Como escapamos em geral do mundo da mercadoria? No mundo do direito nós reforçamos a mercadoria quando tentamos escapar dela, então nesse campo em tela é dito o seguinte: alguém que se vendeu por dinheiro, tal ação é uma infração ética fundamental do mundo jurídico. Por esse motivo todas as profissões do direito têm normativas específicas contra a própria monetarização de sua vida.
Tal proposta de racionalização, no entanto, é um paradoxo porque no final das contas o poder da mercadoria tem potencial para comprar tudo no mundo, o que não quer dizer que compra os atos individuais, pois algumas pessoas resistem a isso, mas o fato principal aqui está situado no fato de que todos são permeados pelo mundo da mercadoria, senão de modo corrupto, tomado na sua acepção jurídica da palavra, ao menos em seu horizonte existencial. Exemplo: Algum jurista poderia desejar ter como seu modo de vida fazer poesias, mas ele já sabe que exercer essa função não vai lhe garantir nada em termos de rendimentos monetários, resultado é que se torna jurista embora não se vende no exercício de sua função jurídica. Aqui a pergunta que o cientista deve fazer não está no espaço da corrupção enquanto venda de sentença, parecer ou acusação, mas a pergunta fundamental é: porque que nós nos vendemos já de início? O sujeito do exemplo não queria ser jurista, mas sim poeta, ocorre que para possuir mercadoria ele optou em se tornar jurista.
Nesse nível a corrupção não é pensada no nível jurídico, mas na forma de abertura de mundo para a sociedade, todas as pessoas se orientam pela mercadoria, porque se assim não fazem consequentemente não conseguem viver. Exemplo: o Neymar joga bola, mas ele não apenas faz isso, pois ele também é Neymar empresa, Neymar Júnior no facebook, nesse raciocínio Neymar trata-se de um negócio no qual vivem muitas pessoas desses rendimentos, por consequencia disso o Neymar não pode ir para a balada, não pode namorar certa moça, não pode ser visto com cerveja, não pode fumar cigarro, porque tudo isso está sendo tomado no sentido do prejuízo do negócio, o resultado disso: somos mercadoria de ponta a ponta, apenas em alguns casos perpassam para além da mercadoria pela qual nós nos estipulamos como pessoa. Nesse sentido em alguns casos pessoas infringem regras normativas e se tornam corruptas então no sentido técnico da palavra no direito, mas a pergunta preliminar nesse tema trata de refletir o porquê é absurda a corrupção na acepção jurídica e não é absurda a própria lógica da mercadoria?
Essa deveria ser a reflexão principal, porque no final das contas temos o seguinte: o problema da corrupção em qualquer parte do mundo não é a norma, mas o problema da corrupção é que há capital, ou seja, há quem tenha e quem não tenha, então se o capital compra, ele virtualmente compra todos, e o sofrimento que uma pessoa tem para não ser comprada pelo capital é imenso, talvez menos no mundo jurídico, mas no mundo político onde a pessoa precisa de dinheiro para gerir sua campanha, nesse raciocínio temos aqui uma roda de acumulação sem fim. Surge que no final temos o fato de que o dinheiro compra, daí o problema não é quem se vende e a norma, isso é um problema insigne, mas o problema principal é porque compra? Porque há dinheiro? Porque há capital que compra? Nesse sentido a reflexão se eleva a outro nível da relação.
Nesse sentido imaginemos: No Brasil os rios não podem ter como proprietários pessoas particulares, assim nenhuma criança na escola chega para seu colega de classe e diz que seu pai é dono de um rio, nenhuma pessoa vai se orgulhar disso, mas uma criança chega para outra na escola e diz - sabia que meu pai tem uma Ferrari e é dono de uma mansão e você mora em uma favela e seu pai tem um uno mil? - porém se todos os pais tivessem casas confortáveis e não tivessem carros, nenhuma criança chegaria para a outra para lhe humilhar por esse motivo, então o problema da humilhação do outro não seria o capital, uma criança poderia humilhar a outra ainda sim, mas nesse caso trata-se de um problema em outro nível de reflexão. Nesse raciocínio os problemas nossos que são estruturais e sociais se situam no nível de que nós temos hoje 90% das pessoas do mundo sofrem sabendo que o outro que lhes humilha possui, por exemplo, um tênis Nike que ele nunca poderá possuir, imagine o impacto disso para uma criança de 11 anos, ou pelo fato de o outro que lhe humilha usou um tênis importado e por causa disso beijou uma moça bonita na balada, as crianças partem de pressupostos como esse no seu dia-a-dia, coisas sem nexo, mas que fazem sentido na vida de alguém, assim esse que não pode ter tal tênis percebe que há um igual àquele na loja, e ele sabe que não consegue comprar, no entanto está ali na loja, seu colega esnobe tem um e na loja tem uma funcionária distraída, assim ele pensa que se pegar o tênis na loja a vendedora não sai correndo atrás dele, conclusão 10 anos na cadeia.
Na vida das pessoas surgem disposições parecidas com essas, começa porque o colega dele tem um tênis Nike que ele não tem nesse sentido então o problema nosso pela corrupção, roubo, furto ou por qualquer crime em geral, deve ser pensado não unicamente no caso do crime em específico, porque tem quem não roube, a ideologia entrou mais fundo dentro de tal pessoa, mas tem aqueles que se perdem no meio dessa história, como acabamos com isso? O dia em que ter tênis estiver à disposição de todos em certo depósito de distribuição, daí ninguém vai se orgulhar de tê-lo, ou no caso do transporte pra o trabalho se a sociedade proibisse carros no centro de SP, por ex, todo mundo teria de andar de ônibus e metrô para chegar no centro, então o fato da pessoa desejar a Ferrari porque seu colega chega no centro com tal automóvel e ele chega com um uno iria ser reduzido, então é de se perceber como vamos resolvendo coisas exatamente saindo desse mundo da mercadoria, portanto o problema da corrupção é também das leis e dos atos individuais, mas em especial é do mundo que gera mercadoria.
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