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Sobre o imperalismo cultural em Pierre Bourdieu - Introdução (parte 1/5)

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Introdução I (parte 1/5)


No artigo “A astúcia da razão imperialista” (1) o sociólogo e antropólogo Pierre Bourdieu extrai de suas análises científicas da sociedade contemporânea - século XX, especialmente em seus meados de 1997 - certos agentes, magnatas, corporações, fundações internacionais, organizações não governamentais, centros de tanques de ideias, organismos internacionais e etc, orquestrados em um modus operandi que pode ser definido como imperialismo cultural. Em apertada síntese introdutória é possível definir imperialismo cultural, como “universalização de uma visão particular do mundo” (2), dentro da lógica segundo a qual “nada é mais universal do que a pretensão ao universal” (3), no poder de imposição - por reconhecimento e veneração - de uma vulgata (4) internacional em que certas práticas, premissas,  emoções, comportamentos e conceitos são legitimadas no estamento de último horizonte verdadeiro e princípios de natureza universal racional, ou seja, aplicáveis à todo o mundo, porém Bourdieu afirma que tais práticas e conceitos são “particularismos ligados a uma tradição histórica singular” (5) que são irreconhecíveis possuindo esse significado, principalmente depois de “ampliada pelo trabalho de “teorização”” (6) sobre suas formas. Nesse sentido, o Universalismo é a ideologia do imperialismo para ser imposta sob outras.

 

Uma característica do imperialismo cultural está em seu efeito de realizar violência simbólica nas pessoas. No intuito de definir as características da violência simbólica, dentro dessa perspectiva, trata-se de um poder (7):  (a) real, porque permanece existente nas atitudes percebidas pelas pessoas, quando elas atuam na função de estruturar determinadas posições sociais (por exemplo, superior/subalterno dentro de uma empresa ou qualquer campo social) e distâncias sociais dentro de um espaço (abstrato) de relações sociais; (b) legítimo, porque exercido através de uma pessoa socialmente respeitada/venerada enquanto autorizada para exercê-lo; (c) reconhecido, porque seu exercício e subordinação por uma pessoa, seja àquele que lhe impõe ou àquele que lhe está submetido, são pensadas como naturais, no sentido de que são ignorados enquanto dentro de uma relação artificial de arbitrariedade. Quanto melhor êxito o executor da ação consegue em aparentar ser natural sua dominação, nesse sentido escondendo a arbitrária gênese da sua condição, mais forte esse poder será. Contanto que, tal ação, consiga tornar o exercício desse poder aceitável por parte daqueles que à ele se subordinam; (d) estruturado social, enquanto consequência dos conflitos históricos presentes em campos sociais simbólicos; (e) estruturante social, enquanto instaurador de uma realidade e de uma ordem gnosiológica; (f) unificador, enquanto instrumento de intermediação de comunicação e conhecimento; (g) segregacionista, ainda enquanto instrumento de intermediação de comunicação e conhecimento, ele realiza o efeito de aceitação das distinções sociais, “compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à sua cultura dominante.”; (h) conservador, porque o efeito de sua ação garante a dominação de um campo social em face de outros campos, através de seus mecanismos de reconhecimento e legitimação, que visam educar os campos sociais dominados a aceitarem o poder que lhe está sendo imposto; (i) dissimulador, pois consegue se colocar como algo diferente de sua origem ou aquilo que o representa, e, assim camufla o entendimento do caráter arbitrário de sua gênese social; (j) decorrente dos maquinismos sociais de comunicação e conhecimento que estabelecem imperativamente a maneira legítima de análise e compreensão do mundo.

 

Especificamente a violência do imperialismo cultural ocorre através de atitudes destinadas à acessibilidade, controle, apoio e transmissão de informações, que gera o efeito de extorquir por submissão, pelo reconhecimento, veneração, das “realidades complexas e contestadas de uma sociedade histórica particular, tacitamente constituída em modelo e na medida de todas as coisas: a sociedade norte-americana da era pós-fordista e pós-keynesiana” (8), de modo que os destinatários do conteúdo tenham ações na direção alinhada com esses preceitos e que sejam reconhecidos por eles como sendo suas espontâneas razões. Para Bourdieu “A violência simbólica nunca se exerce, de fato, sem uma forma de cumplicidade (extorquida) daqueles que a sofrem e a “globalização” dos temas da doxa social americana ou de sua transcrição, mais ou menos sublimada, no discurso semi-erudito não seria possível sem a colaboração, consciente ou inconsciente, direta ou indiretamente interessada, não só de todos os “passadores” e importadores de produtos culturais com grife ou dé griffés (editores, diretores de instituições culturais, museus, óperas, galerias de arte, revistas etc.) que, no próprio país ou nos países-alvo, propõem e propagam, muitas vezes com toda a boa-fé, os produtos culturais americanos, mas também de todas as instâncias culturais americanas que, sem estarem explicitamente coordenadas, acompanham, orquestram e, até por vezes, organizam o processo de conversão coletiva à nova Meca simbólica” (9). Nesse sentido “os produtos da pesquisa estadunidense receberam "uma estatura internacional e um poder de atração" comparáveis aos "do cinema, da música popular, dos programas de informática e do basquetebol americanos" (10). Concluindo essa parte: “os seus efeitos são tão poderosos e perniciosos porque ele é veiculado não apenas pelos partidários da revolução neoliberal - a qual, sob a capa da “modernização”, entende reconstruir o mundo fazendo tábua rasa das conquistas sociais e econômicas resultantes de cem anos de lutas sociais, descritas agora como arcaísmos e obstáculos à nova ordem nascente –, mas também por produtores culturais (pesquisadores, escritores, artistas) e militantes de esquerda que, na sua maioria, continuam a considerar-se progressistas” (11).

 

Outra característica importante dessa violência simbólica do imperialismo cultural é o fato de que ela apresenta formas talhadas sem referência ao contexto histórico (descentralizada) do assunto tratado ou com referência ao contexto histórico do assunto porém utilizando precário rigor historiográfico, todavia tomados em seus enredos como proposições moderadas e verdades indiscutíveis (12). No interior do circuito do imperialismo cultural essas formas e assuntos são entendidos, por Bourdieu, criando o efeito de “neutralização do contexto histórico” (13), nesse sentido suas características estão no fato de que permanecem “planetarizados, ou globalizados num sentido estritamente geográfico por esse desenraizamento”, porque tendem a fazer com que os remetentes e destinatários desses conteúdos não reconheçam que as formas e assuntos apresentados tem sua origem e influência dentro de relações sociais na sociedade local que eles surgem, em sentido contrário tais formas e assuntos são reconhecidos como parte de uma sociedade global abstrata, “enquanto simultaneamente são desparticularizados pelo efeito da falsa ruptura efetuada pela conceitualização” (14), porque tendem a esconder, “pela aparência de sua necessidade lógica” (15), certos significados originais e/ou a banalização de outros estudos, especificamente aqueles outros estudos que disciplinam “as raízes históricas de todo um conjunto de questões e noções”, isto é, o conjunto das condições históricas, historiográficas, questões filosóficas e “contingências da causalidade sociológica negada” (16) da origem de todos aspectos que “têm raízes nas realidades complexas e controversas de uma sociedade histórica particular” (17) - tais como, conforme afirma Van Dijk, pesquisador e estudante de Bourdieu, a “definição global da situação, a localização (tempo e espaço), as ações em curso (incluindo discursos e gêneros de discurso), os participantes em vários papéis comunicativos, social, ou institucional, bem como as suas representações mentais: finalidades, conhecimento, opiniões, atitudes e ideologias. Controlar o contexto implica controlar uma ou mais destas categorias, e.g., determinar a definição da situação comunicativa, decidir o tempo e espaço do evento comunicativo ou onde os participantes podem ou devem estar presentes, e em que papéis, ou decidir que conhecimento ou opiniões eles devem (não) ter e que tipo de ações sociais podem ou devem ser realizadas pelo discurso.” (18) - que um ensaísta ou pesquisador está proposto à descrever em alguma abordagem dentro do estudo integral de sua temática, tais como, por exemplo, “a “eficácia” do mercado (livre), a necessidade de reconhecimento das “identidades” (culturais), ou ainda a reafirmação/celebração da “responsabilidade” (individual), que serão arbitrariamente decretadas como filosóficas, sociológicas, econômicas ou políticas, segundo o lugar e o momento de recepção” (19).

 

Como exemplo concreto dessa característica, Bourdieu cita o “debate impreciso e inconsistente em torno do “multiculturalismo”” (20), conceito que, em um primeiro momento foi proposto na Europa, sobretudo, para “designar o pluralismo cultural na esfera cívica” (21), por outro lado, em um segundo momento, nos Estados Unidos, esse conceito foi colocado “ainda que em formas distorcidas e veladas” (22) e “no interior do próprio movimento pelo qual ele os mascara” (23) dentro do enredo da reflexão sobre as “duradouras seqüelas da exclusão de negros e à crise da mitologia nacional do "sonho americano”, correspondente do aumento generalizado de desigualdades ao longo das últimas três décadas” (24). Segundo Bourdieu esse termo, no sentido tomado pelos Estados Unidos, expressa a questão que ele envolve “num registro ostensivamente étnico” (25), assim restringindo sua reflexão exclusiva e “artificialmente ao microcosmo acadêmico” (26), e nesse processo realiza o efeito de bloquear o desenvolvimento social de sua principal questão, que não é somente o “reconhecimento de culturas marginalizadas pelos cânones acadêmicos” (27), mas também “o acesso aos instrumentos de (re) produção das classes média e superior – e, primeiro dentre eles, à universidade” – e, ainda sim, incluindo em suas razões, o fato dessa questão estar envolvida “no contexto da redução maciça e multilateral do Estado”.

 

Essas ponderações permitem à Bourdieu afirmar que o conceito de “multiculturalismo” estadunidense não é nem um conceito nem uma teoria, nem um movimento social ou político - ainda que pretenda ser tudo isso ao mesmo tempo -, mas sim um discurso-écran, cujo estatuto intelectual resulta de um gigantesco efeito de alodoxia* (28) nacional e internacional, que é legitimado tanto aqueles que estão nele como os que não estão. Quando são reveladas as contradições específicas da situação de universitários que, afastados de qualquer acesso à esfera pública e submetidos a uma forte diferenciação no seu meio profissional, ficam sem outro terreno onde investir a sua libido política, fora das disputas de campus disfarçadas de epopeias conceituais, esse discurso expressa uma especificidade da sociedade estadunidense, embora pense e se apresente como universal, referente a todas outras sociedades. (29)

*Obs: Alodoxia é uma expressão presente nas obras de Bourdieu que define um erro e falso reconhecimento que alguém aplica sobre um objeto como sendo igual a outro objeto diferente por falta de repertório necessário à sua interpretação, com base em relações ignoradas entre diversas histórias com particularidades diferentes, e leva a reconhecer algo estranho numa outra história, a de uma outra nação ou de uma outra classe. BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Bertrand Brasil, 2012. p. 105

 

Segundo seu novo sentido, o termo “multiculturalismo” estadunidense leva consigo, para onde quer que seja exportado, três vícios do pensamento nacional estadunidense que são: (a) o “grupismo”, que reifica as divisões sociais, canonizadas pela burocracia estatal, em princípios do conhecimento e da reivindicação política; (b) o populismo, que toma o lugar das análises das estruturas e dos mecanismos de dominação, substituindo-as pela celebração da cultura dos dominados e do seu “ponto de vista” - elevado ao nível de prototeoria em ação;  (c) o moralismo, que é um obstáculo à aplicação de um materialismo racional sadio na análise do mundo social e econômico, condenando-nos a um debate sem efeito nem fim sobre o necessário “reconhecimento das identidades” mas que, na triste realidade do quotidiano, o problema não se situa de forma alguma nesse nível. (30)


Notas de rodapé:

1 Tradução revisada de “Sur les ruses de la raison imperialiste”, escrito como pósfácio da edição “Actes de la Recherche  en Sciences Sociales, p. 21-122, março de 1998” WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 209

2 BORDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 28

3 ibidem, p. 28

4 a palavra vulgata no idioma latim remete à palavra vulgātor (volg- ), ōris, m. 2. vulgo, que significa que faz uma coisa geralmente conhecida, uma editora. divulgador : taciti, ou seja, Tântalo, que divulgou os segredos dos deuses. Também remete à palavra vulgatus que significa uma tomada geralmente conhecida , uma publicação , divulgação. Fonte: Lewis, Charlton T, and Charles Short. Latin Dictionary [founded on Andrew's Edition of Freund's Latin Dictionary, 1879. Disponível em: http://www.perseus.tufts.edu/hopper/resolveform?type=start&lookup=vulgat&lang=la. Acesso em: 12 ago. 2019.

5 BORDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 15

 6 ibidem, p. 16

 7 BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Bertrand Brasil, 2012, p. 7-16

8 BORDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 84

9 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 21

10 ibid.

11 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 82

12 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 16

13 ibidem.

14 ibidem.

15 ibidem.

16 ibidem.

 17 ibidem.

18 VAN DIJK, T. A. Discurso, notícia e ideologia. Porto: Campo de Letras, 2005, p. 24

19 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 84

20 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 16

21 ibidem.

22 Wacquant Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 211

23 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 84

24 Wacquant Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 211

25 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 84

26 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 16

27 ibidem.

28 Alodoxia é uma expressão presente nas obras de Bourdieu que define um erro e falso reconhecimento que alguém aplica sobre um objeto como sendo igual a outro objeto diferente por falta de repertório necessário à sua interpretação, com base em relações ignoradas entre diversas histórias com particularidades diferentes, e leva a reconhecer algo estranho numa outra história, a de uma outra nação ou de uma outra classe. BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Bertrand Brasil, 2012. p. 105

29 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 16

30 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 85

31 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 85

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