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Sobre o imperalismo cultural em Pierre Bourdieu (versão única)

Introdução I (parte 1/5)


No artigo “A astúcia da razão imperialista” (1) o sociólogo e antropólogo Pierre Bourdieu extrai de suas análises científicas da sociedade contemporânea - século XX, especialmente em seus meados de 1997 - certos agentes, magnatas, corporações, fundações internacionais, organizações não governamentais, centros de tanques de ideias, organismos internacionais e etc, orquestrados em um modus operandi que pode ser definido como imperialismo cultural. Em apertada síntese introdutória é possível definir imperialismo cultural, como “universalização de uma visão particular do mundo” (2), dentro da lógica segundo a qual “nada é mais universal do que a pretensão ao universal” (3), no poder de imposição - por reconhecimento e veneração - de uma vulgata (4) internacional em que certas práticas, premissas,  emoções, comportamentos e conceitos são legitimadas no estamento de último horizonte verdadeiro e princípios de natureza universal racional, ou seja, aplicáveis à todo o mundo, porém Bourdieu afirma que tais práticas e conceitos são “particularismos ligados a uma tradição histórica singular” (5) que são irreconhecíveis possuindo esse significado, principalmente depois de “ampliada pelo trabalho de “teorização”” (6) sobre suas formas. Nesse sentido, o Universalismo é a ideologia do imperialismo para ser imposta sob outras.

 

Uma característica do imperialismo cultural está em seu efeito de realizar violência simbólica nas pessoas. No intuito de definir as características da violência simbólica, dentro dessa perspectiva, trata-se de um poder (7):  (a) real, porque permanece existente nas atitudes percebidas pelas pessoas, quando elas atuam na função de estruturar determinadas posições sociais (por exemplo, superior/subalterno dentro de uma empresa ou qualquer campo social) e distâncias sociais dentro de um espaço (abstrato) de relações sociais; (b) legítimo, porque exercido através de uma pessoa socialmente respeitada/venerada enquanto autorizada para exercê-lo; (c) reconhecido, porque seu exercício e subordinação por uma pessoa, seja àquele que lhe impõe ou àquele que lhe está submetido, são pensadas como naturais, no sentido de que são ignorados enquanto dentro de uma relação artificial de arbitrariedade. Quanto melhor êxito o executor da ação consegue em aparentar ser natural sua dominação, nesse sentido escondendo a arbitrária gênese da sua condição, mais forte esse poder será. Contanto que, tal ação, consiga tornar o exercício desse poder aceitável por parte daqueles que à ele se subordinam; (d) estruturado social, enquanto consequência dos conflitos históricos presentes em campos sociais simbólicos; (e) estruturante social, enquanto instaurador de uma realidade e de uma ordem gnosiológica; (f) unificador, enquanto instrumento de intermediação de comunicação e conhecimento; (g) segregacionista, ainda enquanto instrumento de intermediação de comunicação e conhecimento, ele realiza o efeito de aceitação das distinções sociais, “compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à sua cultura dominante.”; (h) conservador, porque o efeito de sua ação garante a dominação de um campo social em face de outros campos, através de seus mecanismos de reconhecimento e legitimação, que visam educar os campos sociais dominados a aceitarem o poder que lhe está sendo imposto; (i) dissimulador, pois consegue se colocar como algo diferente de sua origem ou aquilo que o representa, e, assim camufla o entendimento do caráter arbitrário de sua gênese social; (j) decorrente dos maquinismos sociais de comunicação e conhecimento que estabelecem imperativamente a maneira legítima de análise e compreensão do mundo.

 

Especificamente a violência do imperialismo cultural ocorre através de atitudes destinadas à acessibilidade, controle, apoio e transmissão de informações, que gera o efeito de extorquir por submissão, pelo reconhecimento, veneração, das “realidades complexas e contestadas de uma sociedade histórica particular, tacitamente constituída em modelo e na medida de todas as coisas: a sociedade norte-americana da era pós-fordista e pós-keynesiana” (8), de modo que os destinatários do conteúdo tenham ações na direção alinhada com esses preceitos e que sejam reconhecidos por eles como sendo suas espontâneas razões. Para Bourdieu “A violência simbólica nunca se exerce, de fato, sem uma forma de cumplicidade (extorquida) daqueles que a sofrem e a “globalização” dos temas da doxa social americana ou de sua transcrição, mais ou menos sublimada, no discurso semi-erudito não seria possível sem a colaboração, consciente ou inconsciente, direta ou indiretamente interessada, não só de todos os “passadores” e importadores de produtos culturais com grife ou dé griffés (editores, diretores de instituições culturais, museus, óperas, galerias de arte, revistas etc.) que, no próprio país ou nos países-alvo, propõem e propagam, muitas vezes com toda a boa-fé, os produtos culturais americanos, mas também de todas as instâncias culturais americanas que, sem estarem explicitamente coordenadas, acompanham, orquestram e, até por vezes, organizam o processo de conversão coletiva à nova Meca simbólica” (9). Nesse sentido “os produtos da pesquisa estadunidense receberam "uma estatura internacional e um poder de atração" comparáveis aos "do cinema, da música popular, dos programas de informática e do basquetebol americanos" (10)Concluindo essa parte: “os seus efeitos são tão poderosos e perniciosos porque ele é veiculado não apenas pelos partidários da revolução neoliberal - a qual, sob a capa da “modernização”, entende reconstruir o mundo fazendo tábua rasa das conquistas sociais e econômicas resultantes de cem anos de lutas sociais, descritas agora como arcaísmos e obstáculos à nova ordem nascente –, mas também por produtores culturais (pesquisadores, escritores, artistas) e militantes de esquerda que, na sua maioria, continuam a considerar-se progressistas” (11).

 

Outra característica importante dessa violência simbólica do imperialismo cultural é o fato de que ela apresenta formas talhadas sem referência ao contexto histórico (descentralizada) do assunto tratado ou com referência ao contexto histórico do assunto porém utilizando precário rigor historiográfico, todavia tomados em seus enredos como proposições moderadas e verdades indiscutíveis (12). No interior do circuito do imperialismo cultural essas formas e assuntos são entendidos, por Bourdieu, criando o efeito de “neutralização do contexto histórico” (13), nesse sentido suas características estão no fato de que permanecem “planetarizados, ou globalizados num sentido estritamente geográfico por esse desenraizamento”, porque tendem a fazer com que os remetentes e destinatários desses conteúdos não reconheçam que as formas e assuntos apresentados tem sua origem e influência dentro de relações sociais na sociedade local que eles surgem, em sentido contrário tais formas e assuntos são reconhecidos como parte de uma sociedade global abstrata, “enquanto simultaneamente são desparticularizados pelo efeito da falsa ruptura efetuada pela conceitualização” (14), porque tendem a esconder, “pela aparência de sua necessidade lógica” (15), certos significados originais e/ou a banalização de outros estudos, especificamente aqueles outros estudos que disciplinam “as raízes históricas de todo um conjunto de questões e noções”, isto é, o conjunto das condições históricas, historiográficas, questões filosóficas e “contingências da causalidade sociológica negada” (16) da origem de todos aspectos que “têm raízes nas realidades complexas e controversas de uma sociedade histórica particular” (17) - tais como, conforme afirma Van Dijk, pesquisador e estudante de Bourdieu, a “definição global da situação, a localização (tempo e espaço), as ações em curso (incluindo discursos e gêneros de discurso), os participantes em vários papéis comunicativos, social, ou institucional, bem como as suas representações mentais: finalidades, conhecimento, opiniões, atitudes e ideologias. Controlar o contexto implica controlar uma ou mais destas categorias, e.g., determinar a definição da situação comunicativa, decidir o tempo e espaço do evento comunicativo ou onde os participantes podem ou devem estar presentes, e em que papéis, ou decidir que conhecimento ou opiniões eles devem (não) ter e que tipo de ações sociais podem ou devem ser realizadas pelo discurso.” (18) - que um ensaísta ou pesquisador está proposto à descrever em alguma abordagem dentro do estudo integral de sua temática, tais como, por exemplo, “a “eficácia” do mercado (livre), a necessidade de reconhecimento das “identidades” (culturais), ou ainda a reafirmação/celebração da “responsabilidade” (individual), que serão arbitrariamente decretadas como filosóficas, sociológicas, econômicas ou políticas, segundo o lugar e o momento de recepção” (19).

 

Como exemplo concreto dessa característica, Bourdieu cita o “debate impreciso e inconsistente em torno do “multiculturalismo”” (20), conceito que, em um primeiro momento foi proposto na Europa, sobretudo, para “designar o pluralismo cultural na esfera cívica” (21), por outro lado, em um segundo momento, nos Estados Unidos, esse conceito foi colocado “ainda que em formas distorcidas e veladas” (22) e “no interior do próprio movimento pelo qual ele os mascara” (23) dentro do enredo da reflexão sobre as “duradouras seqüelas da exclusão de negros e à crise da mitologia nacional do "sonho americano”, correspondente do aumento generalizado de desigualdades ao longo das últimas três décadas” (24). Segundo Bourdieu esse termo, no sentido tomado pelos Estados Unidos, expressa a questão que ele envolve “num registro ostensivamente étnico” (25), assim restringindo sua reflexão exclusiva e “artificialmente ao microcosmo acadêmico” (26), e nesse processo realiza o efeito de bloquear o desenvolvimento social de sua principal questão, que não é somente o “reconhecimento de culturas marginalizadas pelos cânones acadêmicos” (27), mas também “o acesso aos instrumentos de (re) produção das classes média e superior – e, primeiro dentre eles, à universidade” – e, ainda sim, incluindo em suas razões, o fato dessa questão estar envolvida “no contexto da redução maciça e multilateral do Estado”.

 

Essas ponderações permitem à Bourdieu afirmar que o conceito de “multiculturalismo” estadunidense não é nem um conceito nem uma teoria, nem um movimento social ou político - ainda que pretenda ser tudo isso ao mesmo tempo -, mas sim um discurso-écran, cujo estatuto intelectual resulta de um gigantesco efeito de alodoxia* (28) nacional e internacional, que é legitimado tanto aqueles que estão nele como os que não estão. Quando são reveladas as contradições específicas da situação de universitários que, afastados de qualquer acesso à esfera pública e submetidos a uma forte diferenciação no seu meio profissional, ficam sem outro terreno onde investir a sua libido política, fora das disputas de campus disfarçadas de epopeias conceituais, esse discurso expressa uma especificidade da sociedade estadunidense, embora pense e se apresente como universal, referente a todas outras sociedades. (29)

*Obs: Alodoxia é uma expressão presente nas obras de Bourdieu que define um erro e falso reconhecimento que alguém aplica sobre um objeto como sendo igual a outro objeto diferente por falta de repertório necessário à sua interpretação, com base em relações ignoradas entre diversas histórias com particularidades diferentes, e leva a reconhecer algo estranho numa outra história, a de uma outra nação ou de uma outra classe. BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Bertrand Brasil, 2012. p. 105

 

Segundo seu novo sentido, o termo “multiculturalismo” estadunidense leva consigo, para onde quer que seja exportado, três vícios do pensamento nacional estadunidense que são: (a) o “grupismo”, que reifica as divisões sociais, canonizadas pela burocracia estatal, em princípios do conhecimento e da reivindicação política; (b) o populismo, que toma o lugar das análises das estruturas e dos mecanismos de dominação, substituindo-as pela celebração da cultura dos dominados e do seu “ponto de vista” - elevado ao nível de prototeoria em ação;  (c) o moralismo, que é um obstáculo à aplicação de um materialismo racional sadio na análise do mundo social e econômico, condenando-nos a um debate sem efeito nem fim sobre o necessário “reconhecimento das identidades” mas que, na triste realidade do quotidiano, o problema não se situa de forma alguma nesse nível. (30)


Notas de rodapé:

1 Tradução revisada de “Sur les ruses de la raison imperialiste”, escrito como pósfácio da edição “Actes de la Recherche  en Sciences Sociales, p. 21-122, março de 1998” WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 209

2 BORDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 28

3 ibidem, p. 28

4 a palavra vulgata no idioma latim remete à palavra vulgātor (volg- ), ōris, m. 2. vulgo, que significa que faz uma coisa geralmente conhecida, uma editora. divulgador : taciti, ou seja, Tântalo, que divulgou os segredos dos deuses. Também remete à palavra vulgatus que significa uma tomada geralmente conhecida , uma publicação , divulgação. Fonte: Lewis, Charlton T, and Charles Short. Latin Dictionary [founded on Andrew's Edition of Freund's Latin Dictionary, 1879. Disponível em: http://www.perseus.tufts.edu/hopper/resolveform?type=start&lookup=vulgat&lang=la. Acesso em: 12 ago. 2019.

5 BORDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 15

 6 ibidem, p. 16

 7 BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Bertrand Brasil, 2012, p. 7-16

8 BORDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 84

9 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 21

10 ibid.

11 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 82

12 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 16

13 ibidem.

14 ibidem.

15 ibidem.

16 ibidem.

 17 ibidem.

18 VAN DIJK, T. A. Discurso, notícia e ideologia. Porto: Campo de Letras, 2005, p. 24

19 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 84

20 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 16

21 ibidem.

22 Wacquant Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 211

23 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 84

24 Wacquant Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 211

25 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 84

26 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 16

27 ibidem.

28 Alodoxia é uma expressão presente nas obras de Bourdieu que define um erro e falso reconhecimento que alguém aplica sobre um objeto como sendo igual a outro objeto diferente por falta de repertório necessário à sua interpretação, com base em relações ignoradas entre diversas histórias com particularidades diferentes, e leva a reconhecer algo estranho numa outra história, a de uma outra nação ou de uma outra classe. BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Bertrand Brasil, 2012. p. 105

29 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 16

30 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 85

31 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 85



Introdução II (parte 2/5)

 

Os tópicos deste imperialismo são apresentados e desenvolvidos em complexos comunicativos de fomento e apoio, também sendo utilizada infraestrutura física e tecnológica exclusiva. Seu destino são as universidades, centros acadêmicos e culturais, bibliotecas, institutos de pesquisa, publicações, editoras, livrarias, encontros acadêmicos etc. 

 

Quanto à estrutura discursiva, esses referidos tópicos aparecem como pressupostos para debate, noções, “jogo de definições preliminares e deduções” (31), inferências, teses e etc., “com os quais se argumenta, mas sobre os quais ninguém discute, ou, dito de outra forma, esses pressupostos de discussão não são discutidos” (32), ou seja,  “pela aparência de necessidade lógica” (33) como esses tópicos são apresentados, permanecem no discurso como consenso implícito, algo que não é digno de ser questionado sem algum tipo de ação censurável (interdição do debate), por essa razão os preceitos do referido tópico induzem o reconhecimento de que estão baseados em “uma espécie de axiomatização capaz de produzir a ilusão de uma gênese pura” (34), como consequência, seu conteúdo adquire o estamento de “uma aparente universalização ampliada por um trabalho de “teorização”” (35). Quanto ao conteúdo em si, podem tratar de situação sócioeconômica, gênero, etnia, raça, casta, religião, idioma, isolamento geográfico, instabilidade política ou deficiência física etc., por um lado, fazem um discurso sobre o desfecho obrigatório das evoluções nacionais, nesse sentido quando são baseadas em preceitos com carga de resignação, por outro lado, lembram a "febre" pelos Estados Unidos que, há meio século, o Plano Marshall tinha suscitado em uma Europa devastada, quando são celebradas com um entusiasmo subserviente (36).



Seguem algumas construções no interior dos preceitos desse imperialismo cultural que servem de “ilustração exemplar do efeito de falso corte e de falsa universalização que produz a passagem para a ordem do discurso com pretensões filosóficas (37): A) definições forjadas visando estabelecer uma legítima paisagem de ruptura com os particularismos, nesse sentido consegue fazer com que as reflexões históricas, sociais, antropológicas que envolvem e constituem um assunto abordado sejam escamoteadas para um segundo plano periférico do pensamento de um pensador que está situado e datado dentro da própria história, no exemplo do filósofo Rawls e o caráter dogmático ideal de sua argumentação sobre a prioridade das liberdades de base, esse ideal latente não é outro senão o do próprio autor, um professor universitário estadunidense que tem uma visão ideal da democracia de seu país de origem e pretende imputar tais preceitos para outras partes do mundo; B) pressupostos antropológicos, injustificados dentro da disciplina antropológica, tomados do repertório da teoria econômica neomarginalista dos neoliberais e reivindicados com toda a autoridade social científica; C) enredo contendo dedução rigorosa de conceitos que permite encadear formalmente conseqüências infalsificáveis, sem propor, em nenhum momento, a possibilidade de menor refutação empírica de suas premissas, no exemplo do discurso argumentativo que Van Dijk propõe: “as leis antitrust ameaçam a livre iniciativa; as ações do governo são formas de assédio onde o setor privado é vítima; os agentes públicos invejam os homens de negócios com sucesso; os agentes públicos são sedentos de poder; o mundo dos negócios tem gênios criativos; os impérios dos negócios custam a erguer; direitos são relacionados à indivíduos e liberdade. A ênfase nos direitos tem várias outras funções, tais como a de associar o leitor ao escritor, e sua posição relacionado a algo de bom e de legítimo, e preparar assim a avaliação negativa do governo quando alegadamente viola estes direitos”;  (D) o estabelecimento de oposições e equivalências, que se sustentam e contrapõem, para descrever as transformações contemporâneas das sociedades avançadas, categorias com recortes alternativos rituais, e irrisórios, entre, por exemplo: o Mercado tem liberdade enquanto que o Estado tem Coerção; o mercado é aberto enquanto que o Estado é fechado; o mercado é flexível enquanto que o estado é rígido, o mercado é dinâmico e móvel enquanto que o estado é estático e imóvel; o mercado é o futuro enquanto que o estado é o passado; o mercado é a inovação enquanto que o estado é o arcaico; o mercado é crescimento enquanto que o estado é ultrapassado; o mercado é liberdade individual enquanto que o estado e coletivismo autoritário; o mercado é autêntico enquanto que o estado é artificial, o mercado é democrático enquanto que o estado é uniforme, autocrático e totalitário. Segundo Van Dijk, “Para além de realizar mais a polarização entre governo e negócios, os significados locais do texto criam assim outra polarização no mundo dos negócios entre competidores invejosos e criadores brilhantes. De notar também que a escolha lexical e as metáforas acentuam ainda mais estas polarizações: invejosos, sedentos de poder (erguido com muito custo), controlo, reguladores, desmembramento e outras escolhas formam os conceitos negativos associados com 'eles', o governo (e algumas pessoas dos negócios), enquanto que nós e aqueles que protegemos são associados com sucesso, gênios criativos e por negação (litotes) com 'crime' e 'tirano'. Mais uma vez, estas palavras não só contribuem para a polarização global da estrutura conceptual do texto, como também para a formação de um modelo de acontecimento tendencioso, polarizado, onde os actores são claramente diferenciados entre bons e maus.” (E) estabelecimento de um extraordinário jargãolíngua franca internacional, contendo expressões com um entendimento que tende a reduzir todas as nuances, particularidades e os particularismos associados às tradições filosóficas e políticas nacionais, sem levá-las em consideração de forma bem reflexiva e elaborada. Em todos os países avançados, patrões, altos funcionários internacionais, intelectuais de projeção nas media e jornalistas do top, estabelecem acordos nessa estranha novilíngua cujo vocabulário, aparentemente sem origem, circula por todas as bocas: “globalização”, “flexibilidade”, “governabilidade” e “empregabilidade”, “underclass” e “exclusão”, “nova economia” e “tolerância zero”, “comunitarismo”, “multiculturalismo” e os seus primos “pós-modernos”, “etnicidade”, “minoridade”, “identidade”, “fragmentação”, etc. Nesse sentido Bourdieu assevera que alguém, em um texto, pode escrever liberty entre parênteses após a palavra liberdade em um texto, ao mesmo tempo em que aceita, sem espanto, determinados barbarismos conceituais, como a oposição entre o "procedural" e o "substancial"; (F) ausência vocábulos decisivamente revogados sob o pretexto de obsolescência ou de uma presumível falta de pertinência, descritos agora como arcaísmos e obstáculos à nova ordem nascente, tais como classe, exploração, dominação, desigualdade, discriminação, interesses,  reprodução, instituições, estrutura social e "ordem social.

 

No circuito dinâmico internacional em que trafegam suas atestações, é o local onde foi estabelecida as bases com que seus imperativos são obrigatórios para servir de “pressuposto por consenso” ou “modelo para todas as outras e como padrão de todas as coisas”, enquanto unidade de medida evidente de todos os outros tópicos. 

 

A legitimidade da “persuasão intelectual” (42) desse circuito internacional, em grande parte, ocorre porque seus enredos sempre são partes integrantes de pautas de vários complexos de eventos comunicativos como campanhas de informação, exposições, apresentações artísticas, propagandas, concertos, congressos culturais, “conferências acadêmicas à Livros de sucesso, de jornais semi-eruditos a avaliações de especialistas, de relatório de comissões governamentais á capas de revistas” (43). Esses trabalhos são sustentados, intermediados e transmitidos por locais reconhecidos “como supostamente neutros” (44), imparciais, tais como “as organizações internacionais (tais como a OCED ou a Comissão Européia) e centros políticos públicos” (45) de estudos e assessoria para políticas públicas, bancos de ideias think tanks do pensamento conservador (tais como “a Brooklin Institution em Washington, o Instituto Adam Smith Institute em Londres, o Manhattan Institute, em Nova York, e a Fundação Saint-Simon em Paris” (46), a Deutsche Bank Fundation, em Frankfurt), as fundações de filantropia, as escolas do poder (SciencePolitique, em França, a London School of Economics, na Inglaterra, a Harvard Kennedy School of Government, nos Estados Unidos, etc.) e os grandes meios de comunicação. Todos atuando no acesso, controle, apoio e transmissão de tais dados, são recebidos por todas as sociedades simultaneamente, razão pela qual exercem o efeito de divulgações infatigáveis “que a repetição incessante na mídia transforma gradualmente em senso comum universal” (47) dessa língua geral, sem fronteiras, perfeita para gerar a ilusão de ultramodernismo aos editorialistas apressados e especialistas ciosos da importação exportação cultural (48). 

 

Seu desenvolvimento é descrito por Bourdieu da seguinte maneira: “Primeiramente o especialista que prepara, na sombra dos bastidores ministeriais ou patronais ou no segredo dos think tanks (bancos de ideias), documentos de um forte cunho técnico, e tanto quanto possível construídos em linguagem econômica e matemática. De seguida, o conselheiro em comunicação do príncipe, retira se do mundo universitário agora ao serviço dos dominantes, cujo serviço é dar forma acadêmica aos projetos políticos da nova nobreza de Estado e da empresa” (49). Ainda segundo essa noção: “um dos melhores indicadores para localizar as obras que comungam desta nova doxa intelectual com pretensões planetárias é a velocidade, absolutamente incomum, com que são traduzidos e publicados no exterior (especialmente, em comparação com as obras científicas) (50). Bourdieu descreve o fato como uma Mcdonaldização do pensamento (51). Nesse sentido surge a importância de que o pesquisador analise a fundo as fontes de quem produz e quem distribui o conteúdo.

 

Da análise do “ecumenismo cultural” (52) ou do “fatalismo economista” (53) dos discursos de especialistas da mídia, essa constatação é verificada por Bourdieu, “em todos seus pressupostos e implicações”, da “noção fortemente polissêmica de "globalização"”, que, dentro desse conjunto, realiza o efeito de submersão - chamada assim porque Bourdieu discorda do uso do termo função -, envolvendo os efeitos econômicos do imperialismo, se fazendo reconhecido enquanto uma relação de força neutra transnacional de pulsão natural da história, portanto inevitável (54). Nesse sentido arremata: “A análise empírica da evolução das economias avançadas de longa duração sugere no entanto que a “globalização” não é uma nova fase do capitalismo, mas antes uma “retórica” invocada pelos governos para justificar a sua submissão voluntária aos mercados financeiros.” (55)

 

Da análise da Grã Bretanha, foi possível para Bourdieu perceber a “encarnação por excelência do estratagema da razão imperialista” (56). Estabelecida “por razões históricas, culturais e linguísticas em posição reconhecida como intermediária, neutra, entre os Estados Unidos e a Europa continental”, será a Grã Bretanha que recebe há muito tempo de forma constante e efetiva as fundações conservadoras, intelectuais mercenários, e  “fornece ao mundo esse cavalo de Tróia de duas cabeças - uma política, social, econômica, recentemente penal e a outra intelectual - na pessoa dual de Anthony Blair (propondo reduzir ajuda pública  para “libertar” os pobres do “jugo” da assistência, como fez Clinton para seus primos estadunidenses no verão de 1996) (57) e Anthony Giddens, “teórico” autoproclamado da “terceira via”, quando afirmam, textualmente, que: “adoto uma atitude positiva em relação à globalização”; “tento [sic] reagir às novas formas de desigualdades”, advertindo logo, porém, que “os pobres de hoje não são semelhantes aos de ontem, (...) assim como os ricos não se parecem mais com aqueles que no passado o foram”; “aceito a ideia de que os sistemas de proteção social existentes, e a estrutura do conjunto do Estado, são a fonte dos problemas, e não apenas a solução para resolvê-los”; “enfatizo o fato de que as políticas econômicas e sociais se encontram relacionadas”, para afirmar ainda que “as despesas sociais devem ser avaliadas ao nível das suas consequências para a economia no seu conjunto”; E, finalmente, “preocupo-me com os mecanismos de exclusão” que descobre “na base da sociedade, mas também no topo [sic]”, convencido de que “redefinir a desigualdade em relação à exclusão nesses dois níveis” é “conforme a uma concepção dinâmica da desigualdade”. (58)

 

Para além desses produtos culturais difundidos por essa vulgata - tais como teorias  “aparentemente sistemáticas (como o "fim da história" ou sua prima, a fábula da "globalização") e visões de mundo filosóficas (ou que se apresentam como tal, como o "pós-modernismo") facilmente identificadas” (59) - Bourdieu chama atenção para os mais insidiosos como sendo determinados conceitos talhados isolados dentro de uma forja técnica, como por exemplo a ideia de "flexibilité” ou “flexibilidade", ou sua versão britânica a "empregabilidade". (60) Os referidos conceitos silenciosamente condensam, presumem e veladamente veiculam uma reivindicada “filosofia de organização individual e social” com sua equivalente “celebração moralizadora da “responsabilidade individual”” (61). Por essas razões tais conceitos “adaptam-se bem a funcionar como verdadeiras senhas e lemas políticos” (62) e atestações de comando, como nesse caso do exemplo, no sentido de pressionar a sociedade para se rearranjar na condição de “redução e difamação do Estado, redução da proteção social e a aceitação da difusão do trabalho assalariado precário como um destino, ou melhor, uma benção” (63), bem como no “hipercrescimento correlativo do Estado penal, o esmagamento do movimento sindical e a ditadura da concepção de empresa fundada apenas no “valor-acionário”, assim como nas suas consequências sociológicas: a generalização dos salários precários e da insegurança social, transformada em motor privilegiado da atividade econômica” (64) e também na “desregulação dos fluxos financeiros e desorganização do mercado de trabalho” (65). Nesse raciocínio o efeito de “desindustrialização, o crescimento das desigualdades e a contradição das políticas sociais, longe de serem a consequência fatal do crescimento das trocas externas, como habitualmente se diz, resultam de decisões de política interna que refletem a mudança das relações de classe a favor dos proprietários do capital”. (66)

 

Analisando o movimento na história, Bourdieu afirma que, desde o final da década de 1970 até os dias atuais, o imperialismo cultural obtém êxito no reconhecimento de seus preceitos, graças ao trabalho dos think tanks conservadores e de seus aliados nos campos político e jornalístico, na ação que operou uma “reviravolta simbólica” (67) de fundamentações em todas sociedades. 

 

Dentro desses mecanismos, vários outros temas conexos originariamente publicados em Paris são remetidos para os Estados Unidos, abertamente ou sob disfarce, e geram o efeito de favorecer o circuito de legitimidade de que gozam os produtos da pesquisa estadunidense, acompanhando a influência desse espaço social em reviver certas questões. (68) Um exemplo concreto dessa tendência, Bourdieu propõe na reflexão do termo "politicamente correto", no interior da vulgata do imperialismo cultural, em que descreve seu típico uso para obter uma espécie de despolitização à "principielle" dos problemas sociais e políticos: “como instrumento de reprovação e repressão contra todo impulso de subversão, principalmente feminista ou homossexual, ou o pânico moral em torno da “guetoização” dos bairros ditos “imigrantes”, ou ainda o moralismo que se insinua por toda parte através de uma visão ética da política, da família etc.” Com a referida conotação, a reflexão em torno do tema permanece “desembaraçados de qualquer referência a toda espécie de dominação ou, enfim, a oposição que se tornou canônica, nos setores do campo intelectual mais próximos do jornalismo cultural, entre o “modernismo” e o “pós-modernismo” que, baseada em uma releitura eclética, sincrética e, na maioria das vezes, desistoricizada e bastante imprecisa de um pequeno número de autores franceses e alemães, está em vias de se impor, em sua forma americana, aos próprios europeus. (69)

 

Esse debate e as "teorias" que ele opõe - as quais seria inútil definir uma posição política - conseguem, segundo Bourdieu, uma parte de seu sucesso entre os filósofos, principalmente conservadores (e, em especial, católicos), ao fato de que tendem a reduzir a política à moral (70) ou a um tipo específico de corrupção dos bens públicos. Na Alemanha, Bourdieu afirma que a Antropologia filosófica, durante muito tempo, serviu de anteparo em toda situação em que a filosofia (alemã) podia afirmar sua dominação ou um obstáculo a qualquer análise científica do mundo social, posteriormente todo esse campo de reflexão perde seu espaço de reconhecimento para esse “imenso discurso sabiamente neutralizado e politicamente desrealizado” que o imperialismo cultural suscita. (71)

 

O imperialismo estadunidense, impondo ao resto do mundo categorias de percepção iguais (homólogas) às suas estruturas sociais, segundo Bourdieu, geram o efeito de reformatar o mundo à sua imagem, no sentido da colonização mental e operada através da difusão desses verdadeiros-falsos conceitos. Essas ações apenas podem conduzir a uma situação parecida com um “Consenso de Washington” generalizado, e espontâneo, como foi verificado em matéria de economia, de filantropia ou alguma obra que se propõe ao de ensino de. (72)


Segundo Bourdieu esse discurso tem um duplo fundamento: o primeiro em que suas crenças imitam um caráter técnico e racional da ciência; o segundo é uma busca de que suas próprias noções possam sobrepor-se ao “fantasma social” daqueles outros conceitos que propõem pensar os objetos do mundo partindo da existência de dominantes-dominados nas sociedades, substituindo-os para alcançar uma aparência da razão (especialmente econômica e político). Esses referidos fundamentos permitem ao discurso desse imperialismo ser portador do poder de concretizar realidades que pretende descrever, realizando no mundo material a profecia que ele mesmo anuncia,  ou seja, portando o efeito de princípio da profecia auto-realizadora, presente nos espíritos daqueles que tomam decisões políticas ou econômicas e de seus públicos. Dentro dessa perspectiva também serve de instrumento de construção de políticas públicas e privadas, ao mesmo tempo que é instrumento de avaliação dessas políticas. (73)

 

 Notas de rodapé:


32 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 210

33 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 209

34 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 210

35 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 210

36 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 212

36  BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 17

37 ibidem., p. 18

38 VAN DIJK, T. A. Discurso, notícia e ideologia. Porto: Campo de Letras, 2005, p. 44

39 ibidem.

40 ibidem.

40 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 82

41 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 211

42 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 209

43 ibidem, p. 210

44 ibidem.

45 ibidem.

46 ibidem.

47 ibidem.

48 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 83

49 ibidem., p. 87

50 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 210

51 Sobre esse tema são citadas as seguintes obras: a jeremiada elitista de A. Bloom (1987), traduzida imediatamente para o francês, pela editora Julliard, com o título L'Âme Désarmée (1987) e o panfleto enraivecido do imigrante indiano neoconservador (e biógrafo de Reagan), membro do Manhattan Institute, D. DiSouza (1991), traduzido para o francês com o título L'Éducation contre les Libertés. Para uma visão nativa de conjunto dos sucessos e fracassos dos professores universitários americanos, atualmente, ver o recente número de Daedalus consagrado a "The American Academic Profession" (1997), principalmente B. Clark, "Small Worlds, Different Worlds: The Uniqueness and Troubles of American Academic Professions" (pp. 21-42), e P. Altbach, "An International Academic Crisis? The American Professoriate in Comparative Perpspective" (pp. 315-338). WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira.

52 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 17

54 ibidem.

54 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 86

55 ibidem.

56 ibidem, p.87

57 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 229

58 Estes trechos foram retirados do catálogo de definições escolares de suas teorias e opiniões políticas que Anthony Giddens propôs ao programa “FAQs (Frequently Asked Questions)”, no seu site na Internet. ibidem.

60  WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 211

61  ibidem, p. 211

62 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 86

63 Wacquant Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 212

64 ibidem, p. 212

65 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 84

 66 ibidem, p. 86

67 Em relação à “globalização” como “projeto norte-americano” visando a impor o conceito de “valoracionário” da empresa, ler, de Neil Fligstein, “Rhétorique et realités de la “mondialisation”, Actes de la recherche en sciences sociales, Paris, nº 119, setembro de 1997, p. 36-47.

68 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 17

69 ibidem. 

70 WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 216

71 ibidem.

72 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002,, p. 19 

73 BOURDIEU, P. e Wacquant, L. o imperialismo da razão neoliberal. Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, 2013, p. 86

 74 ibidem., p.86



Imperialismo e racialidade, uma aplicação (parte 3/5)


Nas realidades políticas o imperialismo cultural opera intrusões etnocêntricas assim tomando os espaços de debates que antes pertenciam a temas como o da "raça" e da identidade. Nessa proposta Bourdieu convida a uma análise em que o imperialismo cultural ocorre através dos preceitos de uma reconhecida tradição estadunidense, que em determinado momento histórico, definiu, de maneira arbitrária, a dicotomia entre negros e brancos. Essa definição foi reconhecida como legítima e natural em outras realidades infinitamente mais complexas do que a dessa tradição estadunidense, e assim sendo imposta, ressignificou relações em países em que os princípios - codificados ou práticos - de visão e divisão de negros e brancos, das diferenças étnicas, são completamente diferentes. Partindo para uma abordagem mais concreta, Bourdieu cita o caso do Brasil, ainda considerado, como um dos contra-exemplos desse "modelo americano"[74].

Para esse momento do raciocínio Bourdieu chama atenção para preceitos de certas obras de pesquisa, empreendidas por estadunidenses e latino-americanos formados nos Estados Unidos, que servem de representações históricas de um esforço em legitimar os pontos de vista da maior parte das pesquisas recentes sobre a desigualdade etno-racial do Brasil. Estas pesquisas colocam os brasileiros como: não sendo menos racistas que os outros, contrariando uma identidade que os brasileiros teriam de sua sociedade como o país das "três tristes raças" (indígenas, negros descendentes dos escravos, brancos oriundos da colonização e das vagas de imigração européias); os brasileiros "brancos" nada tendo a invejar em relação aos primos estadunidenses; ou Ainda pior, a existência de um racismo mascarado à brasileira, por definição, mais perverso, porque dissimula e nega suas atitudes racistas, na tese que pretende, em Orpheus and Power (1994), o cientista político afro-americano Michael Hanchard[75].


Para a análise dessa situação brasileira, Bourdieu entende que na obra Orpheus and Power (1994), Hanchard aplicou as mesmas categorias da história particular (não universal) do Movimento estadunidense em favor dos Direitos Civis ocorrido durante o período das décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial 1950 e 1960 - período específico de regime de dominação rígido e violento nos Estados Unidos, desconhecido de qualquer outra sociedade, nascido no interior de uma contradição original entre democracia e escravidão racial. Segundo essa análise de Bourdieu, a aplicação de Hanchard opera estabelecendo uma ideologia em que as categorias estadunidenses estão servindo de fundamento e padrão universal da luta de todos os grupos de cor oprimidos (ou casta)[76], isto porque a referida obra, por um lado estabelece as diretrizes da sociedade estadunidense como paradigma para outra sociedade com circunstâncias particulares diferentes daqueles de sua própria origem, e por outro lado, deixa de aplicar um diálogo ou uma reflexão mais detalhada com as circunstâncias locais do Brasil ou dos escritores locais que propuseram outras formas de tratar essa mesma problemática, e ainda que possa citar brevemente tais autores e problemáticas, essas abordagens permanecem na margem das questões tratadas[77].


Como consequência, a conclusão da análise de Hanchard, segundo Bourdieu, desconsidera a constituição da ordem etno-racial brasileira em sua lógica singular* [78]. Para Bourdieu, a forma de desdobrar a referida análise deve dissecar a constituição da ordem etno-racial objeto de análise, respeitando sua própria lógica. Nesse sentido Bourdieu afirma que na história comparativa da dominação racial está demonstrado que divisões etno-raciais são intimamente ligadas à história social e política de cada país (e particularmente à história das lutas simbólicas em torno da classificação oficial), em que cada Estado produz e reproduz a concepção de “raça” que melhor esteja ajustada à formação de seu pacto nacional. Infelizmente, até mesmo os esforços mais eruditos nessa direção geralmente terminam por projetar categorias estadunidenses puras e assim apagam as próprias diferenças históricas que tentam acentuar[79].

*obs: Essa crítica de Bourdieu provocou a revista Estudos Afro-Asiáticos, para apresentar sua resposta em seu Volume: 24, Número: 1, do ano 2002, sendo a referida edição quase  exclusivamente dedicada para essa crítica. Ainda nessa edição, em defesa de Hanchard, uma crítica a esse ponto afirma que Bourdieu impõe as categorias da academia francesa como a única para a reflexão das questões de raça no Brasil, além de refletir uma simplificação frágil das concepções de raça e de sua circulação internacional: French, John. Passos em falso da razão antiimperialista: Bourdieu, Wacquant, e o Orfeu e o Poder de Hanchard. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 97-140. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100005>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100005. Outros artigos nesse sentido, da mesma edição da revista:  Sansone, Livio. Um campo saturado de tensões: o estudo das relações raciais e das culturas negras no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 5-14. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100001>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100001. Costa, Sérgio. A construção sociológica da raça no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 35-61. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100003>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100003. Hanchard, Michael. Política transnacional negra, antiimperialismo e etnocentrismo para Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant: exemplos de interpretação equivocada. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 63-96. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100004>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100004. Telles, EdwardAs fundações norte-americanas e o debate racial no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 141-165. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100006>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100006.


Problema maior surge quando essas pesquisas estadunidenses se contentam em substituir no atacado as características que deveriam estar em seu objeto de análise, como exemplo disso, o mito nacional da "democracia racial" (tal como é mencionada, na obra de Gilberto Freyre, 1978), sobreposto pelo mito de militante segundo o qual todas as sociedades são "racistas", nesse sentido incluindo a sociedade brasileira no seio daquelas que, aparentemente, contém as relações "raciais" menos distantes e hostis. A conclusão de Bourdieu é que, em uma primeira fase o conceito de racismo exerce efeito de utensílio analítico, após a influência desse imperialismo cultural esse conceito torna-se um instrumento de acusação; sob máscara de estar sendo produzida ciência, acaba por consolidando a lógica do julgamento (garantindo o sucesso de livraria, na falta de reconhecimento intelectual)[80].


Dentro dessa perspectiva, Bourdieu diferencia duas concepções de raça. A primeira está presente no pensamento de Charles Wagley demonstrando que a concepção da "raça" nas Américas admite várias definições, segundo o peso atribuído à ascendência, à aparência física (que não se limita à cor da pele) e ao status sociocultural (ocupação, montante da renda, diplomas de educação, religião, região de origem, etc.), dependendo da história de fundação, das relações e dos conflitos entre grupos e conflitos simbólicos nas variadas zonas geográficas[81].


Em divergência a essa primeira, segue a segunda perspectiva referida como presente na tradição estadunidense exclusivamente por força das circunstâncias históricas particulares de colonização desse país. Essa segunda perspectiva é definida como a única que define "raça" a partir somente do critério da ascendência - e ainda sendo utilizado exclusivamente, em relação aos afro-americanos. Segundo essa perspectiva uma pessoa é enquadrada como "negra" pelo fato de ter um ou vários ascendentes identificados como negros, isto é, no final da regressão, como escravos africanos, ou seja, os filhos de uma união mista são, automaticamente, enquadrados no grupo estabelecido como inferior (aqui, os antes denominados “negros”)[82].


Por sua vez, na perspectiva brasileira, a identidade racial é definida pela primeira perspectiva, ou seja, não em referência genealógica, mas sim a um continuum de "cor", isto é, pela aplicação de um princípio fenotípico flexível ou definido através de vetores que, levando em consideração traços físicos como o tom de pele, a textura dos cabelos, a forma dos lábios e do nariz, a posição de classe (principalmente, a renda, a ocupação e a educação), a região geográfica em que vive e etc. A perspectiva brasileira fornece um grande número de categorias intermediárias graduadoras e parcialmente superpostas entre brancos e negros (mais de uma centena foram registradas no censo de 1980), permitindo inclusive que o mesmo indivíduo receba uma classificação diferente conforme o lugar em que vive, ou que irmãos sejam considerados pertencentes a raças distintas, procedimento impossível dentro da perspectiva racial estadunidense. O que foi dito acima não significa acreditar que as discriminações difamatórias e as profundas desigualdades associadas a perspectiva estadunidense não existem no Brasil, mas sim que a perspectiva brasileira enfatiza a construção simbólica de “raça” abrangendo fronteiras e relações com uma certa porosidade e maleabilidade que a perspectiva estadunidense não consegue captar, e, em particular, essas referidas relações não geram ao longo da estrutura social o ostracismo radical nem a estigmatização excludente sem recurso ou remédio, as evidências desse fato são relacionadas às estratégias de mobilidade social étnico-racial, através do matrimônio, para subir na escada de cor adotadas pelos brasileiros de pele mais escura e os índices de segregação exibidos pelas cidades brasileiras, nitidamente inferiores aos das metrópoles estadunidenses (típico do que nos Estados Unidos são chamados “bairros integrados”), e também na ausência virtual dessas duas formas tipicamente estadunidense de violência racial: o linchamento e a agitação urbana[83].


Pelo contrário, nos Estados Unidos não existe categoria que, social e legalmente, seja reconhecida como “metis” ou "mestiço", após sua erradicação simbólica nas primeiras décadas do século XX. Nessa perspectiva há uma divisão que é mais semelhante à das castas definitivamente definidas e delimitadas ou quase castas (como prova, a taxa extremamente baixa de casamento inter-raças: menos de 3% das afro-americanas entre 24 e 35 anos contraem uniões "mistas" durante a década de 1980, em comparação com a metade, aproximadamente, das mulheres de origem hispanizante e três quartos das asiáticas), essa é a realidade que se tenta dissimular, submergindo-a no universo das classificações diferenciadoras as “revistas”, através do ponto de vista estadunidenses por meio da “globalização”[84].



Notas de Rodapé:


[74] BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p.19

[75] BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p. 19

[76] ibidem.

[77] Nesse sentido, e com maior riqueza de detalhes, a ex-ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil, doutora em Sociologia na Michigan State University, EUA: BAIRROS, Luiza de Helena. Orfeu e Poder: uma perspectiva afro-americana sobre a política racial no Brasil, Afro-Ásia, nü 17 (1996), pp. 173-186, que é uma crítica a Michael Hanchard,

Orpheus and Power: The Movimento Negro o/Rio de Janeiro and São Paulo, Brazil, 1945-1988, Princeton, Princeton University Press, 1994.

[78] Essa crítica de Bourdieu provocou a revista Estudos Afro-Asiáticos, Volume: 24, Número: 1, Publicado: 2002 a publicar a referida edição exclusivamente dedicada para apresentar sua resposta. Ainda nessa edição, em defesa de Hanchard, uma crítica a esse ponto afirma que Bourdieu impõe as categorias da academia francesa como a única para a reflexão das questões de raça no Brasil, além de refletir uma simplificação frágil das concepções de raça e de sua circulação internacional: French, John. Passos em falso da razão antiimperialista: Bourdieu, Wacquant, e o Orfeu e o Poder de Hanchard. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 97-140. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100005>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100005.. Outros artigos nesse sentido, da mesma edição da revista:  Sansone, Livio. Um campo saturado de tensões: o estudo das relações raciais e das culturas negras no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 5-14. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100001>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100001. Costa, Sérgio. A construção sociológica da raça no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 35-61. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100003>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100003. Hanchard, Michael. Política transnacional negra, antiimperialismo e etnocentrismo para Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant: exemplos de interpretação equivocada. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 63-96. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100004>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100004. Telles, EdwardAs fundações norte-americanas e o debate racial no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos [online]. 2002, v. 24, n. 1 [Acessado 24 Outubro 2022] , pp. 141-165. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100006>. Epub 20 Dez 2002. ISSN 1678-4650. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000100006.

[79] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 215.

[80] ibidem. p. 216

[81] BOURDIEU, P. e Wacquant, L. Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista. Revista Estudos Afro-Asiáticos. 1ª Revisão: 20.05.2002. 2ª Revisão: 24.06.2002. Cliente: Beth Cobra – Produção: Textos & Formas, 2002, p.20

[82] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 217

[83] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 218

[84] ibidem.




Os intelectuais passadores de informação. Introdução. (parte 4/5)


Para explicar que tais preceitos da tradição estadunidense sejam assim reconhecidos, tácita ou expressamente, à posição de padrão universal “meridiano de greenwich”, impondo suas premissas como instrumento necessários para análises e medições de toda situação de dominação étnica, em relação ao qual todos avanços e atrasos, “arcaísmos” e “modernismos” devem ser avaliados, com exclusão de algum ponto de vista local divergente, Bourdieu afirma que é insuficiente a conclusão de que: (a) determinadas "teorias" das "relações sociais e raciais", em si mesmas, além de não passarem de transfigurações mal conceitualizadas, também são submetidas incessantemente a renovação e atualização, para assim conseguirem ajustar-se ao interesse político vigente, observando as necessidades sociais da atualização dos estereótipos raciais de uso mais reconhecido como legítimo de determinada época, sem perder de vista que tais estereótipos são justificações primárias, principalmente, da dominação dos brancos sobre os negros em certa sociedade[85]. (b) o fato de que, no decorrer dos últimos anos, essa sociodicéia racial (ou racista) tenha obtido êxito em se "globalizar", perdendo ao mesmo tempo suas características de discurso justificador e tornando de uso interno ou local[86].



Sem perder de vista que estas são algumas das confirmações mais notáveis da dominação e da influência simbólicas que os Estados Unidos exercem sobre toda espécie de produção erudita e, sobretudo, semi-erudita em particular (especialmente para as questões da “raça”, em que a particularidade da situação estadunidense é especialmente flagrante e longe de ser exemplar)[87], para Bourdieu é ainda importante destacar atenção às razões que motivam um pesquisador a escamotear o modelo de pesquisa local de seu país, e adotar, mais ou menos assumida ou desavergonhadamente, o modelo de pesquisa saído da tradição estadunidense. Nesse sentido Bourdieu enfatiza o fato de que um pesquisador pode tender a reconhecer os espaços sociais dos Estados Unidos como os únicos legítimos detentores do poder de conceder consagração material e/ou simbólica à sua pesquisa[88].



Convém lembrar que uma das características do conceito de violência simbólica e dos campos sociais em Bourdieu, aplicável a seu conceito de imperialismo cultural, ocorre pelo fato de que ela nunca é exercida sem uma forma de cumplicidade (extorquida) daqueles que a sofrem. No que tange ao imperialismo cultural, dentro da perspectiva segundo a qual é necessário analisar quem produz e distribui o conteúdo, Bourdieu essa afirmação coloca atenção tanto: (a) à "passadores" e “carriers” (traficantes de informações, em francês passeurs); (b) à importadores de produtos culturais com grife, dégriffés ou falsificados (editores, diretores de instituições culturais como museus, óperas, galerias de arte, revistas, chefes de centro de pesquisas, jornais etc.) das instâncias culturais e produtos culturais estadunidenses[89].



Os passadores e os importadores realizam o efeito de acompanhar, orquestrar e, até por vezes, propor, propagar e organizar o processo de conversão coletiva das sociedades locais à nova Meca simbólica da “globalização”, nos temas da doxa social das instâncias culturais e produtos culturais estadunidenses (no sentido de difusão autorizada). Nesse contexto devem ser analisados os diferentes graus do uso de sublimações que esses passadores e importadores utilizam no seio de seus discursos semi-eruditos e suas práticas. Esses referidos graus variam em conscientes ou inconscientes, direta ou indiretamente interessados, muitas vezes com toda a boa-fé, explicitamente ou implicitamente coordenados, no próprio país ou em países-alvo[90].



Como exemplo concreto da circunstância em questão, Bourdieu cita o efeito realizado pelas principais fundações bilionárias filantrópicas, de pesquisa e organizações similares na difusão da doxa estadunidense em submersão no campo acadêmico brasileiro, tanto no plano das representações como nas práticas, ou em outro domínio das categorias jurídicas e morais de “direitos humanos” e “filantropia”, da análise do programa "Raça e Etnicidade" da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (e a sua revista Estudos Afro-Asiáticos) da Universidade Cândido Mendes, financiado pela fundação Rockefeller e organizações semelhantes. O objetivo apregoado pelo referido programa cuida de incentivar e favorecer o intercâmbio de pesquisadores e estudantes. No que tange os requisitos para a obtenção de patrocínio do referido programa, a fundação Rockefeller impõe que as equipes de pesquisa obedeçam aos critérios de affirmative action à maneira estadunidense, o que levanta problemas espinhosos já que, como foi estudado, a dicotomia branco/negro é de aplicação, no mínimo, arriscada na sociedade brasileira[91]. Por um lado as categorias, as problemáticas, os modelos, os pontos de vista e as experiências de pesquisas dos Estados Unidos são impostos para o pesquisador do Brasil como requisitos imprescindíveis para qualquer pesquisa digna de ser consagrada (começando com a divisão dicotômica entre negros e brancos), por outro lado, os modelos, as categorias, as problemáticas, contrapostos e experiências de pesquisas do Brasil raramente fluem (se é que fluem), como um ponto de vista para ser considerado em relação aos modelos de pesquisa dos Estados Unidos, seja para questionar as formas peculiares pelas quais foi estabelecida a sua questão “racial”, seja para analisar as razões históricas, sociais, políticas em que essas categorias foram impensadamente transcritas no aparelho analítico da sua ciência social nacional[92].



Em paralelo ao papel das fundações filantrópicas, outro exemplo de fatores que alimentam a difusão do pensamento “made in USA” nas ciências sociais, Bourdieu relaciona à internacionalização comercial da atividade editorial universitária. O presente caso está relacionado à dois fatores: o primeiro é a integração da edição dos livros acadêmicos em língua inglesa (vendidos, freqüentemente, pelas mesmas distribuidoras nos Estados Unidos, nos diferentes países da antiga Commonwealth britânica, bem como nos pequenos países poliglotas da União Européia, tais como a Suécia e a Holanda, e nas sociedades mais diretamente expostas à dominação cultural estadunidense); combinado com o segundo fator que é a erosão da fronteira entre atividade editorial universitária e grandes editoras comerciais. Essa situação contribuiu para encorajar a circulação de termos, temas e tropos com forte (previsto ou constatado) apelo de mercado, que, por sua vez, deve seu poder de atração ao simples fato de sua ampla difusão comercial.



Em termos concretos a Basil Blackwell - grande editora meio comercial, meio universitária (denominada pelos anglo-saxões como crossover press) - além de unilateralmente definir os títulos das obras que é responsável por publicar, ainda impõe a utilização de termos que estejam harmonizados ao novo senso comum planetário do qual ela contribui para ser realizado, sob pretexto de reverbera-lo . No caso específico em questão, a coletânea de textos sobre as novas formas de pobreza urbana na Europa e nos Estados Unidos, reunidos em 1996 pelo sociólogo italiano Enzo Mingione, foi intitulada pela referida editora como Urban Poverty and the Underclass. O problema é que este título foi estabelecido contra o parecer de seu responsável e dos diferentes colaboradores. O referido parecer contrário ocorreu pelo fato de que essa obra inteira tende a demonstrar a inaptidão da noção de underclass (inclusive a Backwell recusou colocar o termo entre aspas). Nos casos de recusa enfática por parte dos autores com suas condições, a Basil Blackwell porta uma posição muito confortável de exigir um título instigante como a única maneira de evitar um preço de venda elevado que, de qualquer modo, acabaria com a obra. Com o objetivo de que o exemplo acima não seja acusado como um caso isolado, Bourdieu afirma que no momento em que seu artigo vai para o prelo, a mesma editora empreendeu um combate furioso com os urbanólogos Ronald van Kempen e Peter Marcuse, a fim de que estes modifiquem o título de sua obra coletiva, The Partitioned City, para Globalizing Cities[93].



Decisões de puro marketing editorial lideram as decisões tanto de pesquisa como para o ensino universitário, direcionando sua metodologia e conclusões para a homogeneização e submissão às tendências provenientes e alinhadas do modelo estadunidense, mais ainda, quando não produzem "disciplinas" inteiras que vão ser reconhecidas como as legítimas para encarar certas temáticas, tais como o cultural studies, campo híbrido, originário da Inglaterra, anos 1970, que obteve sua difusão internacional (que é a totalidade da sua existência) graças a uma política de propaganda editorial bem-sucedida[94]. Embora a "disciplina" de estudos culturais franceses não exista nos campos universitários, culturais e intelectuais da França, essa ausência não desestimulou, no campo comercial, que a editora Routledge publicasse um compendium intitulado French Cultural Studies, inspirado no modelo dos British Cultural Studies (estudos culturais britânicos). Na mesma tendência foi publicado por editoras rivais um tomo de German Cultural Studies (estudos culturais alemães) e italian cultural studies (estudos culturais italianos). Em virtude dessa partenogênese étnico-editorial, tendência da moda em sua época, foi possível para Bourdieu prever, no momento que seu artigo foi ao prelo, a futura produção de um manual denominado French Arab Cultural Studies (estudos culturais franceses árabes), gêmeo simétrico do manual Black British Cultural Studies (estudos culturais da britânia negra) já então publicado em 1997. Ainda nessa época corriam apostas no sentido de que a Routlege teria a audácia de produzir um Turkish-German Cultural Studies (estudos culturais turco-alemães)[95].



Mas todos esses fatores para Bourdieu não são suficientes para justificar completamente a hegemonia que a produção comercial editorial exerce sobre o mercado mundial intelectual. Essa é a razão pela qual o sociólogo reivindica ser necessário enfatizar o papel dos agentes que lideram as estratégias de import-export dos conceitos operados nas pesquisas publicadas, eles são mistificadores/mistificados que transportam, geralmente sem seu conhecimento, a parte oculta e, muitas vezes, maldita dos produtos culturais que são responsáveis por colocar em circulação[96].



Unindo esse pensamento com o que foi dito acima, Bourdieu convida a pensar profundamente o fato dos pesquisadores estadunidenses que vão ao Brasil com a finalidade de encorajar e mobilizar os líderes do Movimento Negro e todos os brasileiros de ascendência africana local para adotar obrigatoriamente as táticas do movimento afro-americano de defesa dos direitos civis e, ao mesmo tempo, criticar a categoria brasileira de pardo (termo intermediário entre branco e preto que designa as pessoas de aparência física mista), assim enfatizando a questão de incentivar os brasileiros para pensar exclusivamente partindo da oposição dicotômica entre "afro-brasileiros" e "brancos". Também sem desconsiderar ainda que essa estratégia ocorre no preciso momento em que, nos Estados Unidos, os indivíduos de origem mista se mobilizam a fim de que esse país (a começar pelos Institutos de Censo) reconheçam, oficialmente, os estadunidenses "multi-raciais", para que deixe de classificá-los à força sob a etiqueta exclusiva de "negro"[97].



NOTAS DE RODAPÉ:



[85] James Mckee, em sua obra Sociology and the Race Problem: the failure of a perpspective (Urbana e Chicago: University of Illinois Press, 1993), demonstra, primeiro que essas teorias supostamente científicas tomam para si o estereótipo da inferioridade cultural dos negros e, segundo, que essas teorias são incapazes de prever e então explicar a ampla mobilização da comunidade afro-americana nas décadas do pós guerra que levaram à violência racial da década de 1960; WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p.218


[86] ibidem, p. 219


[87] ibidem.


[88] ibidem.


[89] ibidem, p. 219


[90] ibidem, p. 220


[91] ibidem, p. 220


[92] ibidem.


[93] ibidem, p. 221


[94] ibidem, p. 222


[95] ibidem, p. 222


[96] ibidem, p. 222


[97] p. 222





Os intelectuais passadores de informação. Conclusão (parte 5/5)

Semelhantes constatações autorizam Bourdieu a afirmar que a descoberta tão recente quanto espantosa da "globalização da raça" (Winant, 1994 e 1995) foi o resultado não de uma súbita convergência dos modos de dominação étnico-racial nos diferentes países, mas sim antes da quase universalização do folclórico conceito (follk concept) estadunidense de "raça", em consagração, e sob o efeito-disfarçado, da exportação mundial bem-sucedida das categorias eruditas estadunidense para todo o mundo[98].



Um exemplo concreto dessa demonstração, Bourdieu propõe na análise da difusão internacional do verdadeiro-falso conceito de underclass que, através de um efeito de alodoxia[99], típico da circulação descontrolada de ideias, passando por vários continentes, foi importado por sociólogos com ambições de conseguir uma segunda juventude intelectual, no fluxo da onda de popularidade dos conceitos com a etiqueta made in USA. Resumidamente, operam da seguinte maneira: os europeus, geralmente do campo acadêmico, jornalístico ou político, estudam a questão da "classe" dentro do conceito de underclass proposto na década de 1990 nos Estados Unidos, e apostam que a reflexão dessa temática está prestando referência a uma nova posição na estrutura do espaço social urbano, e trabalham um discurso por essa via. Contrariando o ponto de vista desses europeus, seus colegas estadunidenses pensam o conceito de “under” enquanto uma pilha de pobres perigosos e imorais, ou seja, sob uma óptica deliberadamente vitoriana e racistóide[100]. Paul Peterson, um celebrado professor de ciência política em Harvard e diretor do "Comitê de pesquisas sobre underclass urbana" do Social Science Research Council (também financiado pelas Fundações Rockefeller e Ford), não deixa subsistir qualquer equívoco ou ambiguidade quando resume aprovando os ensinamentos extraídos de um grande colóquio sobre a underclass realizado, em 1990, em Chicago, e coloca que: "O termo é poderoso porque chama a atenção para a conjunção entre o caráter dos indivíduos e as forças impessoais da ordem política e social maior. O sufixo 'class' é o componente menos interessante da palavra. Embora sugira uma relação entre um grupo social e outro, os termos dessas relações permanecem indefinidos enquanto não são combinados com a palavra mais conhecida 'under'. Essa transformação de uma preposição em adjetivo não tem o peso da palavra “trabalhadora”, a banalidade da palavra “média”, nem a distância da palavra “superior”. Em vez disso, “under” sugere algo inferior, de baixo, vil, passivo, submisso, resignado e, simultaneamente, algo de vergonhoso, depravado, perigoso, disruptivo, sombrío, tenebroso maléfico, inclusive, demoníaco. E, além desses tributos pessoais, ela implica a idéia de sujeição, subordinação e privação"[101].
*Obs: Alodoxia é uma expressão presente nas obras de Bourdieu que define um erro e falso reconhecimento que alguém aplica sobre um objeto como sendo igual a outro objeto diferente por falta de repertório necessário à sua interpretação, com base em relações ignoradas entre diversas histórias com particularidades diferentes, e leva a reconhecer algo estranho numa outra história, a de uma outra nação ou de uma outra classe. BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Bertrand Brasil, 2012. p. 105


Em cada campo intelectual nacional, existem agentes os quais Bourdieu denomina de passadores (passeurs) - veiculado não apenas pelos partidários da revolução neoliberal, sob a camuflagem da “modernização”, mas também por produtores culturais (pesquisadores, escritores, artistas) e militantes de esquerda política que, na sua maioria, continuam a considerar-se progressistas. Um dos efeitos das estratégias de projeção pessoal dos passadores (por vezes somente um, por vezes vários em competição), em cada campo intelectual nacional, dentro do contexto desse circuito do imperialismo cultural, seguem no sentido de assumir mitos eruditos e reformulá-los em termos alienados, como na questão em tela das relações entre pobreza, imigração e segregação nos seus países. No momento em que escreveu “a astúcia da razão imperialista”, Bourdieu já diz não ser mais possível contar o número de artigos e obras que têm como objetivo provar – ou negar, o que acaba sendo a mesma coisa – com uma enfática diligência positivista, a "existência" desse grupo “underclass" em uma ou outra sociedade, cidade ou bairro, a partir de indicadores empíricos, na maioria das vezes mal construídos e mal correlacionados entre si (cf., entre muitos, Rodant, 1992; Dangschat, 1994; Whelm, 1996). Quando os passadores colocam a questão de refletir se existe uma underclass em Londres, Lyon, Leiden ou Lisboa, eles viralizam o pressuposto de que, no mínimo, por um lado, o termo é dotado de uma certa consistência analítica e, por outro, que tal "grupo" existe realmente nos Estados Unidos ou na Europa. Em uma posição intermediária Cyprien Avenel, em sua obra “La Question de l’underclass des deux côtes de l’Atlantique”, realiza o trabalho considerável de provar que o conceito de “underclass” não se aplica às sociedades franceses, mas aceita e reforça a noção preconcebida segundo a qual o termo se aplica à realidade estadunidense[102].



Contra as referidas posições, Bourdieu é taxativo em afirmar que a noção semi-jornalística e semi-erudita de underclass é desprovida não só de coerência semântica, mas também de existência social real, nesse sentido apresenta os seguintes argumentos: (a) as intituladas “populações incongruentes” que os pesquisadores estadunidenses reagrupam habitualmente sob esse termo - os sujeitos beneficiários da assistência social (wellfare), desempregados crônicos, mães solteiras, famílias monoparentais, rejeitados do sistema escolar, criminosos e membros de gangues, viciados em entorpecentes e os sem teto, quando não estão se referindo a todos os habitantes do gueto sem distinção – estão incluídas nessa categoria totalmente abrangente por causa de um fato único (fourre-tout): são reconhecidas como outros tantos desmentidos vivos, negações vivas e ameaçadoras do "sonho americano" de sucesso individual e oportunidade para todos (american way of life); (b) o "conceito" aparentado de "exclusão" é comumente empregado, na França e em certo número de outros países europeus (principalmente, sob a influência da Comissão Européia), na fronteira dos campos político, jornalístico e científico, com funções similares de desistoricização e despolitização, pela representação do antigo fenômeno do desemprego em massa e seus efeitos solapadores sobre o proletariado urbano como um fenômeno novo, e desligado das políticas de Estado de desregulamentação econômica e de redução do wellfare; (c) a noção de underclass não passa de um grupo fictício, produzido no papel, em teoria, pelas práticas artificialmente classificatórias dos eruditos, jornalistas, acadêmicos e outros especialistas em gestão dos pobres (negros urbanos) que apostam na crença em sua existência, de acordo com Bourdieu, pelo fato de que o referido agrupamento se ajusta bem para permitir uma atribuição pessoal de legitimidade científica em alguns, e, a outros, trata de um tema politicamente compensador e comercialmente lucrativo a ser explorado. Nesse sentido a operação soberba dos passadores basicamente consiste em retraduzir uma noção inexistente por uma outra mais do que incerta (Herpin, 1993)[103].



Concluindo essa parte, Bourdieu afirma que, da mesma forma, a (re)importação do conceito de underclass dos Estados Unidos para a Europa também é inapta e inepta, não acrescenta repertório intelectual para o conhecimento dessas sociedades, isto porque ambos locais utilizam discrepantes modalidades e métodos administrativos no tratamento reservados às suas "populações problema", da mesma forma essas diferenças ocorrem com suas divisões étnicas e seu respectivo status político, justamente pelo fato de que tais classificações surgiram tendo por base raízes históricas profundas[104].



Outros dos efeitos colaterais dessas ações surgem no fato de que alguns sociólogos franceses não hesitaram em traduzir o termo antecipadamente por "sous-classe", na expectativa, sem dúvida, de introduzir o conceito de sub-homens ou Untermensch[105].



O mais extraordinário no conceito de underclass, para Bourdieu, é o fato de que ele emerge, em sincronia com o paradoxo ligado a outros conceitos falsos dessa vulgata globalizada, da mesma onda que cria o conceito de “gueto”, que, por sua vez, foi ofuscado pelo conceito de underclass por força da severa censura política que pesava sobre pesquisas a respeito da desigualdade urbana e racial nos Estados Unidos[106].



Antes de fazer sucesso nos Estados Unidos, a origem do conceito de underclass remonta a Europa, década de 1960, proveniente da palavra sueca onderklass, pelo economista Gunnar Myrdal, nessa oportunidade o referido conceito descreve “o processo de marginalização dos segmentos inferiores da classe trabalhadora nos países ricos”, dentro de um contexto que tinha como objetivo “criticar a ideologia do aburguesamento generalizado das sociedades capitalistas”[107].



A importação do conceito de underclass para dentro do circuito internacional comercial desfigurou seus significados originais, nesse momento é possível, para Bourdieu, entender até que ponto o desvio adotado pelo Estados Unidos é capaz de transformar uma ideia, isto porque, em um momento inicial, o referido conceito trata de “um conceito estrutural destinado a questionar a representação dominante da sociedade”, porém, em um momento posterior, quando foi importado para os Estados Unidos, década de 1990, o referido conceito teve seu significado invertido para “imputar às condutas "anti-socais" dos despossuídos a responsabilidade de seu esbulho”, ou seja, depois de importado para os Estados Unidos, o conceito de underclass realiza o efeito de fazer surgir “uma categoria comportamental sob medida para reforçar essa representação” dominante da sociedade que o conceito original buscava criticar[108].



A responsabilidade dos passadores dos diferentes campos intelectuais nesses “mal-entendidos”, em parte, ocorre pelo fato de serem eles os “importadores que produzem, reproduzem e fazem circular todos esses (falsos) problemas, extraindo ao mesmo tempo, sua pequena “cota” de lucro simbólico” e material dessas suas estratégias pessoais de consagração internacional dentro desse circuito. E também pelo fato de que nesse contexto das posições/distâncias sociais e de seus habitus eruditos, esses passadores estão expostos e vinculados a uma “dupla heteronomia”: (a) Por um lado, “miram” os circuitos de consagração dos campos sociais dos Estados Unidos, locais reconhecidos por eles como núcleo principal "lar da (pós)modernidade social e científica”, todavia não estão incluídos nesses espaços, portanto, em geral, não conseguem obter “conhecimento direto e específico das instituições e da cultura estadunidenses”. Razão pela qual esses passadores “são dependentes dos pesquisadores estadunidenses que exportam produtos intelectuais (geralmente deteriorados e envelhecidos) para o exterior”. (b) Por outro lado, tendem a estar no interior do campo do jornalismo, pelas “seduções” de consagração que esse espaço “oferece e o sucesso imediato que ele propicia”, e, consequentemente, trabalhando os “temas que brotam na interseção dos campos da mídia e da política”, portanto, “no ponto maximização do ganho” sobre assuntos relacionados ao “mercado externo (como se poderia mostrar relacionando as resenhas complacentes que suas obras recebem em revistas altamente visíveis)"[109].



A situação dessa dupla heteronomia, quando são características desses passadores, “sociólogos-jornalistas, sempre prontos e aflitos para comentar os assuntos correntes e tudo que se chama "fait de societé"”, justifica “a predileção deles pelas problemáticas amenas”, ou seja, eles vão priorizar trabalhar questões “nem verdadeiramente jornalísticas, nem completamente científicas (eles se orgulham por estarem em simbiose com "o ponto de vista dos atores")”. Essas predileções são expressas “numa linguagem a um só tempo, acessível e "modernista" e, portanto, geralmente percebida como vagamente progressista (em relação aos "arcaísmos" do velho pensamento europeu)”. No que tange ao conteúdo dessas predileções geralmente elas vão tratar meramente da “retradução semi-erudita dos problemas sociais mais em voga em sua época numa linguagem importada dos Estados Unidos (na década de 1990: etnia, identidade, minoria, comunidade, fragmentação etc.) e que se seguem uns aos outros na ordem e ritmo ditados pela mídia: jovens da banlieue [periferia], a xenofobia da classe trabalhadora declinante, os desajustes dos estudantes do secundário e da universidade, a violência urbana, a esperança no Islã”, corrupção, empreendedorismo etc[110]. Esse posicionamento gera o efeito de contribuir, “de forma particularmente paradoxal para a imposição de uma visão do mundo que, sem levar em conta as aparências superficiais, está longe de ser incompatível com as produzidas e transmitidas pelos grandes think tanks internacionais, mais ou menos diretamente enlaçados às esferas do poder econômico e político”[111].



Para além dos passadores que realizam estratégias conscientes para benefício pessoal, importante aqui destacar outros temas, ideologias e autores, reconhecidos como progressistas (esquerda política), cuja primeira característica é que “geralmente sem o perceber estão engajados na empresa de importação-exportação cultural", e a segunda característica está no fato de que, “eles ocupam geralmente posições dominadas no campo de poder*[112] estadunidense e até mesmo no seu campo intelectual”[113].
*Obs: Em apertada síntese campo de poder ocorre quando diversos agentes sociais, reconhecidos como dominantes pelos seus pares nos mais diversos campos sociais em que atuam, estão disputando entre si o reconhecimento uns dos outros. BOURDIEU, Pierre. Campo de poder, campo intelectual. Buenos Aires: Folios, 1983


Para entender a atuação desses outros agentes, temas e ideologias, Bourdieu faz uso de uma analogia com os “produtos da grande indústria cultural dos Estados Unidos, como o jazz ou o rap, ou as modas mais comuns em alimentos ou roupas como o jeans”. Da mesma forma que esses produtos “devem parte de sua sedução quase universal sobre os jovens ao fato de serem produzidos e usados por minorias subordinadas nos Estados Unidos”, também quando os "tópicos da nova vulgata mundial”, têm como característica que “devem parte de sua eficácia simbólica ao fato de que apoiados por especialistas em disciplinas vistas como marginais ou subversivas como Estudos Culturais, Estudos Étnicos, Estudos Gays ou Estudos Femininos”, então eles são reconhecidos, “aos olhos dos escritores das ex-colônias européias”, como portadores de legitimidade social benéfica, no sentido de representar “aura de mensagens de libertação”[114].



Em outras palavras, os temas, ideologias e autores reconhecidos como progressistas, destinatários de reconhecimento social benéfico por serem reconhecidos como especialistas de assuntos relacionados à minorias, quando eles utilizam e guarnecem os mesmos tópicos dos circuitos do imperialismo cultural, esta atitude faz com que a eficácia de consagração social destinada à estes autores, temas e ideologias também flua no sentido de beneficiar, em boa parte, o poder de imposição dos tópicos do imperialismo cultural, isto porque os referidos tópicos passam a ser reconhecidos com as mesmas características dos próprios intelectuais progressistas. Nesse raciocínio Bourdieu conclui: “De fato, o imperialismo cultural (estadunidense ou outro) nunca se impõe melhor do que quando é servido por intelectuais progressistas (ou por intelectuais "de cor", no caso da desigualdade racial)”, porque esses intelectuais “parecem acima da suspeita de estarem promovendo os interesses hegemônicos de um país contra o qual brandem a arma da crítica social”[115].



Como exemplo prático dessa situação, Bourdieu cita o jornal Dissent, reconhecido por pertencer a uma ““velha esquerda” democrática da cidade de Nova Iorque”, na sua edição de verão do ano de 1996, em que publica artigos trabalhando os assuntos "Minorias em luta em todo globo: Direitos, Esperanças, Ameaças". A revista referida é reconhecida por combinar sua “boa vontade humanista característica de certa tendência da esquerda acadêmica”, com sua projeção à toda humanidade. Nesta edição, o jornal não apenas enfatiza o “senso comum “liberal” dos Estados Unidos”, como também consagra um espaço especial para a noção de minority - palavra que deve, para Bourdieu, ter sua transcrição mantida no idioma inglês, como memória de que se trata de um “conceito folclórico importado para a teoria” e também de que foi criado na Europa[116].



No que tange esse cuidado com a transcrição da palavra minority, Bourdieu ressalta que “o problema de linguagem, evocado aqui de passagem, é a um só tempo crucial e espinhoso”, isto porque, por um lado, escamoteando precauções metodológicas da antropologia, temos “o fato de que os cientistas sociais carregarem sua linguagem científica com tantos “faux amis” (em que minority se transforma em minoria, profession profissão liberal etc.)”, o problema aqui surge porque esses cientistas acabam guiados pelos “ganhos simbólicos oferecidos por esse verniz de “modernidade””, e nesse contexto, não reconhecem que “essas palavras morfologicamente germinadas são separadas por todo conjunto de diferenças entre os sistemas sociais e simbólicos em que foram produzidas e o novo sistema em que estão inseridas”, completando esse raciocínio, Bourdieu afirma que “os mais expostos à falácia dos “faux amis” são obviamente os ingleses porque eles falam a mesma língua, mas também porque eles em geral aprenderam sua sociologia em textos, “antologias” e livros estadunidenses, e assim não têm muito a opor a essa invasão conceitual, a menos que haja vigilância epistemológica excepcional”. Por outro lado, e em divergência, temos a existência de várias “precauções tomadas pelos etnólogos ao introduzir palavras nativas” em suas pesquisas, como “é o caso dos estudos étnicos da revista Ethnic and Racial Studies, dirigida por Martin Bulmer, e do grupo de pesquisa de Robert Miles sobre racismo e migração da Universidade de Glasgow”, o grande problema aqui ocorre porque “esses paradigmas alternativos, preocupados em levar completamente em conta as especificidades da ordem étnico-racial britânica são forçosamente definidos por sua oposição aos conceitos estadunidenses e seus derivados ingleses”[117].



A proposta da referida noção de minority promulgada pelo jornal Dissent, caracteriza certas pessoas e grupos como “categorias isoladas de uma dada nação-Estado” e “com base em “traços "étnicos" ou “culturais"”. Essa primeira caracterização segue somada com uma segunda caracterização: a de que tais pessoas e grupos “têm o desejo ou o direito de exigir reconhecimento cívico e político como tal” (subjetividade)[118].



O problema de tomar como verídicas essas caracterizações, como o referido jornal estabelece, está no fato de que a existência real ou potencial dessas caracterizações “pressupõe o que deveria ser demonstrado”. Nesse sentido “uma análise comparativa aparentemente rigorosa e generosa pode, sem que seus autores nem cheguem a perceber, contribuir para tornar aparentemente universal”, aplicável para todos os povos, “uma problemática feita por e para estadunidenses” (e o seu assujeitamento quase espontâneo aos direitos civis). Tal ponto de vista também tende a escamotear o fato de que “as formas sob as quais os indivíduos buscam o reconhecimento do Estado para sua existência e participação coletivas variam em épocas e lugares diferentes em função das tradições históricas e sempre constituem um objeto de luta na história”[119].



Nesse momento da reflexão Bourdieu apresenta um duplo paradoxo: Por um lado, no interior da “luta pelo monopólio da produção da visão do mundo social que é universalmente reconhecida como universal”, aplicável à todos os povos, temos: (a) o fato de que os Estados Unidos são “excepcionais” detentores do poder de tornar legítima, enquanto a única ideologia legitima, aquela onde suas práticas são princípios da natureza universal racional, embora essas abordagens sejam particularismos, aplicados excepcionalmente em sua tradição histórica em particular; (b) o fato dos Estados Unidos serem excepcionais para que seus espaços sociais sejam reconhecidos por muitos como locais da maior fluidez de uma ordem, ou seja, que oferece oportunidades extraordinárias à mobilidade social (principalmente, em comparação com as estruturas sociais rígidas do velho continente), o que gera nas pessoas a ilusão de que é possível entrar nesses espaços e obter consagração[120].



Por outro lado, em divergência com o senso comum descrito acima, “a sociodicia e as ciências sociais” estão de acordo em reconhecer que os Estados Unidos nada possui de excepcional no que tange “fluidez de uma ordem social que extraordinárias oportunidades de mobilidade (especialmente em comparação com as estruturas supostamente rígidas do velho mundo)", nesse sentido “os mais rigorosos estudos comparativos convergem na conclusão de que os Estados Unidos não são fundamentalmente diferentes das outras nações pós-industriais, ainda que o alcance da desigualdade de classe seja notavelmente maior nos Estados Unidos.”[121]



Para Bourdieu o que torna os Estados Unidos “realmente excepcionais, de acordo com a velha temática de Tocquevilliana incansavelmente reiterada e periodicamente reatualizada”, na sua vitória na luta pelo monopólio da produção da visão do mundo social universal para todas situações particulares, é justamente o que ele tem de mais comum com outros países: “rígido dualismo de sua divisão social”, ou seja, a inexistência de uma sociedade com fluidez, mobilidade social e oportunidades extraordinárias. E ainda “mais que isso, é por sua capacidade de impor como universal o que há de mais particular a eles, vendendo como excepcional o que os torna mais comuns”[122].



Os efeitos do imperialismo cultural - no sentido daqueles que ocorreram no processo “resultante da migração de ideias através de fronteiras nacionais”, e operaram a “des-historicização” como desconsideração das histórias locais, culturais e pessoais, agindo assim contribuindo como sendo “um dos fatores para a desrealizacão e falsa universalização” das pessoas e das sociedades, podendo ser observado no exemplo dos “faux amis teóricos" - mantém os eruditos inquietos, de antemão, em argumentar a propósito dos mesmos. O único elemento eficiente de aperfeiçoamento na condução e orientação dos instrumentos dos referidos argumentos, Bourdieu define como sendo o trabalho científico de uma “genuína história da gênese das idéias acerca do mundo social”, necessariamente acompanhada “de uma análise dos mecanismos sociais da circulação internacional dessas idéias, esse repertório “poderia levar os cientistas, tanto nesse domínio quanto em outros, a um comando melhor dos instrumentos com que argumentam sem ter a preocupação de discuti-los antes”[123].



Na obra de Dorothy Ross denominada “the origins of american Social Science”, a autora faz não apenas “um trabalho essencial para levar em conta todo o peso do inconsciente histórico que sobrevive de forma mais ou menos reconhecível e reprimida na problemática erudita de um país”, como também analisa “a gravidade histórica que dá ao imperialismo acadêmico estadunidense grande parte de sua força de imposição”. A referida obra chama atenção para a abordagem de Bourdieu no momento em que “revela como as ciências sociais estadunidenses (economia, sociologia, ciência política e psicologia) foram erigidas”. Dentro desse contexto, no interior do estudo da “linguagem ostensivamente purificada da “grande” teoria sociológica”, é possível encontrar retraduções de “dois dogmas básicos que constituem a doxa nacional”. São eles: (a) o ““individualismo metafísico", na canônica tentativa de Talcott Parsons de elaborar uma “teoria voluntarista da ação” e, mais recentemente, na popularidade ressurgente da chamada “teoria da escolha racional”. (b) e “a ideia de oposição diametral entre dinamismo e elasticidade da nova ordem estadunidense e a estagnação e rigidez das velhas formações sociais européias”, que pode ser observado no estudo da ““teoria da modernização", que reinou sobre o estudo da mudança social durante as três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial e que recentemente fez um retorno inesperado nos estudos pós-soviéticos”[124].


NOTAS DE RODAPÉ:

[98] p. 223

[99] Alodoxia é uma expressão presente nas obras de Bourdieu que define um erro e falso reconhecimento que alguém aplica sobre um objeto como sendo igual a outro objeto diferente por falta de repertório necessário à sua interpretação, com base em relações ignoradas entre diversas histórias com particularidades diferentes, e leva a reconhecer algo estranho numa outra história, a de uma outra nação ou de uma outra classe. BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Bertrand Brasil, 2012. p. 105

[100] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 223

[101] JENCKS, C. & PETERSON, P. (eds.) (1991). The Urban Underclass. Washington, Brookings Institution, p. 3. Peteron conclui que o parágrafo de abertura do livro observando que O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, evoca melhor a “subclasse” como uma “população humana vil e depravada” (sic).

[102] ibidem, p. 224

[103] ibidem, p. 225

[104] ibidem, p. 226

[105] ibidem, p. 224

[106] ibidem, p. 226

[107] MYRDALG. (1963). Challenge to Affluence. Nova York, Pantheon.

[108] WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 226

[109] ibidem.

[110] ibidem, p. 227

[111] ibidem.

[112] Em apertada síntese campo de poder ocorre quando diversos agentes sociais, reconhecidos como dominantes pelos seus pares nos mais diversos campos sociais em que atuam, estão disputando entre si o reconhecimento uns dos outros. BOURDIEU, Pierre. Campo de poder, campo intelectual. Buenos Aires: Folios, 1983

[113]  WACQUANT, Loïc, and Paulo Cezar Castanheira. O mistério Do ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Revan, 2005, p. 227

[114] ibidem, p. 228

[115] ibidem.

[116] ibidem.

[117] ibidem.

[118] ibidem.

[119] ibidem, p. 229

[120] ibidem, p. 229

[121] ibidem, p. 230

[122] ibidem.

[123] ibidem.

[124] ibidem.



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