Semelhantes constatações autorizam Bourdieu a afirmar que a descoberta tão recente quanto espantosa da "globalização da raça" (Winant, 1994 e 1995) foi o resultado não de uma súbita convergência dos modos de dominação étnico-racial nos diferentes países, mas sim antes da quase universalização do folclórico conceito (follk concept) estadunidense de "raça", em consagração, e sob o efeito-disfarçado, da exportação mundial bem-sucedida das categorias eruditas estadunidense para todo o mundo
[98].
Um exemplo concreto dessa demonstração, Bourdieu propõe na análise da difusão internacional do verdadeiro-falso conceito de underclass que, através de um efeito de alodoxia
[99], típico da circulação descontrolada de ideias, passando por vários continentes, foi importado por sociólogos com ambições de conseguir uma segunda juventude intelectual, no fluxo da onda de popularidade dos conceitos com a etiqueta made in USA. Resumidamente, operam da seguinte maneira: os europeus, geralmente do campo acadêmico, jornalístico ou político, estudam a questão da "classe" dentro do conceito de underclass proposto na década de 1990 nos Estados Unidos, e apostam que a reflexão dessa temática está prestando referência a uma nova posição na estrutura do espaço social urbano, e trabalham um discurso por essa via. Contrariando o ponto de vista desses europeus, seus colegas estadunidenses pensam o conceito de “under” enquanto uma pilha de pobres perigosos e imorais, ou seja, sob uma óptica deliberadamente vitoriana e racistóide
[100]. Paul Peterson, um celebrado professor de ciência política em Harvard e diretor do "Comitê de pesquisas sobre underclass urbana" do Social Science Research Council (também financiado pelas Fundações Rockefeller e Ford), não deixa subsistir qualquer equívoco ou ambiguidade quando resume aprovando os ensinamentos extraídos de um grande colóquio sobre a underclass realizado, em 1990, em Chicago, e coloca que: "O termo é poderoso porque chama a atenção para a conjunção entre o caráter dos indivíduos e as forças impessoais da ordem política e social maior. O sufixo 'class' é o componente menos interessante da palavra. Embora sugira uma relação entre um grupo social e outro, os termos dessas relações permanecem indefinidos enquanto não são combinados com a palavra mais conhecida 'under'. Essa transformação de uma preposição em adjetivo não tem o peso da palavra “trabalhadora”, a banalidade da palavra “média”, nem a distância da palavra “superior”. Em vez disso, “under” sugere algo inferior, de baixo, vil, passivo, submisso, resignado e, simultaneamente, algo de vergonhoso, depravado, perigoso, disruptivo, sombrío, tenebroso maléfico, inclusive, demoníaco. E, além desses tributos pessoais, ela implica a idéia de sujeição, subordinação e privação"
[101].
Em cada campo intelectual nacional, existem agentes os quais Bourdieu denomina de passadores (passeurs) - veiculado não apenas pelos partidários da revolução neoliberal, sob a camuflagem da “modernização”, mas também por produtores culturais (pesquisadores, escritores, artistas) e militantes de esquerda política que, na sua maioria, continuam a considerar-se progressistas. Um dos efeitos das estratégias de projeção pessoal dos passadores (por vezes somente um, por vezes vários em competição), em cada campo intelectual nacional, dentro do contexto desse circuito do imperialismo cultural, seguem no sentido de assumir mitos eruditos e reformulá-los em termos alienados, como na questão em tela das relações entre pobreza, imigração e segregação nos seus países. No momento em que escreveu “a astúcia da razão imperialista”, Bourdieu já diz não ser mais possível contar o número de artigos e obras que têm como objetivo provar – ou negar, o que acaba sendo a mesma coisa – com uma enfática diligência positivista, a "existência" desse grupo “underclass" em uma ou outra sociedade, cidade ou bairro, a partir de indicadores empíricos, na maioria das vezes mal construídos e mal correlacionados entre si (cf., entre muitos, Rodant, 1992; Dangschat, 1994; Whelm, 1996). Quando os passadores colocam a questão de refletir se existe uma underclass em Londres, Lyon, Leiden ou Lisboa, eles viralizam o pressuposto de que, no mínimo, por um lado, o termo é dotado de uma certa consistência analítica e, por outro, que tal "grupo" existe realmente nos Estados Unidos ou na Europa. Em uma posição intermediária Cyprien Avenel, em sua obra “La Question de l’underclass des deux côtes de l’Atlantique”, realiza o trabalho considerável de provar que o conceito de “underclass” não se aplica às sociedades franceses, mas aceita e reforça a noção preconcebida segundo a qual o termo se aplica à realidade estadunidense
[102].
Contra as referidas posições, Bourdieu é taxativo em afirmar que a noção semi-jornalística e semi-erudita de underclass é desprovida não só de coerência semântica, mas também de existência social real, nesse sentido apresenta os seguintes argumentos: (a) as intituladas “populações incongruentes” que os pesquisadores estadunidenses reagrupam habitualmente sob esse termo - os sujeitos beneficiários da assistência social (wellfare), desempregados crônicos, mães solteiras, famílias monoparentais, rejeitados do sistema escolar, criminosos e membros de gangues, viciados em entorpecentes e os sem teto, quando não estão se referindo a todos os habitantes do gueto sem distinção – estão incluídas nessa categoria totalmente abrangente por causa de um fato único (fourre-tout): são reconhecidas como outros tantos desmentidos vivos, negações vivas e ameaçadoras do "sonho americano" de sucesso individual e oportunidade para todos (american way of life); (b) o "conceito" aparentado de "exclusão" é comumente empregado, na França e em certo número de outros países europeus (principalmente, sob a influência da Comissão Européia), na fronteira dos campos político, jornalístico e científico, com funções similares de desistoricização e despolitização, pela representação do antigo fenômeno do desemprego em massa e seus efeitos solapadores sobre o proletariado urbano como um fenômeno novo, e desligado das políticas de Estado de desregulamentação econômica e de redução do wellfare; (c) a noção de underclass não passa de um grupo fictício, produzido no papel, em teoria, pelas práticas artificialmente classificatórias dos eruditos, jornalistas, acadêmicos e outros especialistas em gestão dos pobres (negros urbanos) que apostam na crença em sua existência, de acordo com Bourdieu, pelo fato de que o referido agrupamento se ajusta bem para permitir uma atribuição pessoal de legitimidade científica em alguns, e, a outros, trata de um tema politicamente compensador e comercialmente lucrativo a ser explorado. Nesse sentido a operação soberba dos passadores basicamente consiste em retraduzir uma noção inexistente por uma outra mais do que incerta (Herpin, 1993)
[103].
Concluindo essa parte, Bourdieu afirma que, da mesma forma, a (re)importação do conceito de underclass dos Estados Unidos para a Europa também é inapta e inepta, não acrescenta repertório intelectual para o conhecimento dessas sociedades, isto porque ambos locais utilizam discrepantes modalidades e métodos administrativos no tratamento reservados às suas "populações problema", da mesma forma essas diferenças ocorrem com suas divisões étnicas e seu respectivo status político, justamente pelo fato de que tais classificações surgiram tendo por base raízes históricas profundas
[104].
Outros dos efeitos colaterais dessas ações surgem no fato de que alguns sociólogos franceses não hesitaram em traduzir o termo antecipadamente por "sous-classe", na expectativa, sem dúvida, de introduzir o conceito de sub-homens ou Untermensch
[105].
O mais extraordinário no conceito de underclass, para Bourdieu, é o fato de que ele emerge, em sincronia com o paradoxo ligado a outros conceitos falsos dessa vulgata globalizada, da mesma onda que cria o conceito de “gueto”, que, por sua vez, foi ofuscado pelo conceito de underclass por força da severa censura política que pesava sobre pesquisas a respeito da desigualdade urbana e racial nos Estados Unidos
[106].
Antes de fazer sucesso nos Estados Unidos, a origem do conceito de underclass remonta a Europa, década de 1960, proveniente da palavra sueca onderklass, pelo economista Gunnar Myrdal, nessa oportunidade o referido conceito descreve “o processo de marginalização dos segmentos inferiores da classe trabalhadora nos países ricos”, dentro de um contexto que tinha como objetivo “criticar a ideologia do aburguesamento generalizado das sociedades capitalistas”
[107].
A importação do conceito de underclass para dentro do circuito internacional comercial desfigurou seus significados originais, nesse momento é possível, para Bourdieu, entender até que ponto o desvio adotado pelo Estados Unidos é capaz de transformar uma ideia, isto porque, em um momento inicial, o referido conceito trata de “um conceito estrutural destinado a questionar a representação dominante da sociedade”, porém, em um momento posterior, quando foi importado para os Estados Unidos, década de 1990, o referido conceito teve seu significado invertido para “imputar às condutas "anti-socais" dos despossuídos a responsabilidade de seu esbulho”, ou seja, depois de importado para os Estados Unidos, o conceito de underclass realiza o efeito de fazer surgir “uma categoria comportamental sob medida para reforçar essa representação” dominante da sociedade que o conceito original buscava criticar
[108].
A responsabilidade dos passadores dos diferentes campos intelectuais nesses “mal-entendidos”, em parte, ocorre pelo fato de serem eles os “importadores que produzem, reproduzem e fazem circular todos esses (falsos) problemas, extraindo ao mesmo tempo, sua pequena “cota” de lucro simbólico” e material dessas suas estratégias pessoais de consagração internacional dentro desse circuito. E também pelo fato de que nesse contexto das posições/distâncias sociais e de seus habitus eruditos, esses passadores estão expostos e vinculados a uma “dupla heteronomia”: (a) Por um lado, “miram” os circuitos de consagração dos campos sociais dos Estados Unidos, locais reconhecidos por eles como núcleo principal "lar da (pós)modernidade social e científica”, todavia não estão incluídos nesses espaços, portanto, em geral, não conseguem obter “conhecimento direto e específico das instituições e da cultura estadunidenses”. Razão pela qual esses passadores “são dependentes dos pesquisadores estadunidenses que exportam produtos intelectuais (geralmente deteriorados e envelhecidos) para o exterior”. (b) Por outro lado, tendem a estar no interior do campo do jornalismo, pelas “seduções” de consagração que esse espaço “oferece e o sucesso imediato que ele propicia”, e, consequentemente, trabalhando os “temas que brotam na interseção dos campos da mídia e da política”, portanto, “no ponto maximização do ganho” sobre assuntos relacionados ao “mercado externo (como se poderia mostrar relacionando as resenhas complacentes que suas obras recebem em revistas altamente visíveis)"
[109].
A situação dessa dupla heteronomia, quando são características desses passadores, “sociólogos-jornalistas, sempre prontos e aflitos para comentar os assuntos correntes e tudo que se chama "fait de societé"”, justifica “a predileção deles pelas problemáticas amenas”, ou seja, eles vão priorizar trabalhar questões “nem verdadeiramente jornalísticas, nem completamente científicas (eles se orgulham por estarem em simbiose com "o ponto de vista dos atores")”. Essas predileções são expressas “numa linguagem a um só tempo, acessível e "modernista" e, portanto, geralmente percebida como vagamente progressista (em relação aos "arcaísmos" do velho pensamento europeu)”. No que tange ao conteúdo dessas predileções geralmente elas vão tratar meramente da “retradução semi-erudita dos problemas sociais mais em voga em sua época numa linguagem importada dos Estados Unidos (na década de 1990: etnia, identidade, minoria, comunidade, fragmentação etc.) e que se seguem uns aos outros na ordem e ritmo ditados pela mídia: jovens da banlieue [periferia], a xenofobia da classe trabalhadora declinante, os desajustes dos estudantes do secundário e da universidade, a violência urbana, a esperança no Islã”, corrupção, empreendedorismo etc
[110]. Esse posicionamento gera o efeito de contribuir, “de forma particularmente paradoxal para a imposição de uma visão do mundo que, sem levar em conta as aparências superficiais, está longe de ser incompatível com as produzidas e transmitidas pelos grandes think tanks internacionais, mais ou menos diretamente enlaçados às esferas do poder econômico e político”
[111].
Para além dos passadores que realizam estratégias conscientes para benefício pessoal, importante aqui destacar outros temas, ideologias e autores, reconhecidos como progressistas (esquerda política), cuja primeira característica é que “geralmente sem o perceber estão engajados na empresa de importação-exportação cultural", e a segunda característica está no fato de que, “eles ocupam geralmente posições dominadas no campo de poder*
[112] estadunidense e até mesmo no seu campo intelectual”
[113].
*Obs: Em apertada síntese campo de poder ocorre quando diversos agentes sociais, reconhecidos como dominantes pelos seus pares nos mais diversos campos sociais em que atuam, estão disputando entre si o reconhecimento uns dos outros. BOURDIEU, Pierre. Campo de poder, campo intelectual. Buenos Aires: Folios, 1983
Para entender a atuação desses outros agentes, temas e ideologias, Bourdieu faz uso de uma analogia com os “produtos da grande indústria cultural dos Estados Unidos, como o jazz ou o rap, ou as modas mais comuns em alimentos ou roupas como o jeans”. Da mesma forma que esses produtos “devem parte de sua sedução quase universal sobre os jovens ao fato de serem produzidos e usados por minorias subordinadas nos Estados Unidos”, também quando os "tópicos da nova vulgata mundial”, têm como característica que “devem parte de sua eficácia simbólica ao fato de que apoiados por especialistas em disciplinas vistas como marginais ou subversivas como Estudos Culturais, Estudos Étnicos, Estudos Gays ou Estudos Femininos”, então eles são reconhecidos, “aos olhos dos escritores das ex-colônias européias”, como portadores de legitimidade social benéfica, no sentido de representar “aura de mensagens de libertação”
[114].
Em outras palavras, os temas, ideologias e autores reconhecidos como progressistas, destinatários de reconhecimento social benéfico por serem reconhecidos como especialistas de assuntos relacionados à minorias, quando eles utilizam e guarnecem os mesmos tópicos dos circuitos do imperialismo cultural, esta atitude faz com que a eficácia de consagração social destinada à estes autores, temas e ideologias também flua no sentido de beneficiar, em boa parte, o poder de imposição dos tópicos do imperialismo cultural, isto porque os referidos tópicos passam a ser reconhecidos com as mesmas características dos próprios intelectuais progressistas. Nesse raciocínio Bourdieu conclui: “De fato, o imperialismo cultural (estadunidense ou outro) nunca se impõe melhor do que quando é servido por intelectuais progressistas (ou por intelectuais "de cor", no caso da desigualdade racial)”, porque esses intelectuais “parecem acima da suspeita de estarem promovendo os interesses hegemônicos de um país contra o qual brandem a arma da crítica social”
[115].
Como exemplo prático dessa situação, Bourdieu cita o jornal Dissent, reconhecido por pertencer a uma ““velha esquerda” democrática da cidade de Nova Iorque”, na sua edição de verão do ano de 1996, em que publica artigos trabalhando os assuntos "Minorias em luta em todo globo: Direitos, Esperanças, Ameaças". A revista referida é reconhecida por combinar sua “boa vontade humanista característica de certa tendência da esquerda acadêmica”, com sua projeção à toda humanidade. Nesta edição, o jornal não apenas enfatiza o “senso comum “liberal” dos Estados Unidos”, como também consagra um espaço especial para a noção de minority - palavra que deve, para Bourdieu, ter sua transcrição mantida no idioma inglês, como memória de que se trata de um “conceito folclórico importado para a teoria” e também de que foi criado na Europa
[116].
No que tange esse cuidado com a transcrição da palavra minority, Bourdieu ressalta que “o problema de linguagem, evocado aqui de passagem, é a um só tempo crucial e espinhoso”, isto porque, por um lado, escamoteando precauções metodológicas da antropologia, temos “o fato de que os cientistas sociais carregarem sua linguagem científica com tantos “faux amis” (em que minority se transforma em minoria, profession profissão liberal etc.)”, o problema aqui surge porque esses cientistas acabam guiados pelos “ganhos simbólicos oferecidos por esse verniz de “modernidade””, e nesse contexto, não reconhecem que “essas palavras morfologicamente germinadas são separadas por todo conjunto de diferenças entre os sistemas sociais e simbólicos em que foram produzidas e o novo sistema em que estão inseridas”, completando esse raciocínio, Bourdieu afirma que “os mais expostos à falácia dos “faux amis” são obviamente os ingleses porque eles falam a mesma língua, mas também porque eles em geral aprenderam sua sociologia em textos, “antologias” e livros estadunidenses, e assim não têm muito a opor a essa invasão conceitual, a menos que haja vigilância epistemológica excepcional”. Por outro lado, e em divergência, temos a existência de várias “precauções tomadas pelos etnólogos ao introduzir palavras nativas” em suas pesquisas, como “é o caso dos estudos étnicos da revista Ethnic and Racial Studies, dirigida por Martin Bulmer, e do grupo de pesquisa de Robert Miles sobre racismo e migração da Universidade de Glasgow”, o grande problema aqui ocorre porque “esses paradigmas alternativos, preocupados em levar completamente em conta as especificidades da ordem étnico-racial britânica são forçosamente definidos por sua oposição aos conceitos estadunidenses e seus derivados ingleses”
[117].
A proposta da referida noção de minority promulgada pelo jornal Dissent, caracteriza certas pessoas e grupos como “categorias isoladas de uma dada nação-Estado” e “com base em “traços "étnicos" ou “culturais"”. Essa primeira caracterização segue somada com uma segunda caracterização: a de que tais pessoas e grupos “têm o desejo ou o direito de exigir reconhecimento cívico e político como tal” (subjetividade)
[118].
O problema de tomar como verídicas essas caracterizações, como o referido jornal estabelece, está no fato de que a existência real ou potencial dessas caracterizações “pressupõe o que deveria ser demonstrado”. Nesse sentido “uma análise comparativa aparentemente rigorosa e generosa pode, sem que seus autores nem cheguem a perceber, contribuir para tornar aparentemente universal”, aplicável para todos os povos, “uma problemática feita por e para estadunidenses” (e o seu assujeitamento quase espontâneo aos direitos civis). Tal ponto de vista também tende a escamotear o fato de que “as formas sob as quais os indivíduos buscam o reconhecimento do Estado para sua existência e participação coletivas variam em épocas e lugares diferentes em função das tradições históricas e sempre constituem um objeto de luta na história”
[119].
Nesse momento da reflexão Bourdieu apresenta um duplo paradoxo: Por um lado, no interior da “luta pelo monopólio da produção da visão do mundo social que é universalmente reconhecida como universal”, aplicável à todos os povos, temos: (a) o fato de que os Estados Unidos são “excepcionais” detentores do poder de tornar legítima, enquanto a única ideologia legitima, aquela onde suas práticas são princípios da natureza universal racional, embora essas abordagens sejam particularismos, aplicados excepcionalmente em sua tradição histórica em particular; (b) o fato dos Estados Unidos serem excepcionais para que seus espaços sociais sejam reconhecidos por muitos como locais da maior fluidez de uma ordem, ou seja, que oferece oportunidades extraordinárias à mobilidade social (principalmente, em comparação com as estruturas sociais rígidas do velho continente), o que gera nas pessoas a ilusão de que é possível entrar nesses espaços e obter consagração
[120].
Por outro lado, em divergência com o senso comum descrito acima, “a sociodicia e as ciências sociais” estão de acordo em reconhecer que os Estados Unidos nada possui de excepcional no que tange “fluidez de uma ordem social que extraordinárias oportunidades de mobilidade (especialmente em comparação com as estruturas supostamente rígidas do velho mundo)", nesse sentido “os mais rigorosos estudos comparativos convergem na conclusão de que os Estados Unidos não são fundamentalmente diferentes das outras nações pós-industriais, ainda que o alcance da desigualdade de classe seja notavelmente maior nos Estados Unidos.”
[121]
Para Bourdieu o que torna os Estados Unidos “realmente excepcionais, de acordo com a velha temática de Tocquevilliana incansavelmente reiterada e periodicamente reatualizada”, na sua vitória na luta pelo monopólio da produção da visão do mundo social universal para todas situações particulares, é justamente o que ele tem de mais comum com outros países: “rígido dualismo de sua divisão social”, ou seja, a inexistência de uma sociedade com fluidez, mobilidade social e oportunidades extraordinárias. E ainda “mais que isso, é por sua capacidade de impor como universal o que há de mais particular a eles, vendendo como excepcional o que os torna mais comuns”
[122].
Os efeitos do imperialismo cultural - no sentido daqueles que ocorreram no processo “resultante da migração de ideias através de fronteiras nacionais”, e operaram a “des-historicização” como desconsideração das histórias locais, culturais e pessoais, agindo assim contribuindo como sendo “um dos fatores para a desrealizacão e falsa universalização” das pessoas e das sociedades, podendo ser observado no exemplo dos “faux amis teóricos" - mantém os eruditos inquietos, de antemão, em argumentar a propósito dos mesmos. O único elemento eficiente de aperfeiçoamento na condução e orientação dos instrumentos dos referidos argumentos, Bourdieu define como sendo o trabalho científico de uma “genuína história da gênese das idéias acerca do mundo social”, necessariamente acompanhada “de uma análise dos mecanismos sociais da circulação internacional dessas idéias, esse repertório “poderia levar os cientistas, tanto nesse domínio quanto em outros, a um comando melhor dos instrumentos com que argumentam sem ter a preocupação de discuti-los antes”
[123].
Na obra de Dorothy Ross denominada “the origins of american Social Science”, a autora faz não apenas “um trabalho essencial para levar em conta todo o peso do inconsciente histórico que sobrevive de forma mais ou menos reconhecível e reprimida na problemática erudita de um país”, como também analisa “a gravidade histórica que dá ao imperialismo acadêmico estadunidense grande parte de sua força de imposição”. A referida obra chama atenção para a abordagem de Bourdieu no momento em que “revela como as ciências sociais estadunidenses (economia, sociologia, ciência política e psicologia) foram erigidas”. Dentro desse contexto, no interior do estudo da “linguagem ostensivamente purificada da “grande” teoria sociológica”, é possível encontrar retraduções de “dois dogmas básicos que constituem a doxa nacional”. São eles: (a) o ““individualismo metafísico", na canônica tentativa de Talcott Parsons de elaborar uma “teoria voluntarista da ação” e, mais recentemente, na popularidade ressurgente da chamada “teoria da escolha racional”. (b) e “a ideia de oposição diametral entre dinamismo e elasticidade da nova ordem estadunidense e a estagnação e rigidez das velhas formações sociais européias”, que pode ser observado no estudo da ““teoria da modernização", que reinou sobre o estudo da mudança social durante as três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial e que recentemente fez um retorno inesperado nos estudos pós-soviéticos”
[124].
[99] Alodoxia é uma expressão presente nas obras de Bourdieu que define um erro e falso reconhecimento que alguém aplica sobre um objeto como sendo igual a outro objeto diferente por falta de repertório necessário à sua interpretação, com base em relações ignoradas entre diversas histórias com particularidades diferentes, e leva a reconhecer algo estranho numa outra história, a de uma outra nação ou de uma outra classe. BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Bertrand Brasil, 2012. p. 105
[100] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 223
[101] JENCKS, C. & PETERSON, P. (eds.) (1991). The Urban Underclass. Washington, Brookings Institution, p. 3. Peteron conclui que o parágrafo de abertura do livro observando que O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, evoca melhor a “subclasse” como uma “população humana vil e depravada” (sic).
[107] MYRDAL, G. (1963). Challenge to Affluence. Nova York, Pantheon.
[108] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 226
[112] Em apertada síntese campo de poder ocorre quando diversos agentes sociais, reconhecidos como dominantes pelos seus pares nos mais diversos campos sociais em que atuam, estão disputando entre si o reconhecimento uns dos outros. BOURDIEU, Pierre. Campo de poder, campo intelectual. Buenos Aires: Folios, 1983
[113] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 227
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