de mercado, fatores diferenciais de sucesso (ou fracasso) que podem garantir uma vantagem na concorrência. Mais precisamente, depende do volume e da estrutura do capital que ele possui, em suas diferentes formas:
.1- capital financeiro, atual ou potencial: é o domínio direto ou indireto (por meio do acesso aos bancos) de recursos financeiros que são a principal condição (com o tempo) para a acumulação e conservação de todas as outras formas de capital.
.2- capital cultural (não confundir com “capital humano”): não se refere apenas à educação formal, mas também às experiências culturais, viagens, contatos sociais profissionais, capacidade de networking, acesso a informações privilegiadas em finanças, contabilidade e negócios, compreensão do comportamento do consumidor que podem garantir sucesso em cargos de vendas ou marketing.
.3- capital tecnológico: é o portfólio de recursos científicos (potencial de pesquisa) ou técnicos diferenciais (procedimentos, atitudes, rotinas e competências únicas e coerentes, capazes de reduzir despesas com mão-de-obra ou capital, ou aumentar o rendimento) que podem ser implementados na concepção e fabricação dos produtos.
.4- capital jurídico: relacionado à capacidade dos agentes econômicos de usar o sistema do direito para proteger seus interesses e buscar seus objetivos econômicos. Pode incluir a utilização de contratos bem elaborados para garantir acordos comerciais, a defesa de direitos de propriedade intelectual ou a adoção de estratégias jurídicas para evitar responsabilidades ou disputas legais prejudiciais. O acesso a recursos jurídicos também pode influenciar a forma como os agentes econômicos se envolvem em transações comerciais e interações no mercado. Aqueles com maior capital jurídico podem ser mais assertivos na proteção de seus interesses, negociar de forma mais favorável e assumir riscos calculados com base em sua compreensão das implicações legais.
.5- capital organizacional (incluindo o capital de informação e conhecimento sobre o campo): relacionado à capacidade das empresas de coordenar e gerenciar seus recursos de forma eficiente e estratégica, capacidade de organizar processos produtivos, distribuição de bens e serviços, gerenciamento de equipe, visando maior produtividade, menor desperdício de recursos e maior capacidade de adaptação a mudanças no ambiente econômico. Também envolve gerir dados sobre a demanda do mercado, tendências do setor, comportamento dos concorrentes, regulações governamentais e outras informações relevantes para a tomada de decisões estratégicas. Empresas que possuem esse capital estão mais bem preparadas para, identificando oportunidades de negócio, antecipar mudanças no mercado e ajustar suas estratégias de acordo com as condições econômicas.
.6- capital comercial: capital comercial (equipe de vendas) deriva do controle de redes de distribuição (armazenamento e transporte) e serviços de marketing e pós-venda.
.7- capital simbólico: reside no controle de recursos simbólicos baseados no conhecimento e reconhecimento, como a imagem da marca (investimento em goodwill), fidelidade à marca (lealdade à marca), etc. Esse poder funciona como uma forma de crédito, supondo a confiança ou crença daqueles que lhe estão submetidos porque estão dispostos a atribuir crédito. É esse poder simbólico que Keynes invoca quando afirma que uma injeção de dinheiro funciona se os agentes acreditam que ela funciona, assim como a teoria das bolhas especulativas.
C) Tensões Estruturais no Campo Econômico: O Poder do Capital e suas Implicações
De acordo com Bourdieu, a estrutura da distribuição do capital e dos custos determina a estrutura do campo, ou seja, as relações de força entre as empresas. O controle de uma parte significativa do capital confere poder sobre o campo e, portanto, sobre os pequenos detentores de capital. Isso também determina o direito de entrada no campo e a distribuição das chances de lucro. As diferentes espécies de capital não agem apenas indiretamente através dos preços, mas também exercem um efeito estrutural, pois a adoção de uma nova técnica ou o controle de uma parte maior do mercado pode modificar as posições relativas e as performances de todas as espécies de capital detidas pelas outras empresas.Nesse sentido, é importante opor uma visão estrutural à visão interacionista comum, que leva em conta apenas a influência direta exercida por uma empresa sobre outra. A visão estrutural considera os efeitos de campo, ou seja, as pressões exercidas continuamente pela estrutura do campo, definida pela distribuição desigual do capital, sobre todos os agentes engajados no mesmo campo. Essas pressões restringem o espaço de possibilidades dos agentes, especialmente aqueles mal colocados na distribuição do capital. As empresas dominantes exercem sua pressão sobre as empresas dominadas e suas estratégias através de sua posição na estrutura, mais do que pelas intervenções diretas que também podem operar. É sua posição na estrutura que faz com que elas definam as regularidades e às vezes a regra do jogo e os próprios limites do jogo; que faz com que elas modifiquem todo o ambiente das outras empresas e o sistema das pressões e o espaço de possibilidades que pesam sobre elas.
Um exemplo típico desses efeitos estruturais, irredutíveis a intervenções intencionais e pontuais de agentes singulares: o campo internacional do capital financeiro como um grande jogo onde os países participam. Esse campo tem um poder estrutural muito forte que lhe concede uma aparência de fatalidade, provavelmente porque ele não precisa intervir diretamente nos governos nacionais para influenciar, impondo ou proibindo, suas políticas. Esses custos variam dependendo do poder econômico dos países envolvidos na estrutura da distribuição do capital e na hierarquia do poder. Os países mais ricos, especialmente aqueles cuja moeda é usada internacionalmente, têm vantagens, pois podem escapar das consequências de uma política de déficit orçamentário e comercial ou uma modificação dos prêmios de risco sobre as taxas de juros nacionais ou das taxas de câmbio. Por outro lado, os países mais pobres podem enfrentar restrições ao crédito, o que dificulta suas ações econômicas.
D) Reprodução do Campo Econômico: Barreiras, Tendências e Antecipações Fundamentadas
A estrutura do campo econômico e a maneira como os recursos são distribuídos (como economias de escala e vantagens tecnológicas) têm um papel importante em garantir que o campo continue existindo e se reproduzindo. Existem obstáculos que dificultam a entrada de novos participantes no campo, como a desvantagem permanente que os novos concorrentes enfrentam ou os custos de exploração que precisam pagar para entrar. Essas características intrínsecas à estrutura do campo, como a tendência de favorecer os agentes com mais capital, são reforçadas por instituições que buscam reduzir a incerteza, como contratos de trabalho, acordos comerciais e mecanismos que fornecem informações sobre o que outros agentes econômicos potencialmente estão fazendo. Essas medidas tornam o campo com duração e futuro mais previsível e estável. As regularidades inscritas na estrutura do campo e das interações recorrentes entre os agentes permitem que eles adquiram conhecimentos, habilidades e disposições estratégicas que podem ser usados para fazer previsões razoáveis sobre o que acontecerá no futuro, pelo menos rudimentarmente fundamentadas. Assim, as ações dos agentes econômicos são baseadas em antecipações práticas, mesmo que de forma simples, fundamentadas em experiências passadas, projeções futuras e nas regularidades do campo. Isso ajuda os participantes a tomar decisões mais informadas e a se adaptar ao ambiente competitivo do campo econômico.
Em sua análise do campo econômico, Bourdieu destaca que esse espaço tem a particularidade de permitir e incentivar uma visão calculista e disposições estratégicas. Ele argumenta que não é necessário escolher entre uma visão puramente estrutural ou uma visão estratégica, pois as estratégias conscientemente elaboradas pelos agentes econômicos são moldadas pelos limites e direções impostas pelas pressões estruturais e pelo conhecimento desigualmente distribuído sobre essas pressões.
O capital cultural de informação é um dos recursos que os ocupantes de posições dominantes possuem, seja por meio da participação em conselhos de administração ou do acesso a dados fornecidos pelos solicitantes de crédito. A posse desses recursos lhes permitem escolher as melhores estratégias de gestão do capital. Bourdieu critica a teoria neoclássica conservadora que se recusa a considerar os efeitos da estrutura e as relações objetivas de poder. Essa teoria pode explicar as vantagens dos mais ricos em capital, argumentando que eles estão mais diversificados e têm maior experiência e reputação, permitindo-lhes oferecer garantias preferenciais para os agentes que lhes fornecem crédito a um menor custo, apenas por razões de cálculo econômico.
Por outro lado, levar em conta a estrutura do campo e seus efeitos não anula a liberdade de ação dos agentes no jogo econômico. Construir o campo de produção, como tal, significa reconhecer a total responsabilidade dos produtores como formadores de preço (price makers), em vez de reduzi-los a meros seguidores de preços determinados por outros (price takers). Isso enfatiza a importância da estrutura do campo na configuração das estratégias dos agentes econômicos, ao mesmo tempo em que reconhece sua capacidade de agência e tomada de decisões dentro desse contexto.
E) A Teoria do Campo Econômico de Bourdieu: Superando as Limitações das Abordagens Tradicionais.
De acordo com Bourdieu, ao adotar a noção de campo econômico em vez de equilíbrio de mercado ou jogo, abandonamos a lógica abstrata do "price taking", que é a ideia de preços sendo determinados automaticamente, mecanicamente e instantaneamente em mercados competitivos sem influências externas. Em vez disso, adotamos o ponto de vista do "price making", ou seja, reconhecemos o poder diferencial dos agentes econômicos em determinar os preços de compra e venda.
Nesse contexto, os especialistas designados para essa função, chamados "price setters", têm o papel de determinar os preços com base em sua expertise. Ao mesmo tempo, Bourdieu reintroduz a importância da estrutura das relações de força no campo de produção. Essa estrutura influencia a determinação dos preços, pois afeta as chances diferenciadas de influenciar o processo de precificação. Ela também comanda as tendências imanentes que surgem dos mecanismos do campo e delimita as margens de liberdade disponíveis para as estratégias dos agentes econômicos. A teoria do campo se opõe à visão atomicista e mecanicista que superestima o efeito do preço e reduz os agentes a pontos materiais intercambiáveis, cujas preferências determinam as ações de maneira automática. Ela se opõe também à visão interacionista, que reduz a ordem econômica e social a uma multidão de indivíduos interagindo, na maioria das vezes de maneira contratual.
A teoria moderna da organização industrial adota o modelo da decisão individual, onde cada empresa busca conscientemente maximizar seus lucros. No entanto, essa abordagem tende a reduzir a complexa estrutura de relações de força que compõem o campo econômico a simples interações, desprovidas de qualquer significado além daqueles que estão envolvidos nelas. Essas interações são frequentemente descritas através da linguagem da teoria dos jogos, onde as ações dos agentes são baseadas em antecipações recíprocas.
Ao reduzir os efeitos do campo econômico a um jogo de antecipações recíprocas, a teoria matemática ignora a influência das forças e relações mais profundas que moldam o campo. Essas forças podem incluir fatores como desigualdades na distribuição de recursos, vantagens tecnológicas, barreiras à entrada e poder de mercado, que são cruciais na determinação das estratégias e resultados das empresas dentro do campo econômico. Portanto, essa abordagem pode ser limitada, uma vez que não considera plenamente as dinâmicas estruturais e os efeitos complexos que ocorrem dentro do campo econômico, que vão além de meras interações individuais e cálculos de maximização de lucros.
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