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Imperialismo e Eticidade, uma aplicação (parte 3/5)
Nas realidades políticas o imperialismo cultural opera intrusões etnocêntricas assim tomando os espaços de debates que antes pertenciam a temas como o da "raça" e da identidade. Nessa proposta Bourdieu convida a uma análise em que o imperialismo cultural ocorre através dos preceitos de uma reconhecida tradição estadunidense, que em determinado momento histórico, definiu, de maneira arbitrária, a dicotomia entre negros e brancos. Essa definição foi reconhecida como legítima e natural em outras realidades infinitamente mais complexas do que a dessa tradição estadunidense, e assim sendo imposta, ressignificou relações em países em que os princípios - codificados ou práticos - de visão e divisão de negros e brancos, das diferenças étnicas, são completamente diferentes. Partindo para uma abordagem mais concreta, Bourdieu cita o caso do Brasil, ainda considerado, como um dos contra-exemplos desse "modelo americano"[74].
Para esse momento do raciocínio Bourdieu chama atenção para preceitos de certas obras de pesquisa, empreendidas por estadunidenses e latino-americanos formados nos Estados Unidos, que servem de representações históricas de um esforço em legitimar os pontos de vista da maior parte das pesquisas recentes sobre a desigualdade etno-racial do Brasil. Estas pesquisas colocam os brasileiros como: não sendo menos racistas que os outros, contrariando uma identidade que os brasileiros teriam de sua sociedade como o país das "três tristes raças" (indígenas, negros descendentes dos escravos, brancos oriundos da colonização e das vagas de imigração européias); os brasileiros "brancos" nada tendo a invejar em relação aos primos estadunidenses; ou Ainda pior, a existência de um racismo mascarado à brasileira, por definição, mais perverso, porque dissimula e nega suas atitudes racistas, na tese que pretende, em Orpheus and Power (1994), o cientista político afro-americano Michael Hanchard[75].
Para a análise dessa situação brasileira, Bourdieu entende que na obra Orpheus and Power (1994), Hanchard aplicou as mesmas categorias da história particular (não universal) do Movimento estadunidense em favor dos Direitos Civis ocorrido durante o período das décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial 1950 e 1960 - período específico de regime de dominação rígido e violento nos Estados Unidos, desconhecido de qualquer outra sociedade, nascido no interior de uma contradição original entre democracia e escravidão racial. Segundo essa análise de Bourdieu, a aplicação de Hanchard opera estabelecendo uma ideologia em que as categorias estadunidenses estão servindo de fundamento e padrão universal da luta de todos os grupos de cor oprimidos (ou casta)[76], isto porque a referida obra, por um lado estabelece as diretrizes da sociedade estadunidense como paradigma para outra sociedade com circunstâncias particulares diferentes daqueles de sua própria origem, e por outro lado, deixa de aplicar um diálogo ou uma reflexão mais detalhada com as circunstâncias locais do Brasil ou dos escritores locais que propuseram outras formas de tratar essa mesma problemática, e ainda que possa citar brevemente tais autores e problemáticas, essas abordagens permanecem na margem das questões tratadas[77].
Como consequência, a conclusão da análise de Hanchard, segundo Bourdieu, desconsidera a constituição da ordem etno-racial brasileira em sua lógica singular* [78]. Para Bourdieu, a forma de desdobrar a referida análise deve dissecar a constituição da ordem etno-racial objeto de análise, respeitando sua própria lógica. Nesse sentido Bourdieu afirma que na história comparativa da dominação racial está demonstrado que divisões etno-raciais são intimamente ligadas à história social e política de cada país (e particularmente à história das lutas simbólicas em torno da classificação oficial), em que cada Estado produz e reproduz a concepção de “raça” que melhor esteja ajustada à formação de seu pacto nacional. Infelizmente, até mesmo os esforços mais eruditos nessa direção geralmente terminam por projetar categorias estadunidenses puras e assim apagam as próprias diferenças históricas que tentam acentuar[79].
*obs: Essa crítica de Bourdieu provocou a revista Estudos Afro-Asiáticos, Volume: 24, Número: 1, Publicado: 2002 a publicar a referida edição exclusivamente dedicada para apresentar sua resposta. Ainda nessa edição, em defesa de Hanchard, uma crítica a esse ponto afirma que Bourdieu impõe as categorias da academia francesa como a única para a reflexão das questões de raça no Brasil, além de refletir uma simplificação frágil das concepções de raça e de sua circulação internacional: French, John. Passos em falso da razão antiimperialista: Bourdieu, Wacquant, e o Orfeu e o Poder de Hanchard. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 97-140. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100005>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100005. Outros artigos nesse sentido, da mesma edição da revista: Sansone, Livio. Um campo saturado de tensões: o estudo das relações raciais e das culturas negras no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 5-14. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100001>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100001. Costa, Sérgio. A construção sociológica da raça no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 35-61. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100003>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100003. Hanchard, Michael. Política transnacional negra, antiimperialismo e etnocentrismo para Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant: exemplos de interpretação equivocada. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 63-96. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100004>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100004. Telles, EdwardAs fundações norte-americanas e o debate racial no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 141-165. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100006>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100006.
Problema maior surge quando essas pesquisas estadunidenses se contentam em substituir no atacado as características que deveriam estar em seu objeto de análise, como exemplo disso, o mito nacional da "democracia racial" (tal como é mencionada, na obra de Gilberto Freyre, 1978), sobreposto pelo mito de militante segundo o qual todas as sociedades são "racistas", nesse sentido incluindo a sociedade brasileira no seio daquelas que, aparentemente, contém as relações "raciais" menos distantes e hostis. A conclusão de Bourdieu é que, em uma primeira fase o conceito de racismo exerce efeito de utensílio analítico, após a influência desse imperialismo cultural esse conceito torna-se um instrumento de acusação; sob máscara de estar sendo produzida ciência, acaba por consolidando a lógica do julgamento (garantindo o sucesso de livraria, na falta de reconhecimento intelectual)[80].
Dentro dessa perspectiva, Bourdieu diferencia duas concepções de raça. A primeira está presente no pensamento de Charles Wagley demonstrando que a concepção da "raça" nas Américas admite várias definições, segundo o peso atribuído à ascendência, à aparência física (que não se limita à cor da pele) e ao status sociocultural (ocupação, montante da renda, diplomas de educação, religião, região de origem, etc.), dependendo da história de fundação, das relações e dos conflitos entre grupos e conflitos simbólicos nas variadas zonas geográficas[81].
Em divergência a essa primeira, segue a segunda perspectiva referida como presente na tradição estadunidense exclusivamente por força das circunstâncias históricas particulares de colonização desse país. Essa segunda perspectiva é definida como a única que define "raça" a partir somente do critério da ascendência - e ainda sendo utilizado exclusivamente, em relação aos afro-americanos. Segundo essa perspectiva uma pessoa é enquadrada como "negra" pelo fato de ter um ou vários ascendentes identificados como negros, isto é, no final da regressão, como escravos africanos, ou seja, os filhos de uma união mista são, automaticamente, enquadrados no grupo estabelecido como inferior (aqui, os antes denominados “negros”)[82].
Por sua vez, na perspectiva brasileira, a identidade racial é definida pela primeira perspectiva, ou seja, não em referência genealógica, mas sim a um continuum de "cor", isto é, pela aplicação de um princípio fenotípico flexível ou definido através de vetores que, levando em consideração traços físicos como o tom de pele, a textura dos cabelos, a forma dos lábios e do nariz, a posição de classe (principalmente, a renda, a ocupação e a educação), a região geográfica em que vive e etc. A perspectiva brasileira fornece um grande número de categorias intermediárias graduadoras e parcialmente superpostas entre brancos e negros (mais de uma centena foram registradas no censo de 1980), permitindo inclusive que o mesmo indivíduo receba uma classificação diferente conforme o lugar em que vive, ou que irmãos sejam considerados pertencentes a raças distintas, procedimento impossível dentro da perspectiva racial estadunidense. O que foi dito acima não significa acreditar que as discriminações difamatórias e as profundas desigualdades associadas a perspectiva estadunidense não existem no Brasil, mas sim que a perspectiva brasileira enfatiza a construção simbólica de “raça” abrangendo fronteiras e relações com uma certa porosidade e maleabilidade que a perspectiva estadunidense não consegue captar, e, em particular, essas referidas relações não geram ao longo da estrutura social o ostracismo radical nem a estigmatização excludente sem recurso ou remédio, as evidências desse fato são relacionadas às estratégias de mobilidade social étnico-racial, através do matrimônio, para subir na escada de cor adotadas pelos brasileiros de pele mais escura e os índices de segregação exibidos pelas cidades brasileiras, nitidamente inferiores aos das metrópoles estadunidenses (típico do que nos Estados Unidos são chamados “bairros integrados”), e também na ausência virtual dessas duas formas tipicamente estadunidense de violência racial: o linchamento e a agitação urbana[83].
Pelo contrário, nos Estados Unidos não existe categoria que, social e legalmente, seja reconhecida como “metis” ou "mestiço", após sua erradicação simbólica nas primeiras décadas do século XX. Nessa perspectiva há uma divisão que é mais semelhante à das castas definitivamente definidas e delimitadas ou quase castas (como prova, a taxa extremamente baixa de casamento inter-raças: menos de 3% das afro-americanas entre 24 e 35 anos contraem uniões "mistas" durante a década de 1980, em comparação com a metade, aproximadamente, das mulheres de origem hispanizante e três quartos das asiáticas), essa é a realidade que se tenta dissimular, submergindo-a no universo das classificações diferenciadoras as “revistas”, através do ponto de vista estadunidenses por meio da “globalização”[84].
Notas de Rodapé:
[74] BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p.19
[75] BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 19
[76] ibidem.
[77] Nesse sentido, e com maior riqueza de detalhes, a ex-ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil, doutora em Sociologia na Michigan State University, EUA: BAIRROS, Luiza de Helena. Orfeu e Poder: uma perspectiva afro-americana sobre a política racial no Brasil, Afro-Ásia, nü 17 (1996), pp. 173-186, que é uma crítica a Michael Hanchard,
Orpheus and Power: The Movimento Negro o/Rio de Janeiro and São Paulo, Brazil, 1945-1988, Princeton, Princeton University Press, 1994.
[78] Essa crítica de Bourdieu provocou a revista Estudos Afro-Asiáticos, Volume: 24, Número: 1, Publicado: 2002 a publicar a referida edição exclusivamente dedicada para apresentar sua resposta. Ainda nessa edição, em defesa de Hanchard, uma crítica a esse ponto afirma que Bourdieu impõe as categorias da academia francesa como a única para a reflexão das questões de raça no Brasil, além de refletir uma simplificação frágil das concepções de raça e de sua circulação internacional: French, John. Passos em falso da razão antiimperialista: Bourdieu, Wacquant, e o Orfeu e o Poder de Hanchard. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 97-140. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100005>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100005.. Outros artigos nesse sentido, da mesma edição da revista: Sansone, Livio. Um campo saturado de tensões: o estudo das relações raciais e das culturas negras no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 5-14. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100001>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100001. Costa, Sérgio. A construção sociológica da raça no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 35-61. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100003>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100003. Hanchard, Michael. Política transnacional negra, antiimperialismo e etnocentrismo para Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant: exemplos de interpretação equivocada. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 63-96. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100004>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100004. Telles, EdwardAs fundações norte-americanas e o debate racial no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 141-165. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100006>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100006.
[79] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 215.
[80] ibidem. p. 216
[81] BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p.20
[82] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 217
[83] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 218
[84] ibidem.
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