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Sobre o imperalismo cultural em Pierre Bourdieu - Os intelectuais passadores de informação (parte 4/5)

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Os intelectuais passadores de informação, introdução (parte 4/5)


Para explicar que tais preceitos da tradição estadunidense sejam assim reconhecidos, tácita ou expressamente, à posição de padrão universal “meridiano de greenwich”, impondo suas premissas como instrumento necessários para análises e medições de toda situação de dominação étnica, em relação ao qual todos avanços e atrasos, “arcaísmos” e “modernismos” devem ser avaliados, com exclusão de algum ponto de vista local divergente, Bourdieu afirma que é insuficiente a conclusão de que: (a) determinadas "teorias" das "relações sociais e raciais", em si mesmas, além de não passarem de transfigurações mal conceitualizadas, também são submetidas incessantemente a renovação e atualização, para assim conseguirem ajustar-se ao interesse político vigente, observando as necessidades sociais da atualização dos estereótipos raciais de uso mais reconhecido como legítimo de determinada época, sem perder de vista que tais estereótipos são justificações primárias, principalmente, da dominação dos brancos sobre os negros em certa sociedade[85]. (b) o fato de que, no decorrer dos últimos anos, essa sociodicéia racial (ou racista) tenha obtido êxito em se "globalizar", perdendo ao mesmo tempo suas características de discurso justificador e tornando de uso interno ou local[86].



Sem perder de vista que estas são algumas das confirmações mais notáveis da dominação e da influência simbólicas que os Estados Unidos exercem sobre toda espécie de produção erudita e, sobretudo, semi-erudita em particular (especialmente para as questões da “raça”, em que a particularidade da situação estadunidense é especialmente flagrante e longe de ser exemplar)[87], para Bourdieu é ainda importante destacar atenção às razões que motivam um pesquisador a escamotear o modelo de pesquisa local de seu país, e adotar, mais ou menos assumida ou desavergonhadamente, o modelo de pesquisa saído da tradição estadunidense. Nesse sentido Bourdieu enfatiza o fato de que um pesquisador pode tender a reconhecer os espaços sociais dos Estados Unidos como os únicos legítimos detentores do poder de conceder consagração material e/ou simbólica à sua pesquisa[88].



Convém lembrar que uma das características do conceito de violência simbólica e dos campos sociais em Bourdieu, aplicável a seu conceito de imperialismo cultural, ocorre pelo fato de que ela nunca é exercida sem uma forma de cumplicidade (extorquida) daqueles que a sofrem. No que tange ao imperialismo cultural, dentro da perspectiva segundo a qual é necessário analisar quem produz e distribui o conteúdo, Bourdieu essa afirmação coloca atenção tanto: (a) à "passadores" e “carriers” (traficantes de informações, em francês passeurs); (b) à importadores de produtos culturais com grife, dégriffés ou falsificados (editores, diretores de instituições culturais como museus, óperas, galerias de arte, revistas, chefes de centro de pesquisas, jornais etc.) das instâncias culturais e produtos culturais estadunidenses[89].



Os passadores e os importadores realizam o efeito de acompanhar, orquestrar e, até por vezes, propor, propagar e organizar o processo de conversão coletiva das sociedades locais à nova Meca simbólica da “globalização”, nos temas da doxa social das instâncias culturais e produtos culturais estadunidenses (no sentido de difusão autorizada). Nesse contexto devem ser analisados os diferentes graus do uso de sublimações que esses passadores e importadores utilizam no seio de seus discursos semi-eruditos e suas práticas. Esses referidos graus variam em conscientes ou inconscientes, direta ou indiretamente interessados, muitas vezes com toda a boa-fé, explicitamente ou implicitamente coordenados, no próprio país ou em países-alvo[90].



Como exemplo concreto da circunstância em questão, Bourdieu cita o efeito realizado pelas principais fundações bilionárias filantrópicas, de pesquisa e organizações similares na difusão da doxa estadunidense em submersão no campo acadêmico brasileiro, tanto no plano das representações como nas práticas, ou em outro domínio das categorias jurídicas e morais de “direitos humanos” e “filantropia”, da análise do programa "Raça e Etnicidade" da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (e a sua revista Estudos Afro-Asiáticos) da Universidade Cândido Mendes, financiado pela fundação Rockefeller e organizações semelhantes. O objetivo apregoado pelo referido programa cuida de incentivar e favorecer o intercâmbio de pesquisadores e estudantes. No que tange os requisitos para a obtenção de patrocínio do referido programa, a fundação Rockefeller impõe que as equipes de pesquisa obedeçam aos critérios de affirmative action à maneira estadunidense, o que levanta problemas espinhosos já que, como foi estudado, a dicotomia branco/negro é de aplicação, no mínimo, arriscada na sociedade brasileira[91]. Por um lado as categorias, as problemáticas, os modelos, os pontos de vista e as experiências de pesquisas dos Estados Unidos são impostos para o pesquisador do Brasil como requisitos imprescindíveis para qualquer pesquisa digna de ser consagrada (começando com a divisão dicotômica entre negros e brancos), por outro lado, os modelos, as categorias, as problemáticas, contrapostos e experiências de pesquisas do Brasil raramente fluem (se é que fluem), como um ponto de vista para ser considerado em relação aos modelos de pesquisa dos Estados Unidos, seja para questionar as formas peculiares pelas quais foi estabelecida a sua questão “racial”, seja para analisar as razões históricas, sociais, políticas em que essas categorias foram impensadamente transcritas no aparelho analítico da sua ciência social nacional[92].



Em paralelo ao papel das fundações filantrópicas, outro exemplo de fatores que alimentam a difusão do pensamento “made in USA” nas ciências sociais, Bourdieu relaciona à internacionalização comercial da atividade editorial universitária. O presente caso está relacionado à dois fatores: o primeiro é a integração da edição dos livros acadêmicos em língua inglesa (vendidos, freqüentemente, pelas mesmas distribuidoras nos Estados Unidos, nos diferentes países da antiga Commonwealth britânica, bem como nos pequenos países poliglotas da União Européia, tais como a Suécia e a Holanda, e nas sociedades mais diretamente expostas à dominação cultural estadunidense); combinado com o segundo fator que é a erosão da fronteira entre atividade editorial universitária e grandes editoras comerciais. Essa situação contribuiu para encorajar a circulação de termos, temas e tropos com forte (previsto ou constatado) apelo de mercado, que, por sua vez, deve seu poder de atração ao simples fato de sua ampla difusão comercial.



Em termos concretos a Basil Blackwell - grande editora meio comercial, meio universitária (denominada pelos anglo-saxões como crossover press) - além de unilateralmente definir os títulos das obras que é responsável por publicar, ainda impõe a utilização de termos que estejam harmonizados ao novo senso comum planetário do qual ela contribui para ser realizado, sob pretexto de reverbera-lo . No caso específico em questão, a coletânea de textos sobre as novas formas de pobreza urbana na Europa e nos Estados Unidos, reunidos em 1996 pelo sociólogo italiano Enzo Mingione, foi intitulada pela referida editora como Urban Poverty and the Underclass. O problema é que este título foi estabelecido contra o parecer de seu responsável e dos diferentes colaboradores. O referido parecer contrário ocorreu pelo fato de que essa obra inteira tende a demonstrar a inaptidão da noção de underclass (inclusive a Backwell recusou colocar o termo entre aspas). Nos casos de recusa enfática por parte dos autores com suas condições, a Basil Blackwell porta uma posição muito confortável de exigir um título instigante como a única maneira de evitar um preço de venda elevado que, de qualquer modo, acabaria com a obra. Com o objetivo de que o exemplo acima não seja acusado como um caso isolado, Bourdieu afirma que no momento em que seu artigo vai para o prelo, a mesma editora empreendeu um combate furioso com os urbanólogos Ronald van Kempen e Peter Marcuse, a fim de que estes modifiquem o título de sua obra coletiva, The Partitioned City, para Globalizing Cities[93].



Decisões de puro marketing editorial lideram as decisões tanto de pesquisa como para o ensino universitário, direcionando sua metodologia e conclusões para a homogeneização e submissão às tendências provenientes e alinhadas do modelo estadunidense, mais ainda, quando não produzem "disciplinas" inteiras que vão ser reconhecidas como as legítimas para encarar certas temáticas, tais como o cultural studies, campo híbrido, originário da Inglaterra, anos 1970, que obteve sua difusão internacional (que é a totalidade da sua existência) graças a uma política de propaganda editorial bem-sucedida[94]. Embora a "disciplina" de estudos culturais franceses não exista nos campos universitários, culturais e intelectuais da França, essa ausência não desestimulou, no campo comercial, que a editora Routledge publicasse um compendium intitulado French Cultural Studies, inspirado no modelo dos British Cultural Studies (estudos culturais britânicos). Na mesma tendência foi publicado por editoras rivais um tomo de German Cultural Studies (estudos culturais alemães) e italian cultural studies (estudos culturais italianos). Em virtude dessa partenogênese étnico-editorial, tendência da moda em sua época, foi possível para Bourdieu prever, no momento que seu artigo foi ao prelo, a futura produção de um manual denominado French Arab Cultural Studies (estudos culturais franceses árabes), gêmeo simétrico do manual Black British Cultural Studies (estudos culturais da britânia negra) já então publicado em 1997. Ainda nessa época corriam apostas no sentido de que a Routlege teria a audácia de produzir um Turkish-German Cultural Studies (estudos culturais turco-alemães)[95].



Mas todos esses fatores para Bourdieu não são suficientes para justificar completamente a hegemonia que a produção comercial editorial exerce sobre o mercado mundial intelectual. Essa é a razão pela qual o sociólogo reivindica ser necessário enfatizar o papel dos agentes que lideram as estratégias de import-export dos conceitos operados nas pesquisas publicadas, eles são mistificadores/mistificados que transportam, geralmente sem seu conhecimento, a parte oculta e, muitas vezes, maldita dos produtos culturais que são responsáveis por colocar em circulação[96].



Unindo esse pensamento com o que foi dito acima, Bourdieu convida a pensar profundamente o fato dos pesquisadores estadunidenses que vão ao Brasil com a finalidade de encorajar e mobilizar os líderes do Movimento Negro e todos os brasileiros de ascendência africana local para adotar obrigatoriamente as táticas do movimento afro-americano de defesa dos direitos civis e, ao mesmo tempo, criticar a categoria brasileira de pardo (termo intermediário entre branco e preto que designa as pessoas de aparência física mista), assim enfatizando a questão de incentivar os brasileiros para pensar exclusivamente partindo da oposição dicotômica entre "afro-brasileiros" e "brancos". Também sem desconsiderar ainda que essa estratégia ocorre no preciso momento em que, nos Estados Unidos, os indivíduos de origem mista se mobilizam a fim de que esse país (a começar pelos Institutos de Censo) reconheçam, oficialmente, os estadunidenses "multi-raciais", para que deixe de classificá-los à força sob a etiqueta exclusiva de "negro"[97].



NOTAS DE RODAPÉ:



[85] James Mckee, em sua obra Sociology and the Race Problem: the failure of a perpspective (Urbana e Chicago: University of Illinois Press, 1993), demonstra, primeiro que essas teorias supostamente científicas tomam para si o estereótipo da inferioridade cultural dos negros e, segundo, que essas teorias são incapazes de prever e então explicar a ampla mobilização da comunidade afro-americana nas décadas do pós guerra que levaram à violência racial da década de 1960; WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p.218


[86] ibidem, p. 219


[87] ibidem.


[88] ibidem.


[89] ibidem, p. 219


[90] ibidem, p. 220


[91] ibidem, p. 220


[92] ibidem.


[93] ibidem, p. 221


[94] ibidem, p. 222


[95] ibidem, p. 222


[96] ibidem, p. 222


[97] p. 222




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