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Para além da economia ortodoxa: a complexidade histórica das ações econômicas segundo Bourdieu

Há alguns anos, o sociólogo Pierre Bourdieu realizou uma pesquisa com o propósito de testar as ideias, especialmente as antropológicas, que sustentam a teoria econômica tradicional. Em vez de usar questionamentos ineficazes e estéreis que apenas reforçam crenças, essa pesquisa optou por confrontar empiricamente um objeto de estudo específico, cuidadosamente construído.

A Ciência Econômica é um campo diversificado, com diversas perspectivas e abordagens. Ela mesma já reflete sobre suas premissas e limitações, e não há crítica que ainda não tenha sido levantada por algum de seus muitos pensadores. Bourdieu a compara com a mitológica hidra de Lerna, que tinha várias cabeças, e sempre podemos encontrar uma delas que já tenha abordado a questão que queremos explorar, possibilitando-nos a usar elementos dessas abordagens para encontrar respostas. Por isso, os críticos da economia muitas vezes podem ser vistos como ignorantes ou injustos, porque a própria disciplina já debate suas próprias falhas e tem uma diversidade de pensamentos que possibilitam encontrar soluções variadas.

Em suas reflexões, Bourdieu destacou a necessidade de criar condições experimentais para um verdadeiro exame crítico da teoria econômica. Ele propôs que esse exame não se limitasse apenas a aspectos específicos, como a teoria dos contratos, as antecipações racionais ou a racionalidade limitada, mas que abrangesse os próprios princípios fundamentais da construção econômica. Bourdieu enfatizou que é essencial questionar a representação do agente econômico e suas ações, bem como as preferências e necessidades que influenciam as decisões econômicas. Ele percebeu que muitos economistas, mesmo sem perceber, seguem alguma visão antropológica específica em sua prática.

Ao discutir suas pesquisas, Bourdieu enfatizou a importância de evitar generalizações prematuras e agir com cautela epistemológica. No entanto, ele reconheceu que essa abordagem pode ter ocultado avanços empíricos e questões teóricas relevantes. Bourdieu argumentou que a descrição detalhada da relação entre compradores e vendedores e do processo de negociação e conclusão de contratos de venda desmente a filosofia individualista da Microeconomia, que trata o agente econômico como um indivíduo livre de pressões estruturais e interpretável dentro de uma lógica puramente aditiva e mecânica. Em outras palavras, Bourdieu argumenta que a realidade das negociações comerciais é mais complexa do que a teoria simplista da Microeconomia sugere. Ele também ressaltou que as pressões estruturais que afetam os agentes econômicos vão além das necessidades imediatas ou interações momentâneas. De acordo com Bourdieu, a marca e o domínio do campo econômico estão presentes nas disposições dos agentes, influenciando suas decisões, como na determinação dos preços ou nas estratégias publicitárias.

A principal contribuição das pesquisas de Bourdieu foi mostrar que conceitos considerados objetivos pela ortodoxia econômica, como oferta, demanda e mercado, são na verdade construções sociais e artefatos históricos. Bourdieu argumentou que uma verdadeira teoria econômica deve romper com a ideia de que é uma ciência sem história e submeter suas categorias e conceitos à crítica histórica, em vez de simplesmente aceitá-los sem questionamento. Ele sugeriu que essas categorias e conceitos, muitas vezes emprestados do discurso comum, são protegidos da crítica pelo uso da formalização. Em outras palavras, Bourdieu defendeu que a teoria econômica deve ser mais crítica e reflexiva em relação às suas próprias suposições e conceitos.

Segundo Bourdieu, o mercado imobiliário (e provavelmente todos os mercados) é resultado de uma dupla construção social, na qual o Estado desempenha um papel importante. Por um lado, o Estado contribui para a construção da demanda, produzindo disposições individuais e sistemas de preferências em relação à propriedade ou locação, e atribuindo recursos necessários por meio de políticas públicas. Bourdieu afirma que é possível rastrear a origem dessas políticas, demonstrando a relevância do Estado na configuração das escolhas econômicas dos indivíduos e na dinâmica do mercado imobiliário. Por outro lado, o Estado também contribui para a construção da oferta, por meio de políticas de crédito aos construtores e da natureza dos meios de produção utilizados, definindo as condições de acesso ao mercado e a posição dos construtores na estrutura do campo. Essa construção da oferta é influenciada tanto pelas políticas estatais quanto pelas instituições financeiras. Além disso, ao analisar a ontogênese e a filogênese do mercado, descobrimos que a demanda é especificada e definida completamente em relação a um estado particular da oferta e das condições sociais e jurídicas que permitem satisfazê-la.

De acordo com a análise de Bourdieu, as condições impostas pelo contexto do mercado têm um impacto significativo nas escolhas dos construtores no setor de casas próprias, afetando tanto o processo de produção quanto a divulgação dos imóveis. As pressões estruturais, advindas de fatores presentes no ambiente do mercado imobiliário, exercem influência direta sobre os agentes envolvidos, condicionando suas decisões a agir dentro dos limites e oportunidades oferecidos pelo contexto mais amplo do mercado. Dessa forma, é importante compreender que as ações e estratégias dos construtores são influenciadas e moldadas por esse contexto abrangente, no qual aspectos econômicos, políticos e sociais se entrelaçam.

Bourdieu argumenta que a compreensão do que a ortodoxia econômica chama de “mercado” requer um minucioso trabalho de reconstrução histórica. Ao explorar profundamente esse processo, descobrimos que a demanda está intrinsecamente relacionada a um estado específico da oferta e às condições sociais e jurídicas presentes. Essa visão mais abrangente e contextualizada desconstrói a noção simplista e homogênea frequentemente adotada na ortodoxia econômica, onde o mercado é tratado como uma abstração distante de suas raízes históricas e particularidades sociais. Bourdieu enfatiza a importância de considerar os fatores históricos e contextuais que influenciam profundamente a dinâmica do mercado.

Bourdieu também destaca que o “sujeito” das ações econômicas não pode ser compreendido como uma simples consciência individual, isolada e desvinculada de seu passado. Pelo contrário, ele argumenta que a decisão econômica é tomada por um coletivo, operando de maneira interdependente dentro do que ele denomina como “campo social”. Essa perspectiva reconhece que as ações econômicas são moldadas e influenciadas por uma complexa rede de relações e interações entre os agentes envolvidos. Além disso, as estratégias econômicas adotadas por esses agentes estão profundamente enraizadas em como eles foram estruturados no passado e como projetam o futuro. Elas refletem disposições e rotinas incorporadas ao longo da história dos agentes responsáveis por tais ações. Bourdieu destaca ainda que essas estratégias econômicas estão inseridas em sistemas complexos de estratégias de reprodução, visando perpetuar e reproduzir determinadas práticas e posições dentro do campo econômico. Isso significa que essas estratégias carregam consigo a história de tudo o que buscam preservar, perpetuar e projetar em relação às suas posições, recursos e interesses no mercado.

Ao longo do tempo, progressivamente, foi uma evolução gradual que levou à separação da esfera das trocas de mercado dos outros aspectos da vida. Nesse processo, ficou estabelecido um conjunto específico de regras e princípios para o mercado, sendo que o ditado "negócios são negócios" passou a prevalecer como um nomos específico. As transações econômicas deixaram de ser concebidas com base no modelo de trocas domésticas, que eram regidas por obrigações sociais ou familiares. Em vez disso, o cálculo dos lucros individuais, ou seja, o interesse econômico, emergiu como o princípio dominante, quando não exclusivo, suprimindo qualquer repressão à disposição calculista. Essa mudança foi fundamental para a consolidação de um mercado independente e orientado para o lucro, alterando significativamente a dinâmica das atividades econômicas.

De acordo com Pierre Bourdieu, ao analisar a história das origens, é possível perceber como as disposições capitalistas se desenvolvem simultaneamente à instituição do campo econômico onde elas se manifestam. Além disso, a observação de situações, muitas vezes de colonização, em que povos com disposições adequadas a uma ordem pré-capitalista são abruptamente inseridos em um contexto capitalista, reforça a ideia de que as disposições econômicas exigidas pelo campo econômico não são inatas nem universais. Essas disposições econômicas são, na verdade, o produto de uma complexa história coletiva, sendo moldadas e influenciadas por contextos sociais, culturais e históricos específicos. Bourdieu enfatiza que esse processo histórico deve ser constantemente reproduzido nas histórias individuais dos agentes econômicos. Portanto, as atitudes e comportamentos econômicos não podem ser compreendidos como algo inerente aos indivíduos, mas sim como resultado de uma construção social em constante evolução.

Bourdieu desafiou a visão tradicional de agentes econômicos como seres puramente racionais e individualistas. Ele argumentou que as ações econômicas são influenciadas por fatores complexos, como contexto social, cultural e histórico. Para uma análise abrangente das dinâmicas econômicas e comportamentos dos indivíduos e grupos no mercado, é fundamental compreender esses aspectos. Bourdieu enfatizou que não se deve ignorar a origem das disposições econômicas dos agentes, como preferências, gostos, necessidades ou habilidades, bem como a origem do campo econômico. A história tem um papel crucial na formação desse campo específico, com seus processos de diferenciação e autonomização ao longo do tempo.

Entender a gênese do campo econômico, como ele distinguiu, desenvolveu, autonomizou um cosmos, com um jogo específico, obedecendo suas próprias leis, é fundamental para compreender a dinâmica atual do mercado. Essa abordagem nos permite ver além das noções simplistas e universalistas frequentemente adotadas, e nos ajuda a entender como as ações econômicas são moldadas por uma complexa interação entre história, contextos culturais e estruturas sociais. Ao adotar essa perspectiva, somos capazes de analisar com mais profundidade os fatores que influenciam as decisões econômicas, os padrões de comportamento dos agentes e as relações entre oferta e demanda no mercado. Isso nos proporciona uma visão mais completa e realista da economia e nos permite compreender como as escolhas e decisões dos agentes são afetadas por uma teia de relações e influências sociais e históricas.

Bourdieu argumentou que as práticas econômicas, como crédito, poupança e investimento, variam de acordo com os recursos econômicos e culturais do agente econômico. Ele afirmou que ignorar as condições econômicas e culturais para o acesso às condutas consideradas racionais pela teoria econômica é impor uma medida e norma universal para toda conduta econômica. Isso leva a considerar a ordem econômica do mercado como o fim exclusivo e objetivo final de todo o processo de desenvolvimento histórico. Bourdieu enfatizou a importância de levar em conta as condições econômicas e culturais ao avaliar as práticas econômicas, em vez de simplesmente considerar a racionalidade econômica como uma medida universal. Focar apenas na lógica do cinismo racional limita a compreensão das condutas econômicas mais fundamentais, incluindo o próprio trabalho.

Bourdieu afirmou que o campo econômico é diferente de outros campos devido às punições severas e à busca aberta pela maximização do lucro individual. No entanto, isso não significa que toda a vida humana seja regida pela lógica de trocas comerciais. A lógica mercantil, que transforma tudo em mercadoria e reduz os valores, é excluída em muitos outros aspectos da vida, como nas trocas de dádivas.

No campo econômico, o interesse econômico é apenas uma forma específica do que Bourdieu chamou de “illusio”, ou seja, o investimento no jogo econômico. Isso ocorre quando os agentes estão imersos no campo e têm as disposições adequadas, adquiridas por meio de uma experiência precoce e prolongada das necessidades do campo.

As disposições econômicas mais fundamentais, como necessidades, preferências e propensões ao trabalho, poupança, investimento, etc., não são inatas ou dependentes de uma natureza humana universal. Pelo contrário, são resultado de uma história específica do próprio campo econômico onde essas disposições são exigidas e recompensadas. Isso significa que essas disposições são moldadas pelo contexto e pela experiência dentro do campo econômico.

No campo econômico, todos os agentes têm o mesmo objetivo de enriquecimento individual, mas cada um pode ter capacidades econômicas diferentes. Isso significa que os meios para alcançar esse objetivo podem variar de acordo com suas habilidades e recursos econômicos.

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