Pesquisar este blog

Bourdieu e soft power

 Em vez de priorizar entender a globalização neoliberal como uma mera conspiração premeditada, dentro da teoria dos campos sociais, habitus e violência simbólica de Bourdieu, faz mais sentido compreendê-la como uma manifestação da lógica intrínseca de domínio do campo social econômico, cujas balizam estão enraizadas no sistema capitalista, dentro das disputas do campo de poder. 

Bourdieu argumenta que esse campo social econômico busca a precificação de todos aspectos da vida para a acumulação ilimitada de capitais. Para seu projeto de poder, os dominantes desse campo social precisam se expandir constantemente para abranger novos mercados e recursos que podem pertencer a outros campos sociais. A mundialização é uma expressão desse projeto de expansão. 

Bourdieu não via a mundialização como impulsionada por um grupo de elites econômicas, mas sim como resultado de uma lógica estrutural do campo social econômico, que envolvia uma multiplicidade de agentes e de interesses, que disputavam recursos e posições em diferentes campos sociais. 

Bourdieu também não afirmava que as elites econômicas almejavam expandir seu poder simbólico, mas sim que elas exerciam uma dominação simbólica sobre os demais grupos sociais, impondo seus valores e interesses como universais e legítimos, e ocultando as estruturas e os mecanismos que produziam e reproduziam as desigualdades e as violências sociais. 

Bourdieu reconhecia que as elites econômicas exerciam controle sobre as principais instituições financeiras, econômicas e políticas em escala global, mas ele também criticava o papel das instituições de poder simbólico e soft power, como os meios de comunicação, as organizações internacionais, as universidades, entre outras, que eram instrumentos de dominação simbólica das elites econômicas, que impunham seus valores e interesses como universais e legítimos, e ocultavam as estruturas e os mecanismos que produziam e reproduziam as desigualdades e as violências sociais, tais como: 

- Meios de Comunicação Internacionais, empresas de mídia globalmente reconhecidas, como BBC e Reuters, que têm a capacidade de moldar percepções e influenciar a opinião pública em escala internacional; Instituições de ensino superior de renome, como Harvard, Oxford, e a Sorbonne, têm um impacto duradouro na disseminação de conhecimento, cultura e valores de seus países de origem; 

- Organizações Culturais e Artísticas: Entidades como o British Council  promovem a língua, cultura e arte de seus países, aumentando sua influência cultural global; 

- Empresas Multinacionais: Grandes corporações globais, como a Disney, têm uma presença significativa em todo o mundo e frequentemente promovem a cultura e os valores de seus países de origem; 

-ONGs e Fundações: Organizações não governamentais e fundações, como a Fundação Bill e Melinda Gates e a Fundação Open Society, têm uma influência considerável na promoção de agendas políticas e sociais globais; 

- Agências de Ajuda e Desenvolvimento: Agências como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) desempenham um papel na prestação de assistência de políticas globais; 

- Instituições Religiosas: Organizações religiosas, como a Igreja Católica e várias instituições protestantes, têm um poderoso impacto na disseminação de valores e princípios religiosos em todo o mundo; 

- os Think tanks:  produzem relatórios, estudos e análises para ajudar a moldar políticas públicas, influenciar tomadores de decisão e contribuir para o debate público.  

Bourdieu também criticava a ilusão de que essas instituições podiam ser reformadas ou democratizadas, e defendia a necessidade de uma ruptura radical com a lógica do campo social econômico, que exigia novas formas de luta e de transformação social.

Nenhum comentário:

Postar um comentário